Como é belo o mundo livre!
Pródigo em boas palavras, o Ocidente pretende ser a
personificação dos valores universais. Este modelo de democracia,
este campeão de "direitos humanos" apela sempre às suas
supostas virtudes em apoio das suas pretensões hegemónicas.
É como se uma boa fada se atarefasse a fazer coincidir a sua moral com
os seus interesses, revestindo as suas ambições com as roupagens
da justiça e do direito. É assim que o "mundo livre"
bombardeia países estrangeiros com fins "democráticos",
mas de preferência países ricos em petróleo, gás ou
recursos minerais. Combinando a fé com a rapacidade capitalista, age
como se pudesse converter o seu poder económico em privilégio
moral.
O resto do mundo não é fácil de enganar, mas não
importa. O "mundo livre" tem sempre razão, porque está
do lado do Bem, e não arrisca ser contraditado, enquanto for o mais
forte pelo menos é o aquilo em que acredita tão firmemente
como ferro. A barbaridade congénita que atribui aos outros é o
inverso do seu autoproclamado monopólio da civilização.
Aureolado do sacrossanto "direito de ingerência", este
casamento bem-sucedido de saco de areia à maneira dos GI e do saco de
arroz à maneira Kouchner
[NR]
, o Ocidente tornado vassalo por Washington imagina sem dúvida que salva
o mundo, submetendo-o à implacável razia exigida pelos abutres da
finança e as multinacionais do armamento.
Este objectivo de domínio, sabemos, não começou ontem.
Inscreve-se no longo período histórico caro a Fernand Braudel, da
constituição de uma "economia-mundo". Objectivo de
longo alcance do mundo ocidental pela sua vantagem tecnológica, e
iniciado desde a "Renascença" para a conquista de todo o
planeta. Pacientemente, apropriou-se do mundo dos outros, moldou-o à sua
imagem, obrigou-o a obedecer-lhe ou a imita-lo, eliminando de passagem todos os
que julgou não assimiláveis. Sem que este estratagema de enganos
viesse perturbar as suas certezas, o Ocidente pensa-se como uma metáfora
do mundo. Ele era apenas uma parte, mas quer ser o todo, da mesma forma que
hoje países que não representam mais que 10% da
população mundial, se assumem como a "comunidade
internacional".
A conquista colonial ilustra ao longo dos três últimos
séculos esta propensão do Ocidente para estender sua
influência para além das suas fronteiras, alegando levar os
benefícios da "civilização". Este projecto de
dominação global foi posto em xeque pela revolta generalizada dos
povos colonizados no século XX, mas conheceu uma segunda hipótese
com a excrescência norte-americana. A "América", este
extremo Ocidente descoberto por um Cristóvão Colombo em busca do
Extremo Oriente, herdou do velho continente, a sua ambição
conquistadora e a sua ganância comercial. Convertendo a sua
ausência de passado em promessa de futuro, estes "EUA" surgidos
do nada na atmosfera do puritanismo anglo-saxónico têm ampliado
essa ambição tudo unificando em seu proveito. Ao preço do
genocídio dos nativos americanos, a "América" tornou-se
assim a nova metáfora do mundo.
Não é certo que o mundo tenha ganho com a troca. Os
impérios coloniais sucumbiram ao seu arcaísmo
insuportável, enquanto a hegemonia americana é exercida,
através dos múltiplos canais da modernidade tecnológica,
do Google aos drones de combate. De repente, parece ao mesmo tempo mais
dúctil e mais tenaz. O que lhe dá flexibilidade também lhe
fornece persistência. Entre o capacete branco do administrador colonial
europeu e o visor digital da cibernética militar dos EUA, ocorreu uma
revolução que substituiu uma dominação abrupta,
liquidada por uma descolonização sangrenta, por um negócio
hegemónico multiforme. Herdeiros dos três "M" do
colonialismo clássico, as ONG feitas nos EUA substituíram os
"missionários" cristãos, os "mercadores"
tornaram-se multinacionais e os "militares" são agora
revestidos de alta tecnologia.
Fortes da boa consciência tacanha dos "nascidos de novo" do
Middle West, o império americano projecta hoje no mundo o seu
maniqueísmo devastador. De olhos abertos sonha com uma partilha final
entre os bons e os maus, pilar inabalável de um etnocentrismo sem
complexos. O direito está forçosamente do seu lado, uma vez que
incorpora os valores fundamentais da "democracia liberal",
"direitos humanos" e "economia de mercado". É
claramente uma ideologia bruta, máscara fraudulenta dos interesses mais
sórdidos, mas devo admitir que é eficaz. Se assim não
fosse, haveria poucas pessoas no mundo a acreditar que os EUA ganharam a
Segunda Guerra Mundial, que o capitalismo é um bom sistema, que Cuba
é um Gulag tropical, que Assad é pior do que Hitler e que a
Coreia do Norte ameaça do mundo.
Desta presumida intimidade com o Bem os acólitos do Império
Norte-Americano deduzem logicamente um direito preventivo de caça ao Mal
em todas as latitudes. Nenhum escrúpulo deverá inibir o seu
frenesim salvador, a civilização no singular de que acredita ser
a encarnação leva a prerrogativa expressa de reduzir a
barbárie por todos os meios. É assim que o imperialismo
contemporâneo funciona como uma espécie de tribunal universal, que
distribui recompensas e inflige punições a quem bem lhe parece.
Neste tribunal altamente "moral" a CIA ocupa lugar de juiz de
instrução, o Pentágono o de braço secular e o
Presidente dos Estados Unidos de juiz supremo, espécie de
"deus ex machina"
duma justiça divina que fustiga com raios os supostos do "eixo do
mal"' e outros que causam problemas ao bom funcionamento do
"Império do Bem" nas sua traseiras.
Manifestamente esta tendência para se considerarem a
personificação da Moral situa-se do lado das estruturas, porque a
sucessão conjuntural e agitada dos inquilinos da
"Casa Branca" nada muda. Em Washington, a cruzada contra os
bárbaros serve invariavelmente de máscara à cupidez sem
limites do complexo militar-industrial e ao objectivo secular do Estado
profundo de Harry Truman a Donald Trump passando por Barack Obama. Da Coreia
à Síria, passando pelo Vietname, Indonésia, Angola,
Moçambique, El Salvador, Nicarágua, Chile, África do Sul,
Sérvia, Afeganistão, Sudão, Somália, Iraque e
Líbia, a morte é administrada directamente ou através ou
de "servidores" para todos aqueles que se opõem ao reinado da
"justiça universal".
Para executar o seu trabalho sujo, a "América" benfeitora tem
sabido usar mão-de-obra local. Franco, Hitler e Mussolini (até
1939), Chiang Kai-Kak, Somoza, Syngman Rhee, Ngo Dinh Diem, Salazar, Batista,
Mobutu, Marcos, Trujillo, Pik Botha, Duvalier, Suharto, Papadopoulos, Castelo
Branco, Videla, Pinochet, Stroessner, Xá Reza Pahlevi, Zia Ul Haqq, Bin
Laden, Uribe, rei Salmane, Netanyahu, os nazis ucranianos e os
"terroristas moderados" do Médio Oriente têm fornecido
uma ajuda valiosa.
Líder incontestado do maravilhoso "mundo livre", a
"América" pretende encarnar a civilização no
momento em que ameaça populações inteiras com armas
atómicas, napalm ou mísseis de cruzeiro, em vez de infligir a
morte lenta pelo agente laranja, urânio enriquecido ou embargo sobre
medicamentos. E não tem falta de zeladores, jurando que presta
serviços insubstituíveis à humanidade, enquanto obviamente
a derrota deste Império criminoso seria uma excelente notícia.
12/Agosto/2017
[NR] Bernard Kouchner: político francês, fundador dos
Médicos Sem Fronteira.
[*]
Analista político, francês, ver
Wikipedia
.
O original encontra-se em
www.legrandsoir.info/qu-il-est-beau-le-monde-libre.html
. Tradução de DVC.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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