Nova etapa na batalha contra a ALCA

por Osvaldo Martínez [*]

Osvaldo Martinez. Pela terceira vez reunimo-nos nesta sala, no âmbito dos Encontros Hemisféricos de Luta contra a ALCA, para reflectir acerca do andamento desta luta e concertar acções que contribuam para a derrota desse projecto de anexação elaborado pelo governo dos Estados Unidos para o desfrute das suas empresas transnacionais e caucionamento dos seu domínio imperial sobre a América Latina e o Caribe.

Pela terceira vez o Comité Organizador cubano dá as boas vindas neste Encontro aos representantes dos movimentos sociais que animam a campanha anti-ALCA e manifesta que a sua maior satisfação é facilitar-lhe as condições organizativas e logísticas para que este III Encontro Hemisférico de Luta contra a ALCA seja uma efectiva contribuição à vitória na nossa luta e um passo em direcção a essa outra América melhor e sem dúvida possível, sem ALCA, sem neoliberalismo, sem governos lacaios, com solidariedade, com desenvolvimento compartilhado, enfim, a "nossa América" que reclamou José Marti.

Entre o Encontro anterior efectuado em Novembro de 2002 e o actual medeia todo o ano de 2003 e nele ocorreram acontecimentos de grande importância que devemos examinar para extrair as conclusões que nos permitam ser mais certeiros e efectivos nesta batalha pela vida e pelo desenvolvimento.

No ano passado definiram-se com maior clareza as tendências à acção unilateral e guerreirista do governo dos Estados Unidos.

A guerra de agressão contra o Iraque, desencadeada utilizando justificações mentirosas sobre armas de destruição maciça que nunca apareceram e tornando em cacos a legalidade do sistema das Nações Unidas, foi o plasmar de uma concepção de recorte fascista: o império concede-se o direito já não de dar uma resposta rápida a qualquer agressor e sim de atacar primeiro qualquer país, "em qualquer escuro rincão do mundo", que um pequeno círculo de neoconservadores fanáticos decida atacar.

O terror imposto com o pretexto da guerra contra o terrorismo e a intimidação baseada no poderio militar esgrimido como garrote frente a todos os não incondicionais foram marcas características do ano passado.

Na América Latina o ano de 2003 converteu em clamoroso e inocultável aquilo que já sabíamos antes: o neoliberalismo só desenvolve as fortunas das transnacionais e de alguns oligarcas nativos, enquanto bloqueia o desenvolvimento socio-económico dos nossos países, faz crescer a pobreza, multiplica a desigualdade, converte em elitista a educação e a saúde e empobrece as culturas nacionais.

Também no ano passado a batalha em torno da ALCA registou acções destacadas dos movimentos sociais que estão aqui representados, assim como acontecimentos relevantes na negociação governamental. Nesta teve lugar o chamado fracasso da reunião ministerial da OMC em Cancún, que foi um êxito para a Aliança Social Continental e os povos latino-americanos e caribenhos.

Na negociação governamental surgiu também uma nova forma e uma nova táctica para fazer com que os nossos povos traguem o anzol da ALCA, agora apresentado como a ALCA suave ou "a la carte" e acompanhado da nova estrela no esquema de dominação: os Acordos Bilaterais de Livre Comércio.

Em relação ao tortuoso accionar da política neoliberal, o governo dos Estados Unidos insiste na defesa do indefensável. Manipulando estatísticas, omitindo o evidente, mentindo por sistema e recorrendo a uma retórica simplista, continuam a apresentar a política neoliberal consagrada no Consenso de Washington como o único caminho possível para o desenvolvimento, ainda que a teimosa realidade demonstre exactamente o contrário.

Aplicando a política neoliberal durante mais de duas décadas com rigor dogmático, homogeneizaram em alto grau a política económica e a mentalidade de muitos governantes, para tentar encerrá-los a todos na ALCA sob as mesmas disciplinas e fazendo do neoliberalismo um compromisso jurídico dos Estados.

No ano passado o PIB regional por habitante foi inferior ao de 1997 o que exprime o retrocesso no crescimento, há 20 milhões de latino-americanos pobres a mais do que em 1997 e a taxa de desemprego médio elevou-se quase a 11% para conduzir o número de desempregados urbanos a 17 milhões. Aumentou novamente a precariedade laboral e diminuiu o salário real.

Como se fosse pouco, o investimento estrangeiro — tantas vezes apresentado como a marca das bondades neoliberais — declinou 25% em relação ao ano anterior, a transferência negativa de recursos foi de 29 mil milhões de dólares devido à remessa de lucros feita pelo capital estrangeiro e pelo serviço de uma dívida externa que em vários países supera 50% do PIB e acerca da qual a ALCA não diz uma palavra, apesar de que para falar com seriedade do desenvolvimento económico latino-americano ser imprescindível começar por remover esse formidável obstáculo.

Entre os anos 2001 e 2003, enquanto se efectuava a negociação da ALCA, na qual não se menciona o tema da dívida externa, a América Latina entregou como pagamentos pela sua dívida uns 464 mil milhões de dólares, ou seja, 154 mil milhões por ano.

Tanta exploração e pobreza, acompanhada da retórica espessa e oca do livre mercado, conduziram a explosões sociais em que desempenharam um papel destacado movimentos sociais e organizações presentes na Aliança Social Continental, que provocaram o derrube de governos neoliberais na Argentina e na Bolívia. Outros governos de obediência semelhante cambaleiam enquanto crêem, ilusoriamente, que maior submissão ao império pode comprar-lhes uma sobrevida.

É portanto uma contradição evidente em que incorre o governo dos Estados Unidos quando insiste na ALCA como versão extrema e dogmática do neoliberalismo, quando esta política marcha inexoravelmente ladeira abaixo empurrada pelo movimento popular e pelo peso dos seus fracassos.

DISCURSO EDULCORANTE
& RAZÕES VERDADEIRAS


Para Robert Zoellick, o representante do Comércio dos Estados Unidos e o máximo negociador da ALCA, este projecto é segundo o estilo retórico edulcorante da ALCA, "uma oportunidade histórica de ampliar o comércio, estender a prosperidade, difundir a democracia e aprofundar a associação hemisférica em meio a competição mundial".

Temos de agradecer a Colin Powell ter tido, pelo menos, a franqueza brutal de definir sem retórica e com exactidão imperialista as verdadeiras razões que movem os Estados Unidos quanto à proposta da ALCA. Segundo Powell, "nosso objectivo é garantir para as empresas norte-americanas o controle de um território que se estende desde o Árctico até à Antárctida e o livre acesso — sem nenhuma classe de obstáculos — dos nossos produtos, serviços, tecnologias e capitais por todo o hemisfério".

Estas razões de dominação e lucro empresarial confessadas pelo secretário de Estado surgem muito claras no desempenho da economia dos Estados no ano passado.

É impossível acreditar no engodo do acesso ao mercado dos Estados Unidos se observarmos que o défice comercial deste país alcançou uma marca histórica de uns 500 mil milhões de dólares no ano passado e que esse défice vem crescendo vertiginosamente desde 1992, quando era de 35,6 mil milhões. Junto com o crescimento do défice verificou-se também um aumento da importância do comércio exterior para a sua economia, de modo tal que exportar é um imperativo para ela, devido à necessidade de reduzir o défice e também pelo significado que as exportações têm para o emprego numa economia em que a actual taxa de desemprego de 6% é um dos mais graves sintomas de crise.

A agressividade comercial estadunidense, expressa em acções de todo tipo para abrir mercados onde vender produtos e serviços, é uma consequência do peso crescente do comércio exterior na reprodução da sua economia. Se em princípios dos anos 70 a participação do comércio exterior no PIB não superava os 10%, actualmente é de 25%. Na década dos 90 as exportações contribuíram em pouco mais de um quarto do crescimento económico desse país, sustentando uns 12 milhões de empregos.

A realidade comercial estadunidense mostra uma economia com evidente atraso competitivo, o que a faz incorrer em enorme défice comercial que nem sequer a desvalorização do dólar conseguiu travar, e ao mesmo tempo essa economia está cada vez mais voltada para o exterior com crescente dependência das exportações para sustentar o emprego e o nível de actividade.

Muitas transnacionais estadunidenses dependem cada vez mais dos mercados externos para realizar as suas vendas. A Coca-Cola realiza quase 70% das suas vendas no exterior. A Mc Donalds tem a metade dos seus 23 mil postos de venda em países estrangeiros.

Esta situação peculiar explica que as tendências reais da economia dos Estados Unidos quanto ao comércio exterior sejam exactamente o contrário do discurso do livre comércio como remédio para todos os males e o acesso ao mercado desse país como prémio tentador.

Para a economia que realmente funciona nos Estados Unidos — que em nada se parece aos discursos do sr. Zoellick — interessa exportar para todo mercado com alguma capacidade de compra. Interessa-lhe abrir e penetrar mercados externos por qualquer meio e evitar a competição estrangeira dentro do seu mercado, para o que dispõe de um verdadeiro arsenal de medidas proteccionistas para os produtos agrícolas, o aço e muitos outros produtos protegidos por subsídios, apoios internos à produção, barreiras técnicas ao comércio, medidas anti-dumping, disposições fito-sanitárias e muitas outras.

Aqueles que, a partir dos países latino-americanos, sustentam que as economias devem abrir-se ao extremo e chegar de imediato à tarifa zero para receber em reciprocidade o acesso ao mercado dos Estados Unidos chocam-se mais cedo do que tarde com o desengano. Mas também aqueles que nos Estados Unidos acreditam que a América Latina será um grande mercado para as suas vendas verificam que este é pequeno e limitado porque com 227 milhões de pobres, dos quais mais de 90 milhões na indigência e a pior distribuição do rendimento do mundo, o mercado latino-americano é anémico e a causa da anemia é esta mesma política neoliberal que abriu os mercado, mas que ao mesmo tempo os reduz e os empobrece.

No âmbito financeiro a economia dos Estados Unidos mostra uma realidade bem diferente da do discurso em favor da ALCA.

Este discurso promete contribuições financeiras para a América Latina graças ao investimento de capital e repete o conhecido estribilho de que basta oferecer ao capital transnacionais os grandes privilégios que exige para que se derramem sobre a América Latina os investimentos benfeitores.

Mas estes investimentos e as remessas de lucros que provocaram, juntamente com o pagamento do serviço da dívida externa, foram responsáveis por um avultado défice de 54,8 mil milhões de dólares no saldo da renda de factores do balanço de pagamentos da região durante o ano passado.

Esse investimento estrangeiro diminuiu 25% em resultado do esgotamento em alguns países das privatizações alegres e da recusa popular a novas privatizações.

Por outro lado, é bem conhecida a transformação da economia estadunidense numa economia de cassino que funciona como um aspirador gigantesco para financiar os seus enormes défices com os capitais que extrai do exterior. Ao já mencionado défice comercial da ordem dos 500 mil milhões de dólares soma-se o défice em conta corrente da balança de pagamentos que ascendeu a 614 mil milhões no ano passado.

FUNÇÃO PARASITÁRIA

Estes desequilíbrios, aos quais haveria que acrescentar-se o défice orçamental que já atinge 374 mil milhões e que se alimenta da enorme despesa militar para guerrear ou intimidar, são financiados pela função parasitária que a economia estadunidense vem desempenhando, e que lhe permite sugar uns 1500 milhões de dólares por dia procedentes de todo o planeta, incluindo uma destacada contribuição latino-americana, para sustentar o consumismo desenfreado e o belicismo ameaçador.

Não existe nada na conjuntura objectiva da economia dos Estados Unidos que se assemelhe ao grande mercado disposto a comprar aos latino-americanos ou à grande fonte de investimento de capitais dispostos a acrescentar recursos aos países da região.

Pelo contrário, o real é a necessidade de busca e penetração de mercados onde as empresas norte-americanas possam vender e onde obtenham rendimentos de investimentos lucrativos e de movimentos fáceis de capitais.

A América Latina não é uma receptora líquida de recursos financeiros e sim uma grande exportadora de capitais que, no substancial, vão sustentar o consumismo e a economia de cassino nos Estados Unidos.

Aqueles que acreditam que com a ALCA e a partir dos Estados Unidos será aberta a cornucópia da abundância para os latino-americanos precisam saber que a abundância lá é financiada em parte não pequena por esta região repleta de pobres e excluídos, e que só entre 1991 e 2000 entregou mais de 1 milhão de milhões (1012) de dólares pela acção combinada do serviço da dívida externa, da fuga de capitais e do intercâmbio desigual.

Durante os anos de políticas neoliberais, que agora se querem tornar irreversíveis com a ALCA, as transnacionais da maior economia do mundo receberam a melhor parte do botim na compra — muitas vezes a preços de liquidação — de uns 4000 activos públicos latino-americanos (bancos, telecomunicações, transporte, petróleo, mineração, comércio), duplicaram suas taxas de lucro em relação àquelas obtidas nos seu país, reduziram seus custos laborais entre 70 e 80% com a força de trabalho barata e muitos bancos norte-americanos apropriaram-se das poupanças nacionais e transferiram milhares de milhões de dólares mediante a fuga de capitais e variadas formas de circulação de dinheiro sujo, incluída a dinâmica indústria do suborno e do narcotráfico.

No ano de 2003 a batalha da ALCA continuou a desenvolver-se nas suas duas grandes frentes: a luta dos movimentos sociais integrantes da campanha anti-ALCA, levada a cabo em diversos cenários e formas, e a negociação governamental sob a co-presidência dos Brasil e dos Estados Unidos.

Nesta batalha o governo dos Estados Unidos continuou a utilizar o seu arsenal que inclui o domínio económico, a cumplicidade de oligarquias servis, o monopólio mediático, as ameaças e pressões para satisfazer sua pressa e fazer avançar a marcha forçada o seu projecto de anexação.

Não faltaram as declarações de porta-vozes oficiais em que se combinou a retórica das grandes oportunidades e do livre comércio benfeitor com as afirmações arrogantes de que marchariam para a frente com aqueles que quisessem entrar para desfrutar da ALCA, ao passo que os outros ficariam isolados e abandonados à sua sorte.

Os movimentos populares articulados na Aliança Social Continental que protagonizam a resistência à ALCA desenvolveram uma variada gama de acções. Nelas se pôs de manifesto o crescimento dessa resistência e reforçou-se a inter-relação existente entre a luta contra a ALCA, contra o neoliberalismo da ordem económica mundial neoliberal: o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial de Comércio e o Banco Mundial, contra o regimes neoliberais submetidos e contra as variadas formas de dominação estadunidense sobre a América Latina.

O accionar dos movimentos sociais integrou na luta, cada vez mais, aquilo que na realidade actua como um sistema de múltiplas manifestações, mas de igual significado essencial: a submissão ao domínio imperial que se facilita com o neoliberalismo e que se aprofundaria com a ALCA.

Às acções dos movimentos sociais uniram-se em maior grau as lutas de trabalhadores, camponeses, indígenas, mulheres, jovens, estudantes, religiosos, explorados, excluídos, contra um inimigo cujo rosto pode assumir formas de ALCA, de FMI, de OMC, de desemprego, de discriminação contra os direitos de mulheres e jovens, de exploração redobrada sobre camponeses e indígenas, de depredação do meio ambiente pela sanha do lucro, de medicamentos e serviços sociais custosos e inacessíveis, de governos submissos diante da irritação do amo, de manipulação mediática para introduzir a desinformação e a cultura da dominação.

A Campanha Continental de Luta contra a ALCA desenvolveu a iniciativa das chamadas consultas populares na Argentina, México, Equador, Peru, Chile, Uruguai, Haiti, Canadá, com diferentes modalidades na sua organização, num esforço para difundir o verdadeiro significado da ALCA. Na Argentina a campanha contra a ALCA e a dívida externa conseguiu o apoio de mais de 2,5 milhões de pessoas.

A Campanha incluiu entre as suas acções o apoio e a participação em defesa dos direitos dos camponeses, em encontros de mulheres, nas jornadas de mobilização e protesto por ocasião da reunião da OMC em Cancún onde a denúncia contra a ALCA e a OMC foram conjuntas, no Encontro Mesoamericano de Camponeses efectuado em Honduras, no Encontro Hemisférico contra a Militarização em Chiapas e nas acções efectuadas em difíceis condições de repressão e controle policial em Miami, paraíso da direita e aspirante a sede da ALCA, durante uma reunião ministerial em Novembro último.

Na negociação entre governos, os Estados Unidos tentaram avançar com o projecto original da ALCA esmagando toda resistência a partir da posição de se recusar a negociar sobre agricultura e subsídios agrícolas enquanto quis impor a negociação acelerada dos temas onde a sua vantagem e superioridade é absoluta: investimentos, comércio de serviços, propriedade intelectual, compras governamentais e política da competição. Nem mais nem menos que uma posição em que querem tudo em troca de nada.

Esta pretensão imperial desmedida foi inaceitável para alguns governos, os quais já não estão entre os que esperam com ansiedade a chamada dos Estados Unidos para negociar um Acordo Bilateral de Livre Comércio.

O governo da Revolução Bolivariana da Venezuela recusou com firmeza o conteúdo neoliberal da ALCA, exprimiu sua disposição a submeter este projecto a um plebiscito oficial se fosse necessário e lançou bases de significado oposto à ALCA, para uma verdadeira cooperação e integração latino-americana e caribenha. O governo do Brasil negou-se a aceitar a negociação nos termos unilaterais propostos pelos Estados Unidos e considerou que nessas condições a ALCA lesava os seus interesses nacionais e, juntamente com a Argentina, defendeu a posição do MERCOSUL, apesar do desagrado e dos ardentes desejos de agradar os Estados Unidos, do governo uruguaio.

A negociação, nos termos da absoluta desigualdade colocados pelos Estados Unidos, estancou-se e sofreu um golpe adicional quando em Cancún fracassou a reunião ministerial da OMC diante da mobilização dos movimentos sociais e da resistência dos Grupo dos 20 frente às pretensões dos países mais desenvolvidos.

Da reunião de ministros de Negócios Estrangeiros efectuada em Miami surgiu uma alteração de concepção do projecto original da ALCA com dois ingredientes: uma ALCA "suave" de contornos nebulosos dependentes de precisões, e uns Acordos Bilaterais de Livre Comércio que continuam a ser a ALCA dura e provavelmente ainda mais dura.

Os movimentos sociais integrantes da Campanha contra a ALCA têm diante de si esta nova fase na batalha e é necessário apreciar o sentido das mudanças verificada para adaptar as nossas acções às novas circunstâncias.

Com a ALCA "suave" e os Acordos Bilaterais de Livre Comércio o projecto anexionista mudou de forma e de procedimentos, mas mantem a sua essência.

A Declaração da Campanha Continental contra a ALCA, perante o acordado pelos ministros em Miami, exprime correctamente: "em Miami, estamos constatando o fracasso do projecto original da ALCA e, ao mesmo tempo, o surgimento de uma nova e talvez mais perigosa proposta de negociação. Para nós, Miami significa que os Estados Unidos perderam a capacidade de convencer acerca da bondade do seu projecto de livre comércio e ao mesmo tempo exibe a força para impor os seus objectivos, isolando os governos do continente que explicitam uma visão diferente".

Com efeito, a batalha não terminou e a vitória ainda não foi obtida pelo que, de modo algum, podemos celebrar o triunfo que ainda não conquistámos e desmobilizar a Campanha Continental.

É certo que o movimento anti-ALCA desenvolveu acções destacada e avançou na criação de maior consciência no continente sobre as verdadeiras entranhas desse projecto. É certo que em Cancún o Grupo dos 20, contando com o firme apoio dos movimentos sociais que se manifestaram nas ruas, foi capaz de resistir às pressões dos países desenvolvidos e impedir que o "livre comércio" obtivesse outro êxito que teria sido a nossa derrota. As palavras "livre comércio" encobrem o modelo neoliberal para impor um comércio que não é livre e introduzir também outro longa lista de temas não comerciais que são ainda mais efectivos que o comércio para completar o círculo da dominação.

Mas é certo também que o Grupo dos 20 sofreu deserções logo que os Estados Unidos fizeram saber a sua irritação junto a alguns governos, que de imediato alinharam-se no coro dos entusiastas do livre comércio, e que a ALCA "suave" e os Acordos Bilaterais de Livre Comércio não representam a prova da derrota da ALCA e sim uma nova táctica para impor o domínio sobre a América Latina e tornar irreversível a política neoliberal, quer com um ou com outro nome.

A ALCA é muito mais do que um acordo para criar uma Área de Livre Comércio. É um projecto do dominação continental, um esquema para o saque sistemático da região, uma concepção sobre o desenvolvimento socio-económico e sobre a soberania e as funções dos estados nacionais.

A ALCA "suave" pode ser mais perigosa porque por trás da sua aparente suavidade permanece intacta a concepção neoliberal essencial, os temas que constituem a agenda predilecta dos que propõem este projecto, a miragem do falso desenvolvimento mediante uma economia e uma sociedade de mercado.

É ainda mais perigoso porque, utilizando outra via da negociação, o governo dos Estados Unidos transfere sua maior pressão para os Acordos Bilaterais de Livre Comércio. Com isto esquiva-se à maior complexidade e conflito que podem decorrer de uma negociação colectiva, coloca a negociação em condições da máxima desigualdade em seu favor, enquanto mantem o propósito da ALCA total no prazo da sua eleição e cerca e isola mediante uma rede de Acordos Bilaterais os países que fazem resistência.

A ALCA "suave" não surgiu pela força de posições latino-americanas para demolir os fundamentos do projecto norte-americano.

A recusa em negociar os temas de grande interesse estratégico para os Estados Unidos e que exprimem o núcleo da dominação e do anti-desenvolvimento (investimentos, serviços, propriedade intelectual, compras governamentais e política de competição) não foi tomada pela colocação de outra concepção diferente ou oposta e sim como posição negociadora para obter o acesso ao mercado agrícola estadunidense.

FORMATO TUBARÃO-SARDINHA

Por outro lado, os Acordos Bilaterais não são senão pequenos ALCAs cortados à medida da grande potência, isto é, ainda piores que o original por serem o resultado de uma democrática e justa negociação com formato tubarão-sardinha com sardinha. Ainda que neste caso, e para maior desgraça, as sardinhas tenham adoptado a ideologia do tubarão e acreditem que o seu destino manifesto é engordá-lo.

O que se disse anteriormente enfatiza a necessidade de manter e multiplicar as mobilizações e as acções contra a ALCA, mesmo que esta surja sob aparência suave, ou seja, Acordos Bilaterais de Livre Comércio.

Tal como depois de se verem obrigados a retirar o projecto de Acordo Multilateral de Inversões (AMI) o governo dos Estados Unidos continuou a tentar introduzir os seus conteúdo em vários cenários e mediante diversas formas, dentre elas a ALCA, agora tenta alcançar o seu objectivo de subjugar a América Latina e o Caribe com a ALCA "suave" e Acordos Bilaterais.

Nenhuma ALCA — seja suave ou dura na sua aparência — enquanto projecto para consolidar o domínio imperialista, espalhar o anti-desenvolvimento neoliberal, saquear nossos recursos e empobrecer e humilhar os latino-americanos, deve ser legitimada nem deve deixar de ser combatida pois o que queremos não é simplesmente um inferno um pouco mais suave e sim outro mundo melhor.

O ano de 2004 será decisivo para o desenlace desta batalha contra a ALCA.

Os partidários da ALCA avançam firmando Acordos Bilaterais de Livre Comércio e espera-se que tornem claro como fazer andar a chamada ALCA "suave". A Campanha Continental contra a ALCA, como parte integrante dos esforços da Aliança Social Continental, não pode ficar para trás nesta competição pelo direito à vida.

Deve ser capaz de mobilizar os povos estabelecendo em cada país os nexos entre os temas continentais e a sua realidade nacional, bem como explicar em termos não académicos ao latino-americano vítima da política que a ALCA reforçaria a legião de pobres e excluídos aos quais a manipulação mediática aturde e desorienta, que a ALCA — com qualquer nome que adopte —, é uma tragédia que podemos evitar se a derrotarmos.

A Campanha Continental contra a ALCA demonstrou ser uma força que não pode ser ignorada. Em Quebeque, em Quito, em Cancún, em Miami, desafiando bombas lacrimogéneas, balas de borracha, cercas de aço, pancadas, detenções e ameaças de todo tipo, os movimentos sociais com os seus modestos recursos deram lições de valor e dignidade.

Em Miami as autoridades gastaram 8,5 milhões de dólares num aparato repressivo tão desmesurado que foi a melhor demonstração do medo que lhes inspira o movimento popular.

As organizações sociais cubanas que integram o Capítulo Cubano da Aliança Social Continental, actuando como Comité Organizador deste III Encontro, reitera-lhes as boas vindas e exprime alegria por acolhe-los aqui sem cercas de aço nem bombas lacrimogéneas, com a confiança e a esperança depositada em vós para que em momento não longínquo compartilhemos todos nós o mundo melhor e possível sem ALCA, sem neoliberalismo e sem amo, que os cubanos temos o privilégio de conhecer, mas que seria ainda mais belo se fosse realidade compartilhada por todos os países da América Latina.

O governo dos Estados Unidos ruge ameaçador contra Cuba. Inclui-nos como integrante do eixo do mal, qualifica-nos como violadores dos direitos humanos, como antidemocráticos, e recentemente concedeu-nos outro galardão: o de conspiradores para desestabilizar governos democráticos da América Latina.

Cumulam-nos de honras com as suas mentiras. Elas são a prova de que os aterroriza a posse pela Revolução Cubana de uma arma para eles devastadora: o exemplo de um povo que durante 45 anos resistiu a tudo e demonstrou que é possível fazer muito com muito pouco.

Esse povo saúda a todos vós, num grande abraço solidário, e os acolhe como irmãos e irmãs na Pátria de José Marti.

[*] Discurso na sessão de abertura do III Encontro Hemisférico de Luta contra a ALCA, inaugurado em 26/Jan/2004 no Palácio das Convenções, em Havana, com a presença de mais de 1000 delegados de 32 países da América Latina.

O original encontra-se em
http://www.granma.cubaweb.cu/2004/01/27/nacional/articulo08.html .
Intertítulos da responsabilidade de resistir.info. Tradução de JF.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

30/Jan/04