Um modelo que gera o atraso e o endividamento do país
Um mito difundido pela "
troika
" e pelo governo PSD/CDS é que a recuperação da
economia e o crescimento económico em Portugal é só
possível se se basear nas exportações. E com base neste
mito pretende-se justificar a politica de austeridade e, indiretamente,
também a politica de baixos salários, e mesmo de
redução de salários, pois só assim é que se
aumentaria a competitividade das empresas portuguesas, condição
necessária para que as exportações cresçam. Este
mito foi depois propagandeado acriticamente pelos defensores do governo nos
media e por alguns comentadores, como um da SIC, criticado por Manuela
Ferreira Leite, que apresentou um gráfico em que comparava, para mostrar
o êxito do governo, o saldo da Balança Corrente de Portugal
(positivo) com o dos EUA (negativo) ignorando as diferenças abissais que
existem entre estes dois países e os graves problemas económicos
e sociais de Portugal. A própria realidade se encarrega de destruir tal
mito, como mostram os dados do INE do quadro 1.
Quadro 1 Correlação positiva entre crescimento
económico e crescimento do mercado interno (consumo privado e
público e investimento no país)
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RUBRICAS
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TAXA DE VARIAÇÃO REAL ANUAL (homólogo)
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2010
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2011
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2012
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2013
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2014
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Consumo Privado
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2,5%
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-3,7%
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-5,2%
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-1,4%
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2,1%
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Investimento (F.B.C.F.)
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-3,7%
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-14,0%
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-14,2%
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-6,5%
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5,2%
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Consumo Público
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-1,3%
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-3,8%
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-4,3%
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-1,9%
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-0,7%
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PROCURA INTERNA
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1,9%
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-5,7%
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-6,6%
|
-2,3%
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2,0%
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Exportações de bens e serviços
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9,5%
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7,0%
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3,1%
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6,4%
|
3,4%
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Importações bens e serviços
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7,8%
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-5,8%
|
-6,6%
|
3,6%
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6,2%
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PROCURA EXTERNA LIQUIDA
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-0,2%
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4,6%
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3,6%
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1,0%
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-1,1%
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PIB
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1,9%
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-1,8%
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-3,3%
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-1,4%
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0,9%
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Fonte: INE, Contas Nacionais, 4º Trimestre de 2014
No período 2010-2014, só houve crescimento económico
(aumento do PIB em 2011 de 1,9% e, em 2014, de 0,9%), quando o Consumo Privado
teve um crescimento positivo (2011: +2,5%; 2014: +2,1%), o que contribuiu para
o aumento da Procura Interna (em 2010: +1,9%; e, em 2014, +2,%). Nos restantes
anos (2011, 2012 e 2013), em que se registaram quebras no Consumo Privado
(-3,7%; -5,2% e -1,4%), agravadas por quebras no Consumo Público e no
Investimento (F.B.C.F.) registou-se quebras importantes no crescimento
económico, ou seja, no PIB (2011: -1,8%; 2012; -3,3%; 2013: - 1,4%).
E isto apesar das exportações terem aumentado nesses
períodos, principalmente em 2011 (+7%) e 2013 (+6,4%) tão
apregoada pelo governo e seu defensores nos media, e da "Procura externa
liquida", ter também crescido (+4,6% em 2011, e +3,6% em 2012).
Portanto, a recuperação da economia portuguesa e o crescimento
económico em Portugal depende fundamentalmente do crescimento da
"Procura interna", ou seja, do aumento do consumo privado, do consumo
público e do investimento (FBCF) e não, como o governo e
comentadores dos media pretendem fazer crer, das exportações ou
mesmo da "Procura externa liquida". São os próprios
dados oficiais do INE que provam isso.
Outro aspeto importante revelado pelos dados do INE do quadro 1, muitas vezes
esquecido, é que basta um pequeno crescimento económico para que
as importações disparem ultrapassando o aumento das
exportações. Foi o que sucedeu em 2014, em que o PIB aumentou
apenas 0,9% mas as importações cresceram 6,2% e as
exportações subiram 3,4%. Isto é também uma
consequência da política de austeridade violenta que destruiu uma
parcela importante da capacidade produtiva do país agravada pelo facto
do investimento realizado neste período ser muito inferior ao chamado
"consumo de capital fixo", ou seja, ao valor do desgaste provocado
pela sua utilização, a que se somou a falência de milhares
de empresas e no despedimento de centenas de milhares de trabalhadores. E como
mostram os dados do INE do quadro 1, o ritmo de crescimento das
exportações está diminuir (6,4% em 2013, e 3,4% em 2014),
o que deverá obrigar a pensar que apostar fundamentalmente nas
exportações para recuperar o país e promover o crescimento
é um "cavalo errado" já que está a perder folego.
O MERCADO INTERNO TEM DE SER O MOTOR PRINCIPAL DA RECUPERAÇÃO, E
AS EXPORTAÇÕES O COMPLEMENTO IMPORTANTE, E NÃO O INVERSO
Os dados do INE (quadro 1) mostram que a recuperação e o
crescimento económico não se podem basear nas
exportações, como o governo e seus defensores nos media defendem,
mas sim no mercado interno, ou seja, no consumo (privado e público) e no
investimento interno, funcionado as exportações como um
complemento importante. Apostar fundamentalmente nas exportações
como meio para ultrapassar a crise e promover o crescimento económico
é condenar o país e os portugueses ao crescimento anémico
e mesmo à recessão. Basta olhar para os dados do INE do quadro 1.
No ano em que o consumo interno e o investimento caíram o PIB
também caiu, mesmo com o aumento das exportações
tão apregoado pelo governo.
No entanto, o mercado interno deve crescer mas a um ritmo compatível com
o nível de riqueza criada no país. Pensar que é
possível aumentar rapidamente o nível de salários e de
pensões em Portugal para o nível médio da União
Europeia é puro irrealismo, já que o PIB por habitante (riqueza
criada) em Portugal (16.326) é apenas 61% da média da UE
(26.755). O importante, para além de investir e produzir mais
(essencial no combate ao desemprego), é impor uma melhor
distribuição do rendimento e da riqueza criada no país.
Só isto contribuiria para aumentar muito o mercado interno pois a
propensão para o consumo de quem seria beneficiado é muito mais
elevada do que a dos beneficiários atuais. Aumentar o salário
mínimo nacional, descongelar as pensões, fazer funcionar a
contratação coletiva eliminando as alterações
feitas nas leis do trabalho, repor salários e direitos na
Função Pública, e proceder a uma reforma
democrática do sistema fiscal são medidas necessárias e
urgentes.
PORTUGAL ESTÁ NUMA SITUAÇÃO DIFERENTE DE HÁ QUATRO
ANOS, MAS PARA PIOR
O problema da divida quer seja pública quer seja privada quando atinge
uma dimensão muito elevada é um obstáculo ao crescimento
económico e ao desenvolvimento do país. E é mais grave
quando é num contexto de uma politica regressiva e destruidora como
é aquela que tem sido imposta ao país pela "
troika
" e pelo governo PSD/CDS. O quadro 2, com dados do Banco de Portugal,
mostra a gravidade que a situação atingiu neste campo em Portugal.
No período da
"troika"
e do governo PSD/CDS (2010/2014), o endividamento das
Administrações Públicas aumentou de 200.040 milhões
para 280.466 milhões (+40,2%), a Divida Total das
Administrações Públicas +empresas públicas+
empresas privadas +particulares (só não inclui a dos bancos)
atingia, em 31.12.2014, 521.243 milhões (298,8% do PIB). E a
Divida total bruta de Portugal ao estrangeiro aumentou em 2010 e 2014, de
507.102 milhões 521.243 milhões , e a chamada
Posição do investimento Estrangeiro, que corresponde à
divida liquida de Portugal ao estrangeiro, aumentou, entre 2010 e 2014, de
185.221 milhões para 193.070 milhões .
É evidente que
"Portugal está numa situação bastante diferente do que
estava há quatro anos"
mas muito pior, pois tem um PIB mais reduzido e está mais endividado. E
isto já para não falar da gravidade da situação
social (mais desemprego, pobreza e emigração)
01/Março/2015
[*]
edr2@netcabo.pt
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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