Guerra, despesas militares e crise económica
Vou falar aqui da crise do sistema mundial capitalista e da guerra, porque o
tema da guerra é hoje absolutamente fundamental para entender a
gravidade da crise capitalista e o rumo que poderiam tomar no futuro,
não apenas o sistema em si, mas também as nossas lutas para um
mundo melhor. Vou então, procurar aqui convosco, mais perguntas que
respostas. Mais que concluir, vou abrir o debate sobre as dimensões
económica, política ou político-militar e
ideológica desta crise.
Primeira pergunta:
Como caracterizar a dimensão económica da actual crise? A crise
económica do sistema mundial capitalista manifesta-se, em primeiro
lugar, pelo facto de os lucros da actividade capitalista (nós, os
marxistas, dizemos da exploração capitalista) lucros em
alta tendencial nos Estados Unidos e na tríade desde os anos 1980 e a
submissão das economias ao neoliberalismo estes lucros, enormes,
não encontram onde investir-se de maneira produtiva com uma
rentabilidade suficiente. Então, os chamados problemas
económicos da globalização neoliberal, como os
défices dos Estados Unidos, a dívida externa dos países do
Sul, como as privatizações de patrimónios comuns da
Humanidade (entre eles o saber ou a educação), problemas como o
desmantelamento da protecção social ou das
aposentações (veja-se o Brasil de Lula ou a França de
Chirac, onde estão a destruir os sistemas de aposentação),
mas também problemas como a liberalização das
transferências de capitais, etc., todos estes grandes problemas
económicos, no seu conjunto, fazem parte de uma estratégia
global. Esta estratégia não está totalmente controlada,
é certo, mas é suficientemente coerente do ponto de vista dos
capitalistas, ou pelo menos de certos capitalistas: os da Finança. O
neoliberalismo é a estratégia global da Finança.
Segunda pergunta:
Qual a finalidade desta estratégia? A sua finalidade é
proporcionar à Finança ou seja, aos mais poderosos
proprietários do capital, à fracção mais poderosa
das classes dominantes, hoje em dia principalmente estadunidenses,
é oferecer a esta Finança mais oportunidades de investimentos
financeiros, e sobretudo especulativos. O neoliberalismo não é
uma estratégia de desenvolvimento, nem tão pouco de
acumulação capitalista acelerada, mas sim uma estratégia
de saque global, uma estratégia de dominação posta em
prática pela Finança desde o seu golpe
político de 1979 e a subida das taxas de juro (e o
princípio do problema, entre outros, da dívida externa do Sul).
Claro que o caminho do sistema mundial capitalista dá uma
impressão de irracionalidade, de caos; impressão amplificada pela
existência de profundas contradições, como o vazio de uma
entidade política supra-estatal face aos mercados globalizados; a
ficção da livre competição face à
monopolização da propriedade privada; ou a
contradição entre o discurso dominante da liberdade
individual face a uma segmentação internacional dos
mercados de trabalho, com os seus muros do Rio Grande, de Schengen e
recentemente da Cisjordânia (a que chamam
muro de prevenção do terrorismo
), que substituíram actualmente o Muro de Berlim, e que são
muito mais mortíferos que este último... Mas, para além
desta impressão de irracionalidade, a estratégia neoliberal
é bastante racional do ponto de vista do capital mundialmente dominante.
É racional por ser ela a própria condição, a
condição vital, pela qual a Finança se mantém no
poder.
Terceira pergunta:
Como se mantém hoje em dia a Finança no poder? Qual a
característica essencial deste poder? A sua característica
essencial é agora a sua militarização, a
militarização da hegemonia do sistema mundial capitalista, dos
Estados Unidos. Hoje, o poder do capital financeiro mantém-se pela
força, pela força armada, a força bruta. O sistema
capitalista, com os seus saques, com a sua polarização, com o seu
apartheid mundial, funciona mais e mais directamente pela guerra. Funciona por
meio do punho visível do exército estadunidense. Mas
a forma oculta desta violência continuam a ser as relações
capitalistas de produção, base deste poder. Já todos
sabemos que a globalização se chama imperialismo. Já todos
conhecemos a lógica de guerra globalizada dos Estados Unidos. Já
se reconhece que a violência deste sistema de poder provoca um
genocídio, o dos mais pobres, a Sul pela violência
visível das guerras imperialistas, como pela violência
invisível das relações sociais capitalistas. O problema
é que a própria hegemonia dos Estados Unidos está em
crise, em crise global, e não apenas nos pontos relativamente
débeis da resistência anti-imperialista, no mundo
árabe-muçulmano, no Iraque, no Afeganistão onde encontram
dificuldades graves, dificuldades tremendas... Está em crise global
porque a militarização do neoliberalismo, com a sua
violação dos direitos dos povos ao desenvolvimento, com a sua
negação do direito internacional, com o seu desprezo pelas
Nações Unidas, é um beco sem saída.
Quarta pergunta:
Quais são as causas destas guerras, em particular a do Iraque, contra o
povo iraquiano? A resposta encontra-se, com toda a certeza, para lá da
propaganda mediática dominante, para além das suas mentiras, mas
também mais para além das aparências. O argumento
sistematicamente avançado é o controlo do petróleo, da
Península Arábica à Ásia Central. Isso é uma
evidência. Mas esta evidência não pode fazer-nos perder de
vista uma realidade ainda mais decisiva: o que está em jogo, o que torna
estas guerras necessárias para eles, é o comando da
fracção de classe dominante actualmente hegemónica: a
Finança estadunidense. É o capital financeiro, e não
somente Bush, e não apenas os seus falcões, e não somente
os magnates do petróleo, é a Finança como classe, com o
seu sistema de exploração e de opressão à escala
mundial, com as suas instituições nacionais e internacionais, que
não poderiam manter o seu poder senão pela violência, pelo
terrorismo de Estado. Esta é uma das razões que explicam porque
as recentes divisões na ONU ou na OTAN entre países ricos,
não provocaram nenhuma ruptura entre as classes dominantes no seio da
tríade imperialista. E as intervenções militares da Europa
(as da França em África, por exemplo) recordam-nos que um
imperialismo pode esconder outro... Quer dizer que é o capital
financeiro, sob hegemonia estadunidense, que está em guerra contra quem
quer que conduza um projecto de desenvolvimento autónomo, seja nacional
ou regional. E este capital tem necessidade vital desta aliança interna
no sistema inter-estatal da tríade para conter as múltiplas
resistências populares que surgem de todos os lados.
Quinta pergunta:
Podem os Estados Unidos voltar a dinamizar a acumulação de
capital no centro do sistema mundial por meio da guerra imperialista? Penso que
não; penso que as destruições de capital (tanto constante
como variável), causadas por estas guerras, que são
consideráveis para os países do Sul que as sofrem, são
insuficientes [entre aspas] para impulsionar um novo ciclo longo do
capital nos Estados Unidos, como aconteceu no fim da Segunda Guerra Mundial,
com o processo de reconstrução. São
insuficientes igualmente quando se consideram os efeitos de procura
efectiva associados a estas guerras, que só ou quase só afectam o
curto prazo; assim como os efeitos tecnológicos destas guerras, que
são positivos somente ou quase somente para o sector militar ou
militar-industrial. Estas destruições de capital são
insuficientes para redinamizar a acumulação de
capital no centro... a menos que estas guerras se convertam em guerras
permanentes do capital financeiro estadunidense contra o mundo inteiro, ou
contra o Sul inteiro... o que, desgraçadamente, não é
impossível... Há que escutar o que dizem os neoliberais: falam da
China, falam da Índia, falam do Brasil... Companheiros, querem controlar
os grandes países do Sul, porque receiam a possibilidade do seu
desenvolvimento autónomo; receiam sobretudo uma aliança entre
estes grandes países do Sul, entre a China, a Índia, o Brasil, a
África do Sul... Os neoliberais têm medo disso...
Sexta pergunta:
Mas poderão os Estados Unidos dispor dos recursos para financiar
eventualmente novas guerras? As despesas militares dos Estados Unidos (cerca de
4% do seu PIB) não são uma carga insuportável. Além
disso, detêm um avanço, uma vantagem impressionante no campo
militar. No entanto, sabemos ao mesmo tempo que conhecem desequilíbrios
muito profundos, amplificados pela gestão neoliberal da crise.
Estão sobre-endividados, dependem muito do exterior. As suas
finanças absorvem na bolsa até 80% dos lucros, e pouco deixam
para o investimento produtivo. As suas classes dominantes, cada vez mais ricas
de há 20 anos para cá, consomem muitíssimo. Ou seja, o
neoliberalismo, sistema de saque para o mundo, é nos Estados Unidos (e
na tríade) um modelo de acumulação capitalista muito
baixa, quase um modelo de não acumulação. E isto explica
porque os Estados Unidos repatriam desde os anos 1980, em tendência
ampla, mais e mais fluxos de lucros do resto do mundo. É precisamente
porque os Estados Unidos estão mais e mais dependentes do exterior que
bombeiam tantos recursos do mundo, e que bombardeiam tanto os povos do mundo.
[
Exacto
, dirá o Comandante Fidel no seu discurso de encerramento, no
mesmo dia] As dimensões económicas e militares da crise do
sistema mundial capitalista estão estreitamente imbricadas: existe esta
bomba financeira dos Estados Unidos absorvendo a prata do mundo e o seu
complemento, as bombas lançadas a partir da sua rede de bases militares.
Mas o neoliberalismo não pode continuar assim: os desequilíbrios
internos e externos estão já no limite do insuportável.
Têm que mudar este rumo, mas podem faze-lo de diferentes maneiras. E
desgraçadamente, não se pode excluir uma trajectória do
neoliberalismo para uma militarização mais dura, mais destrutiva.
Sétima pergunta:
Estamos então face a uma fascização do
imperialismo? Este tema recomenda uma extrema prudência. Talvez a
referência ao fascismo não seja absolutamente necessária
para caracterizar a tendência seguida pelo sistema de
dominação do capital financeiro norte-americano. Digamos que
bastará a referência ao conceito de imperialismo, e sabemos que o
imperialismo sempre foi violento, e militarizado. Limitar-me-ei aqui a
constatar, no entanto, que se encontram efectivamente na tendência actual
do imperialismo norte-americano alguns traços do fascismo
clássico, produto histórico do capitalismo no século XX.
Traços como a violência, uma violência sistemática,
sistémica, convertida em modo de existência; como a
manipulação das massas pelo sistema mediático para as
integrar ao projecto destruidor das classes dominantes; como a crença
numa civilização (ou nacionalidade) superior, habilitada para
dirigir o mundo... Dir-se-á: o fascismo é o Estado
totalitário. Mas o dogma da redução do papel do Estado
aplica-se em todo o lado, menos nos Estados Unidos. Aí, o Estado (um
Estado contra o serviço público) militariza a economia;
aí, a ficção do bi-partidismo de hiper milionários
converteu-se na realidade de um partido único do capital.
Dir-se-á ainda, com razão: o fascismo, é o
genocídio. Mas como não ver que o imperialismo, e a
polarização Norte-Sul imanente à dinâmica do
capital, produzem um genocídio no Sul? O neoliberalismo é o
resultado de uma luta de classes, histórica, à escala mundial.
É uma guerra social das finanças contra os povos. Tenhamos
então cuidado com a ameaça deste novo imperialismo. Levemos muito
a sério o rosto fascizante sorridente, porque se
tornará mais duro à medida que se fortalecer a resistência
popular em todas as partes do mundo.
Penúltima pergunta:
Porque é a crise do sistema mundial também uma crise
ideológica? Porque se provou o fracasso das políticas neoliberais
em todos os continentes, mesmo em lugares menos conhecidos que a Coreia do Sul,
a Rússia ou a Argentina, até recentemente na Costa do Marfim,
onde fracassou o modelo neoliberal africano, extravertido, desestatizado, sob
ocupação militar estrangeira (francesa, desgraçadamente).
O neoliberalismo continua a impor-se aos povos da maneira mais
antidemocrática possível, para além do seu fracasso total.
Tudo concorre, então, hoje em dia, para reintroduzir no discurso
ideológico dominante a ideia de uma regulação,
e na teoria
mainstream
, neoclássica, um novo papel para o Estado. Economistas
neoclássicos
light
ou
soft
(suaves) do nosso tempo, como Stiglitz, Sen, North, Krugman,
Romer, etc., floresceram graças a isso: porque propõem uma
regulação do sistema capitalista, propõem uma
nova intervenção do Estado. Mas há aqui um mal entendido,
um mal entendido muito grave, tanto na teoria, como na prática.
Há aqui uma confusão, porque estes teóricos não
falam de um Estado de bem-estar, nem tão pouco presente na estrutura de
propriedade do capital, menos ainda de uma planificação, de
planeamento estatal. Falam pelo contrário, de um Estado totalmente
submetido ao mercado, de um Estado ao serviço dos mercados, um Estado
ajudando a acumulação privada do capital. Inclusive na
educação. Quando falam de educação, não
falam nem na teoria nem na prática de
educação pública. Falam, como Lucas, de
educação... privada. Falam de privatização da
educação. Por trás da retórica do Banco Mundial
sobre
o saber ao serviço do desenvolvimento, a luta contra a
pobreza
, perfilam-se privatizações dos sectores lucrativos de
formação, de informação, de
telecomunicações..., mesmo da ajuda humanitária. De modo
geral, o objectivo número um é sempre assegurar ao capital
financeiro mundialmente dominante o manejo do jogo, e a
maximização dos seus lucros, embora preservando o capitalismo
central dos perigos do ultraliberalismo. O ultraliberalismo está
reservado aos outros, ao Sul, onde tem que aplicar-se forçosamente a
opção ultraliberal de abandono das funções
fundamentais de soberania do Estado. Por detrás do discurso do
bom governo
perfila-se a vontade de gerir os aparelhos de Estado da periferia
directamente a partir do centro do sistema mundial capitalista, neutralizando
os poderes de Estado do Sul. A que democracia poderia aspirar um Estado do Sul
que limita a expressão da sua soberania nacional à
liberalização dos seus mercados e ao pagamento da sua
dívida externa, mais dividendos à Finança? A que
democracia?
Última pergunta:
Que fazer? Podemos resistir. Temos que resistir. Temos sobretudo que lutar
para derrotar a estratégia militar do imperialismo estadunidense. Parar
a guerra, é a prioridade, impor a renúncia à
regulação do sistema mundial por meio da guerra o que
é a condição de todo progresso, de qualquer
desenvolvimento, de toda a democracia. Temos que reconstruir projectos
nacionais ao serviço dos povos, projectos sociais, progressistas,
impondo à dinâmica do capital limites à sua lógica
própria de maximização dos lucros. E isso apenas
será possível com sociedades civis dinâmicas e organizadas,
graças a Estados-nação fortes, soberanos,
autónomos. É essa a base de todo o projecto de
regionalizações que reforce as posições dos
países do Sul, a base de todo o projecto de nova solidariedade entre os
povos da América latina e do Caribe, de África e da Ásia,
a base de todo o projecto também de nova solidariedade entre o Sul e as
classes populares do Norte. Temos que reafirmar propostas de
transformações radicais a nível mundial, como a
democratização da ONU, a criação de um sistema de
fiscalidade e de redistribuição mundial, a
modificação das regras de acesso aos mercados e dos sistemas
monetários e financeiros, a gestão colectiva dos recursos
naturais e do meio ambiente, entre outras coisitas... Estimados
delegados, queridos companheiros, regressei há pouco do Fórum
Social Mundial de Mumbai, onde mais e mais gente pensava como eu
penso que um outro mundo não será possível sem
Socialismo, sem o socialismo mundial.
E por isso, como se diz lá, na Índia:
Quit Iraq!
,
Yankees, ¡Fora do Iraque!
.
Imperialism, down, down!
,
¡Imperialismo, abaixo, abaixo!
.
Socialism, up, up!
,
¡Socialismo, acima, acima!
.
[*]
Do CNRS, Universidade de Paris 1 Sorbonne, França.
Comunicação apresentada no
VI Encontro internacional de Economistas sobre Globalização e Problemas do Desenvolvimento
, La
Habana, 13 de Fevereiro de 2004. Tradução de Carlos Coutinho.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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