Emprego, exclusão do mercado de trabalho e baixa de salários no período da "troika" e do governo PSD/CDS

por Eugénio Rosa [*]

Passos Coelho em recentes declarações públicas afirmou que tinham sido criados 130 mil empregos, procurando criar na opinião pública a ideia de que se estava a assistir à recuperação de emprego, ou mesmo a ideia de que se tinha invertido o ciclo de destruição de emprego em Portugal. Interessa por isso analisar esta questão importante e com objetividade. E para isso vai-se utilizar os dados do INE, que são os tecnicamente mais credíveis de que se dispõem, repondo assim a verdade.

A DESTRUIÇÃO DE 471.700 EMPREGOS COM A "TROIKA E O GOVERNO PSD/CDS

O gráfico 1, construído com dados divulgados pelo INE, mostra como o emprego total tem variado em Portugal, após a entrada da "troika" e do governo PSD/CDS

Gráfico 1.

Os dados do INE traduzidos no gráfico mostram de uma forma clara uma tendência constante de destruição do emprego com a " troika" e com o governo PSD/CDS que se prolonga mesmo em 2015, sendo interrompida em curtos períodos (2013) e 2014 (entre o 1º Trimestre e 3º Trimestre) para depois voltar à mesma tendência. Esta tendência destrutiva, consequência também da política económica recessiva, determinou que a população empregada tenha diminuído, entre o 4º Trimestre de 2010 e o 1º Trimestre de 2014, de 4.948.800 para 4.477.100, ou seja, que se tenha reduzido em 471.700. Portanto, 471.700 empregos foram destruídos neste período.

909 MIL PORTUGUESES COM O ENSINO BÁSICO JÁ FORAM EXPULSOS DO MERCADO DE TRABALHO DURANTE A "TROIKA" E GOVERNO PSD/CDS

Se analisarmos a evolução da população empregada por níveis de escolaridade conclui-se que foram precisamente os empregados mais frágeis, os com menos escolaridade, que foram mais atingidos pela onda de destruição de emprego causada pela politica económica recessiva imposta pela "troika" e governo PSD/CDS ao país.

O gráfico 2, também construído com dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) prova isso de uma forma clara.

Gráfico 2.

Como mostram os dados do INE, com os quais se construiu o gráfico 2, entre o 4º Trimestre de 2010 e o 1º Trimestre de 2015, o emprego ocupado por trabalhadores com o ensino básico (até ao 3º ciclo) diminuiu de 3.170.100 para apenas 2.263.100, ou seja, foram expulsos do mercado de trabalho 909.000 trabalhadores com o ensino básico que foram engrossar o desemprego, acabando muitos deles por serem excluídos socialmente. Perante estes dados oficiais, afirmar como a " troika" e o governo fazem que os mais frágeis e com rendimentos mais baixos foram poupados pela politica de austeridade é procurar enganar a opinião pública.

PARTE DOS EMPREGOS OCUPADOS POR TRABALHADORES COM O ENSINO BÁSICO FORAM PARA TRABALHADORES COM NÍVEL DE ESCOLARIDADE SUPERIOR MAS RECEBENDO SALÁRIOS MUITO BAIXOS

As entidades patronais estão-se a aproveitar da política de austeridade e do " exército de reserva de desempregados " que ela cria para substituir os trabalhadores mais velhos por trabalhadores mais novos, e com maior escolaridade, mas pagando salários mais baixos. É esta uma forma que os patrões estão a utilizar para baixar os custos do trabalho em Portugal com o apoio do governo e da " troika", embora Passos Coelho e o "grupo dos 12 economistas" ache que ainda não é suficiente. Entre o 4º Trim. 2010 e o 1º Trim.2015, o emprego ocupado por trabalhadores com o ensino secundário aumentou em 154,1 mil (passou de 936,9 mil para 1.091 mil), e o emprego ocupado por trabalhadores com o ensino superior aumentou em 281,1 mil (passou de 841,8 mil para 1.1221,9 mil). Portanto, o emprego ocupado por trabalhadores com o ensino secundário e superior cresceu em 435,2 mil, o que não foi suficiente ainda para compensar a destruição de emprego ocupado por trabalhadores com o ensino básico, nem para evitar o aumento do desemprego de jovens com o ensino secundário e superior, bem como a nova discriminação que se está a desenvolver em Portugal com base na idade (aos trabalhadores mais velhos está-lhe a ser negado emprego com a justificação que têm mais de 45 anos perante a passividade da ACT, governo e mesmo sindicatos). E muitos dos postos de trabalho ocupados por trabalhadores com o ensino secundário e superior são pouco qualificados, pois antes eram ocupados por trabalhadores apenas com o ensino básico.

O NUMERO DE EXCLUÍDOS QUE DEIXARAM DE PROCURAR EMPREGO PORQUE NUNCA ENCONTRAM CRESCEU ENORMEMENTE COM A "TROIKA" E GOVERNO PSD/CDS

Outra realidade que atesta a gravidade da situação, é o enorme aumento de desempregados que desistiram de procurar trabalho porque nunca o encontram e, por isso, deixam de ser considerados nos números oficiais do desemprego do INE, assim como o enorme aumento de trabalhadores que são obrigados a aceitar o trabalho a tempo parcial, com salários reduzidos, porque não encontram a tempo completo. O quadro 1, mostra o enorme aumento verificado fruto da política de austeridade recessiva

Quadro 1 – Numero dos excluídos e dos quase excluídos do mercado de trabalho
RUBRICAS
4º trim. 2010 (milhares)
1º trim. 2015 (milhares)
Subemprego visível / Subemprego trabalhadores a tempo parcial 71,0 251,7
Inativos disponíveis que não procuraram emprego 78,9 257,7
SOMA 149,9 509,4
Fonte: INE, Estatísticas do Emprego, 4º trim.2010 e 1º trim.2015

Entre o 4º Trim.2010 e o 1º Trim.2015, o número de desempregados que desistiram de procurar emprego, porque o não encontram, aumentou de 78,9 mil para 257,7 mil (cresceu em 266%), e o número de trabalhadores que foram obrigados a aceitar trabalho a tempo parcial por não encontrarem a tempo inteiro, recebendo salários reduzidos, aumentou de 71 mil para 251,7 mil (uma subida de 254,5%). Se adicionarmos o desemprego oficial – 619 mil no 4ºTrim.2010 e 712 mil no 1º Trim.2015 – obtêm-se 768,9 mil desempregados efetivos no 4º Trim.2010 e 1.221.700 desempregados efetivos no 1º Trimestre de 2015, o que faz subir a taxa de desemprego, no 4º Trim.2010, de 11,1% (a oficial) para 13,6% (a real), e no 1º Trim.2015, de 13,7% (a oficial) para 22,4% (a taxa de desemprego real). São números impressionantes que atestam a gravidade da crise social – em Dezembro de 2014, apenas 304 mil desempregados recebiam subsídio de desemprego – com efeitos enormes também no campo económico, porque estão associados a não criação maciça de riqueza que podia ser produzida mas não é, e a uma redução do mercado interno causa da falência de milhares de empresas.

A EXPULSÃO DOS TRABALHADORES COM O ENSINO BÁSICO E SUBSTITUIÇÃO DE PARTE POR TRABALHADORES COM ESCOLARIDADE MAIS ELEVADA NÃO FEZ SUBIR SALÁRIOS

Embora se esteja a assistir no nosso país à expulsão maciça do mercado de trabalho de trabalhadores com o ensino básico, e à substituição de uma parte deles por trabalhadores com o ensino secundário e superior isso não está a determinar uma alteração importante na estrutura de salários, como mostram os dados do INE (quadro 2)

Quadro 2.

Entre 2010 e 2015, segundo o INE, a percentagem de trabalhadores por conta de outrem com salários líquidos inferiores a 310 euros aumentou de 3,2% para 4,2%. E em 2015, 32,3% de todos os trabalhadores por conta de outrem recebem salários líquidos inferiores a 600€ por mês, e 60,4% têm salários líquidos inferiores a 900€ por mês. Em 2015, o salario médio liquido dos trabalhadores por conta de outrem devia rondar apenas 763€/mês, o que mostra bem que Portugal é um país de salários muitos baixos que o governo PSD/CDS e " troika " ainda querem baixar mais.

10/Maio/2015
[*] edr2@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
12/Mai/15