Crescimento económico anémico não cria mais emprego

– No 1º trim. 2014 foram destruídos em Portugal 42 mil empregos
– Desemprego diminuiu em 19,9 mil devido à redução da população ativa portuguesa em 61,8 mil

por Eugénio Rosa [*]

O INE acabou de divulgar as Estatísticas do Emprego referentes ao 1º Trim.2014. E os dados divulgados revelam um facto insólito. Entre o 4º Trim.2013 e o 1º Trim.2014 foram destruídos em Portugal 42 mil empregos, pois o emprego total passou de 4.468,9 mil para 4.426,9 mil, invertendo assim, infelizmente, a tendência verificada no último trimestre de 2013 que a propaganda governamental tinha utilizado intensamente para manipular a opinião pública, o que mostra que o aumento do emprego em Portugal é precário com um crescimento anémico. No entanto, apesar da redução do emprego, o desemprego diminuiu no 1º Trim.2014 em 19,9 mil pois, entre o 4º Trim.2013 e o 1º Trim.2014, passou de 808,9 mil para 788,1 mil.

Os dois gráficos que se apresentam seguidamente, construídos com dados do INE, traduzem com clareza a evolução contraditória que se está a verificar no emprego e no desemprego oficial em Portugal, tornando-a muito mais percetível para os leitores.

Gráfico 1.

Como mostra o gráfico 1, verificou-se no 2º Trimestre de 2013 uma certa recuperação do emprego (+70 mil empregos) e também no 3º Trimestre de 2013 (+44,8 mil empregos), mas já no 4º Trimestre de 2013 se regista uma pequena quebra do emprego (diminui em 0,5 mil), quebra essa que se acentua no 1ºTrim.2014 com destruição de 42 mil empregos.

Enquanto se verifica o reinicio da destruição de emprego em Portugal, o desemprego oficial continua a diminuir como mostra o gráfico 2 construído com os dados do INE.

Gráfico 2.

O desemprego oficial tem diminuído a partir do fim do 1º Trim.2013. Segundo o INE, o desemprego diminuiu em 60,5 mil no 2º Trm.2013; em 46,4 mil no 3º Trim.2013; em 11,9 mil no 4º Trim.2013; e em 19,9 mil no 1º Trim.2014. É uma situação aparentemente insólita – com menos emprego tem-se menos desemprego – que carece de explicação.

A DIMINUIÇÃO DO DESEMPREGO NO 1º TRIMESTRE DE 2014 FOI CONSEGUIDA À CUSTA DA REDUÇÃO DA POPULAÇÃO ATIVA

O quadro 1, construído com dados divulgados pelo INE, dá uma resposta à questão insólita colocada anteriormente.

Quadro 1 – Variação da população ativa, empregada e desempregada no 1º Trim. 2014
População empregada, desempregada e ativa por escalões etários
Variação entre o 4º Trim. 2013 e 1º Trim.2014
Em milhares
Emprego
Desemprego oficial
Ativos
No Total -42,0 -19,9 -61,8
Nos dos 15 aos 24 anos -8,6 3,3 -5,3
Nos dos 25 aos 34 anos -7,3 -13,4 -20,7
Nos dos 35 aos 44 anos 14,2 -13,5 0,6
Nos com 45 e mais anos -8,5 3,8 -6,2
Fonte: INE, Estatísticas do Emprego, 1º Trim. 2014

Entre o 4ºTrim.2013 e o 1ºTrim.2014, o desemprego oficial diminuiu em 19,9 mil apesar do emprego ter diminuído em 49,9 mil. O número de desempregados só não aumentou, devido ao facto de muitos daqueles que perderem o seu posto de trabalho (42 mil no 1º Trim.2014) e dos que procuraram emprego pela primeira vez neste trimestre, terem sido excluídos do mercado de trabalho, pois 61,8 mil deixaram de fazer parte da população ativa. E isto porque ou se reformaram (as reformas antecipadas continuam a ser possíveis para os do setor privado em caso de desemprego de longa duração e a aposentação antecipada continua a ser também possível na Administração Pública) , ou emigraram para o estrangeiro a procura de emprego deixando assim de constar da estatística oficial de desemprego, ou então desencorajaram-se de procurar emprego sendo por esse motivo eliminados da estatística de desemprego oficial (no fim do 1º Trim.2014, segundo o INE, o números de inativos disponíveis atingia 276,6 mil).

Uma análise mais fina das variações por escalões etários do emprego, do desemprego oficial e da população ativa no 1º Trim.2014 confirma as “suspeitas” anteriores. Por ex., no 1º Trim.2014, o emprego da população do escalão etário dos 25-34 anos, que é aquela potencialmente mais produtiva, diminuiu em 7,3 mil, apesar disso o desemprego dessa população reduziu-se em 13,4 mil, o que foi só conseguido através da redução da população ativa com essa idade em 20,7 mil, que deixou assim de estar no mercado de trabalho português, tendo naturalmente emigrado. Uma situação semelhante se verifica em relação aos com mais de 45 anos que são empurrados prematuramente para a reforma ou aposentação. É esta uma causa da redução do desemprego em Portugal que a propaganda oficial ou comentadores com acesso fácil aos media ocultam quando falam da "recuperação" atual do emprego em Portugal.

OUTROS DADOS DO INE QUE DESMENTEM A PROPAGANDA OFICIAL DOMINANTE NOS MEDIA

Quem se der ao trabalho de aceder ao site oficial do INE fica naturalmente surpreendido pelas informações divulgadas nele (são as últimas do INE, e referem-se já a Março de 2014) que desmentem a euforia de recuperação económica que os media teimam em dar, manipulando a opinião publica a favor do governo. Para não alongar mais este estudo, vamos apenas transcrever os títulos dessas informações (fazendo copy-paste) para reflexão do leitor deixando os comentários para um próximo estudo.

" Comércio Internacional de bens: as exportações aumentaram 1,7% e as importações 6,0% - Março de 2014"; Índice de Volume de Negócios nos Serviços apresentou variação homóloga mais negativa – Março de 2014; Índice de Produção na Construção diminuiu 13,1% em termos homólogos - Março de 2014"; Índice de Vendas no Comércio a Retalho desacelerou - Março de 2014; Índice de Produção Industrial apresentou taxa de variação homóloga negativa - Março de 2014. Apenas o " Índice de Volume de Negócios na Indústria registou variação homóloga positiva – em Março de 2014".

10/Maio/2014
[*] Economista, edr2@netcabo.pt , www.eugeniorosa.com

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
12/Mai/14