2014: Caos político mundial, "smog" estatístico, risco
de explosão do planeta financeiro...
mas as soluções do futuro continuam a emergir
Os historiadores, os quais têm o hábito de considerar que o
século XIX se estendeu de 1815 (Waterloo) a 1914 (primeira guerra
mundial), certamente definirão o século XX pelo período
1914-2014, terminando pelo ano em que morre o antigo sistema enquanto o novo
emerge. Neste novo ano de 2014, bem vindo portanto ao século XXI!
Havíamos colocado 2013 sob o signo dos "primeiros passos num mundo
do depois em pleno caos"
[1]
. Um ano que foi com efeito o ano zero deste novo século e no fim do
qual as soluções emergem por toda a parte. Neste começo de
2014, todos os projectos estão doravante apontados sobre a zona euro, a
China, a Rússia, os BRICS onde ferramentas destinadas a moldar o
"mundo do depois" são concebidas com uma rapidez
incrível: o "mundo de antes" dá lugar ao "mundo de
depois".
Contudo, subsiste o risco permanente de uma explosão por excesso de
aquecimento do planeta financeiro decorrente dos incríveis
desequilíbrios americanos... pouco ou nada resolvidos. E o
período intermediário actual, certamente portador de
esperança, não deixa de ser eminentemente perigoso. Um dos
perigos reside no
"smog"
[2]
estatístico que provavelmente caracterizará o ano: por um lado,
os indicadores económicos e financeiros americanos perderam todo sentido
à força de serem manipulados a fim de esconder a realidade
catastrófica; e por outro, as ferramentas de transparência
estatística do mundo emergente ainda não são
suficientemente fiáveis para esclarecer correctamente a realidade. Por
um lado colapso de visibilidade [que está] em curso desde há
vários anos, por outro começo de organização da
transparência de que a economia mundial precisa para planear suas
estratégias, em 2014, estamos no fundo da vaga da compreensibilidade
estatística. E isso não será sem consequências.
Plano completo do artigo:
1. "SMOG" ESTATÍSTICO
2. REASCENSÃO DAS TAXAS E QUEDA DO IMOBILIÁRIO NOS ESTADOS UNIDOS
3. FIM DAS EUFORIA NAS BOLSAS?
4. CAOS POLÍTICO
5. 2014, COMEÇO VISÍVEL DO FIM DA ERA DO PETRÓLEO
6. AS SOLUÇÕES ESTÃO EM MARCHA
Apresentamos neste comunicado público as partes 1 e 2.
"SMOG" ESTATÍSTICO
O período actual é particularmente difícil de analisar. As
experiências de injecção de liquidez dos bancos centrais
não têm praticamente equivalente histórico e agem
insidiosamente tal como a morfina; as bolsas evoluem na proporção
inversa à saúde económica dos países; a
finança e os produtos derivados estão fora de todo controle; o
Ocidente e particularmente os Estados Unidos tentam ocultar sua
situação catastrófica graças a indicadores que
já não querem dizer nada a exemplo dos números do
desemprego. Já analisámos em profundidade este "fog
estatístico" no
GEAB nº 73
: as bússolas do mundo antigo
estão partidas.
Os mercados, alimentados pelo biberão do Fed e não desejando
abandonar o paradigma do dólar enquanto existir o mínimo de
sangue a sugar, são amplamente responsáveis por esta cegueira.
Ora, tal como a rã na água que aquece não sente a
temperatura subir senão quando é demasiado tarde, ter partido o
termómetro certamente é prático para iludir mas responde a
uma tendência suicidária: se a saída já é
difícil de encontrar em plena luz, no escuro isso torna-se
impossível. Já o dissemos, a zona euro tem tido a oportunidade de
estar em plena luz durante vários anos graças à
"crise do euro" e não camufla suas dificuldades sob a carreta
das liquidezes
[3]
, oportunidade de que não beneficiam os Estados Unidos que se dirigem de
olhos vendados para o precipício, como o veremos.
[NT]
No período actual, um olho portanto está cego. O outro
infelizmente ainda não está a ver. A parte do mundo que emergiu,
os BRICS nomeadamente e a China em particular, apenas pôs-se a construir
um aparelho estatístico adaptado às suas ambições
internacionais. Sem contar que certos vícios ocidentais foram adoptados
por estes países, como o recurso ao endividamento e a finanças
desreguladas, o que faz correr novos perigos. Assim, a China começa a
preocupar-se com o endividamento das suas administrações locais,
dos seus "veículos de financiamento dos governos locais" (4) e
com suas "finanças das sombras"
("shadow banking")
de que todo o mundo ignorava a dimensão por falta de
estatísticas fiáveis
[5]
. Este
shadow banking
é indispensável para financiar a actividade das pequenas
empresas e colectividades locais e, por agora, incontrolável...
Daí o forte empenho de Pequim para ver claramente e chegar a regular
este sector, como testemunha o trabalho estatístico recente executado a
respeito pelo Gabinete nacional de auditoria, ou a maior transparência
pedida aos estabelecimentos bancários chineses, ou ainda por exemplo a
proibição por cinco anos às actividades locais de
construir novos edifícios institucionais com financiamentos "da
sombra"
[6]
. Mas apesar destes esforços de transparência que
trarão rapidamente seus frutos, pois a situação
internacional precisa de ver isso claro, ainda serão precisos anos para
ter um aparelho estatístico fiável nestes países. Sem
contar que o governo chinês ainda tem necessidade de zonas de sombra
durante algum tempo: não se pode fazer a luz sem ter feito a limpeza
prévia!
É portanto com grande prudência que os dirigentes devem
avançar num caminho semeado de armadilhas ao longo o qual a
ausência de indicadores fiáveis impede apreciar correctamente a
situação. Toda
antecipação/previsão/planificação é
certamente ainda mais difícil. Contudo, se os países emergentes
estão com dinâmicas extremamente poderosas que lhes permitem
certos afastamentos, os passos em falsos podem implicar consequências
dramáticas para os outros. Eis porque o Fed efectua um trabalho de
equilibrista notável e este saltimbanco até o presente foi
bastante dotado para manter o país sobre o filo... tanto que ainda
existe um fio.
REASCENSÃO DAS TAXAS E QUEDA DO IMOBILIÁRIO NOS EUA
Enquanto isso, o século que acaba continua sua lenta agonia. Apesar de
todas as acções do Fed, apesar do seu imenso programa de
flexibilização quantitativa, as taxas de juro das
obrigações americanas sobem outra vez de modo inexorável.
Pormenorizamos as razões em Télescope e mostramos que esta
tendência vai prosseguirem 2014.
Ora, um aumento de um ponto percentual nas taxas a 10 anos (de 3 para 4%)
significa um aumento progressivo dos juros anuais a pagar sobre a dívida
pública da ordem dos 100 a 150 mil milhões de dólares
[7]
, ou seja, cerca de 1% do défice público a compensar no momento
em que o Fed começou a diminuir seu programa de recompra de
obrigações. Mas isto não é o mais doloroso. O
gráfico seguinte assinala algo muito mais perigoso.
A busca do aumento das taxas das obrigações americanas provoca
com efeito um aumento semelhante nas taxas de contratação de
empréstimos dos particulares. Em 2012, os empréstimos
imobiliários a 30 anos estavam em torno dos 3,5%; agora estão em
torno dos 4,5%; um ponto a mais faria com que chegassem aos 5,5%. Ora, a 3,5%
uma família pode contrair um empréstimo de US$400.000 com
mensalidades de US$1800, ao passo que a 5,5% ela não pode mais tomar
emprestado senão US$317.000 com as mesmas mensalidades: seria preciso
portanto cerca de 20% de baixa dos preços imobiliários (!) para
manter um poder de compra constante... Como já se viu no GEAB nº
80, a inquietação a respeito começa a ser palpável
[8]
e 2014 verá uma baixa significativa dos preços do mercado
imobiliário americano, como desenvolvemos em
Télescope.
Ora, toda a finança imobiliária funciona unicamente sob a
hipótese de preços crescentes (viu-se em 2007-2008). Além
disso, numerosos créditos ao consumo dos americanos são ligados
à sua casa e uma fraqueza do mercado imobiliário propaga-se
portanto ao conjunto da economia. Esta é a notícia realmente
má deste começo de ano.
15/Janeiro/2014
Notas:
1. Título do GEAB n°70 (décembre 2012).
2.
"Smog"
designa a mistura de fumo
(smoke)
e nevoeiro
(fog)
que periodicamente cobria Londres na era da revolução industrial.
3. O que em grande parte explica seu crescimento mais fraco. Nos Estados
Unidos, o crescimento oficial em 2013 foi apenas da ordem dos 400 mil
milhões de dólares (cerca de 2,5% do PIB) quando o Fed injectou
mais de 1000 mil milhões na economia... ou seja, uma "falta"
de 600 mil milhões. Durante o mesmo período, o BCE retirou cerca
de 1000 mil milhões de dólares (730 mil mil milhões de
euros, fonte BCE) para um crescimento quase nulo, ou seja, um "ganho"
de 1000 mil milhões. Quem está mal de saúde? Ver
também o gráfico seguinte.
4. Fonte: Ecns.ch, 08/01/2014
5. Ler a este respeito e para o que se segue
Les Échos
(10/01/2014), Bloomberg (09/01/2014).
6 Fonte:
La Croix
, 30/07/2013.
7. Avaliado a partir da Wikipedia e tendo em conta a repartição
da dívida estado-unidense por maturidades.
8. Ver também o artigo inquietante de MarketWatch (14/01/2014).
[NT] Criticar a condução da política económica dos
EUA e louvar a situação europeia parece a história do roto
a criticar o esfarrapado.
[*]
Global Europe Anticipation Bulletin.
O original encontra-se em
www.leap2020.eu/...
Este comunicado encontra-se em
http://resistir.info/
.
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