Crise sistémica global
Eurolândia 2012-2016: Perenização de uma nova potência global sob condição de democratização

por GEAB [*]

Conforme previsto pela equipa de LEAP/E2020, provou-se ser infundado o medo, profundamente alimentado pela City de Londres e pela Wall Street, quanto ao estilhaçar da zona euro por ocasião da crise da dívida grega [NR 1] . A Eurolândia sai muito reforçada deste episódio [NR 2] violentamente conflituoso com os seus 'aliados naturais'. Segundo a nossa equipa, 2012 vai pois marcar o ponto de partida da perenização de uma nova potência global, a Eurolândia. Esta evolução no entanto está condicionada pela questão da sua democratização [NR 3] , conforme analisamos neste GEAB nº 62, através das três sequências da evolução da Eurolândia 2012-2016. Estes cinco anos vão levar os europeus a influenciar profundamente um reequilíbrio geopolítico mundial enquanto que a nível interno se abre nos próximos meses uma fase radicalmente nova da integração europeia. Além disso, este número do GEAB prevê a evolução do dólar americano como divisa dominante nas transacções comerciais mundiais.

Os anos 2012 e 2013 vão com efeito trazer grandes convulsões nesta área afectando directamente o comércio global assim como o poder respectivo das divisas afectadas. Para além das recomendações relativas às divisas, ao ouro, à Grécia, à Rússia, à economia americana e às bolsas, LEAP/2020 propõe em exclusivo neste GEAB nº 62 um excerto do próximo livro que vai aparecer em Março de 2012 nas Editions Anticipolis intitulado "2015: La grande chute de l'immobilier ocidental" de Sylvain Périfel e Philippe Schneider.

Para este comunicado público, LEAP/E2020 optou por apresentar as suas previsões sobre a primeira das três sequências da Eurolândia 2012-2016.

Conforme anunciado anteriormente, LEAP/E2020 apresenta neste GEAB nº 62 as suas previsões para a Europa no período 2012-2016. No contexto de crise sistémica global, para os europeus, há duas tendências que vão marcar estes cinco anos: por um lado, a perpetuidade da Eurolândia como nova potência global e de pleno direito [1] ; por outro lado, o imperativo absoluto para as elites europeias de acabar com a hipoteca democrática [NR 3] que vai pesar fortemente no processo de integração europeia. A nossa equipa analisa neste GEAB nº 62 porque é que, a partir da segunda metade de 2012, as condições serão óptimas para que a Eurolândia possa assumir plenamente essas duas tendências [2] . Bem entendido, os desafios económicos, financeiros, estratégicos e políticos mantêm-se numerosos para os europeus; mas, com a entrada da crise sistémica global na sua fase de recomposição dos equilíbrios geopolíticos mundiais, com a Eurolândia, dispõem de um "novo soberano" capaz de influenciar positivamente os procedimentos em curso [3] . Claro que esta capacidade fica condicionada à legitimação democrática do conjunto da governação da Eurolândia. De 2012 a 2016, três sequências principais vão caracterizar a perpetuidade da Eurolândia como soberana de pleno direito e o fim da hipoteca democrática.

Antes de entrar em pormenores sobre o caso europeu, a nossa equipa deseja recordar que neste momento a grande diferença entre a previsão da evolução dos Estados Unidos e a da Europa se prende com o facto de que os Estados Unidos têm um sistema político-institucional arcaico e completamente paralisado, enquanto a integração europeia possui uma forte dinâmica associada a uma grande flexibilidade institucional. A ausência de reformas profundas nos Estados Unidos desde o início da crise em 2008, em comparação com a impressionante série de saltos institucionais europeus desde meados de 2010 (evoluções consideradas impossíveis por muita gente ainda há dois anos) serve de ilustração flagrante. No caso americano, a questão da previsão dos acontecimentos impõe assim poder identificar os pontos de rotura dum sistema esclerosado. No caso europeu, trata-se pelo contrário de identificar os procedimentos em curso e avaliar o seu ritmo de desenvolvimento [4] . O que na verdade é muito mais simples, quando, como em LEAP/E2020, se conhece bem o funcionamento institucional europeu e se dispõe de bons analisadores da opinião pública dos diferentes estados-membros [5] .

Último ponto do preâmbulo, o procedimento de decisões europeu vai melhorar consideravelmente no que se refere à Eurolândia visto que a partir de agora apenas os países que partilham o euro tomarão as decisões [NR 4] . De resto um dos grandes méritos destes anos de crise é ter-se clarificado finalmente uma situação aberrante que via países fora da zona euro, ou mesmo anti-euro (como o Reino Unido), participar nas decisões sobre o euro. Mas apesar disso a própria natureza do processo de decisão europeia, implicando negociações e compromissos, continuará a ser caótico e lento, em oposição às tomadas de decisão nacionais. Sê-lo-á muito menos do que dantes, mas de qualquer modo continua, porque é a própria característica do funcionamento da integração europeia; é também in fine uma das suas condições de eficácia, para que cada Estado aplique bem as medidas decididas.

Passemos agora à análise das três importantes sequências que vão caracterizar o período 2012-2016. Estas três importantes sequências foram apresentadas de modo desarticulado por razões de clareza; mas, bem entendido, é evidente que estão entrelaçadas umas nas outras.

Sequência 1– 2012-2013: Fim da consolidação operacional orçamental-financeira da Eurolândia / Lançamento das primeiras políticas socioeconómicas comuns pró-activas / Aceleração da diferenciação Eurolândia-União Europeia

Em meados de 2012, como já indicámos em GEAB anteriores, a Eurolândia ter-se-á dotado de toda uma série de novos dirigentes nacionais (Espanha, Itália, Grécia, França, Eslovénia, Bélgica…) e nos meses que se seguirem a Alemanha entrará também num novo processo eleitoral. A Eurolândia será pois dirigida por homens e mulheres que, na sua maioria, chegaram ao poder depois de desencadeada a crise. Até finais de 2011, isso não aconteceu; muito pelo contrário, a maior parte dos dirigentes da zona euro eram o produto eleitoral do mundo de antes da crise. O facto de que estes dirigentes, políticos medíocres na sua maioria, e completamente impreparados para o desabamento dos valores/convicções que eram os seus até 2008, terem conseguido mesmo assim enfrentar relativamente bem a crise global e depois a crise grega e suas consequências tendo como pano de fundo um violento ataque à moeda única europeia por parte da City de Londres e da Wall Street, é uma prova da dinâmica da integração europeia em curso no seio da Eurolândia.

Com efeito, a nossa equipa considera que eles foram a geração de políticos menos bem armados para "salvar a construção europeia" visto que não estavam genericamente muito interessados na Europa e frequentemente sob a alçada dos bancos e de Washington. Para retomar uma análise de Franck Biancheri de 1989, "os políticos da geração anos 50-60 correm o risco de dar cabo do projecto europeu, que não entendem minimamente, antes que as gerações 'Erasmos' possam entrar em cena".

Nunca se saberá o que se teria passado se a crise sistémica global tivesse rebentado cinco anos depois, mas o que é certo é que teriam sabido evitar "destruir a Europa". Até mesmo Nicolas Sarkozy, que os nossos leitores sabem bem que consideramos como o pior presidente francês da V República para a França e para a Europa, merece uma referência positiva neste ponto por ter sabido fazer avançar a necessidade de cimeiras reservadas aos dirigentes da Eurolândia. O que este episódio nos ensina é que, se dirigentes não preparados e pouco fiáveis souberam encontrar as respostas que permitiram construir as fundações da Eurolândia no meio duma crise histórica, é racional considerar que dirigentes mais inspirados e mais bem preparados (pelo menos pelo facto de terem vivido esta crise antes de chegar ao poder) serão capazes de fazer melhor, ou pelo menos o mesmo [6] .

Esta análise é reforçada por um outro factor determinante do processo de decisões europeu: na ausência de democratização do sistema, os tecnocratas são os verdadeiros donos do jogo no circuito comunitário englobando Frankfurt, Bruxelas,… e as capitais nacionais [7] . São eles que, desde a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) em 1951 tecem as malhas da integração europeia. São eles que ofereceram aos nossos dirigentes desorientados as soluções destes dois últimos anos. São eles que preparam já iniciativas para os próximos anos. Mas, para poderem realizar os saltos em matéria de integração europeia, precisam dos políticos. E os políticos não estão dispostos a correr riscos a não ser em duas situações: quando têm medo ou quando são visionários [8] . O medo terá sido o aguilhão de 2010/2011. A visão do futuro será o dos anos 2012/2016 [NR 5] .

Dois elementos determinam esta vacilação da reacção em relação ao projecto pois é disso mesmo que se trata; o medo só provoca reacções; a visão do futuro encarna-se em projectos.

Por um lado, constata-se que, depois do episódio "aperto do cinto" desejado e com razão pelos países ditos excedentários (Alemanha, Países Baixos, Finlândia…) [9] , vemos desenvolver-se por toda a parte nas elites da Eurolândia a ideia de que também é necessário projectar-se positivamente no futuro (relançamento, investimentos comuns, eurobonds…). A passagem pela fase de austeridade era inevitável, como prevíramos a partir de 2008/2009, porque a integração da Eurolândia impõe ter regras comuns, aplicadas de modo realista e cessar as políticas de sobre-endividamento colectivo promovidas nas últimas décadas pelos banqueiros e pólos financeiros da City e da Wall Street.

O caso da Grécia é exemplar. Lá voltaremos nas recomendações deste GEAB nº 62, mas somos muito claros nesta questão: para ultrapassar o problema grego, é preciso deitar abaixo a classe dirigente parasitária que levou este país à ruína [NR 6] . Ora a Eurolândia actualmente não tem muitos meios para fazer isso, a não ser mostrar aos gregos que já ninguém confia nos seus dirigentes. É também um meio dissuasor vis-à-vis dirigentes de outros países tentados pelo endividamento para tentar conservar o poder.

Assim, 2012 e 2013 vão assistir à finalização das novas regras de governação orçamental, fiscal e económica, comuns da Eurolândia. Controlo comum dos orçamentos, evolução para uma harmonização fiscal [10] , repatriamento dos mercados financeiros em euros na Eurolândia [11] , regulamentação financeira reforçada, agência de notação europeia, taxa sobre as transacções financeiras, eurobonds, instauração de um grau máximo de exposição das dívidas governamentais nos mercados financeiros fora da Eurolândia…

Para as equipas que chegam ao poder na Eurolândia, estas evoluções são evidências; para os seus antecessores eram revolucionárias. Mas, nestas bases, os dois próximos anos vão igualmente assistir ao lançamento de diversas grandes iniciativas comuns destinadas a construir o futuro: programa comum de investimentos públicos (infra-estruturas comuns no domínio dos transportes, da educação [12] , da formação, da saúde, da ciência e da tecnologia…). O seu financiamento vai desencadear um dos grandes debates dos dois próximos anos porque será impossível, segundo a nossa equipa, evitar o recurso ao empréstimo directo aos cidadãos, curto-circuitando assim os bancos e o financiamento por parte dos mercados financeiros. Com um montante equivalente ao do MEE, 500 mil milhões de euros, metade servirá para reduzir a dependência das dívidas governamentais nos mercados financeiros internacionais (por via dos eurobonds) e metade para financiar os grandes projectos do futuro. Se o MEE é um embrião do Fundo Monetário Europeu, este grande empréstimo será a premissa de um Tesouro europeu. E fará parte da panóplia de instrumentos de solidariedade social trans-europeia que vão surgir daqui até 2014, para substituir progressivamente os múltiplos fundos estruturais tradicionais da UE [13] .

Por outro lado, a partir da segunda metade de 2012, a Eurolândia vai assistir ao regresso construtivo dos franceses no projecto europeu. É uma realidade esquecida de muitos visto que já desapareceu há 17 anos do processo de decisões europeu. Quer Jacques Chirac quer Nicolas Sarkozy, nenhum presidente francês desde 1995 teve uma fibra europeia (contrariamente aos seus antecessores, De Gaulle, Giscard e Mitterrand). Jacques Chirac pelo menos tinha a fibra gaullista da recusa do servilismo, o que lhe permitiu resistir à mobilização geral na invasão do Iraque, em parceria com o chanceler alemão Gerhard Schröder e o presidente russo Vladimir Putine. Nicolas Sarkozy não tem fibra nenhuma, nem nacional nem europeia. Apenas atravessou a paisagem política [14] movido pelos interesses estrangeiros à custa do bem comum dos franceses e dos europeus.

Estas tendências à cedência ou ao anedotismo foram reforçadas, bem entendido, pelo domínio anglo-saxónico da agenda europeia, impelindo ao alargamento e a Europa-mercado em prejuízo da integração e da Europa-potência. In fine, há 17 anos que a França deixou de dar a sua contribuição intelectual para a progressão da integração europeia [15] . Esta "ausência francesa" a nível europeu terá sido apenas o reflexo dum divórcio crescente entre o poder parisiense e o país real [16] ; situação que, segundo LEAP/E2020, se aproxima de um desfecho com a rejeição maciça dos franceses pelo actual presidente.

Sem expectativas extraordinárias, a próxima eleição de François Hollande para a presidência da França vai permitir reconstituir o elo entre o país real [17] e os dirigentes franceses, pelo menos durante um ou dois anos, tempo suficiente para redinamizar a contribuição francesa a nível europeu. A personalidade do candidato socialista também joga a favor dessa evolução. É um político para quem a Europa é um componente-chave do seu empenhamento, na linha Miterrand-Delors; e tem o perfil que é necessário aos futuros dirigentes da Eurolândia para este período de 2012-2016: terão que ser bons a trabalhar em equipa, porque a direcção da Eurolândia será uma questão de equipa e não de individualidades. Estes cinco anos vão parecer-se mais com a montagem interna dos diversos componentes duma estação espacial, do que com cargas de cavalaria. Cada época tem necessidade de um certo tipo de dirigentes: a Eurolândia dos anos futuros tem necessidade de equipas europeias, fiáveis e inventivas, que sabem para onde querem ir e conscientes de que não podem lá chegar sozinhos. Para lá de qualquer consideração partidária, pelo seu percurso e pela conduta da sua campanha, a nossa equipa considera que François Hollande demonstrou possuir estas qualidades [18] .

Neste contexto, é urgente que ele reposicione o seu discurso de campanha sobre a renegociação do actual tratado europeu, prometendo negociar complementos a esse tratado. É necessário para tranquilizar os parceiros alemão e holandês em especial; e é útil para evitar que Angela Merkel se afunde ainda mais no profundo erro estratégico que constitui a sua entrada em campanha ao lado de Nicolas Sarkozy [19] . Porque, por um lado, isso não evitará de modo nenhum a derrota deste último (muito pelo contrário); e, por outro lado, tornará mais difícil os primeiros meses de cooperação franco-alemã depois de 6 de Maio de 2012, apesar de ser urgente abrir a outros países (Países Baixos, Espanha, Itália…) o núcleo motor da Eurolândia.

Paralelamente, estes dois anos vão ver a aceleração da diferenciação entre a Eurolândia e a UE. É um fenómeno que caracterizará de facto todo o decénio. A Eurolândia que funciona muito sob a forma de redes informais vai progressivamente ter que se dotar de algumas bases institucionais. Serão ligeiras porque ninguém quer reproduzir a burocratização que esclerosou definitivamente Bruxelas; mas à imagem do BCE, do MEE, muito em breve vai revelar-se necessário um secretariado de governação da Eurolândia, e depois algumas instituições específicas, assim como uma componente Eurolândia específica no seio do Parlamento europeu (reuniões reservadas aos deputados europeus dos países da Eurolândia para discutir questões específicas da Eurolândia, à imagem das cimeiras da Eurolândia). Esta evolução será tanto mais forte e mais rápida quanto o Reino Unido tentar atrasar ou boicotar as acções da Eurolândia. Tivemos um exemplo disso no efeito contraproducente do veto britânico em Dezembro passado; acabou por obrigar pura e simplesmente os outros a avançar sem Londres).

Em geral, os eurolandeses procurarão utilizar as instituições comunitárias existentes afastando os não eurolandeses dos processos de decisão. Sempre que isso for impossível ou demasiado complicado, será criada uma nova base institucional. Esta evolução será tanto mais fácil quanto o conjunto dos países da UE, com excepção do Reino Unido, estejam de facto numa lógica de adesão ao euro [20] . A maior parte dos países da UE sabem que estarão na Eurolândia até 2017; o que facilita enormemente as evoluções da Eurolândia nos próximos anos.

Assim, após uma quinzena de anos de erros sob a influência britânica e americana, durante os quais os europeus embarcaram em projectos de crescimento sem futuro (Turquia, Ucrânia,…) [21] em estratégias económico-financeiras ilusórias (estratégia de Lisboa,…), os próximos anos terão a marca do regresso à integração política e económica, como foi o caso por altura do primeiro renascimento comunitário dos anos 1984-1992. Segundo LEAP/E2020, o período 2012/2013 marcará pois o início do segundo renascimento comunitário.

Notas
[1] Ou seja, podendo mobilizar o conjunto dos atributos de um "soberano": moeda, orçamento, economia, política internacional e defesa.
[2] De passagem, lembramos que as previsões de LEAP/E2020 desde 2006/2007 sobre a emergência da Eurolândia a propósito da crise sistémica global provaram ser ajustadas; tal como os nossos avisos contra os prognósticos dos que viam, ainda até há poucos meses, o fim da zona euro e o desaparecimento do euro. Lembramos, a propósito, que as nossas previsões se fundamentam sempre em análises racionais e objectivas, respeitando os princípios da metodologia de previsão política; independentemente das opiniões pessoais dos membros da nossa equipa. É isso, e apenas isso, o que nos permite, desde 2006, enfrentar serenamente o pensamento dominante ou os períodos de histeria colectiva, que se escandalizam sempre com quem se recusa a pensar como toda a gente. Em período de crise, a lucidez é essencial para tentar compreender os acontecimentos e as suas consequências. Ora, a lucidez é incompatível com o "pronto-a-pensar", quer seja ditado pelo poder ou pelo medo. A título de anedota, o titulo de CNBC de 15/Fev/2012 sobre os desempenhos da Eurolândia, melhores do que previam os "especialistas" anglo-saxões, é muito revelador: "O PIB da Eurolândia melhor que esperado. O que é que isso significa?" Por um lado, podemos legitimamente perguntar se a primeira parte do título não deveria ser "o PIB da Eurolândia 'menos pior' do que esperado" para reflectir o estado de espírito real desses "especialistas"? E por outro lado, a pergunta da segunda parte do título soa como uma espécie de confissão: "e se tivéssemos tomado os nossos desejos como realidades?"
[3] Esta tendência é reforçada pela chegada maciça, no decurso deste decénio, das gerações nascidas após a assinatura do Tratado de Roma, das primeiras gerações para as quais a Europa é um espaço sociopolítico natural. Em contraste com a geração de 50-60, viveiro privilegiado dos eurocépticos.
[4] Do que os meios de comunicação anglo-saxónicos, que alimentam a esfera mediática mundial, são incapazes, principalmente porque passam geralmente pelo prisma britânico que se mostra ideologicamente incapaz de compreender o processo continental de integração europeia de modo diferente do que uma ameaça a esconjurar ou a desprezar. Duas atitudes pouco propícias a gerar a lucidez sobre os acontecimentos.
[5] Para informação, cerca de um ano antes dos referendos francês e holandês sobre o projecto de Constituição europeia, no quadro dos trabalhos destinados às instituições nacionais e europeias, previmos que o "Não" ganharia nos dois países (numa altura em que todas as sondagens davam o "Sim" como vencedor folgado).
[6] Já evocámos no GEAB o paralelo com a crise dos euromísseis que em menos de três anos levou a comunidade europeia, depois de uma mudança dos seus dirigentes, de uma crise existencial ao primeiro renascimento do projecto comunitário (1984-1992).
[7] De resto isto actualmente é tão verdadeiro que estão em vias de substituir os políticos fracassados em funções governamentais, como Mario Monti na Itália ou Lucas Papademos na Grécia. E, com êxito assegurado nesta altura no caso de Mario Monti. Esta situação levou também os cidadãos a olhar muito criticamente para as classes políticas nacionais, obrigando-as a reformar-se nos próximos anos. Fonte: Independent , 15/02/2012.
[8] Os dois casos são exclusivos porque um político visionário tem poucas hipóteses de se deixar apanhar numa situação temível; enquanto que o político amedrontado é aquele que não tem a menor ideia de como sair duma ratoeira.
[9] Países a que a França de Nicolas Sarkozy se agarrou para não parecer pertencer a outro campo.
[10] Depois de estabilizada a situação grega, é a Irlanda e o dumping fiscal que vai estar no centro das atenções da Eurolândia.
[11] A City desencadeou uma "blitzkrieg" de dois anos para tentar em vão acabar com a zona euro. A partir de agora a Eurolândia vai aumentar todos os anos a pressão para reduzir a pressão já em declínio da City. E David Cameron, tal como os eurocépticos britânicos financiados pelos fundos de pensões, não poderão muito contra o facto de que, por muito que lhes pese, apenas 15 km separam Dover de Calais.
[12] Em especial, um vasto programa, sucessor do Erasmus, para formar as elites europeias em número e qualidade suficientes; e simultaneamente para oferecer a dimensão europeia a centenas de milhares de jovens todos os anos, forma muito concreta de democratização do acesso à Europa.
[13] Há uns anos, a nossa equipa explicou ironicamente a responsáveis de alto nível de Bruxelas, que se não arranjassem políticas de solidariedade trans-Eurolândia para fazer face a choques assimétricos, tinham que investir fortemente em forças policiais de intervenção europeias para controlar a cólera dos cidadãos.
[14] Recordamos que previmos desde Novembro de 2010 no GEAB nº 49 que Nicolas Sarkozy não seria reeleito em 2012.
[15] Os episódios do mau projecto de Constituição europeia e da adopção do Tratado de Lisboa sem referendo são mais duas ilustrações.
[16] Um presidente reeleito por defeito em 2002 quando Jacques Chirac enfrenta Jean-Marie Le Pen; e um engano sobre a "mercadoria" identificada demasiado tarde, após a sua eleição, com Nicolas Sarkozy em 2007.
[17] Um dos eixos da sua política visa precisamente descentralizar, 'desparisianizar' o poder francês. Fonte: Débats 2012 , 27/Jan/2012.
[18] Vai ter cinco anos para mostrar que pode ser de facto François EurHollande.
[19] Uma falta largamente comentada como tal na Alemanha.
[20] Incluindo a Dinamarca que está à espera da boa altura para um referendo sobre o assunto (fonte: Euronews , 23/Jan/2012). O caso checo é muito simples: logo que Vaclav Klaus deixe de ser presidente, a República Checa juntar-se-á ao resto dos países europeus para se preparar para entrar no euro. Será um fenómeno parecido com a substituição, em 2007, dos gémeos polacos Kaczynski, pro-americanos e anti-europeus, pelo actual primeiro-ministro Donald Tusk, que levou a uma viragem de 180 graus da política europeia. Última nota sobre o caso Klaus: o seu partido assim como a sua reeleição para a presidência em 2008, através do voto dos deputados, enfrenta múltiplas acusações de corrupção. A sua "representatividade" da opinião pública checa mede-se por este tipo de "pormenores". Em 2013, o presidente será finalmente eleito por sufrágio universal. Fonte: Rue89 , 09/Fev/2011.
[21] Esta deriva do projecto europeu original impediu os cidadãos de se concentrarem na questão do tandem governação/democratização, visto que a Europa era uma forma sempre em movimento. Assim, mesmo ao nível das jovens gerações, a promoção oficial desta Europa sem fronteiras impediu o aparecimento de novas iniciativas para tentar influenciar o seu futuro. A nossa equipa pode constatar que actualmente, e a toda a velocidade, esta situação está em vias de mudar radicalmente.

15/Fevereiro/2012

NR
[1] Resistir.info não tem de concordar necessariamente com os artigos que publica. Neste, o neo-gaullismo chauvinista-europeista dos autores principia pelo próprio título. Quanto ao facto de a União Europeia não estar (ainda?) estilhaçada, isso não é consolo nenhum para os povos da Grécia, de Portugal, da Irlanda e dos demais países europeus que irão seguir pelo mesmo caminho.
[2] Pode-se apreciar tal "reforço" no facto de a Comissão Europeia ter previsto que em 2012 a eurozona voltará a cair em recessão – pela segunda vez em três anos – e que os 17 membros registarão crescimentos negativos. Segundo a Comissão, o PIB da eurozona cairá 0,3% em 2012 e o de Portugal 3,3%.
[3] No caso em apreço, mesmo que se admitisse a ideia de que seria possível "democratizar" a União Europeia, ou a Europa dos monopólios, é monstruoso que os autores falem nisso como uma possibilidade real no exacto momento em que o capital financeiro está a preparar uma nova ditadura com o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE). O MEE disporá de poderes para, a qualquer momento, exigir que os países europeus lhe entreguem num prazo de 7 (sete) dias recursos dos seus orçamentos de Estado no montante que ele resolver determinar. Esta disposição – que elimina quaisquer resquícios de soberania nacional – transfere poderes absolutos ao capital financeiro em detrimento dos povos europeus. Ver MEE, o novo ditador europeu e MEE, um golpe de estado em 17 países .
[4] Melhorar para quem? A melhoria não é para os povos e sim para o capital financeiro.
[5] Optimismo lírico.
[6] Os autores não esclarecem qual outra classe substituirá a "classe dirigente parasitária" da Grécia. Aparentemente, tal substituição seria feita pela classe financeira europeia – que é igualmente parasitária.


[*] Global Europe Anticipation Bulletin.

O original encontra-se em www.leap2020.eu/... . Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
25/Fev/12