Crise Sistémica Global
Outubro 2012: A economia global aspirada num buraco negro e a
geopolítica mundial ao rubro
Os sete factores chave de um duplo choque sem precedentes
Como previsto por LEAP/E2020 desde os finais de 2011, o fim do Verão de
2012 marca o início do relançamento da Eurolândia
[NR]
com o aparecimento de uma dinâmica positiva alimentada por dois
fenómenos duradouros: em primeiro lugar, a instalação
operacional progressiva dos instrumentos furiosamente discutidos e decididos no
decorrer dos últimos 18 meses; e, em segundo, a centelha
visionária introduzida pelas alterações políticas
dos últimos seis meses que voltaram a colocar o futuro da
Eurolândia a médio/longo prazo no centro do processo de tomada de
decisões. A evolução do Euro nestas últimas semanas
oferece uma ilustração perfeita do fenómeno
[1]
. Dito isto, a Europa vai estar em recessão durante os próximos 6
a 12 meses. E assim, a única boa notícia que anunciávamos
na edição do GEAB de Junho de 2012 está longe de ser
milagrosa.
De certa forma, é mesmo o oposto visto que, a partir de agora, deixou de
ser possível esconder o trágico estado da economia mundial por
detrás do pretexto da "crise do Euro ou da Grécia".
Quanto mais a Eurolândia avançar num caminho construtivo, mais se
revelará o carácter "Potemkiniano"
[2]
da "saúde" das economias americana, chinesa, japonesa,
brasileira
A árvore deixará de esconder a floresta, ou
seja, todas as grandes economias mundiais estão a entrar simultaneamente
em recessão ou em crescimento ao ralenti, arrastando o planeta
socioeconómico e financeiro para um buraco negro.
Paralelamente, o Verão de 2012 terá marcado uma importante
aceleração na deslocação geopolítica mundial
com um conflito sírio que se torna cada vez mais perigoso para o
Médio Oriente e para o mundo
[3]
, uma tensão israelo-iraniana prestes a explodir a todo o momento e um
teste generalizado do poderio americano em declínio desde o Mar
da China à América Latina, passando pelo conjunto do mundo
muçulmano. O mundo estratégico-militar está ao rubro como
de resto é ilustrado pela retomada maciça das vendas de armamento
a nível mundial, em que os Estados unidos fornecem 85% do total
[4]
.
Por essas razões, LEAP/E2020 mantém o seu Alerta Vermelho de
Junho de 2012 e estima que, até ao fim de Outubro de 2012, a economia
global vai ser sugada num buraco negro tendo como pano de fundo uma
geopolítica mundial ao rubro. Basta dizer que as próximas
semanas, de acordo com a nossa equipa, vão arrastar o planeta num
furacão de crises e de conflitos sem precedentes.
Assim, nesta edição do GEAB, LEAP/E2020 apresenta a lista dos
sete factores chave deste duplo choque sem equivalente histórico
moderno
Além disso, esta edição do GEAB Inclui uma previsão
do impacto acumulado da crise e da Internet no comércio de retalho na
Europa, prevendo uma perda de 2,5 milhões de empregos até 2015.
Este número contém igualmente o primeiro de uma série de
três cenários sobre os riscos de explosão social na Europa,
nos Estados Unidos (GEAB nº 68) e na China (GEAB nº 69). Decidimos
começar pela Europa que, de acordo com os nossos investigadores,
deverá experimentar "uma época de motins no primeiro
semestre de 2013", embora, bem entendido, com grandes diferenças
consoante os países europeus.
Encontrarão também neste GEAB nº 67 dois Índices
GEAB, a saber, o Índice GEAB $ e o novo Índice GEAB , que,
a partir de agora, aparecerão três vezes por ano.
E, bem entendido, há o GlobalEurometro que toma o pulso das
opiniões dos europeus sobre matérias importantes.
Este mês as nossas recomendações dizem respeito a divisas
($, , £, yen e yuan), ouro, energia e matérias-primas
básicas, bolsas e seguros de vida.
Finalmente, encontrarão informações sobre o programa do
3º seminário Euro-BRICs organizado em Cannes pelo LEAP, em parceria
com o
MGIMO
, em 27-29/Setembro/2012; e uma oferta especial aos assinantes do
GEAB para formação online sobre previsão política,
organizada pelo nosso parceiro
FEFAP
.
É na encruzilhada dos sete factores-chave de um duplo choque das
próximas semanas que se situa o fim muito doloroso da anestesia dos EUA.
Porque é disso mesmo que se trata. Como sublinhámos
inúmeras vezes no GEAB, os Estados Unidos, desde o início desta
crise, têm-se recusado a enfrentar a realidade
[5]
, tendo recorrido sempre a subterfúgios financeiros,
monetários
(e militares) para tentar minimizar as
consequências da crise. No entanto, tudo isso se revelou ineficaz no
final do Verão de 2012, apesar dos milhões de milhões de
dólares atirados para o que, tudo indica, é um buraco sem fundo.
A melhor prova disso é a decisão do FED de 13 de Setembro em
manter o seu programa Operação Twist de resgates de
Títulos do Tesouro, acrescentando-lhe um programa ilimitado (em tempo e
montante) de resgates de títulos hipotecários imobiliários
(40 mil milhões de dólares por mês) para tentar ressuscitar
o mercado imobiliário americano e, através deste último, o
emprego e o consumo. O FED tem consciência de que esta decisão vai
desencadear oposições e consequências nefastas a
nível internacional. Com efeito há meses que hesita perante um
novo QE3
[6]
. Mas, para tentar evitar uma implosão socioeconómica e um
colapso bolsista na Wall Street antes das eleições de Novembro de
2012
[7]
, enquanto tenta salvar a sua própria credibilidade muito atacada pelo
campo Republicano, preferiu uma "Flexibilização
Psicológica" em vez de uma "Flexibilização
Quantitativa".
O FED é cada vez mais o actor chave do mercado imobiliário
americano, teimando assim em confundir o problema de liquidez com o problema de
solvência. As famílias americanas já não têm
dinheiro para comprar ou construir casas
[8]
. As taxas de juros hipotecários não alterarão nada nesta
matéria. Apenas a Wall Street vai poder continuar a surfar, durante
algum tempo, sobre níveis recordes até que um "belo
dia" tudo se desmoronará perante a repentina tomada de
consciência de que a economia real se está a afundar na
depressão.
Porque todos os indicadores já se encontram a vermelho: o emprego
não arranca, os empregos criados são remunerados muito abaixo dos
empregos perdidos
[9]
, a pobreza explode por todo o país
[10]
,
e as multinacionais americanas
[11]
multiplicam os anúncios de lucros em baixa para o segundo semestre de
2012 e para 2013, reencontrando os níveis alcançados em
2008/2009, típicos de um período de recessão
[12]
.
A actual e futura impotência do sistema político americano
[13]
em enfrentar os seus problemas do défice
[14]
, em conjunto com a "sequestração"
[15]
do orçamento federal
[16]
, cujos efeitos já se fazem sentir em toda a economia americana (tal
como previmos desde a primavera de 2012)
[17]
, vão fazer das próximas semanas uma sucessão sem fim de
más notícias económicas
[18]
mais uma vez tendo como pano de fundo desafios geopolíticos cada
vez menos bem geridos. Porque também nesta frente, a anestesia acabou!
Bastou apenas um ano para se revelarem todos os efeitos perversos do ataque
ocidental à Líbia em 2011: desde o assassínio do
embaixador dos Estados Unidos na Líbia, aos motins anti-UE em todo o
mundo muçulmano, não é possível honestamente
concluir pelo êxito duma política de "acompanhamento"
das revoluções árabes.
A vontade intransigente russa e chinesa de apoiar o regime sírio contra
as tentativas do ocidente e das monarquias do Golfo para o derrubar
[19]
, não só esfrangalhou qualquer dinâmica positiva no
Conselho de Segurança da ONU, como se transformou num teste ao poderio
americano no Médio Oriente.
Enfim, é toda a Ásia do Leste e do Sudeste (Japão,
Formosa, Filipinas, Coreia do Sul
) que, através dos conflitos em
inúmeros ilhéus, está a testar a capacidade americana de
se manter, frente à China
[20]
, uma potência asiática. E está também a avaliar em
tempo real o que resta do poderio americano na região. Até ao
início de 2013, as suas conclusões vão alterar as
alianças e fidelidades herdadas da Segunda Guerra Mundial.
E até mesmo o "quintal das traseiras" dos Estados Unidos
(segundo a doutrina Monroe), nomeadamente a América Latina,
começou a contestar colectivamente posições
geopolíticas americanas de há muitas décadas: a
exclusão de Cuba dos fóruns trans-americanos e a questionar a
guerra contra a droga, pilar do intervencionismo americano na América
Latina há mais de quarenta anos
[21]
.
Citemos ainda a Europa, como nota, visto que a integração
acelerada da Eurolândia constitui de facto uma expulsão da
influência americana no cerne da construção europeia. A
partir de 2013, o FMI (ou seja, Washington) deixará certamente de ser
convidado para se ocupar de problemas intra-Eurolândia, como acontece
hoje com a Grécia. Mesmo em matéria de defesa, o anúncio
surpresa duma possível fusão BAE Systems-EADS, com a EADS em
posição de accionista maioritária
[22]
, ilustra o fim duma era em que a defesa tinha que ser transatlântica,
sendo o Reino Unido o responsável. Donde, a partir de agora, o BAE
Systems está a lutar pela sua sobrevivência
[23]
.
Notas:
(1) Ver GEAB precedentes.
(2) Ver
Wikipedia
.
(3) Fonte: Yahoo/Reuters, 15/09/2012
(4) Nomeadamente no Golfo Pérsico. Fonte:
New York Times,
26/08/2012
(5) Fontes:
New York Times,
14/08/2012;
Financial Sense,
24/08/2012
(6) Fontes: CNBC, 14/09/2012; Market Watch, 29/08/2012
(7) O FED decidiu pois apoiar Barack Obama, finalmente muito mais
próximo dele do que a nova vaga Republicana. Não é para
admirar visto que Mitt Romney anunciou que não renovaria o mandato de
Bem Bernanke se fosse eleito. Fonte: MarketWatch, 23/08/2012
(8) Fonte:
USAToday,
14/09/2012
(9) Fontes:
USAToday,
21/08/2012; al-Jazeera, 20/08/2012;
New York Times,
31/08/2012
(10) Fontes:
USAToday,
23/08/2012; Bloomberg, 10/09/2012; Bloomberg, 05/09/2012
(11) E não são as únicas. Até mesmo a
indústria do luxo, essencialmente europeia, começa a entrar em
pânico. Fonte: Yahoo/Reuters, 14/09/2012
(12) Fonte: Money News, 10/09/2012
(13) Fontes:
Der Spiegel,
17/08/2012;
USAToday,
20/08/2012
(14) O défice orçamental está a atingir novos recordes.
Fonte:
ZeroHedge,
10/09/2012
(15) Cortes automáticos nos orçamentos da defesa e da
segurança social.
(16) Não parece ser possível um acordo quer quanto aos cortes
automáticos quer quanto ao fim das reduções de impostos.
Fonte: CNBC, 11/09/2012
(17) Fonte: Reuters, 07/09/2012
(18) Donde uma degradação crescente da sua competitividade
comercial, contudo uma prioridade do presidente Obama. E, bem entendido, a
multiplicação da desvalorização das
degradações do crédito americano
mas, francamente,
isso é uma coisa que já todos sabem, excepto os cegos que
amontoam Títulos do Tesouro americanos. Fontes: Les Affaires,
11/09/2012; Market Watch, 14/09/2012; Market Watch, 14/09/2012
(19) Os Estados Unidos estão cada vez mais dependentes do
petróleo saudita, Fonte:
New York Times,
16/08/2012
(20) Fonte:
Der Spiegel,
14/09/2012
(21) Fonte: CIP Americas Program, 14/08/2012
(22) Que não haja engano: é a BAE Systems está a lutar
pela sua sobrevivência nesta operação, não a EADS.
Conforme assinalámos no GEAB nº 66, a BAE Systems é uma das
empresas que vai sofrer um forte impacto por causa das reduções
orçamentais do Pentágono; não só porque 20% do seu
volume total de negócios é feito com o governo americano, mas
também porque como é uma empresa não-americana, os seus
competidores americanos iriam, sem dúvida nenhuma, pô-la de lado
nestes tempos de vacas magras. A "relação especial"
EUA/RU é um pequeno delírio de que David Cameron e George Osborne
ainda devem falar à noite no bar; mas que já deixou de ter
qualquer realismo do lado americano. No entanto, o outro grande cliente da BAE
Systems é o governo britânico que efectuou enormes cortes nas suas
despesas militares. Donde a questão de sobrevivência por mais um
ou dois anos, no máximo, da BAE Systems
e a única
opção: a Europa, ou melhor, a Eurolândia com a EADS.
(23) Fonte:
The Telegraph,
14/09/2012
[NR] Ao publicar um artigo resistir.info não está
necessariamente a endossá-lo.
15/Setembro/2012
[*]
Global Europe Anticipation Bulletin
O original encontra-se em
www.leap2020.eu/...
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este comunicado encontra-se em
http://resistir.info/
.
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