O estudo da Mercer sobre remunerações:
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Mais uma vez os trabalhadores da Função Pública foram objeto de uma campanha com o objetivo de virar a opinião pública contra eles. Agora o pretexto utilizado foi que auferiam remunerações superiores aos trabalhadores do setor privado. Para isso foi utilizado um estudo encomendado pelo governo a uma multinacional MERCER que distorce a realidade e contém erros graves. Em 2006, o governo de Sócrates encomendou à multinacional CAPGEMINI a realização de um "Estudo comparado dos sistemas de remuneração entre o setor público e o setor privado ". Esse estudo mostrou que a generalidade dos trabalhadores da Função Pública ganhavam menos do que os do setor privado para idênticas funções. Segundo este estudo, em 2006, a remuneração de um diretor geral na Administração Pública era inferior entre -46% e 61,5% à do setor privado; a dum analista informático era inferior entre -23% e -28%; a de um jurista era inferior entre -27% e -31%; a de um economista era inferior entre -10% e -16%; a de um engenheiro era inferior entre -40% e-43%; a de um médico era inferior em -16,6%; e a de um enfermeiro era inferior em -36,1%; a de um assistente técnico (administrativo) era inferior entre -42,5% e-47,6%; no grupo de assistentes operacionais, a de um eletricista era inferior na Administração Pública entre -13,4% e -47,6%; a de uma telefonista era inferior em -13,6%; e a de um motorista entre -37,9% e -38,8%. Em 2012, o governo e a "troika", ignorando esse estudo (o SE da Administração Pública afirmou que o desconhecia, o que mostra a forma como são utilizados os dinheiros públicos), encomendou a MERCER, outra multinacional, outro estudo, gastando mais muitos milhares de euros. E para que os resultados fossem diferentes a MERCER utilizou uma metodologia diferente da utilizada pela CAPGEMINI. No lugar de calcular os salários médios do setor privado com base nas remunerações praticadas pelas pequenas, médias e grandes empresas, como tinha feito a CAPGEMINI, utilizou apenas as remunerações das pequenas empresas que normalmente pagam remunerações mais baixas. Isso causou diferenças muito grandes. Por ex., a nível de técnicos superiores (TS) , os valores da MERCER são inferiores aos da CAPGEMINI entre -27.7% e -50,7%; em relação aos enfermeiros o valor utilizado pela MERCER é inferior ao da CAPGEMINI em 39,5%; a nível de assistentes técnicos (AT) são inferiores entre -30% e-35%; em relação aos assistentes operacionais (AO) os valores da MERCER são inferiores entre -2,3% e -45,7%. É com remunerações obtidas desta forma que depois são feitas as comparações com a Função Pública. Mas as "habilidades" utilizadas pela MERCER para distorcer a realidade não ficam por aqui. A juntar à anterior a MERCER não considerou as remunerações efetivamente recebidas pelos trabalhadores da Função Pública em 2012, mas sim aquelas que eles receberiam se não tivessem nem sofrido cortes nas remunerações nem o confisco do subsídio de férias e de Natal. Entrando com os cortes nas remunerações (entre 3,5% e 16%) e com o confisco do subsídio de férias e de Natal, as remunerações efetivamente recebidas pelos trabalhadores da Função Pública foram inferiores, em média, em 25% às utilizadas pela MERCER no seu estudo, o que contribui para que o estudo desta empresa não tenha qualquer credibilidade já que distorce totalmente a situação, a nível de remunerações, entre o setor privado e o setor público. E como a criatividade da "MERCER" para agradar o cliente não tem limites criou profissões e remunerações virtuais para estabelecer comparações com remunerações de profissões que existem na Administração Pública, mas não no setor privado (Forças Armadas, Forças de Segurança, Inspeções, etc.). Foi desta forma, que a MERCER concluiu que o ganho médio do oficial das forças armadas, da PSP, da GNR, da chefia tributária, e da policia judiciária está " abaixo do mercado ", mas que o ganho médio mensal (GMM) dos sargentos, do Pessoal do SEF está " em linha com o mercado " , e que o ganho das praças das FA, dos chefes e dos agentes da PSP, dos sargentos e guardas da GNR, do Pessoal da Administração Tributária e Aduaneira, do Pessoal de Inspeção, do Bombeiro, da Policia Municipal , do Oficial de Justiça, da Policia Judiciária e Guarda Prisional, está "acima do mercado ". E para isso utilizou uma metodologia a que chama "Mercer IPE", que tem como base cinco fatores Impacto, Comunicação, Inova, Conhecimento e Risco cuja aplicação prática não explica, permitindo assim que se pense que domina a aleatoriedade e arbitrariedade E foi com base num estudo desta natureza, sem credibilidade técnica, que a generalidade dos órgãos de comunicação social intoxicaram a opinião pública, mais uma vez, contra os trabalhadores da Função Pública com o estafado tema de "privilegiados". Por ex., o Diário Economico de 19/3/2013, noticiava na 1ª página com letras garrafais: " Maioria do Estado ganha mais do que o sector privado ", quando isso era mentira. Outros jornais e mesmo as TVs seguiram-lhe o exemplo. Os media, ao não alertarem os leitores para os erros e distorções do estudo da Mercer, acabaram, objetivamente, por participar numa operação de manipulação e de engano da opinião pública, já que fizeram passar, como verdades, mentiras. |
Em 2006, o governo de Sócrates contratou a multinacional
CAPGEMINI
para elaborar um "
Estudo comparado de sistemas de remuneração entre o sector
público e o sector privado
". O objetivo era claro: mostrar que as remunerações dos
trabalhadores das Administrações Públicas eram muito
superiores aos do setor privado. Como os resultados do estudo mostraram
precisamente o contrário, como reconheceu o ex-ministro das
Finanças, Teixeira dos Santos, quando o confrontamos durante o debate do
Orçamento do Estado na Assembleia da República em que
participamos, o governo escondeu estudo, e esse objetivo foi esquecido, apesar
do estudo ter custado aos contribuintes portugueses muitas centenas de milhares
de euros.
Em 2012, sob o comando da "troika", o governo PSD/CDS, ignorando tal
estudo (o secretário de Estado da Administração
Pública, na reunião realizada com os sindicatos da Frente Comum
em 20/3/2013, afirmou mesmo que o desconhecia), contratou a multinacional
MERCER
para que fizesse novo estudo (
"Análise comparativa das remunerações praticadas no
Sector Público e no sector privado").
Mas agora teve mais cuidado para que os resultados fossem os desejados. E para
isso a MERCER utilizou uma metodologia diferente da usada pela CAPGEMINI. No
lugar de utilizar a informação das remunerações de
todas as empresas do setor privado constantes da sua base de dados
(Total Remuneration Survey TRS)
que engloba pequenas, médias e grandes, empresas como tinha feito a
CAPGIMINI (a base de dados utilizada pela CAPGEMINI era da MERCER como consta
do Anexo 2, pág. 397 do seu estudo), utilizou apenas a
informação das remunerações referentes às
pequenas empresas (empresas, em média, com 30 trabalhadores e 13
milhões de euros de volume de negócios), como consta da
pág. 47 do seu estudo. E isto apesar da realidade de uma pequena empresa
ser totalmente diferente da do Estado. No entanto, como estas empresas pagam
normalmente remunerações inferiores às pagas pelas
médias e pelas grandes empresas, era assim mais fácil mostrar que
as remunerações na Função Pública eram
superiores às das empresas privadas. Mesmo assim, na reunião que
teve com os sindicatos da Frente Comum da Função Pública,
o secretário de Estado confessou que os resultados obtidos ainda
não eram os que esperavam, e que o estudo vai ser "esquecido"
pelo governo.
O ESTUDO DA MERCER NÃO TEM QUALQUER CONSISTENCIA TÉCNICA E
DISTORCE A REALIDADE
Comecemos pela representatividade da amostra das empresas privadas cujas
remunerações serviram de base de comparação com as
da Administração Pública utilizada pela MERCER. Na
pág.46 do seu estudo, a MERCER diz que tem uma base de
"289 empresas do mercado português, englobando dados referentes a
38.325 colaboradores".
No entanto, nada esclarece como foram selecionadas estas empresas. Por outro
lado, e contrariamente ao que fez a CAPGEMINI para elaborar o estudo solicitado
pelo governo de Sócrates que utilizou todas as empresas daquela base, a
MERCER utilizou, naturalmente porque isso era mais conveniente para os
objetivos do cliente, apenas as empresas pertencentes ao
"Percentil 25%
", ou seja, constituído por pequenas empresas (em média com
30 trabalhadores), naturalmente com remunerações mais baixas. Ao
reduzir a amostra desta forma tornou-a menos representativa (o número de
trabalhadores da amostra foi reduzido de 38.325 para apenas 2.167), o que
tornou os resultados menos consistentes os quais já tinham sido
enviesados (distorcidos) através da forma como os selecionou dentro das
389 empresas da sua base (apenas considerou os salários dos
trabalhadores pertencentes a pequenas empresas).
Para que o leitor possa ficar com uma ideia como foram distorcidas as
conclusões vamos comparar as remunerações do setor privado
utilizados pela CAPGEMINI e pela MERCER nos respetivos estudos para as comparar
com as do setor público. O quadro 1, construído com dados
constantes do estudo da CAPGEMINI, permite ficar a conhecer quais os valores
das remunerações do setor privado que a MERCER tinha fornecido
à CAPGEMINI para esta elaborar o seu estudo para o governo de
Sócrates, assim como as diferenças a que chegou entre as
remunerações do setor privado e do setor publico que não
agradaram o governo.
Quadro 1- Diferença das remunerações entre o setor privado
e o setor publico de acordo com o estudo da CAPGEMINI 2006
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Ganho médio mensal (inclui remuneração base + complementos) |
Ganho médio mensal (inclui remuneração base + complementos) |
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| Diretor Geral-Pequena empresa | 4.214 | 7.938 | -46,9% |
| Diretor Geral-Média empresa | 4.215 | 9.377 | -55,1% |
| Diretor Geral - Grande empresa | 4.215 | 10.936 | -61,5% |
| Diretor Serviços -Pequena empresa | 3.118 | 5.012 | -37,8% |
| Diretor Serviços -Média empresa | 3.189 | 5.668 | -43,7% |
| Diretor Serviços -Grande empresa | 3.118 | 6.919 | -54,9% |
| TS-Analista informática-5º-8º escalões | 2.947 | 3.849 | -23,4% |
| TS-Analista informática- 1º-4º escalões | 2.694 | 3.772 | -28,6% |
| TS-Arquiteto | 2.059 | 2.165 | -4,9% |
| TS-Consultor Juridico - Assessor principal | 2.599 | 3.772 | -31,1% |
| TS-Consultor Jurídico - Técnico superior Principal | 2.059 | 2.830 | -27,2% |
| TS-Economista Financeiro-Assessor principal | 2.599 | 2.892 | -10,2% |
| TS-Economista Financeiro-Assessor-Técnico Sup. Principal | 2.059 | 2.455 | -16,1% |
| Educadora infância | 1.712 | 1.627 | +5,3% |
| Professor ensino básico | 1.712 | 1.632 | +4,9% |
| TS-Engenheiro /Assessor Principal | 2.599 | 4.769 | -45,5% |
| TS-Engenheiro /categoria de assessor | 2.202 | 3.679 | -40,1% |
| TS-Engenheiro /categoria de Tecnico Superior Principal | 1.885 | 3.308 | -43,0% |
| TS-Engenheiro /categoria de Técnico Superior 1ª e 2ª classe | 1.512 | 2.536 | -40,4% |
| Medico assistente | 2.752 | 3.298 | -16,6% |
| Enfermeiro especialista | 1.694 | 2.504 | -32,4% |
| Tecnico de informática - níveis 1 e 2 | 2.138 | 2.373 | -9,9% |
| AT-Assistente administrativo Especialista | 997 | 1.560 | -36,1% |
| AT-Assistente administrativo principal | 851 | 1.479 | -42,5% |
| AT-assistente administrativo | 769 | 1.466 | -47,6% |
| AO-Eletricista -operário principal | 867 | 1.272 | -31,8% |
| AO-Eletricista -operário | 724 | 837 | -13,4% |
| AO-Mecânico -operário principal | 867 | 1.610 | -46,2% |
| AO-Mecânico -operário | 724 | 1.013 | -28,5% |
| AO-Auxiliar de limpeza | 555 | 804 | -31,0% |
| AO-Telefonista | 610 | 706 | -13,6% |
| AO-Motorista ligeiros | 639 | 1.044 | -38,8% |
| AO-Motorista pesados | 593 | 953 | -37,9% |
Segundo o estudo da CAPGEMINI, realizado em 2006, excetuando o caso dos
professores (e é um caso particular que esclareceremos mais à
frente), em todas as outras profissões as remunerações no
Estado são inferiores às do setor privado, atingindo em
relação a certas profissões diferenças muito
grandes. Por ex., a remuneração de um diretor geral na
Administração era inferior entre -46% e 61,5% à praticada
no setor privado; a dum analista informático era inferior entre -23% e
-28%; a de um jurista era inferior entre -27% e -31%; a de um economista era
inferior entre -10% e -16%; a de um engenheiro era inferior entre -40% e-43%; a
de um médico era inferior em -16,6%; e a de um enfermeiro era inferior
em -36,1%; a de um assistente técnico (assistente administrativo) era
inferior entre -42,5% e-47,6%; no grupo de assistentes operacionais, a de um
eletricista era inferior na Administração Pública entre
-13,4% e 47,6% à do setor privado; a de um mecânico era
inferior entre -28,5% e -46,2%; a de um auxiliar de limpeza era inferior em
-31%; a de um telefonista era inferior em -13,6%; e a de um motorista era
inferior entre -37,9% e -38,8%.
AS REMUNERAÇÕES DO SETOR PRIVADO UTILIZADAS PELA MERCER EM 2012
SÃO MUITO INFERIORES ÀS UTILIZADAS, EM 2006, PELA CAPGEMINI
A questão que interessa esclarecer, e que não foi ainda
esclarecida, é a seguinte: Como é que a MERCER conseguiu chegar a
conclusões, em muitos caso, diferentes da que chegou a CAPGEMINI em
2006, apesar de ter apoiado esta última empresa pois tinha uma parceria
com ela? O quadro 2, onde constam o valor das remunerações do
setor privado utilizado por cada uma das empresas, mostra de uma forma clara
como isso foi conseguido.
Quadro 2- Valor das remunerações utilizadas pela CAPGEMINI em
2006, e pela MERCER em 2012 para comparar com as remunerações da
Administração Pública
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Ganho médio mensal (inclui remuneração base + complementos) |
Ganho médio mensal (inclui remuneração base + complementos) |
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| Diretor Geral-Pequena empresa | 7.938 | 7.330 | -7,7% |
| Diretor Geral-Média empresa | 9.377 | -21,8% | |
| Diretor Geral - Grande empresa | 10.936 | -33,0% | |
| Diretor Serviços -Pequena empresa | 5.012 | 4.200 | -16,2% |
| Diretor Serviços -Média empresa | 5.668 | -25,9% | |
| Diretor Serviços -Grande empresa | 6.919 | -39,3% | |
| TS-Analista informática-5º-8º escalões | 3.849 | 1.635 | -57,5% |
| TS-Analista informática- 1º-4º escalões | 3.772 | -56,7% | |
| TS-Consultor Jurídico - Assessor principal | 3.772 | 2.045 | -45,8% |
| TS-Consultor Jurídico - Técnico superior Principal | 2.830 | -27,7% | |
| TS-Economista Financeiro-Assessor principal | 2.892 | 1.600 | -44,7% |
| TS-Economista Financeiro-Assessor-Técnico Superior Principal | 2.455 | -34,8% | |
| Educadora infância | 1.627 | 1.500 | -7,8% |
| Professor ensino básico | 1.632 | 1.500 | -8,1% |
| TS-Engenheiro /Assessor Principal | 4.769 | 1.800 | -62,3% |
| TS-Engenheiro /categoria de assessor | 3.679 | -51,1% | |
| TS-Engenheiro /categoria de Técnico Superior Principal | 3.308 | -45,6% | |
| TS-Engenheiro /categoria de Técnico Superior 1ª e 2ª classe | 2.536 | -29,0% | |
| Medico assistente | 3.298 | 4.220 | +27,9% |
| Enfermeiro especialista | 2.504 | 1.515 | -39,5% |
| Técnico de informática - níveis 1 e 2 | 2.373 | 1.455 | -38,7% |
| AT-Assistente administrativo Especialista/enfermeiro | 1.560 | 1.015 | -35,0% |
| AT-Assistente administrativo principal | 1.479 | -31,4% | |
| AT-assistente administrativo | 1.466 | -30,8% | |
| AO-Eletricista -operário principal | 1.272 | 690 | -45,7% |
| AO-Eletricista -operário | 837 | -17,5% | |
| AO-Mecânico -operário principal | 1.610 | -57,1% | |
| AO-Mecânico -operário | 1.013 | -31,9% | |
| AO-Auxiliar de limpeza | 804 | -14,2% | |
| AO-Telefonista | 706 | -2,3% | |
| AO-Motorista ligeiros | 1.044 | -33,9% | |
| AO-Motorista pesados | 953 | -27,6% |
Excetuando o caso dos médicos, em relação a todas as
profissões os valores das remunerações do setor privado
utilizados pela MERCER em 2012 são significativamente inferiores aos
valores utilizados pela CAPGEMINI em 2006. Calculando a média dos
valores constantes do quadro 2 da CAPEMINI e da MERCER conclui-se que os desta
última são inferiores aos da primeira empresa (CAPGEMINI) em
cerca de -22%. No entanto, existem profissões onde a diferença
é muito maior. Por ex., a nível de técnicos superiores
(TS) , os valores da MERCER são inferiores aos da CAPGEMINI entre -27.7%
e -50,7%; em relação aos enfermeiros o valor utilizado pela
MERCER é inferior ao da CAPGEMINI em 39,5%; a nível de
assistentes técnicos (AT) são inferiores entre -30% e-35%; em
relação a assistentes operacionais (AO) os valores da MERCER
são inferiores entre -2,3% e -45,7%.
Estes dados mostram com clareza a forma como a MERCER elaborou o seu estudo, e
também esclarecem por que razão as conclusões a que chegou
esta empresa no seu estudo são diferentes das da CAPGEMINI. E tudo isto
ainda se torna mais chocante, se se tiver presente que, entre 2006 e 2012, as
remunerações no setor privado aumentaram cerca de 16% segundo o
Banco de Portugal, enquanto no setor público subiram apenas 8% (sem ter
em conta os cortes de 3,5% a 16% das remunerações em 2011-2012 e
o confisco do subsidio de férias e do Natal em 2012). A pergunta que se
coloca é naturalmente a seguinte: Como é que as
remunerações no setor privado em 2012 são inferiores
às de 2006 apesar dos salários nos privados terem aumentado no
período 2006-2012, segundo o Banco de Portugal, cerca de 16%? A resposta
deixo-a ao leitor
A MERCER NO SEU ESTUDO NÃO UTILIZA AS REMUNERAÇÕES
EFETIVAMENTE RECEBIDAS PELOS TRABALHADORES DA FUNÇÃO
PÚBLICA EM 2012
A MERCER sabia certamente que o seu estudo iria ser divulgado. Para potenciar o
ataque aos trabalhadores da Função Pública, e virar contra
estes a opinião pública, a MERCER faz outra habilidade no seu
estudo. Embora faça comparações entre as
remunerações do setor privado e do setor publico em
relação ao ano de 2012, não considera para tais
comparações as remunerações efetivamente recebidas
pelos trabalhadores da Função Pública, mas sim aquelas que
eles receberiam se não tivessem sofrido cortes nem lhes tivesse sido
confiscado o subsídio de férias e de Natal. O quadro 3 mostra a
diferença entre as remunerações da Função
Pública recebidas efetivamente pelos trabalhadores em 2012, e as
consideradas pela MERCER no seu estudo.
Quadro 3- Valor das remunerações recebidas pelos trabalhadores e
as utilizadas pela MERCER
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(calculado com base nos dados da DGAEP de Out.2012) |
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| Direção Topo 1º nível | 5.030 | 3.618 | -28,1% |
| Direção Topo 2º nível | 4.426 | -18,3% | |
| Direção intermedia 1º nível | 3.610 | 2.469 | -31,6% |
| Direção intermedia 2º nível | 2.990 | -17,4% | |
| Direção intermedia 3º nível | 2.240 | 10,2% | |
| Técnico superior | 1.766 | 1.509 | -14,6% |
| Informático | 1.865 | 1.575 | -15,5% |
| Assistente Técnico | 1.035 | 917 | -11,4% |
| Assistente Operacional | 765 | 703 | -8,1% |
| Técnico superior Área Financeira | 1.980 | 1.509 | -23,8% |
| Técnico superior jurista | 1.890 | 1.509 | -20,2% |
| Engenheiro | 1.885 | 1.509 | -20,0% |
| Docente ensino superior | 3.375 | 2.354 | -30,3% |
| Educadores de infância, docentes básico e secundário | 2.095 | 1.776 | -15,2% |
| Médico | 4.010 | 3.225 | -19,6% |
| Enfermeiro | 1.625 | 1.413 | -13,0% |
| Pessoal administração tributária | 2.005 | 1.686 | -15,9% |
| Pessoal inspeção | 2.430 | 2.067 | -15,0% |
| Oficial de justiça | 1.615 | 1.283 | -20,5% |
| Policia judiciária | 2.280 | 1.905 | -16,4% |
| Guarda prisional | 1.815 | 1.489 | -18,0% |
| Bombeiro | 1.510 | 1.293 | -14,3% |
A juntar às "habilidades" anteriores a MERCER acrescenta ainda
mais uma outra: não considerou as remunerações
efetivamente recebidas pelos trabalhadores da Função
Pública em 2012, mas sim aquelas que eles receberiam se não
tivessem nem sofrido cortes nas remunerações nem o confisco do
subsídio de férias e de Natal. Entrando com os cortes nas
remunerações (entre 3,5% e 16%) e com o confisco do
subsídio de férias e de Natal, as remunerações
efetivamente recebidas pelos trabalhadores da Função
Pública são inferiores, em média, em mais de 20% às
utilizadas pela MERCER no seu estudo, o que contribui, mas não é
a única razão como mostramos neste estudo, para que o estudo
desta empresa não tenha qualquer credibilidade já que distorce
totalmente a situação, a nível de
remunerações, entre o setor privado e o setor público.
MAS AS "HABILIDADES" DA MERCER NÃO TERMINARAM
Mesmo em relação às profissões que não
existem no setor privado (forças armadas, forças de
segurança, policias, guardas prisionais, administração
tributária, inspeções, diplomatas, juízes, etc.) a
"MERCER" construiu profissões virtuais que designa por "
profissões com funções de idêntico valor do setor
privado analisado"
(pág. 78 do seu estudo), e com base nelas determina o "Ganho
Médio Mensal" (GMM) e faz comparações. A
"criatividade" da MERCER não tem limites para agradar o
cliente. Mas é desta forma, que a MERCER conclui que o ganho
médio do oficial das forças armadas, da PSP, da GNR, da chefia
tributária, e da policia judiciária está "
abaixo do mercado
"; mas que o ganho médio mensal dos sargentos, o Pessoal do SEF
está "
em linha com o mercado
" , e que as praças das FA, os chefes e os agentes da PSP, os
sargentos e guardas da GNR, o Pessoal da Administração
Tributária e Aduaneira, o Pessoal de Inspeção, o bombeiro
a Policia Municipal, Oficial de Justiça, a Policia Judiciária e
Guarda Prisional auferem um ganho médio mensal, que inclui tudo o que
recebem, que está
"acima do mercado
". E para fazer tudo isto utiliza uma metodologia a que chama "Mercer
IPE", que tem como base cinco fatores Impacto,
Comunicação, Inova, Conhecimento e Risco mas cuja
aplicação prática não explica, permitindo assim que
se possa pensar que domina a aleatoriedade e a arbitrariedade.
Em relação aos professores o erro de análise (as
remunerações serem muito elevadas) é evidente, como
afirmaram os dirigentes dos respetivos sindicatos. No setor privado da
educação domina a política de despedir trabalhadores para
impedir que, com o aumento da antiguidade, progridam na carreira e recebam
mais, e de os substituir por professores mais novos para assim pagar
remunerações mais baixas. Apesar de isso ser uma prática
corrente no setor, a MERCER no seu estudo ignora essa realidade (peso de
antiguidade num e no outro setor) que diferencia o setor privado do
público, distorcendo assim as conclusões a que chega.
O desaforo da MERCER ultrapassa os limites quando, no fim do estudo, se
põe a fazer recomendações (pág. 86 do estudo)
defendendo: (1) "
Uma revisão atual da política salarial da
Administração Pública com o objetivo de promover um
alinhamento com as práticas remuneratórias do setor privado; (2)
Uma reflexão sobre o atual modelo de remuneração
variável da Administração Pública para implementar
práticas mais diferenciadoras
". E tudo isto de uma empresa que revela desconhecer totalmente a
realidade atual da Administração Pública, ajustando as
suas conclusões aos interesses do cliente. É mais um estudo que
custou aos contribuintes portugueses 65.000 para esquecer, como afirmou o
SE da Administração Pública, mas que serviu para manipular
mais uma vez a opinião pública contra os trabalhadores da
Função Pública com o estafado tema de que são
privilegiados, um tema muito querido a Passos Coelho e à
"troika" nas suas campanhas de propaganda contra a
Administração Pública Portuguesa.