Crise financeira: especulação sem restrições

por Alejandro Nadal

. A pior crise financeira dos Estados Unidos desde 1929 confirma aquilo que já se sabia, pelo menos desde Keynes. As expectativas dos mercados financeiros tendem a super reagir frente a boas ou más notícias, ampliando os sinais e conduzindo a uma volatilidade excessiva nos preços dos activos. Por isso os mercados financeiros são sistemas dinâmicos altamente instáveis nos quais a valorização de títulos é altamente irracional.

Essa volatilidade é um monstro que se alimenta de si próprio: é o motor da especulação, gerando ciclos de bolhas em expansão ou em contracção súbita quando rebentam. Mas a partir de 1973 a teia reguladora que mantinha o sector financeiro sob controle foi sistematicamente desmantelada.

Bancos, corretoras, seguradoras, avalistas e toda a gama de agentes que vivem nas entranhas dos mercados bursáteis cantaram a mesma canção: a "desregulamentação" foi promovida ao abrigo da hipótese dos mercados eficientes. Algumas vozes no meio académico e nas agências reguladoras aconselharam prudência, mas as necessidades do capital financeiro impuseram-se e saíram vitoriosas. Hoje todo o mundo (literalmente) está a pagar as consequências.

A eliminação das regras aumentou a opacidade e assistiu ao surgimento de novos participantes e produtos em operações de alavancagem muito forte: fundos de cobertura de risco, produtos derivados e sintéticos altamente complexos, os chamados veículos de investimento estruturado (SIV), as obrigações de dívida colaterizadas (CDO), etc. Estas inovações nos mercados financeiros são difíceis de apreciar correctamente. Em muitos casos, as operações sobre estes instrumentos são "especiais" e colocam-se fora das declarações financeiras dos bancos e das corretoras. Além disso, muitas das companhias classificadoras têm investimentos neste tipo de instrumentos, pelo que se encontram num claro conflito de interesses. Tudo isso contribui para uma situação de falta de transparência e torna muito difícil a supervisão pelas agências reguladoras que ainda subsistem, apesar de reduzidas à sua expressão mínima.

Enquanto os promotores da desregulamentação financeira pediam menos intervenção do Estado alegando o funcionamento eficiente do mercado, a eliminação de regras conduzia a maior instabilidade. Um exemplo claro disto é a derrocada e resgate do falido Bear and Stearns, conglomerado que era ao mesmo tempo banco de investimentos, corretora e agente no mercado bursátil.

Um dos factores que converteu a crise do mercado hipotecário numa enfermidade contagiosa foi a colocação de títulos em bolsa. Em processo coloca barreiras entre os possuidores de títulos e os devedores, tornando difícil a correcta avaliação do risco creditício. Exemplo: na crise do mercado hipotecário intervieram múltiplos agentes, desde o corretor de bens imobiliários, o avaliador, o banco hipotecário, o banco de investimentos que reempacotava os créditos hipotecários como dívida colaterizada, até as agências classificadoras que concediam um triplo A para esse tipo de investimentos. Todos esses degraus estiveram a cobrar um prémio e transferiam o risco para o degrau seguinte da cadeia, que cada vez tinha menor capacidade e vocação para apreciar correctamente a solvência do devedor. O resultado final: produtos financeiros tóxicos que se distribuíram por todo o sistema financeiro, bancário e não bancário.

A crise financeira também é provocada pelos métodos de compensação e retribuição dos funcionários dos bancos e corretoras. Este sistema de compensações está baseado em bónus pelo bom desempenho definido em termos de lucros a curto prazo. Isto aumenta o chamado risco moral ao premiar a especulação e o comportamento irresponsável. Sem esquema de penalização, os altos quadros de corretoras e bancos têm fortes incentivos para aceitar riscos altíssimos que normalmente teriam sido recusados.

A necessidade de estabelecer uma nova regulamentação sobre o sistema financeiro deveria ser atendida imediatamente. Mas a realidade é que a nível nacional e internacional continua-se a favorecer o esquema da "auto-regulamentação", onde a chamada disciplina do mercado e uma série (mínima) de princípios básicos é tudo o que se precisa para assegurar o bom desempenho do sistema financeiro. Isso é o que está por trás dos acordos de Basileia II. Parece que na economia capitalista mundial o poderio do sector financeiro conseguiu impor o fraco esquema regulamentar que convém aos seus interesses.

O original encontra-se em http://www.jornada.unam.mx/2008/06/25/index.php?section=opinion&article=029a1eco

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28/Jun/08