Crise sistémica global
Eurolândia 2012-2016: Perenização de uma nova
potência global sob condição de democratização
Conforme previsto pela equipa de LEAP/E2020, provou-se ser infundado o medo,
profundamente alimentado pela City de Londres e pela Wall Street, quanto ao
estilhaçar da zona euro por ocasião da crise da dívida
grega
[NR 1]
. A Eurolândia sai muito reforçada deste episódio
[NR 2]
violentamente conflituoso com os seus 'aliados naturais'. Segundo a nossa
equipa, 2012 vai pois marcar o ponto de partida da perenização
de uma nova potência global, a Eurolândia. Esta
evolução no entanto está condicionada pela questão
da sua democratização
[NR 3]
, conforme analisamos neste GEAB nº 62, através das três
sequências da evolução da Eurolândia 2012-2016. Estes
cinco anos vão levar os europeus a influenciar profundamente um
reequilíbrio geopolítico mundial enquanto que a nível
interno se abre nos próximos meses uma fase radicalmente nova da
integração europeia. Além disso, este número do
GEAB prevê a evolução do dólar americano como divisa
dominante nas transacções comerciais mundiais.
Os anos 2012 e 2013 vão com efeito trazer grandes convulsões
nesta área afectando directamente o comércio global assim como o
poder respectivo das divisas afectadas. Para além das
recomendações relativas às divisas, ao ouro, à
Grécia, à Rússia, à economia americana e às
bolsas, LEAP/2020 propõe em exclusivo neste GEAB nº 62 um excerto
do próximo livro que vai aparecer em Março de 2012 nas
Editions Anticipolis
intitulado
"2015: La grande chute de l'immobilier ocidental"
de Sylvain Périfel e Philippe Schneider.
Para este comunicado público, LEAP/E2020 optou por apresentar as suas
previsões sobre a primeira das três sequências da
Eurolândia 2012-2016.
Conforme anunciado anteriormente, LEAP/E2020 apresenta neste GEAB nº 62 as
suas previsões para a Europa no período 2012-2016. No contexto de
crise sistémica global, para os europeus, há duas
tendências que vão marcar estes cinco anos: por um lado, a
perpetuidade da Eurolândia como nova potência global e de pleno
direito
[1]
; por outro lado, o imperativo absoluto para as elites europeias de acabar com
a hipoteca democrática
[NR 3]
que vai pesar fortemente no processo de integração europeia. A
nossa equipa analisa neste GEAB nº 62 porque é que, a partir da
segunda metade de 2012, as condições serão óptimas
para que a Eurolândia possa assumir plenamente essas duas
tendências
[2]
. Bem entendido, os desafios económicos, financeiros,
estratégicos e políticos mantêm-se numerosos para os
europeus; mas, com a entrada da crise sistémica global na sua fase de
recomposição dos equilíbrios geopolíticos mundiais,
com a Eurolândia, dispõem de um "novo soberano" capaz de
influenciar positivamente os procedimentos em curso
[3]
. Claro que esta capacidade fica condicionada à
legitimação democrática do conjunto da
governação da Eurolândia. De 2012 a 2016, três
sequências principais vão caracterizar a perpetuidade da
Eurolândia como soberana de pleno direito e o fim da hipoteca
democrática.
Antes de entrar em pormenores sobre o caso europeu, a nossa equipa deseja
recordar que neste momento a grande diferença entre a previsão da
evolução dos Estados Unidos e a da Europa se prende com o facto
de que os Estados Unidos têm um sistema político-institucional
arcaico e completamente paralisado, enquanto a integração
europeia possui uma forte dinâmica associada a uma grande flexibilidade
institucional. A ausência de reformas profundas nos Estados Unidos desde
o início da crise em 2008, em comparação com a
impressionante série de saltos institucionais europeus desde meados de
2010 (evoluções consideradas impossíveis por muita gente
ainda há dois anos) serve de ilustração flagrante. No caso
americano, a questão da previsão dos acontecimentos impõe
assim poder identificar os pontos de rotura dum sistema esclerosado. No caso
europeu, trata-se pelo contrário de identificar os procedimentos em
curso e avaliar o seu ritmo de desenvolvimento
[4]
. O que na verdade é muito mais simples, quando, como em LEAP/E2020, se
conhece bem o funcionamento institucional europeu e se dispõe de bons
analisadores da opinião pública dos diferentes estados-membros
[5]
.
Último ponto do preâmbulo, o procedimento de decisões
europeu vai melhorar consideravelmente no que se refere à
Eurolândia visto que a partir de agora apenas os países que
partilham o euro tomarão as decisões
[NR 4]
. De resto um dos grandes méritos destes anos de crise é ter-se
clarificado finalmente uma situação aberrante que via
países fora da zona euro, ou mesmo anti-euro (como o Reino Unido),
participar nas decisões sobre o euro. Mas apesar disso a própria
natureza do processo de decisão europeia, implicando
negociações e compromissos, continuará a ser
caótico e lento, em oposição às tomadas de
decisão nacionais. Sê-lo-á muito menos do que dantes, mas
de qualquer modo continua, porque é a própria
característica do funcionamento da integração europeia;
é também
in fine
uma das suas condições de eficácia, para que cada Estado
aplique bem as medidas decididas.
Passemos agora à análise das três importantes
sequências que vão caracterizar o período 2012-2016. Estas
três importantes sequências foram apresentadas de modo
desarticulado por razões de clareza; mas, bem entendido, é
evidente que estão entrelaçadas umas nas outras.
Sequência 1 2012-2013: Fim da consolidação
operacional orçamental-financeira da Eurolândia /
Lançamento das primeiras políticas socioeconómicas comuns
pró-activas / Aceleração da diferenciação
Eurolândia-União Europeia
Em meados de 2012, como já indicámos em GEAB anteriores, a
Eurolândia ter-se-á dotado de toda uma série de novos
dirigentes nacionais (Espanha, Itália, Grécia, França,
Eslovénia, Bélgica
) e nos meses que se seguirem a Alemanha
entrará também num novo processo eleitoral. A Eurolândia
será pois dirigida por homens e mulheres que, na sua maioria, chegaram
ao poder depois de desencadeada a crise. Até finais de 2011, isso
não aconteceu; muito pelo contrário, a maior parte dos dirigentes
da zona euro eram o produto eleitoral do mundo de antes da crise. O facto de
que estes dirigentes, políticos medíocres na sua maioria, e
completamente impreparados para o desabamento dos
valores/convicções que eram os seus até 2008, terem
conseguido mesmo assim enfrentar relativamente bem a crise global e depois a
crise grega e suas consequências tendo como pano de fundo um violento
ataque à moeda única europeia por parte da City de Londres e da
Wall Street, é uma prova da dinâmica da integração
europeia em curso no seio da Eurolândia.
Com efeito, a nossa equipa considera que eles foram a geração de
políticos menos bem armados para "salvar a construção
europeia" visto que não estavam genericamente muito interessados na
Europa e frequentemente sob a alçada dos bancos e de Washington. Para
retomar uma análise de Franck Biancheri de 1989, "os
políticos da geração anos 50-60 correm o risco de dar cabo
do projecto europeu, que não entendem minimamente, antes que as
gerações 'Erasmos' possam entrar em cena".
Nunca se saberá o que se teria passado se a crise sistémica
global tivesse rebentado cinco anos depois, mas o que é certo é
que teriam sabido evitar "destruir a Europa". Até mesmo
Nicolas Sarkozy, que os nossos leitores sabem bem que consideramos como o pior
presidente francês da V República para a França e para a
Europa, merece uma referência positiva neste ponto por ter sabido fazer
avançar a necessidade de cimeiras reservadas aos dirigentes da
Eurolândia. O que este episódio nos ensina é que, se
dirigentes não preparados e pouco fiáveis souberam encontrar as
respostas que permitiram construir as fundações da
Eurolândia no meio duma crise histórica, é racional
considerar que dirigentes mais inspirados e mais bem preparados (pelo menos
pelo facto de terem vivido esta crise antes de chegar ao poder) serão
capazes de fazer melhor, ou pelo menos o mesmo
[6]
.
Esta análise é reforçada por um outro factor determinante
do processo de decisões europeu: na ausência de
democratização do sistema, os tecnocratas são os
verdadeiros donos do jogo no circuito comunitário englobando Frankfurt,
Bruxelas,
e as capitais nacionais
[7]
. São eles que, desde a criação da Comunidade Europeia do
Carvão e do Aço (CECA) em 1951 tecem as malhas da
integração europeia. São eles que ofereceram aos nossos
dirigentes desorientados as soluções destes dois últimos
anos. São eles que preparam já iniciativas para os
próximos anos. Mas, para poderem realizar os saltos em matéria de
integração europeia, precisam dos políticos. E os
políticos não estão dispostos a correr riscos a não
ser em duas situações: quando têm medo ou quando são
visionários
[8]
. O medo terá sido o aguilhão de 2010/2011. A visão do
futuro será o dos anos 2012/2016
[NR 5]
.
Dois elementos determinam esta vacilação da reacção
em relação ao projecto pois é disso mesmo que se trata; o
medo só provoca reacções; a visão do futuro
encarna-se em projectos.
Por um lado, constata-se que, depois do episódio "aperto do
cinto" desejado e com razão pelos países ditos
excedentários (Alemanha, Países Baixos, Finlândia
)
[9]
, vemos desenvolver-se por toda a parte nas elites da Eurolândia a ideia
de que também é necessário projectar-se positivamente no
futuro (relançamento, investimentos comuns, eurobonds
). A passagem
pela fase de austeridade era inevitável, como prevíramos a partir
de 2008/2009, porque a integração da Eurolândia
impõe ter regras comuns, aplicadas de modo realista e cessar as
políticas de sobre-endividamento colectivo promovidas nas últimas
décadas pelos banqueiros e pólos financeiros da City e da Wall
Street.
O caso da Grécia é exemplar. Lá voltaremos nas
recomendações deste GEAB nº 62, mas somos muito claros nesta
questão: para ultrapassar o problema grego, é preciso deitar
abaixo a classe dirigente parasitária que levou este país
à ruína
[NR 6]
. Ora a Eurolândia actualmente não tem muitos meios para fazer
isso, a não ser mostrar aos gregos que já ninguém confia
nos seus dirigentes. É também um meio dissuasor vis-à-vis
dirigentes de outros países tentados pelo endividamento para tentar
conservar o poder.
Assim, 2012 e 2013 vão assistir à finalização das
novas regras de governação orçamental, fiscal e
económica, comuns da Eurolândia. Controlo comum dos
orçamentos, evolução para uma harmonização
fiscal
[10]
, repatriamento dos mercados financeiros em euros na Eurolândia
[11]
, regulamentação financeira reforçada, agência de
notação europeia, taxa sobre as transacções
financeiras, eurobonds, instauração de um grau máximo de
exposição das dívidas governamentais nos mercados
financeiros fora da Eurolândia
Para as equipas que chegam ao poder na Eurolândia, estas
evoluções são evidências; para os seus antecessores
eram revolucionárias. Mas, nestas bases, os dois próximos anos
vão igualmente assistir ao lançamento de diversas grandes
iniciativas comuns destinadas a construir o futuro: programa comum de
investimentos públicos (infra-estruturas comuns no domínio dos
transportes, da educação
[12]
, da formação, da saúde, da ciência e da
tecnologia
). O seu financiamento vai desencadear um dos grandes debates
dos dois próximos anos porque será impossível, segundo a
nossa equipa, evitar o recurso ao empréstimo directo aos
cidadãos, curto-circuitando assim os bancos e o financiamento por parte
dos mercados financeiros. Com um montante equivalente ao do MEE, 500 mil
milhões de euros, metade servirá para reduzir a dependência
das dívidas governamentais nos mercados financeiros internacionais (por
via dos eurobonds) e metade para financiar os grandes projectos do futuro. Se o
MEE é um embrião do Fundo Monetário Europeu, este grande
empréstimo será a premissa de um Tesouro europeu. E fará
parte da panóplia de instrumentos de solidariedade social trans-europeia
que vão surgir daqui até 2014, para substituir progressivamente
os múltiplos fundos estruturais tradicionais da UE
[13]
.
Por outro lado, a partir da segunda metade de 2012, a Eurolândia vai
assistir ao regresso construtivo dos franceses no projecto europeu. É
uma realidade esquecida de muitos visto que já desapareceu há 17
anos do processo de decisões europeu. Quer Jacques Chirac quer Nicolas
Sarkozy, nenhum presidente francês desde 1995 teve uma fibra europeia
(contrariamente aos seus antecessores, De Gaulle, Giscard e Mitterrand).
Jacques Chirac pelo menos tinha a fibra gaullista da recusa do servilismo, o
que lhe permitiu resistir à mobilização geral na
invasão do Iraque, em parceria com o chanceler alemão Gerhard
Schröder e o presidente russo Vladimir Putine. Nicolas Sarkozy não
tem fibra nenhuma, nem nacional nem europeia. Apenas atravessou a paisagem
política
[14]
movido pelos interesses estrangeiros à custa do bem comum dos franceses
e dos europeus.
Estas tendências à cedência ou ao anedotismo foram
reforçadas, bem entendido, pelo domínio anglo-saxónico da
agenda europeia, impelindo ao alargamento e a Europa-mercado em prejuízo
da integração e da Europa-potência.
In fine,
há 17 anos que a França deixou de dar a sua
contribuição intelectual para a progressão da
integração europeia
[15]
. Esta "ausência francesa" a nível europeu terá
sido apenas o reflexo dum divórcio crescente entre o poder parisiense e
o país real
[16]
; situação que, segundo LEAP/E2020, se aproxima de um desfecho
com a rejeição maciça dos franceses pelo actual
presidente.
Sem expectativas extraordinárias, a próxima eleição
de François Hollande para a presidência da França vai
permitir reconstituir o elo entre o país real
[17]
e os dirigentes franceses, pelo menos durante um ou dois anos, tempo
suficiente para redinamizar a contribuição francesa a
nível europeu. A personalidade do candidato socialista também
joga a favor dessa evolução. É um político para
quem a Europa é um componente-chave do seu empenhamento, na linha
Miterrand-Delors; e tem o perfil que é necessário aos futuros
dirigentes da Eurolândia para este período de 2012-2016:
terão que ser bons a trabalhar em equipa, porque a
direcção da Eurolândia será uma questão de
equipa e não de individualidades. Estes cinco anos vão parecer-se
mais com a montagem interna dos diversos componentes duma estação
espacial, do que com cargas de cavalaria. Cada época tem necessidade de
um certo tipo de dirigentes: a Eurolândia dos anos futuros tem
necessidade de equipas europeias, fiáveis e inventivas, que sabem para
onde querem ir e conscientes de que não podem lá chegar sozinhos.
Para lá de qualquer consideração partidária, pelo
seu percurso e pela conduta da sua campanha, a nossa equipa considera que
François Hollande demonstrou possuir estas qualidades
[18]
.
Neste contexto, é urgente que ele reposicione o seu discurso de campanha
sobre a renegociação do actual tratado europeu, prometendo
negociar complementos a esse tratado. É necessário para
tranquilizar os parceiros alemão e holandês em especial; e
é útil para evitar que Angela Merkel se afunde ainda mais no
profundo erro estratégico que constitui a sua entrada em campanha ao
lado de Nicolas Sarkozy
[19]
. Porque, por um lado, isso não evitará de modo nenhum a derrota
deste último (muito pelo contrário); e, por outro lado,
tornará mais difícil os primeiros meses de
cooperação franco-alemã depois de 6 de Maio de 2012,
apesar de ser urgente abrir a outros países (Países Baixos,
Espanha, Itália
) o núcleo motor da Eurolândia.
Paralelamente, estes dois anos vão ver a aceleração da
diferenciação entre a Eurolândia e a UE. É um
fenómeno que caracterizará de facto todo o decénio. A
Eurolândia que funciona muito sob a forma de redes informais vai
progressivamente ter que se dotar de algumas bases institucionais. Serão
ligeiras porque ninguém quer reproduzir a burocratização
que esclerosou definitivamente Bruxelas; mas à imagem do BCE, do MEE,
muito em breve vai revelar-se necessário um secretariado de
governação da Eurolândia, e depois algumas
instituições específicas, assim como uma componente
Eurolândia específica no seio do Parlamento europeu
(reuniões reservadas aos deputados europeus dos países da
Eurolândia para discutir questões específicas da
Eurolândia, à imagem das cimeiras da Eurolândia). Esta
evolução será tanto mais forte e mais rápida quanto
o Reino Unido tentar atrasar ou boicotar as acções da
Eurolândia. Tivemos um exemplo disso no efeito contraproducente do veto
britânico em Dezembro passado; acabou por obrigar pura e simplesmente os
outros a avançar sem Londres).
Em geral, os eurolandeses procurarão utilizar as
instituições comunitárias existentes afastando os
não eurolandeses dos processos de decisão. Sempre que isso for
impossível ou demasiado complicado, será criada uma nova base
institucional. Esta evolução será tanto mais fácil
quanto o conjunto dos países da UE, com excepção do Reino
Unido, estejam de facto numa lógica de adesão ao euro
[20]
. A maior parte dos países da UE sabem que estarão na
Eurolândia até 2017; o que facilita enormemente as
evoluções da Eurolândia nos próximos anos.
Assim, após uma quinzena de anos de erros sob a influência
britânica e americana, durante os quais os europeus embarcaram em
projectos de crescimento sem futuro (Turquia, Ucrânia,
)
[21]
em estratégias económico-financeiras ilusórias
(estratégia de Lisboa,
), os próximos anos terão a
marca do regresso à integração política e
económica, como foi o caso por altura do primeiro renascimento
comunitário dos anos 1984-1992. Segundo LEAP/E2020, o período
2012/2013 marcará pois o início do segundo renascimento
comunitário.
Notas
[1] Ou seja, podendo mobilizar o conjunto dos atributos de um
"soberano": moeda, orçamento, economia, política
internacional e defesa.
[2] De passagem, lembramos que as previsões de LEAP/E2020 desde
2006/2007 sobre a emergência da Eurolândia a propósito da
crise sistémica global provaram ser ajustadas; tal como os nossos avisos
contra os prognósticos dos que viam, ainda até há poucos
meses, o fim da zona euro e o desaparecimento do euro. Lembramos, a
propósito, que as nossas previsões se fundamentam sempre em
análises racionais e objectivas, respeitando os princípios da
metodologia de previsão política; independentemente das
opiniões pessoais dos membros da nossa equipa. É isso, e apenas
isso, o que nos permite, desde 2006, enfrentar serenamente o pensamento
dominante ou os períodos de histeria colectiva, que se escandalizam
sempre com quem se recusa a pensar como toda a gente. Em período de
crise, a lucidez é essencial para tentar compreender os acontecimentos e
as suas consequências. Ora, a lucidez é incompatível com o
"pronto-a-pensar", quer seja ditado pelo poder ou pelo medo. A
título de anedota, o titulo de
CNBC
de 15/Fev/2012 sobre os desempenhos
da Eurolândia, melhores do que previam os "especialistas"
anglo-saxões, é muito revelador: "O PIB da Eurolândia
melhor que esperado. O que é que isso significa?" Por um lado,
podemos legitimamente perguntar se a primeira parte do título não
deveria ser "o PIB da Eurolândia 'menos pior' do que esperado"
para reflectir o estado de espírito real desses
"especialistas"? E por outro lado, a pergunta da segunda parte do
título soa como uma espécie de confissão: "e se
tivéssemos tomado os nossos desejos como realidades?"
[3] Esta tendência é reforçada pela chegada maciça,
no decurso deste decénio, das gerações nascidas
após a assinatura do Tratado de Roma, das primeiras
gerações para as quais a Europa é um espaço
sociopolítico natural. Em contraste com a geração de
50-60, viveiro privilegiado dos eurocépticos.
[4] Do que os meios de comunicação anglo-saxónicos, que
alimentam a esfera mediática mundial, são incapazes,
principalmente porque passam geralmente pelo prisma britânico que se
mostra ideologicamente incapaz de compreender o processo continental de
integração europeia de modo diferente do que uma ameaça a
esconjurar ou a desprezar. Duas atitudes pouco propícias a gerar a
lucidez sobre os acontecimentos.
[5] Para informação, cerca de um ano antes dos referendos
francês e holandês sobre o projecto de Constituição
europeia, no quadro dos trabalhos destinados às
instituições nacionais e europeias, previmos que o
"Não" ganharia nos dois países (numa altura em que
todas as sondagens davam o "Sim" como vencedor folgado).
[6] Já evocámos no GEAB o paralelo com a crise dos
euromísseis que em menos de três anos levou a comunidade europeia,
depois de uma mudança dos seus dirigentes, de uma crise existencial ao
primeiro renascimento do projecto comunitário (1984-1992).
[7] De resto isto actualmente é tão verdadeiro que estão
em vias de substituir os políticos fracassados em funções
governamentais, como Mario Monti na Itália ou Lucas Papademos na
Grécia. E, com êxito assegurado nesta altura no caso de Mario
Monti. Esta situação levou também os cidadãos a
olhar muito criticamente para as classes políticas nacionais,
obrigando-as a reformar-se nos próximos anos. Fonte:
Independent
, 15/02/2012.
[8] Os dois casos são exclusivos porque um político
visionário tem poucas hipóteses de se deixar apanhar numa
situação temível; enquanto que o político
amedrontado é aquele que não tem a menor ideia de como sair duma
ratoeira.
[9] Países a que a França de Nicolas Sarkozy se agarrou para
não parecer pertencer a outro campo.
[10] Depois de estabilizada a situação grega, é a Irlanda
e o dumping fiscal que vai estar no centro das atenções da
Eurolândia.
[11] A City desencadeou uma "blitzkrieg" de dois anos para tentar em
vão acabar com a zona euro. A partir de agora a Eurolândia vai
aumentar todos os anos a pressão para reduzir a pressão já
em declínio da City. E David Cameron, tal como os eurocépticos
britânicos financiados pelos fundos de pensões, não
poderão muito contra o facto de que, por muito que lhes pese, apenas 15
km separam Dover de Calais.
[12] Em especial, um vasto programa, sucessor do Erasmus, para formar as elites
europeias em número e qualidade suficientes; e simultaneamente para
oferecer a dimensão europeia a centenas de milhares de jovens todos os
anos, forma muito concreta de democratização do acesso à
Europa.
[13] Há uns anos, a nossa equipa explicou ironicamente a
responsáveis de alto nível de Bruxelas, que se não
arranjassem políticas de solidariedade trans-Eurolândia para fazer
face a choques assimétricos, tinham que investir fortemente em
forças policiais de intervenção europeias para controlar a
cólera dos cidadãos.
[14] Recordamos que previmos desde Novembro de 2010 no GEAB nº 49 que
Nicolas Sarkozy não seria reeleito em 2012.
[15] Os episódios do mau projecto de Constituição europeia
e da adopção do Tratado de Lisboa sem referendo são mais
duas ilustrações.
[16] Um presidente reeleito por defeito em 2002 quando Jacques Chirac enfrenta
Jean-Marie Le Pen; e um engano sobre a "mercadoria" identificada
demasiado tarde, após a sua eleição, com Nicolas Sarkozy
em 2007.
[17] Um dos eixos da sua política visa precisamente descentralizar,
'desparisianizar' o poder francês. Fonte:
Débats 2012
, 27/Jan/2012.
[18] Vai ter cinco anos para mostrar que pode ser de facto François
EurHollande.
[19] Uma falta largamente comentada como tal na Alemanha.
[20] Incluindo a Dinamarca que está à espera da boa altura para
um referendo sobre o assunto (fonte:
Euronews
, 23/Jan/2012). O caso checo é muito simples: logo que Vaclav Klaus
deixe de ser presidente, a República Checa juntar-se-á ao resto
dos países europeus para se preparar para entrar no euro. Será um
fenómeno parecido com a substituição, em 2007, dos
gémeos polacos Kaczynski, pro-americanos e anti-europeus, pelo actual
primeiro-ministro Donald Tusk, que levou a uma viragem de 180 graus da
política europeia. Última nota sobre o caso Klaus: o seu partido
assim como a sua reeleição para a presidência em 2008,
através do voto dos deputados, enfrenta múltiplas
acusações de corrupção. A sua
"representatividade" da opinião pública checa mede-se
por este tipo de "pormenores". Em 2013, o presidente será
finalmente eleito por sufrágio universal. Fonte:
Rue89
, 09/Fev/2011.
[21] Esta deriva do projecto europeu original impediu os cidadãos de se
concentrarem na questão do tandem
governação/democratização, visto que a Europa era
uma forma sempre em movimento. Assim, mesmo ao nível das jovens
gerações, a promoção oficial desta Europa sem
fronteiras impediu o aparecimento de novas iniciativas para tentar influenciar
o seu futuro. A nossa equipa pode constatar que actualmente, e a toda a
velocidade, esta situação está em vias de mudar
radicalmente.
15/Fevereiro/2012
NR
[1] Resistir.info não tem de concordar necessariamente com os artigos
que publica. Neste, o neo-gaullismo chauvinista-europeista dos autores
principia pelo próprio título. Quanto ao facto de a União
Europeia
não estar (ainda?) estilhaçada, isso não é consolo
nenhum para os povos da Grécia, de Portugal, da Irlanda e dos demais
países europeus que irão seguir pelo mesmo caminho.
[2] Pode-se apreciar tal "reforço" no facto de a
Comissão Europeia ter previsto que em 2012 a eurozona voltará a
cair em recessão pela segunda vez em três anos e que os
17 membros registarão crescimentos negativos.
Segundo a Comissão, o PIB da eurozona cairá 0,3% em 2012
e o de Portugal 3,3%.
[3] No caso em apreço, mesmo que se admitisse a ideia de que seria
possível "democratizar" a União Europeia, ou a Europa
dos monopólios, é monstruoso que os autores falem nisso como uma
possibilidade real no exacto momento em que o capital financeiro está a
preparar uma nova ditadura com o Mecanismo Europeu de Estabilidade
(MEE). O MEE disporá de poderes para, a qualquer momento, exigir que os
países europeus lhe entreguem num prazo de 7 (sete) dias recursos dos
seus orçamentos de Estado no montante que ele resolver determinar. Esta
disposição que elimina quaisquer resquícios de
soberania nacional transfere poderes absolutos ao capital financeiro em
detrimento dos povos europeus.
Ver
MEE, o novo ditador europeu
e
MEE, um golpe de estado em 17 países
.
[4] Melhorar para quem? A melhoria não é para os povos e sim para
o capital financeiro.
[5] Optimismo lírico.
[6] Os autores não esclarecem qual outra classe substituirá a
"classe dirigente parasitária" da Grécia.
Aparentemente, tal substituição seria feita pela classe
financeira europeia que é igualmente parasitária.
[*] Global Europe Anticipation Bulletin.
O original encontra-se em
www.leap2020.eu/...
. Tradução de Margarida Ferreira.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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