por Jean-Marie Harribey
[*]
A Bolsa impressiona as imaginações pelos milagres que parecem ali
verificar-se. A crise, quando chega, inexoravelmente, destrói os sonhos
que então se transformam em pesadelos. Como percebê-la quando a
ficção mistura-se à realidade? Aqui, numa sequência
de cinco cenas, compostas de diálogos muitas vezes reais e um pouco
imaginários mas quão verdadeiros...
Primeira cena: Por um punhado de dólares
Estamos nos fins dos anos 1970. Estão reunidos num hotel de luxo cujo
nome não é revelado os mais altos responsáveis da
Comissão Trilateral, a maior parte deles membros do Grupo Bilderberg.
Dentre eles, David Rockefeller e Henry Kissinger, iniciadores desta
Comissão, Paul Volcker, presidente da Reserva Federal (Fed), banco
central americano. Estão rodeados por Jacques Delors, presidente da
Comissão económica e monetária do Parlamento Europeu,
futuro presidente da Comissão Europeia, Raymond Barre, primeiro-ministro
francês, personalidades influentes das instituições
internacionais e dos meios de negócios, inclusive Klaus Schwab, fundador
do World Economic Forum, o fórum económico mundial de Davos.
Não há senão homens na sala, excepto as que servem
salgadinhos.
David Rockefeller inicia a discussão:
"Senhores, agradeço-vos terem respondido ao meu convite.
Convidei-vos para esta troca de pontos de vista porque a situação
económica do mundo democrático é grave. Todos nós
sabemos que a democracia é inseparável da liberdade de
empreender, à qual somos ligados. Ora, os indicadores são maus.
O mais importante, para a confiança dos investidores, é a taxa de
rentabilidade dos fundos próprios que os nossos adversários
chamam a taxa de lucro, como se esta palavra implicasse uma carga negativa,
quando na verdade é o barómetro económico. Infelizmente,
desde há dez anos, ela está em baixa porque não chegamos a
melhorar a produtividade ao ritmo em que os nossos investimentos aumentam. A
situação deve ser corrigida muito rapidamente se não
quisermos que ela arraste a consequências geopolíticas que
não poderíamos dominar. Aquilo que se passa na frente petroleira
não se ajusta a nada: dois choques num intervalo de cinco anos,
é difícil de encaixar. Volto-me para o nosso estratega, Sr.
Kissinger: os Estados Unidos estão à altura de enfrentar estes
perigos?"
Henri Kissinger ajusta os óculos e começa uma
exposição académica:
"Os Estados Unidos são e permanecerão a primeira
potência mundial. Todas as nossas energias estão tensas para a
vitória do mundo livre. A CIA fez no Chile em 1973 o que era preciso
para eliminar o regime marxista de Allende e colocar Pinochet no seu lugar, que
logo trouxe de volta este país ao nosso campo e testou as novas
políticas liberais sob os conselhos dos nossos Chicago boys. Com os
regimes militares do Brasil e da Argentina mantemos solidamente a
América do Sul. É verdade, tivemos de ceder no Vietnam, mas
prevemos que toda a Ásia inclinar-se-á para a economia de
mercado. No plano económico, em 1971 o presidente Nixon partiu o vidro
do sistema monetário internacional abandonando definitivamente o ouro,
esta "relíquia bárbara". Ah, que grande
visionário este Keynes, nós, da nossa parte, pusemos o
dólar no seu lugar. Foi um belo golpe, pois constatais que, com um
dólar flutuante, passámos em alguns anos a câmbios
flutuantes que convêm melhor à circulação dos
capitais que libertámos dos entraves que a conferência de Bretton
Woods instaurara em 1944".
O Sr. Volcker, novo presidente da Reserva Federal, pede a palavra:
"Este programa choca-se com um obstáculo de peso: a
inflação com dois algarismos que reina em todos os países
livres espolia os credores e retira toda visibilidade aos investidores. Para
restabelecer a situação dos credores e dos accionistas precisamos
romper com urgência esta inflação, mesmo porque ela
encoraja os sindicatos nas suas reivindicações. Proponho-vos um
plano draconiano: eu triplico ou quadruplica a taxa directora do Fed e fecho
assim a torneira do crédito que, como mostrou muito bem o Professor
Milton Friedman, não pode senão alimentar a alta dos
preços. Em algumas semanas, quando muito em alguns meses, todo o
sistema bancário mundial seguirá o mesmo caminho".
O Sr. Rockfeleller manifesta um gesto de inquietação:
"Não teme o senhor uma redução da actividade
económica? O que dizem os nossos dirigentes de empresas?". E
interroga com o olhar o Sr. Klaus Schwab, que há alguns anos
lançara o fórum de Davos.
O Sr. Schwab faz um relatório do último encontro de Davos:
"Os administradores das grandes firmas estão inquietos.
Eles interrogam-se acerca das estratégias seguidas pelos governos e
nelas não vêm nem coerência, nem tentativa de
coordenação. Alguns Estados abriram uma nova rota ao abandonar
políticas keynesianas de incentivos que já não funcionam,
outros ainda a elas de aferram. Nossos dirigentes de empresas estão
convencidos de que quebrar a inflação é uma
condição necessária, mas não suficiente". (O
Sr. Volcker presta atenção, com receio de uma
desaprovação do seu plano). "Eles preconizam além
disso romper o paralelismo entre a evolução dos salários e
a da produtividade do trabalho" (O Sr. Volcker, aliviado, opina para o
chefe): "Sobretudo na Europa, onde um sistema social obeso deve ser
emagrecido".
O Sr. Raymond Barre, que deixara de cochilar, sobressalta-se:
"Eu, que sou o melhor economista da França, vos afirmo
que a cura de austeridade que acabo de impor, nos planos que têm o meu
nome, Barre I, Barre II e Barre III, será lucrativa, digo muito bem,
lucrativa, e sei do que falo, pois está escrito no meu manual de
economia, que, espero, já terão lido". Volta a dormir.
Jacques Delors, o bem pensante de esquerda, intervém:
"Meu colega e amigo Raymond Barre tem razão. Para dar as
melhores oportunidades de êxito à austeridade necessária
meditei com os comissários europeus acerca da realização,
nos próximos quinze anos, do Mercado Único europeu. Garanto-vos
que será o melhor meio de impor a liberalização a um corpo
social recalcitrante". Fecha os olhos põe-se a sonhar em voz
alta: "Escrevi um Livro Branco que prefigurará o Acto Único
que será o meu tratado favorito
[1]
. Para preparar a integração monetária farei adoptar um
pacote Delors I, depois um pacote Delors II, e teremos a moeda única e
um banco central independente. Na verdade, digo-vos, instalarei a Europa na
mundialização liberal. Se Barre não tiver êxito,
tenho eu o meu guia para o caminho: 1) desindexarei os salários em
relação aos preços, coisa que nenhum governo de direita
é capaz de fazer com que os sindicatos aceitem; 2) imporei um plano de
rigor; 3) convencerei meus amigos socialistas que o mercado é
inultrapassável".
[2]
Todos estremecem de prazer e o Sr. Rockefeller esboça uma síntese:
"Senhores, acabámos de desenhar um novo curso da
história. O do liberalismo, quero dizer o da liberdade. O controle dos
capitais é abolido por toda a parte, os mercados financeiros
estão abertos, os bancos centrais vão aumentar suas taxas
directores. Todo país que pedir crédito internacional
deverá cumprir um programa de liberalização. Este
é o aspecto financeiro. Passemos ao aspecto económico:
uma vez
que a abertura das fronteiras reforça a concorrência, as
privatizações devem estender-se a todos os sectores, nomeadamente
da energia e dos transportes, ver-se-á mais tarde quanto à
educação e a saúde. Resta o aspecto social. Sob a
cobertura da desindexação dos salários em
relação aos preços, faremos passar a desconexão dos
salários em relação ao valor acrescentado. A fim de que
isto não se veja demasiado, agiremos pela via da baixa dos encargos
sociais que pagam uma protecção demasiado onerosa num mundo cada
vez mais concorrencial. Quanto ao resto, tenhamos confiança na
dinâmica própria da economia de mercado. Senhores, deveremos
reencontrar-nos para verificar a boa execução deste programa que,
afirmo-vos, abre-nos um novo caminho. Será preciso que eu peça a
um dos nossos pensadores, o Sr. Francis Fukuyama, para nos escrever um artigo
mostrando que o fim da história é o começo da nossa".
Segunda cena: Era uma vez no Sul
A cena desenrola-se na sede da Organização Mundial do
Comércio (OMC), em Genebra, nos fins dos anos 1990. O director da OMC,
o Signor Renato Ruggiero, o do Fundo Monetário Internacional (FMI), Sr.
Michel Camdessus, e o do Banco Mundial, Sr. James Wolfensohn, dão uma
conferência de imprensa para precisar as apostas da conferência
ministerial da OMC, que deve ter lugar em Seattle dali a algumas semanas.
O Signor Renato Ruggiero, como director da OMC, abre a
conversação com os jornalistas:
"As negociações internacionais estão bem
encaminhadas e temos esperança de abolir todas as barreiras
alfandegárias que subsistem nos produtos agrícolas e nos
serviços".
Um primeiro jornalista levanta a mão, em nome do
Guardian:
"Não pensa o senhor que a supressão das
protecções alfandegárias que ainda beneficiam os
camponeses dos países em vias de desenvolvimento lhes será
gravemente prejudicial?"
O Signor Ruggiero responde imediatamente:
"A experiência mostra que, a longo prazo, a
concorrência beneficia todos. Num primeiro tempo, é verdade que o
camponês peruano que quiser vender o seu saco de trigo no mercado mundial
ou o camponês tailandês que quiser fazer o mesmo com a sua mandioca
não poderão pois entrarão em concorrência com os
grandes produtores americanos e europeus que produzem intensivamente, a menor
custo, e que beneficiam de grandes subvenções. Eles serão
portanto arruinados e deverão imigrar para as megalópoles. As
grandes firmas disporão então de uma mão-de-obra barata,
todos os custos de produção baixarão e o poder de compra
de todos aumentará. O mercado equalizará as
condições".
O representante do
Financial Times
interroga, céptico:
"Será isso suficiente, uma vez que os pobres dos bairros
de lata contentam-se com pouco, os centros médicos dispensam-lhes
cuidados gratuitos e seus filhos vão à escola
pública?"
O Sr. Camdessus, director do Fundo Monetário Internacional, responde:
"O senhor tem razão. Isto ainda é frequente. Mas,
com Sua Excelência o Sr. Director do Banco Mundial, nós exigimos
da parte dos países pobres a diminuição das suas despesas
políticas e sociais contra a concessão de empréstimos
internacionais. Todo novo empréstimo é condicionado pela
execução de um Plano de Ajustamento Estrutural. É
verdade, a dívida do terceiro mundo progrediu e atingiu 2500 mil
milhões, mas toda infelicidade tem alguma coisa de bom: isto
proporciona receitas aos bancos ocidentais. O senhor pode dizer aos seus
leitores que revendam os seus investimentos éticos".
O Sr. Wolfensohn, director do Banco Mundial, confirma:
"Revender com um lucro, é o mais moral. Com efeito, se se
enriquecer muito os ricos, isto eleva mais o nível mundial do que se se
conceder algumas ajudas aos pobres que não têm senão poucas
necessidades e que de qualquer forma são demasiado numerosos.
[3]
Dá-se demasiada importância à diminuição
da taxa de inscrição nas escolas primárias dos
países africanos que aplicaram nossos planos e ao aumento da taxa de
mortalidade infantil em alguns deles. Mas é o preço pagar para
aguardar o restabelecimento dos equilíbrios financeiros, há agora
o Consenso de Washington acima disso".
O enviado especial de
L'Osservatore romano
levanta-se e pergunta:
"Como o ajustamento se compatibiliza com a justiça?"
O Sr. Camdessus, crente convicto, responde, hipocritamente:
"Ajustar, em economia, significa cortar. E estrutural significa
social. Ajustar o estrutural é, portanto, cortar o social. Mas estas
reformas são necessárias, é como recuar para saltar
melhor. Os salários devem permanecer fracos no Sul pois os fundos de
pensão devem trazer de volta lucros para pagar as
aposentações no Norte, a partir do momento que tivermos reduzido
as aposentações por repartição que criam demasiada
segurança no corpo social
[4]
. E os salários no Norte devem baixar para permanecerem competitivos
com aqueles do Sul. Isto é lógico, não é?"
Um jornalista brasileiro, de
O Globo,
objecta:
"A revolta grassa nas favelas e os Sem Terra organizam-se".
O Sr. Camdessus faz-se mais conciliador:
"Asseguro-vos que a nossa equipe de comunicação
prepara um vídeo sobre a mundialização com rosto
humano".
O Sr. Wolfensohn, mais incisivo:
"Como os proprietários dos latifúndios têm os
meios de tratar o que é mais urgente caso as ocupações de
terra se multipliquem, nosso objectivo , evidentemente, é evitar ao
maior número aquilo que aconteceu a Chico Mendes".
O Signor Ruggiero encerra a conferência de imprensa:
"Senhoras e cavalheiros,
we make an appointment in Seattle next
month.
O encontro está marcado para o próximo mês".
Terceira Cena: Rumo a alguns dólares suplementares
Nos anos 2000, na sede do banco de negócios Merril Lynch, em Nova York,
estão em conciliábulo com o
seu presidente, Sr. Stanley Inthesky, o Sr. Dan Button, presidente da General
Society, banco de negócios francês, o Sr. Adam Junkapple,
presidente da Northern Rock, banco britânico especializado em
empréstimos imobiliários, e Herr Joseph Bauer, presidente do
Deutsche Bank.
O Sr. Stanley Inthesky recebe seu convidados:
"Senhores, welcome. Nós não escondemos, desde a
explosão da bolha da Internet e da evaporação da nova
economia, que aliás precederam os atentados do 11 de Setembro de 2001,
que a economia americana tem dificuldade em relançar-se, a do
Japão eterniza-se na estagnação, e a Europa enfraquece.
É verdade, nossos envolvimentos múltiplos em
operações financeiras muito diversificadas garantem valor para
nossos accionistas.
As compras de empresas a crédito, conforme a técnica
experimentada do
Leverage buy out,
são uma alavanca mágica para aumentar a rentabilidade dos
fundos próprios. Mas, para alavancar, é preciso que haja alguma
coisa para alavancar. Ora, se nós não encontrarmos o meio de
substituir o consumo das famílias ricas por aquele das mais modestas, a
máquina económica ficará bloqueada".
O Sr. Button espanta-se num franglês impecável:
"What? Do you want invent again the fordism?"
Instala-se um silêncio. A seguir o Sr. Junkapple bate na testa e diz:
"Tenho uma ideia.
A good idea.
Não é preciso
aumentar os salários dos pobres, mas é preciso dar-lhes
crédito".
Herr Bauer interrompe-o:
"Não se empresta senão aos ricos".
O Sr. Junkapple não o ouve e prossegue:
"É preciso emprestar aos pobres. Por exemplo, para que
eles possam comprar o seu alojamento. Tomaremos hipotecas sobre o
imóvel. Ou eles reembolsarão e pagarão os juros que
teremos o cuidado de prever com taxa variável. Ou então
arrestaremos as suas propriedades, cujo preço terá subido.
Em ambos os casos seremos os ganhadores. Nesse ínterim, teremos
coberto o nosso risco revendendo nossos títulos hipotecários. O
mercado será tomador pois o ambiente é favorável à
titularização. Para fazer com que os aceitem, nós os
dispersaremos em meio a outros títulos. O risco está sobretudo
no subprime. É melhor disseminar o risco".
Herr Bauer conta nos dedos e resmunga entre dentes:
"1) Eu empresto a famílias pouco solventes. 2) O mercado
imobiliário arde. 3) Eu misturo e titularizo. 4) Todos os bancos e
todos os fundos especulativos compram-me. 5) Se a construção for
mal nos Estados Unidos, o mercado virará. 6) Os títulos
financeiros não valerão mais nada". Em alta voz: "Meu
conselho de administração vai hesitar".
O Sr. Button, autor de um memorável relatório sobre a boa
governação dos bancos, responde:
"Basta compensar os riscos por ganhos obtidos graças a
posições tomadas sobre os índices bursáteis que
estão todos em alta. Eu tenho debaixo da mão um trader
conhecido. Ninguém desconfiará dele, pois vem do
back office,
eu o enviarei ao
front
".
O Sr. Inthesky imagina um céu livre destas nuvens e conclui:
"No princípio era a poupança. No final, nosso
sistema financeiro despejará o risco sobre o poupador. E não
importa qual! O pequeno poupador que não vive senão do seu
trabalho! O capital transfere o risco para o trabalho! Ah, compreendo melhor
o último artigo lido no
Wall Street Journal
que se referia a Marx para explicar nosso business!".
Quarta cena: Levar a banca à glória
No mês de Agosto de 2007 circula na Internet a cópia pirata da
vídeo-conferência que acabam de manter o Srs. Ben Bernanke,
presidente
da Reserva Federal (Fed), banco central americano, Jean-Claude Trichet,
governador do Banco Central Europeu (BCE) e Fukui Tohihiko, governador do
Banco do Japão (BoJ).
O Sr. Bernanke é o primeiro a exprimir-se:
"Os piores cenários realizaram-se. Desde que o
preço do imobiliário caiu, os produtos financeiros apoiados nas
subprimes viram a sua cotação afundar-se também. Mais de
uma instituição financeira não quer endossá-los.
Todos os bancos olham-se fixamente em ar de desafio. No mercado
interbancário eles já não se emprestam uns aos outros.
Estamos à beira de um
credit crunch.
Vai ser preciso que intervenhamos e baixemos nossas taxas directoras.
O Sr. Trichet, com expressão de raiva:
"Está fora de causa. A inflação está
às nossas portas, eu não baixarei minhas taxas. Já tive
de levantar o tom para que a Sra. Merkel não aceitasse criar um
salário mínimo na Alemanha. E tenho de lutar, em
ligação com a Comissão Europeia, para levar o
último país europeu, a Bélgica, a suprimir a
indexação dos salários em relação aos
preços.
O Sr. Bernanke espanta-se:
"É verdade que este é o perigo que mais
ameaça a zona euro? Vi no sítio Internet do vosso BCE que os
senhores são bastante permissivos quanto à criação
monetária se se julgar pela evolução do vosso M3"
(Neste momento, um ruído torna inaudível o som do vídeo,
mas foi inseida uma legenda que diz: M3 = massa monetária
total, da mais líquida à menos líquida).
"Finalmente, o senhor deixa fluir o crédito para os nossos
circuitos financeiros. Pois não há senão que
continuar".
O Sr. Trichet, ferroado na carne, berra:
"Sim, mas era isto que havíamos acordado: ultrapassar a
crise do princípio dos anos 2000 favorecendo o crédito que na
verdade galvanizou a especulação. Eu escolhi: aceitei a
inflação nos títulos financeiros para poder travar a
inflação nos bens e portanto as reivindicações
salariais. Baixar as taxas não levaria a nada de bom. Olhe o
Japão: as taxas zero durante uma década quase não lhe
adiantaram".
O Sr.. Toshihiko compreende que chegou o momento de exprimir a sua sabedoria:
"Caros Confrades, o iô-iô dos mercados financeiros
é inerente à busca da liquidez. Estive recentemente em
conversação com o governador do Banco da China que me dizia que o
yang
da aplicação forte tem necessidade do
yin
da garantia de
liquidez. É um processo altamente dialéctico e nós
próprios tomámos a medida no decorrer uma década e meia de
marasmo no país do Sol levante, durante a qual a taxa do Banco do
Japão foi simplesmente nula, quero dizer, simplesmente porque nula. Com
efeito, sem actividade laboriosa nenhum investimento pode valorizar-se e
nós nos mordemos os dedos por não termos aprendido com os nossos
ancestrais. Permiti-me aconselhar a emprestar liquidez aos bancos,
maciçamente, a muito curto prazo, o tempo que os bancos e outros fundos
de investimento se restabeleçam, quero dizer, pois ninguém se
restabelece interiormente. Perdoai-me, Senhores, meu domínio incerto da
língua internacional dos negócios".
O Sr. Bernanke parece perplexo:
"Vejamos, quem pode emprestar no mercado interbancário? O
Sr. Trichet, e o Sr. Toshihiko, que dá conselhos tão bons?"
Neste momento exacto ouve-se tocar o telefone e o Sr. Bernanke atende a sua
linha interna: "É o Sr. Greenspan, meu antecessor".
O Sr. Greenspan, furioso:
"
What? You are undecided!
O senhor ainda hesita em tomar uma
decisão no momento em que o fogo está incubado! O senhor
vê muito bem que o desencalhe através dos fundos soberanos do
Médio Oriente ou da Ásia não basta. Sir Bernanke,
immediatly,
baixe as taxas e injecte liquidez! Sir Trichet, se o senhor não baixar
a suas taxas, injecte ao menos três vezes mais do que Bernanke.
E o senhor, Sir Toshihiko, o modelo japonês é um modelo para
imitar?"
O Sr. Bernanke, envergonhado, tenta recapitular:
"Minha taxa directora é de 5,25%, vou baixá-la, mas
por etapas, para que me restem margens de manobra. Irei para os 4,5%, depois
para os 3% ou menos ainda, se necessário. E posso emprestar a curto
prazo 100 mil milhões de dólares aos bancos. Se
necessário, ficarei com títulos desvalorizados. O que pode o
senhor fazer, Sr. Trichet?"
Sr. Trichet, resmungão:
"Não baixarei minhas taxas, mas colocarei várias
centenas de milhares de milhões de euros no mercado
interbancário. À espera de que o vosso governo tome as medidas
necessárias para reabsorver vossos défices pois, na Europa, a
opinião pública digere mal a apreciação do euro em
relação ao dólar e vou ter de enfrentar a tempestade
mediática.
Sr. Toshihiko, muito digno:
"Como tive a honra de vos dizer, não posso baixar mais as
minhas taxas que estão no mínimo. Inundarei também o
mercado interbancário, mas sendo bem conhecida a modéstia do
Império do Sol, não ousarei levantar-me à vossa altura e
contentar-me-ei em contribuir com o equivalente a algumas dezenas de milhares
de milhões de dólares".
Sr. Bernanke a fechar a vídeo-conferência:
"Ficamos em contacto minuto a minuto. Sr. Greenspan,
agradecemos a vossa ajuda preciosa. Sem ela, teríamos perdido a
razão diante da exuberância irracional dos mercados".
Quinta cena: Os bons, os brutos e os vigaristas
No princípio de 2008 são convidados ao palco de uma cadeia de
televisão francesa a Sra. Mathilde Adivinha, especialista das
operações de cobertura de riscos no banco Hongkong Shanghai
Banking Corporation (HSBC), o Sr. Jean-Marc Forestier, editorialista matinal de
uma rádio pública, o Sr. Eric Alémeri, editorialista de um
jornal da noite de referência, a Sra. Florence Eden, presidente da ADAM
[5]
(Associação dos accionistas minoritários) e a Sra. France
Attac, economista desconhecida. A emissão "Ce soir, on se bat sur
la 3" é animada pela Sra. Christine Acran.
A Sra. Christine Acran abre a emissão com entusiasmo:
"Boa noite e benvindo ao "Ce soir, on se bat sur la 3".
Connosco, os melhores especialistas em finanças a fim de nos ajudar a
ver com clareza. Pois não se compreende nada do que se passa na
bolsa, nos mercados: há que comprar, há que vender? Os
traders
estarão loucos ou serão ladrões de colarinho branco?
Ainda se pode ter confiança nos bancos, o que manifestamente interessa
ao nosso dinheiro? Sra. Adivinha, a senhora está todos os dias nas
salas de mercado, será que lê nas borras de café? Para que
servem pois estes mercados financeiros que entram em crise a cada cinco anos?
As pessoas têm o direito de saber".
A Sra. Adivinha pousa seu olhar sobre cada um, depois fita a câmara e
declama:
"Os mercados financeiros estão para a economia
Como os
meus dois pulmões estão para a minha própria vida.
Circulação do sangue ou do capital livre,
Tal é a condição para a livre empresa.
Recursos alugados, riscos de cobertura,
Desafio sobre o futuro, mas não a aventura,
Os ovos em muitos cabazes, segredo da eficiência,
Que importa pois um pouco de turbulência!"
O Sr. Forestier, subjugado, aproxima-se da Sra. Adivinha:
"Madame, repita para mim, farei minha crónica
amanhã de manhã na Inter. A senhora proporcionou-me os meus
três pontos quotidianos. 1) Os mercados financeiros são vitais:
eles fazem circular o capital e respirar a economia. 2) Eles afectam os
recursos no melhor interesse de todos. 3) A crise financeira permite remover
os improdutivos, os atrasados do progresso técnico, todos aqueles que
impedem reformas de estrutura".
O Sr. Alémeri pavoneia-se:
"
Je dirais même plus,
as reformas de estrutura atrasaram-se
demasiado; não há interesse geral, não há
senão interesses particulares; circulai, capitais, não há
nada a ver pois a elite dos negócios tomou consciência de que o seu
interesse de classe era recuar nos seus excessos".
[6]
A Sra. Florence Eden, presidente da Adam, reage vivamente:
"É preciso ver que os pequenos accionistas pagam os custos
da má gestão. Todos eles têm perturbações na
cabeça, quero dizer no seu capital. Eles não têm mais
coragem para investir. Perderam a fé na livre empresa. É
preciso ser rico para sobreviver na crise. Logo, tudo vai mal. Reclamo
mais transparência e o retorno da moral ao capitalismo".
O Sr. Forestier deixa escapar um grito da alma:
"Não há senão que nacionalizar as perdas dos
bancos".
[7]
A Sra. Christine Acran, tomando consciência do mal estar, põe uma
reportagem sobre a China onde se vêem jovens, tendo ao fundo um estaleiro
gigantesco, a falar da sua ânsia de consumir graças à
mundialização. De volta ao palco, a Sra. Christine volta-se para
a Sra. France Attac e pergunta-lhe se, apesar da crise, a
mundialização não é boa.
A Sra. France Attac, que se agitava desde há momentos, aproveita a
ocasião:
"Permita-me, Senhora, alterar um pouco as regras do vosso jogo
simplório. Muitos aqui fingem espantar-se com a gravidade de uma
situação que negaram durante longo tempo, e por não
ver senão uma sucessão de acidentes isolados, quando uma
coerência de conjunto emerge de todos estes desastres".
Acreditando-se uma Universidade de Verão, ela lança-se por
inteiro numa exposição clara, é verdade, mas quão
hermética para todos os participantes da emissão: "A crise
que vivemos é a consequência directa da
financeirização da economia mundial que arrancou quando os
capitais obtiveram o direito de circular sem entraves, com desprezo pelos
direitos sociais, do emprego, da ecologia, pela única razão de
que era preciso melhorar a rentabilidade. Todos os métodos de
gestão das grandes empresas foram voltados para um único
objectivo: trazer valor para os accionistas. Pela subida dos dividendos
em proporção à baixa dos salários, pelas recompras
das suas próprias acções para fazer subir a
cotação em bolsa, sem ver que isso enfraquecia a taxa de
rendimento, pelas reestruturações a crédito, pela
especulação com produtos financeiros cada vez mais refinados; e
também pela penetração, pois o capitalismo é um
sistema fálico, do privado na esfera pública, saqueando os
serviços públicos e a protecção social".
Aproveitando a retomada de fôlego da Sra. France Attac, a Sra. Christine
Acran, murmura-lhe:
"Não seja demasiado explicativa".
[8]
A Sra. France Attac replica:
"Respondo à vossa expectativa, Madame. A senhora dizia
nada compreender, o que bem vejo, sofre pois por ser esclarecida ainda que
pouco. Por exemplo: todos os media não cessam de amedrontar o bom povo
com os milhares de milhões que desapareceriam em fumo aquando de cada
crise. Nada de real desaparece, só a ficção da bolha
anterior é que se evola. Quando um accionista faz uma má aposta
é porque um outro fez a boa: eis um jogo de soma zero. E se,
como foi
o caso durante a década de 1990 e de 2002 a 2007, todos os accionistas
se enriquecem na Bolsa, é porque eles pensam poder perpetuar a
exploração do trabalho nas empresas: aqui está, desta
vez, um jogo de cara e coroa, cara o capital ganha, coroa o trabalho perde.
Pois não se pode duradouramente querer ao mesmo tempo lucro e saquear o
trabalho. Infelizmente, estes esquemas tem sido encorajados pelos bancos
centrais que, para extinguir o incêndio, lançam barris de
gasolina. Lembrai-vos da tirada da Sra. Adivinha há um instante: a
moeda é o carburante da economia, sim, mas ele é
inflamável. Razão pela qual nós reclamamos que os bancos
centrais retornem ao âmbito democrático. Tal é a realidade
do capitalismo que quer tudo mercantilizar e pesar com a fita métrica da
rentabilidade. Sua arrogância tornou-se tamanha que podem proliferar os
paraísos fiscais, à sombra dos quais abriga-se o dinheiro sujo e
o quase limpo, e a especulação tornou-se o
nec plus ultra
emocional dos insatisfeitos. A andar demasiado de cabeça para baixo, o
planeta arrisca-se ao congestionamento. Rumo: os socorros de urgência.
Imponhamos impostos sobre todas as transacções financeiras,
suprimamos os paraísos fiscais, destruamos todos os rendimentos
financeiros e a febre baixará. Quanto a moralizar o capitalismo,
é pedir ao Sr. Gautier-Sauvagnac
[NR 1]
e à Sra. Parisot que presidam uma comissão sobre esse
assunto".
Neste instante, uma manifestação do Medef
[NR 2]
irrompe no estúdio, que em alguns segundos é invadido aos gritos
de:
"Nós somos todos amorais! Amorais do PIB, amorais do
CAC 40
"!
Antes de lhe arrancarem os microfones, France Attac consegue lançar
um último grito:
"Tendes os cordões da bolsa, mas nós temos o fio da
vida!"
Notas
1 . Autêntico.
2. Dizem-vos, tudo isso é mais verdadeiro do que a natureza. Estes
três pontos foram expressos por Delors no decorrer de uma
recepção onde os convidados eram seleccionados à entrada,
por ocasião do congresso da CFDT em 1988, em Estrasburgo.
3. Dizem-vos: autêntico. Sra. Laurence Parisot, na France Inter, dia 11
de Março de 2008: "Se se diminuísse os salários dos
dirigentes isto seria uma gota de água para os pobres".
4. Incrível mas verdadeiro: Mackenzie G.A., Gerson P., Cuevas A.,
"Can Public Pension Reform Increase Saving?", International Monetary
Fund, Occasional Paper n° 153, 1997.
5. Dizem-vos: aqui não se inventa nada.
6. Convença-se: autêntico,
Le Monde,
10 et 11 mars 2008.
7. Dizem-vos e repito: autêntico, na France Inter, 14 de Março de
2008.
8. Não tornarei a dizer: autêntico, numa outra emissão:
«Ce soir ou jamais», 27 de Setembro de 2007.
[NR 1]
Gautier-Sauvagnac
: Ex-Vice-Presidente do Medef. Suspeito de ter retirado
15 milhões de euros da caixa da sua organização patronal,
a Union des industries des métiers de la métallurgie.
[NR 2] Medef: Mouvement des entreprises de France,
confederação patronal
[*]
Economista, dirigente do ATTAC.
Advertência do autor: os acontecimentos
podem levar-me a modificar certas passagens deste texto. Aqueles que quiserem
encená-lo peçam-me a versão mais recente. E
aqueles que encontrem melhorias possíveis neste texto provisório
que me escrevam. Obrigado.
harribey@u-bordeaux4.fr
O original encontra-se em
http://harribey.blogsudouest.com/
. Tradução de JF.
Esta paródia encontra-se em
http://resistir.info/
.