Crise sistémica global
Outono de 2012: Bem-vindo às semanas da grande transição
A geopolítica, o detonador do novo grande choque mundial
por GEAB
Há vários meses previmos um importante choque para a economia e
para a estabilidade política global no Outono de 2012. Mantemos este
"alerta vermelho" e faremos o ponto da situação em
meados de Novembro de 2012, em paralelo com a nossa análise anual dos
"riscos-país" de 2013, sobre o estado do mundo nessa data.
Nestas últimas semanas, conforme previsto pela nossa equipa, a
situação geopolítica mundial degradou-se rapidamente: o
conflito sírio tornou-se num conflito regional para o qual as grandes
potências tentam agora não ser arrastadas para além dos
limites que fixaram
[1]
; no norte do Sahel (Mali, Nigéria,
) prepara-se uma nova
confrontação militar entre islamitas e ocidentais
[2]
; o mar da China transformou-se numa zona de conflitos "mornos" em
todos os azimutes, com o Japão e a China no centro do caos em
gestação
[3]
; as grandes economias mundiais entram todas em recessão
[4]
; a agitação social aumenta, a par da pressão
fiscal,
e já não há liquidez disponível
(até a eficácia dos QE está em queda livre
[5]
) como aconteceu em 2009.
Neste GEAB nº 68, a nossa equipa faz assim o ponto da
situação no horizonte quanto às perspectivas
imobiliárias ocidentais em 2013 e acrescenta uma previsão
especial "Imobiliário Holanda", dado o colapso
imobiliário em curso nesse país. Paralelamente continuamos a
explorar as consequências sociopolíticas para 2013 da crescente
agitação da opinião pública, concentrando-nos aqui
nos Estados Unidos
[6]
. Finalmente, depois de uma volta pelo horizonte e por um calendário das
grandes tendências para os próximos meses, desenvolvemos as nossas
recomendações no que se refere ao imobiliário, ao ouro e
às bolsas.
Simultaneamente, como pano de fundo destes conflitos asiáticos ou
árabe-muçulmanos, assistimos à generalização
de testes, pelos seus aliados e adversários, quanto ao grau de
enfraquecimento da potência EUA
[7]
. E cada semana que passa ilustra a impotência crescente do
"patrão do fim do século XX": "o fazedor de reis
do Médio Oriente" dos anos 1990/2000 tem que se limitar, daqui em
diante, a conter a rejeição da sua presença e a ter o
maior cuidado com qualquer acção militar visível
[8]
; e, a partir de agora, a "superpotência do Pacífico",
está reduzida a "contar os golpes" entre o Japão, seu
aliado estratégico histórico na região
[9]
e a China, seu principal concorrente geopolítico mas, sobretudo, seu
principal parceiro económico, monetário e financeiro
[10]
. De resto é aí que se revela o "calcanhar de Aquiles"
dos EUA, cada vez com consequências mais pesadas
[11]
.
Para além duma parte das nossas análises sobre o
imobiliário americano, que confirma a entrada em depressão de
longa duração do mercado imobiliário ocidental, escolhemos
neste comunicado público do GEAB nº 68 apresentar alguns
gráficos que ilustram o carácter enganoso e manipulatório
das estatísticas económicas americanas. A nossa equipa avaliou o
facto de a polémica eleitoral sobre os números
"oficiais" do desemprego para Setembro de 2012 (uma baixa de 0,4%)
ter permitido um amplo debate nos meios de comunicação dominantes
sobre os "estranhos métodos de cálculo" do
Ministério do Emprego dos EUA. Não é ele o único a
triturar os números mas, dada a importância mediática
internacional atribuída aos seus resultados, parece-nos útil que
o maior número possível de actores tenha consciência disso;
e não apenas os leitores esclarecidos do GEAB e de outros sites
pedagógicos.
A propósito da China, a transição política em curso
desenrola-se com dificuldade por causa da crise económica mundial que
finalmente apanhou o país
[12]
(e o conjunto dos BRICS
[13]
) e pela necessidade de inventar um novo curso para a estratégia do
país a fim de fazer face ao duplo constrangimento interno do risco de
explosão social (voltaremos a este ponto em pormenor no GEAB nº 69
de Novembro próximo); e do posicionamento geopolítico regional e
mundial. Não foram só os Estados Unidos que mudaram profundamente
a partir dos anos 1990/2000!
O terceiro grande pilar da ordem mundial (e talvez mesmo o mais estruturante
para o futuro) é a União Europeia ou, mais exactamente, a
Eurozona. Conforme previsto em LEAP/E2020, a zona euro é a única
que nos dá boas notícias neste Outono de 2012
[NR]
. Bem entendido, foram eclipsadas profundamente a curto prazo pelas
consequências económicas e orçamentais da crise
sistémica global (desemprego, recessão, austeridade,
) mas,
no que se refere a médio/longo prazo, a Eurozona empenhou-se finalmente
num "caminho que leva a algum sítio" após trimestres de
impotência política: há agora disponíveis
instrumentos poderosos, impôs-se finalmente a vontade política
comum
[14]
de sair dela em conjunto
[15]
, (visto que cada Estado passou a sentir o impacto da crise).
Em termos de calendário, o LEAP/E2020 calcula que, a partir de agora, as
datas limite são muito claras:
-
Daqui até ao fim de Novembro de 2012, os Estados Unidos e a China
entram, cada um deles, numa dupla fase de tensões sociopolíticas
internas históricas, tendo entretanto que assumir o fim do
período de "coexistência económica e comercial
pacífica" destas últimas décadas.
-
Daqui até ao fim de Dezembro de 2012, a Eurozona sai, coxeando como de
costume, da "crise do euro" e tem que enfrentar o triplo desafio do
seu relançamento económico com o pano de fundo da crise mundial,
da sua estruturação institucional com o pano de fundo de
democratização imperativa
[16]
e o corolário de regulação a longo prazo do problema
britânico (na verdade, 26 contra 1)
[17]
,
Estados Unidos, uma "retoma" enganosa
Os meios de comunicação querem fazer crer numa retoma do mercado
imobiliário nos Estados Unidos, baseando-se nomeadamente no
índice Case-Shiller do gráfico abaixo.
Em seis meses, do 4º trimestre de 2011 ao 2º trimestre de 2012, o
índice subiu 3,7%. Ora, segundo o LEAP/E2020, essa subida não
é duradoura mas, pelo contrário, não passa duma pausa
artificial na baixa inexorável dos preços imobiliários nos
Estados Unidos. De resto, não somos os únicos a pensar assim,
visto que o próprio FED, apesar da recente subida dos preços,
achou oportuno sustentar prioritariamente o mercado imobiliário com o
seu QE3. Na realidade essa subida é artificial, pelo menos por duas
razões.
Em primeiro lugar, as taxas de juros estão em níveis
historicamente baixos (actualmente 3,39% para um empréstimo a taxa fixa
a 30 anos, segundo
CNNmoney
), o que por um lado permite que algumas famílias, mesmo insolventes em
grande medida, voltem ao mercado
imobiliário mas, por outro lado e sobretudo, que os investidores
façam bons negócios, comprando propriedades arrestadas pelos
bancos a um preço miserável. Essas transacções
fazem aumentar os preços automaticamente. Mas mesmo assim é de
notar que as taxas são extremamente baixas há vários anos
e que o efeito só agora se faz notar, sinal da fragilidade dos diversos
intervenientes e portanto da "retoma". Infelizmente, este
nível de taxas não reflecte de modo algum a saúde da
economia americana e só se aguenta graças ao FED e ao seu resgate
de títulos do tesouro. De resto, em tempos normais, os diversos planos
públicos de apoio à economia deveriam ter um impacto sobre a
subida dos preços imobiliários muito mais pronunciado.
A segunda razão decorre da penúria organizada pelos bancos que
não querem revender as casas arrestadas ao preço do mercado para
salvar os seus balanços. Com efeito, 90% das penhoras
("execuções") estão retidas nos bancos
[18]
. São milhões de casas que em breve entrarão no mercado e
que farão baixar os preços; mas, de momento, a
retenção organizada restringe a oferta e cria uma penúria
que faz aumentar os preços.
E, no entanto, são estes arrestos que revelam a saúde
débil do sector imobiliário nos Estados Unidos. Depois de uma
pausa devida ao escândalo das assinaturas falsas feitas pelos bancos, o
número de penhoras volta a subir (estamos a falar de 3 milhões de
penhoras por ano). Com efeito, apreender a realidade do mercado
imobiliário americano é um jogo tão instrutivo como
cínico: seguir a lista das maiores cidades americanas (excepto Nova
Iorque) na
Wikipedia
e contar a proporção de penhoras nos anúncios dessas
cidades, num site como
Trulia
[19]
. Apesar da retenção de inúmeras casas no balanço
dos bancos, a constatação é alarmante: nas dez maiores
cidades dos Estados Unidos, a seguir a Nova Iorque, a proporção
de anúncios de penhoras é de 56%
[20]
, em que cidades como Los Angeles (a segunda cidade dos Estados Unidos) ou
Chicago (a terceira) têm uma proporção de penhoras na ordem
dos 67%, sem falar claro de Detroit ou de Miami onde esta
proporção chega a cerca de 75%. Podemos ver também que os
anúncios cujo preço está em baixa são muito mais
numerosos do que aqueles em que o preço está em alta. Só
Nova Iorque parece ter um mercado dinâmico, quase sem penhoras e em alta.
Tal como em 2009, não devemos pois acreditar que a alta é
duradoura. É mais um dos habituais artifícios por parte dos
Estados Unidos.
E como todos os artifícios, depois de dissipados, revelam uma realidade
bem pior do que se imaginava
abrindo as portas ao pânico!
Lembremo-nos do Lehman Brothers
em poucas horas o mundo passou do modo
"normal" para o modo "Alerta Vermelho"!
Notas:
[1] Fontes:
New York Times,
25/09/2012;
La Tribune,
01/10/2012
[2] Sinal duma confusão crescente das alianças utilizadas pelos
ocidentais, na Síria, na primeira linha das forças
"pró-ocidentais" em guerra contra o regime de Assad,
estão a Arábia Saudita e o Qatar; no norte do Sael, pelo
contrário, as mesmas forças armam os rebeldes que se vão
defrontar com os soldados das forças africanas apoiadas pela NATO. As
grandes variações geoestratégicas deste tipo não
duram muito tempo
a não ser que se pense que os
petrodólares sauditas podem "aguentar Washington"
indefinidamente como o Qatar tenta fazer com a França e o Kuwait e o
Dubai já o fizeram com o Reino Unido. Fonte: France 24, 29/09/2012
[3] E estes conflitos "mornos" já têm
consequências bem tangíveis e dolorosas: feridos aquando dos
motins anti-japoneses, colapso de certas actividades económicas
importantes entre duas das principais potências económicas e
comerciais mundiais (China e Japão), nomeadamente na indústria
automóvel, no turismo, na electrónica, na
construção pública,
a factura anuncia-se pesada,
duradoura
e o seu impacto ainda não aparece nas
estatísticas.
[4] Fontes: CNBC, 27/09/2012; Mish's, 27/09/2012
[5] Os próprios dirigentes do FED reconhecem agora que não
entendem verdadeiramente a situação económica dos EUA.
Fonte:
Les Echos,
20/09/2012
[6] Fonte: The Hill, 28/09/2012
[7] Fonte: Deutsche Welle, 20/09/2012
[8] Fonte:
New York Times,
24/09/2012
[9] Tóquio interroga-se cada vez mais qual é o "real valor
acrescentado" a 10 anos/20 anos do alinhamento total com Washington.
Dez/vinte anos são prazos mínimos para reflectir e pôr em
marcha qualquer modificação importante deste tipo de parceria
histórica
e impõem decisões difíceis a muito
curto prazo. Não é de admirar que os nacionalistas japoneses lhes
juntem os conflitos insulares actuais! Fonte: Le Monde, 26/09/2012; Caixin,
24/09/2012
[10] Fonte: Deutsche Welle, 04/10/2012
[11] O dólar está em vias de perder o seu estatuto de divisa
petrolífera para a China, em proveito do yuan. Fonte:
The Examiner,
12/09/2012
[12] Fontes:
China Daily,
25/09/2012;
Les Echos,
02/10/2012
[13] Fonte: CNBC, 04/10/2012
[14] Fontes:
Libération,
25/09/2012;
La Tribune,
04/10/2012
[15] Como havíamos previsto e contrariamente aos discursos dominantes
sobre o fim do euro, a saída da Grécia
e outras
aberrações que provam, se ainda fosse necessário, que os
economistas e outros especialistas neste artesanato, fariam melhor se
desenvolvessem os seus conhecimentos multidisciplinares nomeadamente em
política, geopolítica, previsão e funcionamento das redes
e sistemas complexos. Também podiam de forma útil deixar de
"torcer" pelos interesses financeiros ou económicos mais ou
menos dissimulados. Só na esfera da saúde e da
avaliação dos medicamentos é que os conflitos de
interesses são frequentes. Última observação sobre
este assunto: continuar a dar os prémios Nobel da economia a
especialistas americanos, como acaba de acontecer, é francamente a prova
da cegueira de toda uma disciplina. A crise actual marca o fracasso total do
pensamento económico dominante desde 1945 e, apesar disso, continua-se a
valorizar os trabalhos saídos de universidades e de especialistas que
não param de se enganar desde há 60 anos. Será
possível imaginar uma situação destas na física, na
química,
? Recompensar académicos cujos resultados nunca
aparecem nos encontros marcados? Isto ilustra até que ponto é de
facto um prémio Nobel ideológico, tal como o prémio da Paz
(Obama, UE,
)
[16] Fontes: PressEurop, 12/10/2012;
La Tribune,
12/10/2012
[17] Fontes: PressEurop, 20/09/2012;
Der Spiegel,
15/10/
[18] Fonte: AOL real estate, 13/07/2012
[19] Um dos sites imobiliários importantes e que permite seleccionar
apenas os anúncios de penhoras e, portanto, ficar a conhecer o seu
número.
[20] 88 200 penhoras em 157 500 anúncios.
[NR]
A publicação de um texto por resistir.info não significa
um endosso a todo o seu conteúdo.
15/Outubro/2012
O original encontra-se em
www.leap2020.eu/...
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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