Alerta no 2º semestre de 2013: Crise sistémica global II
– Segunda deflagração devastadora
– Explosão social à escala planetária

por GEAB [*]

O choque de 2008 certamente foi violento, mas a reacção do sistema, dos países e dos bancos centrais, devido aos seus planos de salvamento de uma amplitude sem precedentes, conseguiu camuflar as piores consequências: a degradação do Ocidente em geral e dos Estados Unidos em particular, o saneamento forçado da economia, queda brutal de um nível de vida artificial, desemprego em massa, arranque de movimentos sociais... puderam ser em parte postos de lado em prol de esperanças de retomada alimentadas pelas políticas irresponsáveis de despejar liquidez sobre os sistemas bancários e bursáteis. Infelizmente, enquanto o planeta assim se dopava, os problemas globais não eram abordados... cinco anos perdidos: a solidez do edifício é agora ainda mais fraca que antes da crise; a "solução" estado-unidense orquestrada pelo Fed, que todo o mundo deixou passar a fim de aproveitar o tempo para cuidar das suas próprias feridas, consistiu em extinguir com gasolina o incêndio que eles próprios haviam ateado. Não é de espantar que sejam eles, os pilares do mundo de antes [os EUA], a recusarem-se a entrar na trilha, com seus fiéis acólitos japonês e britânico, que inflamam novamente a situação mundial. E desta vez não se poderá contar com países em falência para salvar a situação: eles estão de joelhos na sequência do primeiro choque de 2008. Trata-se portanto, praticamente, de uma segunda crise mundial que se anuncia, provocada mais uma vez pelos Estados Unidos. Este período de cinco anos não terá consistido senão em recuar para saltar mais alto, o que havíamos denominado "a crise ao quadrado".

Plano completo do artigo:
1. Uma situação doravante fora de controle
2. Uma segunda crise estado-unidense
3. Os impactos do segundo choque
4. Estratégias dos diferentes actores
5. Falências das instituições internacionais
6. Recomendações urgentes

Neste comunicado público apresentamos as partes 1 e 2.

Uma situação doravante fora de controle

As ilusões que ainda cegavam os últimos optimistas estão em vias de se dissiparem. Já traçámos o sombrio balanço da economia mundial nos GEAB anteriores. A situação piorou ainda mais desde então. A economia chinesa confirma a sua desaceleração [1] assim como a Austrália [2] , as moedas dos países emergentes afundam [3 , as taxas das obrigações sobem, os salários britânicos continuam a baixar [4] , motins afectam a Turquia e até mesmo a tranquila Suécia [5] , a zona euro continua sempre em recessão [6] , as notícias que chegam a filtrar-se a partir dos Estados Unidos não são mais alegres [7] ...

O clima febril é agora claramente palpável em todos os mercados financeiros onde a questão não está mais em saber qual vai ser o próximo recorde mas sim em conseguir desfazer-se bem cedo antes da debandada. O Nikkei baixou mais de 20% em três semanas e experimentou neste período três sessões com perdas superiores a 5%. Portanto, doravante o contágio atinge os indicadores "padrão" como as bolsas, as taxas de juro, a taxa de câmbio das moedas... últimos bastiões ainda controlados pelos bancos centrais – e portanto até o presente totalmente falsificados, como a nossa equipe explicou muitas vezes.

No Japão, esta situação é a consequência do programa, delirante pela sua amplitude, da facilidade quantitativa promovida pelo banco central. A baixa do yen provocou uma forte inflação sobre os produtos importados (nomeadamente o petróleo). Os enormes movimentos da bolsa e da moeda japonesas desestabilizam toda a finança mundial. Mas o arranque do programa do Banco de Japão é tão recente que as suas consequências ainda são menos notadas que as da quantitative easing do Fed. É principalmente ele o responsável por todas as bolhas actuais: o imobiliário nos Estados Unidos [8] , recordes das bolsas, bolha e desestabilização dos países emergentes [9] , etc. É também graças ao Fed, ou antes por causa dele, que a economia virtual que a economia virtual retornou fortalecida e que o apuramento necessário não se verificou. Os mesmos métodos produzem os mesmos efeitos [10] , uma virtualização agravada da economia leva-nos a uma segunda crise em cinco anos, pela qual os Estados Unidos são novamente responsáveis. Os bancos centrais não podiam sustentar indefinidamente a economia mundial, actualmente perdem o controle.

Uma segunda crise estado-unidense

Se bem que os meses de Abril-Maio, com grande alarido mediático, parecessem dar razão ao método dos EUA-Reino Unido-Japão de flexibilidade monetária (um belo eufemismo) contra o método da Eurolândia de austeridade fundamentada [NR] , desde há algumas semanas os pregoeiros das finanças têm um pouco mais de dificuldade em clamar vitória. O FMI, aterrorizado pelas repercussões mundiais da desaceleração económica europeia, não sabe mais o que inventar para obrigar os europeus a continuar a gastar e voltar fazer explodir os défices: mesmo em seco, a boutique-mundo deve continuar a dar a impressão de girar mas a Europa não entra neste jogo.

Mas a partir de agora os efeitos tóxicos das operações dos bancos centrais no Japão, nos Estados Unidos e no Reino Unido demolem a argumentação (ou antes, a propaganda) louvando o êxito do "outro método", que supostamente permite a retomada japonesa, americana e britânica (esta última não pode sequer ser evocada).

A segunda crise agora em desenvolvimento teria podido ser evitada se o mundo houvesse constatado formalmente que os Estados Unidos, estruturalmente incapazes de se reformarem a si próprios, não pusessem em acção outros métodos além daqueles que haviam conduzido à crise de 2008. Tal como os irresponsáveis bancos "too big to fail", os irresponsáveis países "sistémicos" teriam devido ser postos sob tutela desde 2009, como sugere desde o GEAB nº 28 (Outubro/2008). Infelizmente, as instituições de governação mundial revelaram-se completamente inoperantes e impotentes na gestão da crise. Unicamente as lógicas regionais puderam ser aplicadas; as instâncias internacionais nada produziam, cada uma se pôs a resolver seus problemas no seu canto.

A outra reforma primordial preconizada [11] desde 2009 pela equipe do LEAP/E2020 referia-se a uma revisão completa do sistema monetário internacional. Ao longo de 40 anos de desequilíbrios comerciais americanos e de variações brutais da sua cotação, o dólar como pilar do sistema monetário internacional foi a correia de transmissão de todas as constipações dos Estados Unidos para o resto do mundo. E este pilar desestabilizador está agora no cerne do problema mundial pois os Estados Unidos já não sofrem de resfriado e sim de peste bubónica. Com a não reforma do sistema monetário internacional em 2009, sobrevém uma segunda crise. Com esta abre-se no G20 de Setembro [12] uma nova janela de oportunidade para a reforma do sistema monetário internacional e quase ansiamos para que o choque se verifique antes a fim de forçar um acordo a respeito, do contrário a cimeira corre risco de ocorrer demasiado cedo para provocar a adesão de todos.

15/Junho/2013

Notas:
(1) Fonte: The New York Times, 08/06/2013. 
(2) Fonte: The Sydney Morning Herald, 05/06/2013. Ler também Mish's Global Economic, 10/06/2013. 
(3) Fonte: CNBC, 12/06/2013. 
(4) Fonte: The Guardian, 12/06/2013. 
(5) Ler Sweden's riots, a blazing surprise, The Economist, 01/06/2013. 
(6) Fonte: BBC News, 06/06/2013. 
(7) Ler Economic dominos falling one by one, MarketWatch, 12/06/2013. 
(8) Uma bolha nas condições económicas actuais; em tempos normais seria considerada como um tremor. Ler por exemplo Market Oracle, 10/06/2013. 
(9) Sobre as consequências das QE mondiais na Índia: Reuters, 13/06/2013.
(10) O retorno dos produtos financeiros que estiveram na origem da crise de 2008 não é anódino. Fonte: Le Monde, 11/06/2013.
(11) Cf. GEAB n°29, novembre 2008.
(12) Fonte: Ria Novosti, 14/06/2013.

[NR] O suposto bom fundamento da "austeridade" europeia é opinião dos autores. A publicação de uma opinião por resistir.info não significa o seu endosso.


[*] Global Europe Anticipation Bulletin

O original encontra-se em www.leap2020.eu/...


Este comunicado público encontra-se em http://resistir.info/ .
19/Jun/13