Os melhores livros de 2017
No ano passado tivemos alguns livros importantes e seminais sobre a teoria económica marxista
, incluindo a compilação perene de Anwar Shaikh,
Capitalism, competition, conflict and crises
(em que me aprofundo regularmente);
Money and Totality
de Fred Moseley, uma obra-prima de defesa da teoria do valor de Marx;
Finance Capital Today
, de François Chesnais, que descreve as tendências actuais na
finança moderna; bem como as grandes contribuições de Tony
Norfield (
https://www.versobooks.com/books/2457-the-city
) e John Smith (
Imperialism in the 21st century
).
É difícil competir com isto em 2017. Entretanto, este ano
verificou-se a comemoração dos 150 anos da
publicação do Volume Um de
O Capital
de Marx, de modo que houve alguns livros importantes.
Do meu ponto de vista,
A Readers Guide to Capital
, de Joseph Choonara, foi o mais claro e conciso de todos os vários
guias ou video-leituras que estão disponíveis ou
foram publicadas este ano. Choonara conduz o leitor através de cada
capítulo do Volume Um com alguma análise clarificadora e
comentários relevantes para ajudar. Choonara diz que "ele se
destina a ser lido em paralelo com o próprio Capital, com cada
capítulo deste consultado antes ou depois de digerir as
secções relevantes do trabalho de Marx". O objectivo, ao
contrário da abordagem mais abrangente de Harvey nas suas
vídeo-leitura, é "ao invés concentrar-se naquelas
áreas que são as mais vitais para um entendimento geral do
trabalho e aquelas que mais frequentemente confundem, aproveitando minha
própria experiência de ensino de
O Capital
para públicos de trabalhadores e estudantes de esquerda durante a
última década". Pois, na visão de Choonara, Marx
tentou no
Capital
ver o capitalismo do ponto de vista do trabalho e voltado para um
público da classe trabalhadora.
O Capital
claramente atinge o primeiro objectivo, mas se cumpre o seu objectivo de
alcançar leitores da classe trabalhadora é mais duvidoso. O guia
de Choonara pode ajudar nisso.
Certamente obtive mais do guia de Choonara do que consegui de
Marx's Inferno
, de William Clare Roberts, que este ano ganhou o
prémio memorial Isaac Deutscher
. Utilizando o tema de Marx do inferno de Dante para descrever as iniquidades
do capitalismo, Roberts apresenta-nos uma "teoria política do
capital". Não estou seguro quanto ao valor desta abordagem. Como
diz David Harvey
na sua revisão do livro
, "Minha objecção mais séria é que Roberts
isola o Volume 1 do
Capital
como um texto independente e procura interpretá-lo ignorando a sua
relação com outros trabalhos de Marx". E o tema do inferno
tem pouco a ver com a teoria económica de Marx, excepto se se aceitar a
interpretação de
Michael Heinrich (a meu ver incorrecta)
da teoria do valor de Marx.
Se se quiser teoria económica marxista, há
a publicação por Rick Kuhn dos ensaios de Henryk Grossman
sobre dinâmica económica, a teoria das crises de Sismondi e sobre
várias tendências na análise económica burguesa.
Isto ajuda-nos a perceber quão perceptiva é a análise do
capitalismo de Marx quando comparada com a burguesa convencional e a dos
socialistas utópicos. A análise de Marx destrói a ideia de
que tudo possa ser explicado por trocas e mercados. É preciso aprofundar
abaixo da superfície até o processo de produção, em
particular até a produção de valor (valor de uso e valor
de troca). Como afirma Grossman: Marx enfatiza a importância decisiva do
processo de produção, encarado não meramente como um
processo de valorização mas ao mesmo tempo como um processo de
trabalho... quando o processo de produção é encarado como
um mero processo de valorização como na teoria
clássica ele tem todas as característica do
entesouramento, fica perdido na abstracção e já não
é mais capaz de agarrar o processo económico real" p.156.
Apesar do poder da análise de Marx, são ainda as
ideias de Keynes que dominam o pensamento de economistas heterodoxos
que se opõem à corrente convencional. E isto não é
por acidente. Num livro excelente, Geoff Mann, da Simon Fraser University,
apresenta uma
explicação refinada da dominância de Keynes nos movimentos trabalhistas e de esquerda
. No seu,
In the Long run we are dead
, Geoff argumenta que Keynes domina porque oferece um terceiro caminho entre a
revolução socialista e a barbárie, isto é, o fim da
civilização como "nós (realmente os burgueses como
Keynes) a conhecemos". Isto recorria (e ainda recorre) aos líderes
do movimento trabalhista e "liberais" desejosos de mudança. A
revolução é arriscada e poderíamos afundar com ela.
Mann: "a esquerda quer democracia sem populismo, quer políticas
transformadoras sem os riscos da transformação; quer
revolução sem revolucionários" (p.21).
O que Mann argumenta é que a análise económica keynesiana
domina a esquerda apesar das suas falácias e fracasso porque ela exprime
o temor que muitos dos líderes do movimento trabalhista têm quanto
às massas e à revolução. Como exemplo, leia-se o
livro mais recente do importante keynesiano James Kwak,
Economism
. Kwak cita Keynes: "Para a maioria, penso que o capitalismo, sabiamente
administrado, pode provavelmente ser tornado mais eficiente para atingir
finalidades económicas do que qualquer sistema alternativo ainda
à vista, mas isso em si mesmo é sob muitos aspectos extremamente
objectável. O nosso problema é formular uma
organização social que seja tão eficiente quanto
possível sem ofender nossas noções de um modo de vida
satisfatório". E
Kwak comenta
: "Isso permanece como o nosso desafio actual".
Para ser justo, não é opção fácil para uma
política económica que ameace a ordem estabelecida. Um inferno se
seguirá a partir dos media e instituições burguesas. No
livro autobiográfico do ano, o economista Yanis Varoufaki, ministro das
Finanças grego durante a crise do euro de 2015, esboçou os
encontros tortuosos e labirínticos que teve com o Euro grupo ao tentar
combater o inferno que a Troika do FMI, BCE e UE pretendiam impor à
Grécia.
Adults in the room, my battle with Europe's deep establishment
, é um relato personalizado, para dizer o mínimo. A
análise de Varoufakis da crise e a sua justificação para o
que aconteceu (a capitulação do governo Syriza e a sua
demissão do governo) contém todas as marcas do seu
marxismo errático
(na sua própria definição). A sua batalha foi perdida,
mas a guerra continua.
O ano de 2017 foi também o primeiro do reino de Donald Trump sobre o
capital estado-unidense. Um dos seus objectivos chave era desregulamentar o
sector dos negócios e das finanças das restrições
(curbs)
que o Congresso havia imposto (em alguma medida) após o crash
financeiro global. Desregulamentação interna, mas proteccionismo
no exterior. O livro de Brett Christophers,
The Great Leveller
, examina esta tensão dinâmica entre libertar o capital da
regulamentação e ainda assim assegurar que ele não deita a
casa abaixo. Christopher argumenta que nesta dinâmica, medidas legais
têm um papel subvalorizado na tentativa de preservar um
"equilíbrio delicado entre competição e
monopólio", o qual é necessário para "regular os
ritmos da acumulação capitalista". O tema que Christophers
destaca é o papel da lei na redução das
oscilações anárquicas entre monopólio excessivo e
competição ruinosa em diferentes períodos do capitalismo.
Isto é uma nova visão.
Mas este foi o ano do 150º aniversário e não poderia passar
sem um novo livro de David Harvey, o mais influente marxista de hoje, sobre o
Capital.
No seu
Madness of Economic Reason
, Harvey mostra sua visão mais recente do esquema de Marx no
Capital.
Trata-se de um livro bem escrito, fácil de ler e não demasiado
longo. E há muita leituras em vídeo de DH sobre os argumentos
principais no livro.
Harvey apresentou sua tese mais recente na conferência Capital.150
, organizada em Setembro por este blogue e o Kings College.
DH argumenta que o Volume Um do
Capital
trata apenas da parte de produção do circuito (a
produção de valor e valor excedente). O Volume Dois trata da
realização e circulação do capital entre sectores
na sua reprodução, enquanto o Volume Três trata da
distribuição daquele valor. E apesar de Marx fazer uma grande
análise da parte da produção, seus volumes posteriores
não estão completos e foram dispostos
(scratched)
juntos por Engels. Portanto, segundo DH, a análise de Marx não
chega a explicar desenvolvimentos no capitalismo moderno. Agora no
século XXI, as crises sob o capitalismo são pelo menos tão
prováveis, se não mais ainda, de encontrar na ruptura da
circulação ou na realização do valor excedente do
que na sua produção. E assim as crises agora acontecem mais
provavelmente na finança e no incumprimento de dívida, devido
à "financiarização".
Quem ler o meu blogue, incluindo a mensagem nesta conferência e debates
anteriores com Harvey sobre estas questões, saberá que
não concordo com a sua visão do Capital
. Argumento que a produção de valor excedente e a
acumulação de capital permanecem centrais na
explicação de Marx do capitalismo e das suas
contradições que levam a crises recorrentes. Como disse Marx:
"O lucro da classe capitalista tem de existir antes que possa ser
distribuído". A produção de valor não
é, como argumenta DH, "uma pequena fatia de valor em
movimento" mas sim a maior, tanto conceptualmente para Marx como
também quantitativamente, porque em qualquer economia capitalista 80% do
produto é composta de meios de produção e de bens
intermediários quando comparado com o consumo. Na minha visão, a
luta de classe no lugar de trabalho permanece no centro do capitalismo porque
é a luta acerca da divisão do valor entre valor excedente e a
fatia do trabalho, como mostrou Marx no Volume Um.
21/Dezembro/2017
[*]
Economista.
O original encontra-se em
thenextrecession.wordpress.com/2017/12/21/best-books-of-2017/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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