Elogio da dissidência
por Iroel Sánchez
[*]
Grandes ilusionistas
com façanhas de alarde,
dizem que são altruístas
os cobardes.
Sílvio Rodríguez
É o exercício da democracia que faz que a nossa
nação esteja preparada para a democracia
[1]
, disse-nos, na melhor imitação de Cantinflas, o sr. George W.
Bush no passado 6 de Novembro. No entanto, nesta ocasião o seu discurso
passou suspeitosamente desapercebido para os habituais coleccionadores de
bushismos do Partido Democrata. O 20º aniversário da
National Endownment for Democracy (NED) foi assim celebrado com um novo Plano
de Democratização para o Médio Oriente. A imprensa
norte-americana revelou o acto sem procurar antecedentes nem fazer
alusões incómodas à condição de canal
financeiro da CIA que a NED ostenta desde o seu nascimento, como noticiou na
altura o
New York Times
e denunciaram diversos intelectuais norte-americanos. Meses depois, o
democrata John Kerry fez honra à sua filiação e anunciou
que aumentará os fundos para a mesma fundação. Nem Bush
nem Kerry, nem sequer o já citado
Times,
lembraram ao inominável Oliver North, artífice da NED e do
Irão-Contras, com o seu olhar firme, o seu inexorável
sentido do dever e a sua palpável convicção de que o fim
justificam os meios
[2]
. Os contra-revolucionários cubanos, os golpistas venezuelanos, os
governos interinos no Haiti ou Iraque, e os novos-ricos que
administram ONGs na Europa de Leste podem estar tranquilos: ganhe quem ganhar
republicanos ou democratas o seu dinheiro está garantido.
Como garantidos estiveram, também, os bombardeamentos ao Sudão,
Afeganistão e Jugoslávia pelo sorriso democrático de Bill
Clinton.
O dinheiro e a violência, a cenoura e o garrote, avalizam o certificado
de exportação do modelo da república de Wall
Street.
Se 83% dos norte-americanos apoiam as aspirações ecologistas, 86%
está de acordo com o movimento pelos direitos cívicos, 94% apoia
o controlo de armas, e 80% acredita que todos devem ter igual direito aos
serviços de saúde e 88% desconfia dos executivos das
corporações
[3]
, a pergunta óbvia é porque é que as transnacionais
podem
governar os EUA e decidir os destinos do mundo sem deixar de chamar ao seu
sistema de dominação uma democracia.
O clientelismo, que permite ao sistema político funcionar de maneira
tão fechada como um ciclo termodinâmico perfeito
(corporação-dinheiro-campanha mediática-governo para os
ricos), juntamente com a leitura manipulada, mas triunfadora na Guerra Fria, de
um conjunto de categorias opinião pública, liberdade de
imprensa, democracia
, pressupõe absolutamente as
equivalências impostas pela linguagem imperial como um grupo de verdades
reveladas e inamovíveis.
A OPINIÃO PÚBLICA E A OPINIÃO PUBLICADA
A opinião pública é a opinião publicada nos meios
de comunicação, que já não dependem de
subscritores, leitores, telespectadores ou ouvintes, mas sim dos seus
anunciantes. Trabalham com notícias que procedem, em mais de 90% dos
casos, das mesmas fontes transnacionais ou governamentais, quer dizer,
directamente do dono ou do seu instrumento. Cada vez mais existe a
impressão de se ver uma só televisão e um só jornal
com diferentes apresentadores ou designs. É a uniformidade
disfarçada de diversidade.
São esses meios que impõem a ideia do consumo como bem-estar, que
por vezes seduziu o burocratizado socialismo europeu e fê-lo abandonar a
ideia de propor alternativas ao capitalismo. Das notícias à
publicidade, as minorias cada vez menores, mas cada vez mais ricas
exibem, em poderosíssimo efeito demonstração,
como se deve viver, ou pelo menos como devemos aspirar a viver; democratizam-se
os conselhos aos investidores e não o dinheiro para os investimentos. A
vitrina cresce e cresce, se bem que o cristal é cada vez mais grosso e
está blindado. Consumir é o caminho para a liberdade, parece
dizer-nos os media, na sua tarefa de converter aos cidadãos em
consumidores, tão atentos às suas possibilidades no mercado que
se desinteressem totalmente da política, a não ser no dia das
eleições, em que deverão escolher entre os
partidos-empresas, que se vendem pela televisão como qualquer artigo de
consumo.
A democracia é eleições pluri-partidárias ou
não é, se bem que seja também corrupção,
clientelismo, apatia politica e abstencionismo. Os gurus do
pensamento trabalham destemidamente para garantir ao sistema que com o voto
só muda a cor da mascara com que se tenta encobrir a
dominação. Estes intelectuais bem pensantes, tão
profundamente descritos por Alfonso Sartre
[4]
, dizem mal do poder e orientam-nos para nos afastarmos dele, enquanto elogiam
a empresa transnacional que os publica sem pertencer ao poder? Assim
pastam felizmente no curral temático que os seus bem pagos
espaços de opinião lhes permitem. Ali, clamam pelo
direito ao prazer da classe média venezuelana, sem se deterem no nada
agradável retrocesso económico dos seus concidadãos do
primeiro mundo; convertem automaticamente a emigração cubana em
exílio, enquanto condenam ao insilio qualquer
voz dissidente que dentro do seu próprio país denuncie os crimes
e a intolerância que inundam de cadáveres as costas do seu
paraíso; estes vizinhos de páginas repletas pelos anúncios
classificados do sexo pago que se indignam com a prostituição
alheia. Sempre, desde os nossos países lhes chega, como anel para o
dedo, uma ou outra voz desejosa de ver o seu nome em letra impressa para obter
o aval de bom comportamento intelectual, servir de testemunho letrado para a
campanha de ocasião e testemunhar que os negros, latinos e
indígenas somos preguiçosos e corruptos, o que ao mesmo tempo
explica que sejamos pobres, porque ali todo a gente rouba.
Magnifica notícia para aqueles que há já muito tempo
estão a roubar o mundo!
A venda da social-democracia como opção de esquerda,
operação só possível se se tiver memória
fraca, e se esquecermos o artilheiro de multidões Carlos Andrés
Pérez, ou as execuções extra-judiciais sob o governo de
Felipe González, e se não fizermos muitas perguntas acerca de
certos financiamentos da década de 70, que converteram partidos
minoritários em poderosas máquinas políticas.
A CRUZ VERMELHA DA DIREITA
Se uma parte da esquerda eleitoral se limita a funcionar como Cruz Vermelha da
direita, a que administra a crise enquanto legitima o sistema, é
lógico que se deva preocupar com democracia em Cuba e Venezuela. Cuba,
como bem observou Noam Chomsky, é o país no mundo que mais
agressões terroristas sofreu e soube enfrentá-las com mais
participação de cidadãos e mais activismo político
das massas, sem torturas nem execuções extra-judiciais. A
Venezuela
é uma nação cujo presidente foi mais repetidamente eleito
em menos tempo. Mas o certificado de boa conduta política exige
distanciamento daqueles que incomodam o império e exige, como disse
Fidel na introdução necessária
ao Diario del Che en Bolívia,
converter as organizações de luta do povo em instrumentos
de conciliação com os exploradores internos e externos
[5]
.
A imprensa liberal que qualifica o revelador documentário
Farenheit 9/11, de Michael Moore, como um ataque demolidor
contra Bush, silencia a profunda denúncia que o escritor e
cineasta
norte-americano faz da cumplicidade racista dos senadores democratas na fraude
eleitoral, da utilização dos pobres como carne para canhão
e o escandaloso divorcio entre a classe política e o povo
norte-americano. Os bem disciplinados colunistas, repórteres e
críticos de cinema que nos ensinam a olhar para não ver e
canalizam adequadamente a nossa indignação contra Bush, tentam
evitar que questionemos o sistema: estejamos contra a guerra, inclusive contra
Bush, mas nunca contra o capital. Talvez aquela incomoda pergunta de Brecht
nunca tenha sido formulada: De que serve estar contra o fascismo
que se condena se nada se diz contra o capitalismo que o
origina?
[6]
.
Definitivamente, para alguns bem pensantes o que se passa na Bolívia,
Venezuela ou Palestina são conflitos entre guelfos e gibelinos, que
resultariam insignificantes salvo pelo que com isso poderia recolher a
literatura no futuro. Estes aspirantes a escrever Divinas Comedias, deveriam
perguntar-se se dentro de cinquenta anos haverá futuro, com o
esgotamento das fontes energéticas, com mais dois mil milhões de
habitantes nos países pobres e a deterioração do
médio ambiente, que configuram a curto prazo a construção
do inferno na terra.
Se estes temas, tão caros aos media, afloram, não é mais
além das gretas de ocasião que abrem as
contradições inter-oligarquicas, ampliadas pelas quadrilhas de
intelectuais mediáticos na sua função legitimadora do
sistema. E quando isso acontece, os obedientes assalariados da linguagem
politicamente correcta têm muito cuidado para empregar bem as
palavras. Não importa que disidir signifique, de acordo com
a Real Academia Española, separar-se da doutrina comum
[7]
será outra no nosso tempo a doutrina comum que não a
proclamação da economia de mercado como o único modo de
vida, ou de morte, possível? ; os milhões que protestam
contra a
exploração capitalista, a guerra ou os genocídios, nunca
serão chamados dissidentes, mas sim terroristas,
globalifóbicos, ou quanto muito bandos, como tal
podem-se reprimir, assassinar e torturar impunemente com as armas da democracia
representativa, como vemos muitas vezes, seja em Itália, no Peru ou no
Iraque. Os Estados Unidos intervieram uma vez contra a Alemanha nazi e mais de
180 vezes contra países pobres. Apesar disso o capital
linguístico da Segunda Guerra Mundial continua a servir na imprensa dos
nossos dias, para que os invasores se possam converter em aliados,
que salvarão os invadidos dos crimes de guerra cometidos por
um ditador pertencente ao eixo do mal.
Apenas quinze anos após a vitória capitalista frente
ao chamado socialismo real, desde o Sul, o mito neoliberal começa a
derrubar-se. Se as ideias são decisivas para a construção
de alternativas, é também essencial construir alternativas para a
sua difusão.
As notícias, com excepção dos desastres naturais,
não são casuais. É evidente que se está a impor uma
agenda ao mundo, que se derrama em cascata desde os meios de elite (CNN,
The New York Times
) até ao jornal duma pequena cidade de província. O que
pretenda mudar a agenda deve estar disposto a perder fontes de financiamento,
anunciantes e distribuidores. Se isso não fosse suficiente estão
as denúncias judiciais, os pleitos e as campanhas de descrédito.
No cenário ibero-americano, honrosas e escassíssimas
excepções, como
La Jornada
do México, confirmam a regra que dita a morte, anunciada e ocorrida, de
jornais dissidentes como
O Diário
[8]
(com mais de mil horas de processos nos tribunais),
Liberación
[9]
(asfixiado economicamente entre os bancos e os distribuidores) o
Egin
[10]
(criminalizado e fechado pelo governo de José Maria Aznar), para
só citar três exemplos de como funciona a liberdade de
expressão para os que pretendem separar-se da doutrina
comum.
A crescente concentração da propriedade sobre os meios de
comunicação em umas poucas empresas e o controlo paralelo do
negócio da publicidade, que já supera mil milhares de
milhões de dólares anuais, confirmam-nos a antiga
afirmação: uma vez mais todos os caminhos vão dar a Roma.
Ainda que nos dias que correm haja muitos recursos intelectuais e financeiros
empenhados em faze-los invisíveis.
Todos os caminhos vão dar a Roma. No entanto existem muitos poucos
trilhos e veredas entre nós próprios. Um dos principais
resultados da dominação mediática e cultural foi a
fragmentação e incomunicação entre os que produzem
informação e conhecimentos opostos à ordem existente.
Assim, a criação de um falso, mas aparentemente inevitável
sindroma da solidão como destino manifesto da
dissidência intelectual, é uma das armadilhas com que contam os
dominadores para desmobilizar o pensamento crítico e condena-lo
eternamente a ficar à margem.
A INTERNET
A Internet, ainda que também invadida pelas grandes empresas, brindou
aos movimentos sociais a possibilidade de colocar, de imediato e a baixo custo,
a informação que oculta a inundação
mediática. Mas, é necessário tecer na prática as
redes que surgiram na Internet. O intercâmbio de
publicações, a circulação de livros, a
coordenação entre as pequenas editoras, entre as rádios e
televisões comunitárias, são acções urgentes
e imprescindíveis. Unir o pequeno desde onde se resiste à
hegemonia imperial e levantar o grande, ali onde avance a hegemonia
revolucionária.
A ditadura do pensamento único significará alguma coisa
para os meios de comunicação, a oculta coincidência de
pensamento único e doutrina comum versus
dissidência? impôs o seu código
binário: ou comungas ou não existes. Perante isso, Hugo
Chávez, em rebelião contra as oligarquias e contra os
dogmas revolucionários
[11]
para dize-lo desde a definição guevarrista do 26 de
Julho , lançou a ideia de que os pobres, os esquecidos, os
silenciados, tenham o seu próprio canal, a sua CNN do Sul.
Coloca-nos assim, perante a possibilidade de contar, num futuro que desejamos
próximo, com um poderoso meio alternativo mas já não
marginal.
A derrota administrada na Venezuela ao golpismo mediático constitui uma
lição para todos os que no mundo decidem da ordem da nova Roma.
Num país onde os media se tornaram, com toda a claridade, partidos
políticos ao serviço da oligarquia crioula e do governo
norte-americano, está-se a demonstrar que, apesar do dinheiro da
National Endownment for Democracy e do jornalismo liberal do
The New York Times, CNN, El País
e porta-vozes locais, pode-se ganhar e preservar o poder para as maiorias. O
que significa começar a ganhar também a batalha dos meios de
comunicação.
Nestes tempos de Internet e exclusões, de satélites e fome,
Carlos Max, sorridente e subversivo, sussurra nos ouvidos do mundo:
dissidentes de todos os países, comuniquem-se.
Notas
(1) George W. Bush,
Declarações do presidente no XX aniversário da National
Endownment for Democracy,
Office of the Press Secretary, Washington, 6 de Novembro de 2003
http://www.whitehouse.gov/news/releases/2003/11/20031106-2.es.html
.
(2) Neil Berry,
Encounter, London Magazine,
fevereiro-março de 1995. Citado por Frances Stonor Saunders em
La CIA y la guerra fria cultural,
Editorial Debate, S.A., Madrid, 2001, p.207.
(3) Michael Moore,
Qué han hecho con mi país, tío?,
Ediciones B.S.A., Madrid, 2004. pp. 176-181, estes dados aparecem
extensamente documentados em Notas y fuentes, pp. 251-253.
(4) Alfonso Sastre,
La batalla de los intelectuales,
Editorial Ciencias Sociales, La Habana, 2003, pp. 59-91.
(5) Fidel Castro,
Una introducción necesaria,
em Ernesto Che Guevara,
El Diario del Che en Bolivia,
Instituto del Libro, La Habana, 1968, p. XIII.
(6) Bertolt Brecht ,
Las cinco dificultades para decir la verdad, Boletín del
Seminario de Derecho Político,
nº 29-30, novembro de 1963, Salamanca. Em português em
http://resistir.info/brecht/brecht_a_verdade.html
.
(7) Real Academia Española,
Diccionario de la Lengua Española,
Vigéssima segunda edição,
http://www.rae.es/
.
(8) Miguel Urbano Rodrigues,
O Diário Acusa!. Mais de mil horas nos Tribunais,
Editorial Caminho, SA, Lisboa, 1984.
(9) Andrés Sorel,
Liberación. Desolación de la utopía,
Ediciones Libertarias, Madrid, 1985.
(10) Euskadi Información,
La Ley del silencio,
Birsortu S.l., Hernani, 1998.
(11) Ernesto Che Guevara,
El Diario del Che en Bolivia,
Instituto del Libro, La Habana, 1968, p. 256.
Presidente do Instituto Cubano do Livro. Comunicação apresentada ao Encontro
Internacional
Civilização ou Barbárie, Serpa, Portugal,
Setembro de 2004.
Tradução de Concha Lorenzo.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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