Rostos da crise:
Reflexões sobre o colapso da civilização burguesa

por Jorge Beinstein [*]

Foto de Margaret Bourke White, 1937.
  • A segunda desconexão
  • Crise financeira
  • As crises energética e alimentar
  • A crise dos Estados Unidos
  • Crise militar
  • Crise do Estado
  • Crise tecnológica
  • Colapsos ambiental e urbano
  • Ciclos longos e integração das crises
  • Periodização
  • Notas

    A crise mundial apareceu primeiro sob a forma de uma turbulência financeira originada pelo rebentar da bolha imobiliária norte-americana. Inclusivamente, no início não faltaram opiniões de "peritos" (muito difundidas pelos meios de comunicação), assegurando que a tormenta duraria pouco devido à força geral dos Estados Unidos. Quando os problemas aumentaram, sem modo à vista de os superar, uma nova onda de prognósticos tranquilizadores informava-nos que as dificuldades do império não teriam razão para propagar-se à escala global (talvez apenas a um nível muito pequeno…). Começou assim a efémera vida da " Teoria do desligamento " (geográfica), segundo a qual alguns espaços centrais ou periféricos emergentes estariam suficientemente resguardados da tormenta para preservar as suas economias e inclusivamente prosseguir a expansão sem problemas de maior. Uns apostavam na suposta solidez europeia, outros no arranque para o desenvolvimento da China, Índia e Brasil e, porque não, na renascente potência energético-militar russa. Esses mesmos meios de comunicação haviam saturado o planeta durante muitos anos com a ideia de que nenhuma nação, grande ou pequena, podia escapar à globalização capitalista e que se um país ou grupo de países não insignificantes se constipassem o contágio seguramente se propagaria à escala planetária. Agora parecia que quando os Estados Unidos, o centro do mundo, sofriam de uma doença grave os outros espaços decisivos da economia global já não seriam prejudicados ou sê-lo-iam a um nível mínimo. Que em 2007 a superpotência representasse cerca de 25% do Produto Bruto Mundial e uma dívida total – pública e privada – próxima do PBM (e uma dívida externa total equivalente a 22% do PBM) não parecia afectar o prognóstico. Como é lógico os efeitos da intoxicação mediática duraram muito pouco; a Europa entrou em recessão empurrada pelos Estados Unidos mas também carregando as suas próprias taras parasitárias, a onda negra chegou também ao Japão e inundou as chamadas potências emergentes da região como a Índia, a Coreia do Sul ou a China e outras zonas de periferia como o Brasil.

    A crise é mundial e será longa, a acumulação de desajustes e a sua magnitude não sugerem uma recuperação rápida dos sistemas, mas o contrário, ainda que restrinjamos a análise aos seus aspectos económicos (no início de Outubro de 2008 a crise financeira converteu-se num colapso que deitou abaixo o sinal de interrogação a todos os cenários de sobrevivência do capitalismo).

    A segunda desconexão

    Mas mantém-se em pé outra desconexão não menos ilusória: a sectorial. Existe uma deformação cultural na nossa civilização que empurra para a fragmentação do conhecimento, até à negação do mundo como totalidade, como sistema complexo em movimento. Lucien Goldman opunha frequentemente de maneira taxativa "ideologia" (reducionista, dissociativa) e "visão do mundo", encontrando aí uma das chaves da reprodução da opressão burguesa e, em consequência, do caminho para emanciparmo-nos dela, marcado pela recuperação da percepção da realidade como um conjunto amplo, plural, coerente, contraditório, dinâmico.

    A crise actual levou ao extremo as tendências psicológicas dissociadoras, em boa medida alimentadas pelos meios de comunicação. As turbulências financeiras, energéticas e alimentares aparecem saturadas de explicações superficiais acerca de "erros" de gestão ou de políticas públicas. Por vezes estabelecem-se vínculos entre elas, por exemplo a especulação financeira como causa da instabilidade dos preços do petróleo ou de certos produtos agrícolas, bem como entre os custos energéticos e os preços dos alimentos, mas essas interacções reduzem-se a jogos de curto prazo ou a certas tendências perversas de médio prazo. A incerteza é coberta por explicações anedóticas quase sempre relacionadas com as mudanças de humor dos chamados "investidores"; as autoridades económicas dos países centrais ou dos organismos internacionais que os representam (OCDE, FMI, Banco Mundial, etc) não param de fazer declarações contraditórias, um dia anunciando os perigos da recessão inflacionária, outro alertando para as ameaças da recessão deflacionária, de manhã assegurando que a crise está prestes a ser superada para pela tarde declararem que a desaceleração económica pode ser de longa duração. Tudo isto ao ritmo dos movimentos erráticos das bolsas e preços e das corridas imprevisíveis dos especuladores, manipulando massas de fundos de um volume que as torna ingovernáveis. Nem os especuladores nem as autoridades entendem realmente o que se está a passar, caiu-lhes em cima uma avalanche de desastres e cada um trata de sobreviver com os instrumentos que tem disponíveis.

    Junto a essas crises apresenta-se a dos Estados Unidos (no centro, pilar decisivo do sistema global) mostrada simplesmente pela sua especificidade "nacional", por exemplo como resultado de políticas irracionais (na generalidade reversíveis) impostas por certos grupos de poder, a sua subordinação estratégica à dinâmica mais ampla do sistema global é frequentemente ignorada ou subestimada.

    Um dos seus componentes principais é a crise do Complexo Industrial Militar frequentemente atribuída aos seus "erros" no Iraque e no Afeganistão, endossados por sua vez ao aventureirismo de George W. Bush e seus falcões. A hipótese que a mesma pudesse estar expressa na crise do militarismo burguês (fenómeno engendrado pela evolução do capitalismo mundial) e a sua provável entrada em fase terminal, de decadência, não é tema de debate.

    Igual sorte tem a crise do Estado imperial, presa na sua especificidade, subestimada, desligada dos fenómenos paralelos num amplo leque de países centrais e periféricos e da história universal do capitalismo, em especial o ciclo estático iniciado em finais do século XIX.

    Por outro lado a reflexão acerca da crise da tecnologia, ou seja, da cultura técnica moderna (incluindo a perspectiva do seu esgotamento histórico), está na generalidade ausente. O "optimismo tecnológico" contém um aflição esmagadora pois o nosso sistema tecnológico é visualizado como uma complexa confusão de instrumentos, de conhecimentos muito flexíveis, cuja dinâmica, ainda que influenciada pelo poder político, económico ou da cidadania vigente (e consequentemente relativamente manipulável) responderia em última instância ao movimento mais geral, sobre determinante, do chamado progresso humano, desde a idade da pedra até ao século XXI.

    Por fim, a crise ambiental é com frequência atribuída a comportamentos irracionais, modificáveis a partir da intervenção dos cidadãos. Fica assim imposto um "debate único" em torno das alternativas apresentadas como possíveis, positivas, construtivas, realistas, etc., afastadas do catastrofismo, do pessimismo e outras perversões praticadas pelos profetas do fim do mundo. Desse modo inicia-se uma mega-operação de censura ideológica, de bloqueio da razão, de esforço para relacionar a catástrofe ambiental com a lógica de uma civilização (burguesa), que a determina.

    Trazer à luz e integrar estas e outras "crises" numa visão geral constitui uma tarefa extremamente difícil, mas dramaticamente necessária, urgente. A aceleração e expansão da desordem global impõe-nos a necessidade de ver além da superfície e dos aspectos parciais, única maneira de compreender o mundo em que vivemos.

    Crise financeira

    A crise financeira tem de ser entendida como expressão da hipertrofia das actividades especulativas, sendo necessário ir além da sucessão de bolhas que se desenvolveram desde meados dos anos 1990 até à actualidade (bolhas da bolsa, imobiliárias) e abarcar as quatro últimas décadas durante as quais uma crise crónica de sobre produção de carácter global (cujo início pode ser estabelecido em 1968-1973) foi alimentando o globo especulativo que por sua vez reforçou a doença do sistema económico. A crise dos países centrais pôde ser atenuada, adiada, graças ao complexo mecanismo de desenvolvimento mundial de negócios financeiros, mas o dito adiamento prolongado acabou por engendrar um dos factores decisivos da crise total do sistema (em que agora começamos a entrar).

    A prosperidade do pós-guerra terminou em 1973-1974 com o choque petrolífero que encontrou uma economia mundial muito frágil devido à soma de acontecimentos negativos que o precederam, como as desordens monetárias, a queda da rentabilidade empresária, a desaceleração do circuito de endividamento e do consumo privado, além o incremento da capacidade produtiva ociosa.

    Gráfico 1. Com a imagem de fundo de uma crise de sobre-produção as economias industrializadas entraram na chamada " estagflação", os preços subiam ao mesmo tempo que a desocupação e os aparelhos produtivos estancavam. A partir daí a taxa de crescimento económico mundial foi caindo tendencialmente, fenómeno que persistiu até à actualidade (ver gráfico 1)

    Isto traduziu-se em altos níveis de desemprego e precarização laboral, agravados pela guerra tecnológica entre as empresas que procuravam preservar ou conquistar mercados cada vez mais difíceis. Como consequência foi-se impondo uma tendência pesada, de grande duração, de desaceleração da procura nas nações ricas. Nos países da OCDE a taxa de crescimento real médio do consumo privado tinha chegado a 5,1% no período 1961-73 mas desceu para 3,1% em 1974-1979, 2,7% em 1980-89 e 2,3% em 1990-1991 [1] . Tal movimento travou a expansão produtiva, convertendo a superprodução real ou potencial desordenada iniciada em 1970 num fenómeno que persistiu a longo prazo.

    A desaceleração económica provocou défices fiscais. Uma redução dos gastos públicos ou uma maior pressão tributária teriam tido efeitos recessivos, mas por outro lado existiam excedentes financeiros de empresas e bancos (petrodólares, etc.) com sérias dificuldades de conversão em inversões produtivas devido à situação de desaceleração.

    A solução do problema foi encontrada por meio do crescimento da dívida pública, de modo que o endividamento dos países ricos a partir dos anos 80 sucedeu ao endividamento dos países pobres na segunda metade dos anos 70.

    Este foi facilitado pela liberalização financeira e cambial que nessa época empurrou para cima as taxas reais de juros e eternizou a instabilidade das paridades entre as moedas forte. Os estados necessitavam fundos (para sustentar as exigências internas através de pagamentos de pensões, subsídios a desempregados, gastos militares, etc) que ultrapassavam as disponibilidades monetárias locais, tendo então recorrido aos investidores internacionais, o que os obrigou a eliminar os travões à livre circulação de moedas, à compra-venda de títulos públicos e privados e ao desenvolvimento de negócios financeiros. A financeirização empresarial completou o círculo: as empresas colocavam fundos em títulos públicos e também privados que trocavam entre si ou com que inundavam o mercado bolsista, com as suas acções.

    A interacção perversa de três fenómenos: desaceleração do crescimento económico, crescimento do endividamento público e financeirização empresarial, gerou um monstro que cresceu incessantemente até converter-se em hipertrofia financeira global, alimentada por taxas de juro relativamente altas que desaceleravam a inversão e a procura.

    No início dos anos 90 os endividamentos estatais começaram a ser avaliados negativamente pelos governos centrais e os grandes grupos económicos (o salva-vidas liberal tornava-se cada vez mais pesado ameaçando destruir as economias desenvolvidas). Por outro lado os excedentes acumulados pelo sistema financeiro mundial requeriam novas áreas de expansão que lhes permitissem preservar os seus níveis de rentabilidade e diversos mecanismos adicionais possibilitaram a manutenção da sua reprodução ampliada.

    A engenharia financeira acelerou esse desenvolvimento, fundos de pensão e de inversão, bancos e empresas encontraram na revolução informática o atalho tecnológico que lhes permitiu criar "produtos financeiros derivados" de alta complexidade (ver o gráfico 1), articular uma rede bolsista e de câmbio internacional muito dinâmica e outras inovações que os meios de comunicação pintavam como cabeças de ponte do novo capitalismo planetário triunfante. Esses negócios apanharam também famílias e pequenos aforradores que se incorporavam de maneira directa ou indirecta, principalmente nos Estados Unidos, à euforia das elites. Inflaram-se os valores das acções e outros activos especulativos, aumentando a massa financeira global.

    Por outro lado acentuou-se e generalizou-se o chamado fenómeno das "economias emergentes": os fluxos monetários foram até elas, adquiriram e instalaram empresas, compraram títulos públicos e privados, tudo isto numa lógica de benefícios elevados e rápidos que expandiram ainda mais a maré financeira. O desmantelamento da URSS e outros países do leste europeu gerou nos anos 90 uma grande evasão de capitais para as economias centrais, reforçando o dito processo.

    O que foi apresentado como a incorporação de países subdesenvolvidos e ex-socialistas no sistema global de mercado, às custas do Primeiro Mundo, não foi senão a implantação de sistemas de depredação que desarticularam ainda mais essas economias. Em certos casos apresentados como "de sucesso" (como o Brasil, Índia, China e outros países da Ásia) foram instalados ou reforçados mecanismos de sobre-exploração dos trabalhadores e/ou recursos naturais ao serviço do consumo e produção dos países centrais (via matérias-primas ou produtos industriais baratos).

    Finalmente desenvolveu-se um fenómeno inicialmente marginal, mas que logo se foi instalando no cerne da economia internacional:   o espaço dos negócios ilegais, visíveis, às claras na periferias, discretos no centro (onde residem as suas chefias estratégicas). Estes negócios de altíssima rentabilidade expandiram-se como uma mancha de óleo, cobrindo de áreas mafiosas o sistema global. Tráfico de drogas e armas, prostituição, golpes sobre patrimónios públicos periféricos, etc, forjaram uma massa de negócios que, pelo seu volume e dinamismo, passou a constituir um factor decisivo da reprodução da economia mundial.

    A crise asiática de 1997 apareceu na altura como uma catástrofe financeira da periferia emergente, mas no entanto deveria ter sido vista como uma crise global cujo coração se encontrava nos países centrais envoltos pela desaceleração produtiva e pelo parasitismo (a bolha especulativa asiática daqueles anos não foi mais que um epifenómeno do cancro financeiro central). Mas ao iniciar-se a actual década o visível motor da desordem apresenta-se claramente no centro do mundo: os Estados Unidos e as outras grandes potências.

    O agravar da crise permite-nos ver além dos jogos conceptuais que fabricavam universos económicos "monetários e "virtuais" desconectados da chamada "economia real". As inter-relações concretas entre os fenómenos descritos demonstram o carácter ilusório das fronteiras entre essas supostas esferas diferenciadas, que se tratam na verdade de uma só realidade, estrutural, material, social, onde a produção de bens, o seu intercâmbio, os meios monetários, o emprego, mas também a política, o Estado, a tecnologia, etc, formam um só sistema à deriva.

    Ao começar o século XXI a erupção financeira provoca turbulências de gravidade crescente nos países centrais, com os seus mecanismos de exportação da crise (para a periferia) e de controlo interno da maré especulativa mostrando-se insuficientes perante o volume alcançado por esses negócios. Os produtos financeiros derivados registados pelo Banco de Basileia no ano 2000 equivaliam a cerca de duas vezes o Produto Bruto Mundial da altura, a meio de 2008 os derivados registados (mais de 600 milhões de milhões de dólares) equivalem a pouco mais de dez vezes o actual PBM. Se a esse volume somarmos os outros negócios especulativos em acção chegaríamos a mil milhões de milhões de dólares, aproximadamente umas 18 vezes o PBM, que alguns autores qualificam como o "mega buraco negro financeiro da economia mundial". Mas a maré parasitária não podia expandir-se indefinidamente, mais cedo ou mais tarde teria que entrar em colapso e como é lógico o pontapé inicial foi dado no centro do centro do mundo – os Estados Unidos.

    Duas observações de carácter geral são necessárias.

    Em primeiro lugar constatamos que a sobrevalorização de activos financeiros não foi senão um mecanismo de concentração mundial de rendimentos e de saqueio económico (desarticulador), que ampliava cada vez mais a brecha entre os aparelhos produtivos (globalizados) dominados pela lógica do parasitismo especulativo e massas crescentes de pobres e excluídos (principalmente, mas não somente, na periferia). A sobre produção crónica auto-alimentava-se com o seu próprio veneno marginalizador-concentrador-financeiro.

    Em segundo lugar temos que ver o movimento de financeirização das últimas quatro décadas como etapa superior, final, do processo de expansão financeira do capitalismo, iniciado no fim do século XIX, avaliado pelos célebres textos de Lenine, Hilferding, Bukarin e outros autores. Sobretudo é necessário ter em consideração as referências de Lenine acerca do carácter decadente do fenómeno [2] e de Bukarin em relação à formação de uma classe capitalista parasitária, cada vez mais afastada da cultura produtiva [3] .

    Poderíamos diferenciar (utilizando a conceptualização gramsciana) uma primeira etapa (desde finais do século XIX até finais dos anos 60) de "dominação" financeira, onde esses negócios controlavam crescentemente o coração do sistema mas faziam-no sob o disfarce cultural do produtivismo industrial. Ter-se-á seguido uma segunda etapa (iniciada nos 70) de "hegemonia" financeira onde o cancro parasitário controla integralmente o sistema, deita fora os discursos produtivistas que ainda sobreviviam e converte o seu estilo de vida no centro da cultura universal.

    Talvez devamos estabelecer uma terceira etapa, marcada por uma espécie de parasitismo decadente, irrompendo na primeira década do século XXI, caracterizada pela saturação financeira da economia mundial, empurrando para o colapso o sistema, donde emergem dinâmicas de autodestruição do capitalismo mas também de recomposição selvagem, de barbárie, reedição actualizada e em escala ampliada da tentativa hitleriana (se adoptarmos esta hipótese Bush e os seus falcões seriam os pioneiros da nova era).

    As crises energética e alimentar

    Gráfico 2. Tendo-se cumprido o prognóstico de King Hubbert de 1956 acerca do momento do nível máximo de produção petrolífera norte-americana, que, como previu, começou a decair nos anos 70, parecem agora cumprir-se (utilizando a mesma metodologia) os prognósticos mais pessimistas referidos para o nível máximo de produção petrolífera mundial, que fixavam a chegada ao tecto produtivo antes do fim da actual década. Há pouco mais de dois anos e meio que a curva de extracção tende a manter-se dentro de uma barreira entre os 84 milhões e os 88 milhões de barris diários. Talvez seja capaz de romper-se esse tecto, mas muito provavelmente apenas forçando a capacidade produtiva racional em áreas chave do sistema internacional de exploração do recurso e sem conseguir modificar a tendência em direcção ao estancamento. Em que momento a actual direcção levemente ascendente converter-se-á em declínio? Tudo parece indicar que a duração do período estacionário é directamente proporcional à futura taxa anual de declínio. Se a pressão dos grandes consumidores globais conseguir submeter os principais produtores (Médio Oriente, bacia do Mar Cáspio, Rússia, etc), obrigando-os a sobre-explorar as suas fontes, mais cedo ou mais tarde poderão produzir-se importantes colapsos produtivos em alguns deles.

    A recessão internacional em que estamos a entrar anuncia a desaceleração do consumo petrolífero, até inclusivamente a sua descida, debilitando a subida do preço e fazendo-o mesmo baixar, tendência reforçada pela retirada dos fundos especulativos que apostavam na subida da sua cotação. No entanto, o facto de estarmos no pico de extracção global (o "Pico Petrolífero"), ou muito próximo dele indica-nos a existência de gatilhos inflacionários (dinâmicas ascensionais no preço do petróleo) que quando a extracção começar a descer irão aparecendo em níveis cada vez mais baixos do Produto Mundial Bruto. Em síntese, a tendência de longo prazo é de subida dos preços, previsivelmente não ordenada, podendo facilmente até deslocar-se mesmo no sentido contrário. Sucessivas entradas e retiradas de fundos especulativos nos mercados, atraídos ou repelidos por feitos reais ou imaginários de cada conjuntura prolongarão para o futuro a trajectória zig-zagueante-ascendente que se tem desenvolvido no últimos anos, provocando inflação e bloqueando os instrumentos anti-recessivos dos países capitalistas centrais.

    Uma nova era de crescimento económico prolongado necessitaria de uma sincronização sistemática de poupanças de energia e substituições de recursos energéticos e minerais em geral não-renováveis ou por recursos não-renováveis (quais?) submetidos a novas técnicas de exploração cujas " imensas " reservas (relativas) afastariam para um futuro muito longínquo o tema do seu esgotamento (foi o que ocorreu a partir de finais dos século XVIII com a exploração do carvão mineral primeiro e do petróleo muito tempo depois).

    Tal requereria um salto inovativo, uma ruptura capaz de superar quase dois séculos e meio de uma cultura tecnológica muito densa e baseada na exploração intensiva de recursos não-renováveis. Não dispomos nem do menor indício sério de que essa onda inovadora esteja a aparecer nem que possa aparecer durante a próxima década.

    A irrupção dos biocombustíveis demonstra que efectivamente essa onda não existe. A sua expansão, inclusivamente a mais ousada, não consegue superar a penúria energética e a sobre-exploração de terras férteis e produtos agrícolas com fins energéticos reduz a oferta alimentar, traz fome e inflação.

    A utilização de energia nuclear em grande escala, além dos graves problemas de segurança, provocaria um rápido esgotamento das reservas de urânio, além da expansão do emprego de carbono que enfrentaria problemas nos custos de reconversão, de difíceis adaptações tecnológicas, de poluição e finalmente de esgotamento do recurso. Segundo recentes avaliações, as explorações intensivas das reservas de urânio e carbono (no nível necessário para suavizar a crise energética) levariam ao declínio da sua extracção a partir do ano de 2030, possivelmente antes [4] .

    As forças produtivas mundiais, tais como agora as conhecemos, encontram-se bloqueadas por um tecto energético produto do seu próprio desenvolvimento, da sua interacção com a "natureza", apreendida na lógica da modernidade como objecto de depredação (o notável êxito energético do capitalismo industrial foi na realidade a antecâmara de um desastre universal). Por outro lado o bloqueio energético ao crescimento económico baseia o tema crucial da expansão incessante do produto global bruto, necessidade vital para o capitalismo mas não para outras formas de organização social onde o consumo e a posse de objectos materiais seriam subordinados à convivência humana. Dito de outro modo, a humanidade poderia reduzir substancialmente o seu gasto de energia, produzindo globalmente menos e reorganizando o seu sistema produtivo em torno das necessidades básicas da reprodução social, livres de ditaduras elitistas e parasitárias, o que equivale a dizer a cultural ocidental-burguesa. O que parece ainda uma proposta utópica, inalcançável, será cada vez mais (à medida que avance a crise geral dos sistemas) um programa urgente de sobrevivência (re-humanização dos "sentido comum").

    Mas hoje estamos mergulhados em plena crise capitalista onde a penúria energética constitui uma realidade iniludível, e consequentemente ocupa o centro do campo de batalha pela apropriação dos ditos recursos entre as potências dominantes (EUA, Japão, União Europeia) e os seus associados emergentes periféricos (China, Índia). Aparece então a guerra pelo controlo das jazidas e das vias de distribuição (oleodutos e gasodutos) e o seu impacto, não só sobre o mundo subdesenvolvido, mas também sobre a evolução social dos países centrais (por exemplo a tese sobre o "fascismo energético"). Essa guerra começou nos anos 1990 quando o tema do esgotamento dos recursos energéticos tinha ainda uma difusão marginal. A ofensiva norte-americana sobre a Eurásia, em alguns casos solitária e em outros associada à União Europeia, iniciou-se com a primeira Guerra do Golfo, seguida pelas guerra da Jugoslávia (flanco esquerdo da zona euro-asiática) e continuou com as invasões do Afeganistão e Iraque, as ameaças ocidentais contra o Irão, até chegar às recentes aberturas de novas frentes militares no Cáucaso (enfrentando a Rússia) e no Paquistão. Trata-se de uma louca cavalgada para a frente, acompanhada pela incessante expansão da NATO.

    A crise económica em curso poderia em princípio travar o ímpeto imperialista, ainda que não seja seguro que tal aconteça, e também poderia impor-se a alternativa oposta: a escalada militarista do Ocidente – a experiência histórica ocidental ensina-nos que a sua anterior mega-crise (aproximadamente 1914-1945) gerou o fascismo e a guerra. A decomposição e recomposição autoritária constituem tendências visíveis que podem alternar-se e inclusivamente combinar-se tragicamente.

    Por seu lado a crise alimentar está estreitamente associada ao tema energético. As transformações neoliberais que liquidaram as economias campesinas tradicionais contribuíram para o problema, enquanto as novas pressões de procura de alimentos (por exemplo a China) e a avalanches especulativas sobre esses produtos empurraram os preços para cima. Mas foi principalmente a crise energética o que mais impulsionou os custos agrícolas através dos maiores preços dos hidrocarbonetos. As chamadas modernizações agrárias, as "revoluções verdes" aplicando tecnologias avançadas, mais "produtivas", geraram uma dependência aguda em relação aos hidrocarbonetos nos principais sistemas agrários do planeta. Quando chegou a crise da energia, o remédio procurado através dos biocombustíveis encareceu terras e produtos agrícolas.

    Encontramo-nos agora perante a perspectiva de uma subprodução relativa de alimentos à escala global (paralela à subprodução energética) causada pela dinâmica geral (o chamado progresso ) do capitalismo, o seu desenvolvimento tecnológico.

    A crise dos Estados Unidos

    A economia norte-americana apresenta-se como o centro gerador das três crises acima mencionadas: a sua voracidade energética opera como principal catalisador das turbulências nos mercados petrolífero e alimentar, a sua hipertrofia parasitária (especulativa, militar, consumista) alimenta a desordem financeira mundial. Trata-se de um longo processo de desenvolvimento de tendências internas-externas que se fundiram na decadência da sociedade estado-unidense, que pelo seu enorme peso relativo global condicionou a evolução do resto do mundo [5] .

    No último quarto de século os Estados Unidos sofreram uma profunda transformação de carácter elitista e parasitário. A concentração de capital foi decisiva, a população 1% mais rica concentrava no início dos anos 80 entre 7 e 8% do produto nacional bruto, hoje concentra cerca de 20% e os 10% mais ricos passaram no mesmo período dos 33% aos 50% de todo o capital nacional. Mas as classes altas não converteram os capitais em maior poupança e inversão, mas sim na base da sua destravada caminhada consumista. O aforro pessoal médio (originado em maior parte nas classes média e alta) representava no início dos anos 90 entre 7 e 8% do capital médio disponível, desde há pouco mais de 5 anos está muito próximo do zero. No pólo oposto da sociedade os salários dos mais pobres foram perdendo velocidade até começarem a cair em valor real durante a actual década, acompanhados por uma crescente precarização laboral. Como resultado, o produto nacional bruto real médio dos norte-americanos é hoje inferior ao do ano 2000.

    O consumismo avançou paralelamente à financeirização generalizada, em primeiro lugar das grande empresas, que até meados dos anos 80 obtinham dos seus negócios financeiros cerca de 16% de todos os seus benefícios obtidos em território estado-unidense, para vinte anos depois elevar essa cifra aos 40% [6] .

    O avanço parasitário impulsionou um processo de degradação da integração social e dos cumprimentos das normas de convivência, a transgressão e a criminalidade penetraram nos mais diversos sectores da população, cuja dinâmica elitista gerou a criminalização dos sectores inferiores. Actualmente as prisões norte-americanas são as mais populadas do planeta: em 1980 alojavam 500 mil presos, em 1990 cerca de 1.150.000, em 1997 1.700.000 aos que se adicionavam 3.900.000 sob vigilância (em liberdade condicional, etc.), mas nos finais de 2006 os presos somavam cerca de 2.260.000 e os cidadãos sob vigilância perto de 5 milhões; no total mais de 7.200.000 norte-americanos encontravam-se sob custódia judicial [7] . Em Abril de 2008 um artigo do New York Times assinalava que os Estados Unidos, com menos de 5% da população mundial alojavam 25% de todos os prisioneiros do planeta, um em cada cem dos seus habitantes adultos encontra-se encarcerado – é a mais alta percentagem a nível internacional [8] .

    A precarização laboral das classes baixas somada ao clima consumista-parasitário proveniente das classes altas degradou severamente a cultura produtiva, o que fez com que o sistema industrial ficasse cada vez menos competitivo. O resultado foi um défice comercial crónico que chegou em 2007 aos 800 mil milhões de dólares, um factor adicional (e decisivo) do problema é o défice energético que se foi acentuando desde os inícios dos anos 70, quando começou a declinar a produção petrolífera dos Estados Unidos, que actualmente importam cerca de 65% do que consomem. Esta deterioração foi acompanhada por um défice fiscal permanente e crescente.

    Como consequência o Estado, as empresas e as famílias foram acumulando dívidas enquanto o dólar declinava, assim apodrecendo o pilar central da posição financeira internacional dos Estados Unidos.

    A 4 de Outubro de 2008 a dívida do estado federal alcançava os 1,1 milhão de milhões de dólares (a um ritmo diário de uns 3 mil milhões de dólares se tomarmos como referência os últimos doze meses) enquanto que a dívida total (pública mais privada) tinha chegado aos 53 milhões de milhões de dólares em finais de 2007 (equivalente ao Produto Mundial Bruto desse ano ou a 3,8 vezes o PIB dos Estados Unidos). Trata-se em síntese de uma economia que funciona (cada vez pior) sobre a base do endividamento acelerado.

    A degradação económica e social é agravada pelo fracasso da estratégia militar do Império, centrada na conquista de uma extensa área territorial euro-asiática que vai dos Balcãs até ao Paquistão, passando pela Turquia, Iraque, Arábia Saudita, Irão, e países da Ásia Central até chegar ao Afeganistão. No centro da dita área encontram-se as zonas dos Golfo Pérsico e da Baía do Mar Cáspio que albergam cerca de 70% das reservas globais de petróleo. Os Estados Unidos, desde o fim da Guerra-fria, foram cobrindo esse espaço com bases militares e ocuparam alguns dos países. A sua vitória permitir-lhes-ia avançar sobre a Rússia, seguramente realizando uma mega tarefa de desmembramento, réplica a grande escala do que foi obtido na ex-Jugoslávia, para depois encurralar e submeter a China. Não se tratavam apenas de objectivos energéticos, mas sim através deles de reassegurar o domínio sobre o sistema financeiro internacional.

    Mais ainda, é necessário superar o reducionismo económico e transmitir a base cultural colonialista do Ocidente assumida pela elite dominante norte-americana. Seguindo a sua velha utopia geopolítica anglo-saxónica descrita por MacKinder há mais de um século, essa grande conquista teria permitido ao Império possuir o controlo planetário [9] , tendo os ideólogos dos falcões levado ao extremo (grotesco) a dita ilusão, herdeira ainda do " milénio germânico " anunciado por Hitler.

    Mas a estratégica euro-asiática fracassou, a economia decadente dos EUA não está em condições de assumir uma grande guerra universal, a degradação da sua coesão social limita as possibilidades de recrutamento de tropas, obrigando-os a incorporar mercenários. Como com outros impérios em declínio do passado, vêm-se em mãos com uma formidável " sobre-extensão estratégica " (Paul Kennedy), que aprofunda ainda mais a crise.

    A decadência norte-americana arrasta o mundo capitalista pois os Estados Unidos constituem o espaço essencial da interpenetração produtiva, comercial e financeira à escala planetária, que se foi acelerando nas três últimas décadas até formar uma trama muito densa da qual nenhuma economia capitalista desenvolvida ou subdesenvolvida pode escapar (sair dessa rede significa romper com a lógica, com o funcionamento concreto do capitalismo integrado pelas classes dominantes locais altamente transnacionalizadas).

    Por outro lado a crise norte-americana não é o resultado exclusivo de factores endógenos, do seu consumismo parasitário, os seus défices e endividamentos foram funcionais para a crise crónica de sobre produção de carácter global. As grandes economias centrais e as novas economias crescentes (como a China ou a Índia) puderam crescer graças à capacidade de absorção de mercadorias e capitais por parte do mercado norte-americano. Em alguns casos tratam-se de colocações directas de excedentes, em outros de vendas e inversões em mercados cada vez mais relacionados com os Estados Unidos, mas o Império aparece sempre como motor em última instância do sistema universal.

    Agora, quando os Estados Unidos entram em recessão, são seguidos pelas outras potências.

    Poderíamos estabelecer uma comparação histórica entre os dois impérios atlânticos que dominaram todo o desenvolvimento do capitalismo industrial desde a sua origem nos finais do século XVIII até ao presente. Primeiro o Império Inglês, desbaratando na sua etapa juvenil, no início do século XIX, a tentativa de hegemonia francesa, mais à frente, desde as últimas décadas desse século, acossado pelo imperialismo alemão que finalmente derrota, subordinado pelas duas guerras mundiais no século XX. Daí para a frente a decadência da Inglaterra foi mais que compensada pela ascensão dos EUA, seu filho cultural, por sua vez em declínio hoje (mas que, antes de acelerar o seu declínio, derrotou o seu inimigo estratégico global: a URSS). Além disso este ciclo imperial anglo-norte-americano deve ser associado ao ciclo energético apoiado na exploração intensiva de recursos naturais não-renováveis, hoje também declinantes (carvão – hegemonia da Inglaterra no século XIX; petróleo – hegemonia dos Estados Unidos no século XX).

    Crise militar

    No centro do fracasso euro-asiático encontra-se o do Complexo Militar Industrial norte-americano. A sua crise adquire dimensão global não só pela magnitude da sua estrutura como também porque a sua decadência arrasta o conjunto da NATO, em especial as grandes forças europeias como as da Inglaterra ou França.

    O Iraque é o pântano dos estado-unidenses, mas o Afeganistão (e cada vez mais o Afeganistão-Paquistão) é o pântano comum de todas as forças ocidentais.

    A despesa militar real nos Estados Unidos chegou a níveis nunca antes alcançados. Se às verbas do Departamento da Defesa (uns 700 mil milhões de dólares) somarmos as despesas militares das demais áreas do Estado, chega-se para este ano a cerca de 1,1 milhão de milhões de dólares [10] .

    Restringindo-nos às despesas dos Departamentos ou Ministérios da defesa dos países da NATO chegamos a 70% das despesas militares globais calculadas desse modo. E contudo não podem ganhar a guerra do Afeganistão depois de mais de seis anos de combates (as últimas informações disponíveis assinalam que é antes a resistência afegã que está a obter vitórias), diante do que a NATO respondeu estendendo a guerra ao Paquistão.

    Por outro lado, os Estados Unidos responderam recentemente ao seu atolamento no Iraque desencadeando uma guerra no Cáucaso, empurrando ao combate a minúscula Geórgia contra a Rússia, a segunda potência militar do mundo.

    Em ambos os casos, para os ocidentais o resultado é catastrófico. Poderíamos somar um terceiro exemplo, o do fracasso da última invasão israelense do Líbano utilizando forças militares esmagadoramente superiores às da guerrilha Hesbollá e apoiada pelas forças norte-americanas instaladas na região. Também ali tratava-se de uma "fuga para a frente" que além disso apontava rumo ao Irão.

    Duas observações parecem-me úteis.

    Primeiro, encontramo-nos perante uma grave "crise de percepção" dos comandos militares da NATO (principalmente dos norte-americanos) extensível às elites dominantes desses países. Não é uma crise passageira, exprime uma degradação psicológica profunda, um autismo muito desenvolvido, que pela sua permanência e avanço só pode ser compreendido se o incluirmos dentro de um processo de degradação mais amplo (cultural, económico, político, social).

    Segundo, estas guerras coloniais fracassadas do século XXI mostram a confrontação entre aparelhos militares imperialistas extremamente custosos e refinados e resistências armadas populares que, apesar da pobreza dos seus integrantes, dos seus escassos recursos, demonstram uma enorme criatividade técnico-militar.

    Ao contrário das guerras coloniais do passado onde a modernidade ocidental enfrentava o "atraso" periférico submetendo-o brutalmente ao capitalismo ascendente, agora a refinada maquinaria bélica imperial luta contra forças suficientemente "modernas" e informadas para combater com alta probabilidade de êxito. A vitória cultural planetária da modernidade ocidental terminou por engendrar um inimigo formidável aos seus projectos de dominação, a periferia aprofundou seu subdesenvolvimento, integrou-se completamente na civilização burguesa e quando esta entra em decadência os rebeldes periféricos dispõem graças a ela da cultura técnica que lhes permite derrotar o seu inimigo imperial.

    Talvez estejamos a presenciar a última etapa da longa história do capitalismo de estado blindado, do mega aparelhismo autoritário militar fundado na convergência entre ciência, tecnologia, indústria e administração pública, originada na Europa de fins do século XIX mas com antecedentes no desenvolvimento militar dos seus estados burgueses desde a Revolução Francesa, as guerra napoleónicas e a Revolução Industrial inglesa. O Complexo Militar Industrial norte-americano teria levado este desenvolvimento até o seu limite superior, até o refinamento tecnológico mais irracional, até um gigantismo operacional que o impede de perceber o "pequeno mundo" real que pretende dominar. Este provável colapso do militarismo burguês coincide com a crise da financiarização do capitalismo, etapa caracterizada pela virtualização parasitária da economia, onde os grandes operadores financeiros confundem a realidade com um jogo de vídeo. Entre a virtualização financeira e a virtualização militar existem numerosos laços culturais, mafiosos, políticos, psicológicos.

    Crise do Estado

    Também a crise do Estado norte-americano irradia-se para o resto do mundo e ao mesmo tempo exprime um fenómeno universal. Não se trata só de associar Bush com Berlusconi e Sarkozy como amostra da degradação política dos estados ocidentais. Devemos ir mais além e focar a crise dos estados integradores keynesianos (centrais e periféricos, imperialistas e nacional-desenvolvimentistas) a partir dos anos 1970 – e talvez antes – e sua apropriação por parte das elites neoliberais. A referida revolução política foi correspondida pela financiarização acelerada do capitalismo, coincidente por sua vez com o fracasso de quase todos os socialismos do século XX: derrube da URSS e da sua esfera de influência, via livre ao capitalismo na China.

    O estado intervencionista foi o produto superador das crises capitalistas verificadas desde princípios do século XX. Sua ascensão esteve sempre associada ao militarismo, às vezes de maneira visível e outras, a seguir à segunda guerra mundial, sob disfarce democrático (se observarmos a evolução dos Estados Unidos desde os anos 1930 comprovaremos que o "keynesianismo militar" constituiu até hoje a espinha dorsal do seu sistema).

    Em numerosos países subdesenvolvidos durante o século XX o Estado ("socialista", "nacionalista", "popular", etc) foi o pilar fundamental de uma ampla variedade de projectos emancipadores. Na origem mais remota de todas essas experiências encontraremos a transformação cultural que permitiu a superação do capitalismo liberal desde fins do século XIX reinstalando a expansão do sistema. A ferramenta decisiva do referido processo foi o Estado interventor, adoptando para o seu funcionamento soluções extraídas da actividade militar como a planificação centralizada, o verticalismo, etc.

    De maneira extremamente sintética é possível afirmar que o desenvolvimento das forças produtivas universais, até chegar à sua degeneração parasitária-financeira actual, terminou por ultrapassar os seus reguladores estatais, submergindo-os na maior das suas crises.

    O neoliberalismo aparentou ser a expressão de uma globalização superadora dos estreitos capitalismos nacionais. O mercado era postulado como espaço superior de desenvolvimento e a sua liberdade como a condição indispensável para o êxito dessa nova transformação. Na realidade, tratava-se do vigoroso monstro financeiro a devorar o seu pai estatal-produtivo-keynesiano.

    A superação estatista do capitalismo liberal do século XIX não só marcou culturalmente as sociedades centrais como também a periferia, onde surgiu como o instrumento idóneo para o desenvolvimento independente diante da debilidade ou ausência de burguesias locais medianamente nacionalistas. Além disso, desde princípios do século XX, foi a componente decisiva dos projectos de superação do capitalismo. Nesses casos, tratava-se de romper com o capitalismo adaptando, "proletarizando", vestindo de socialista os métodos do então jovem e aparentemente muito eficaz estatismo burguês.

    Mas esse estatismo envelheceu e finalmente foi submetido ao poder financeiro globalizado, não foi derrubado pelo movimento insurgente anti-capitalista central e/ou periférico apresentado como seu filho negador-superador, que rebelando-se a partir das suas entranhas, regenerava o desenvolvimento das forças produtivas. Está a ser devorado por outro filho seu, astuto e tonto em simultâneo, improdutivo, cujo único projecto é a depredação (financeira, ecológica, social).

    Crise tecnológica

    O sistema tecnológico enlaça num todo coerente técnicas, equipamentos, produtos, estilos de consumo, matérias-primas, redes de comunicação e transporte. Visto de um modo mais amplo o mesmo corresponde à civilização burguesa, é o núcleo central.

    O arranque do capitalismo industrial foi possível em fins do século XVIII graças a um conjunto de inovações que imprimira velocidade ao processo de acumulação, estendendo-os de maneira global. Paralela à expansão colonial as novas técnicas permitiram à indústria tornar-se independente dos ritmos de reprodução natural de matérias-primas, principalmente energéticas. A exploração intensiva de recursos energéticos naturais não renováveis proporcionou uma primeira fonte de energia barata e abundante: como já assinalei, o ciclo do carvão mineral correspondente ao do capitalismo inglês. A chegada na Inglaterra ao topo da produção de carvão em princípios do século XX marcou o início do declínio do império, foi uma das suas causas. Mas antes que isto ocorresse havia-se iniciado o ciclo ascendente do petróleo com centro nos Estados Unidos, que chegou ao seu zénite por volta de 1970.

    Este laço entre capitalismo industrial e exploração intensiva de recursos naturais não renováveis foi decisivo na primeira configuração e evolução posterior do sistema tecnológico moderno, marcou os modelos de produção, consumo, transporte e comunicações. Definiu inclusive, finalmente, o sistema de exploração dos recursos naturais renováveis, como a agricultura e a pesca, inserindo-os num processo mais amplo de depredação acelerada que desencadeia agora uma crise ambiental que se vai estendendo — acompanhada pelo poderíamos definir como o princípio da etapa do declínio na exploração dos recurso não renováveis (Peak Oil, por exemplo).

    Convém agora introduzir o conceito de "limite estrutural" (por que não "cultural" ou "civilizacional"?) do sistema tecnológico definido por Bertrand Gille como o ponto no qual o referido sistema é incapaz de aumentar a produção em geral ou diminuir seus custos ou pelo menos impedir que estes últimos continuem a aumentar perante "necessidades humanas" crescentes [11] . Não se trata de necessidades humanas em geral, ahistóricas, e sim de necessidades sociais historicamente determinadas (com suas classes sociais (impérios, populações submetidas, luxos, etc). Nesse sentido é possível instalar a hipótese de que o sistema tecnológico do capitalismo estaria a chegar ao seu limite superior par além do qual vai deixando de ser a coluna vertebral do desenvolvimento das forças produtivas para converter-se na ponta de lança da sua destruição.

    Este limite tecnológico pode ser visto como parte do fenómeno do esgotamento da civilização burguesa dominada pelo parasitismo financeiro (que não teria podido atingir o seu nível actual sem o apoio das tecnologias de ponta).

    Colapsos ambiental e urbano

    Os colapsos ambientais são tão velhos quanto as decadências das civilizações. Ritchie Carlder começa a sua história das técnicas com o seguinte relato:

    "A magnificência da Babilónia de Nabucodonosor não existe mais. Juntamente com a suas múltiplas guerras, a obra principal de Nabucodonosor foi a extensão e o embelezamento da Babilónia, reparou o grande tempo de Marduk e construiu o enorme palácio imperial coberto com numerosos terraços e seus jardins suspensos que foram uma das sete maravilhas do mundo. Reconstruiu a Torre de Babel, edifício piramidal em cujo topo se erguia um vasto templo.

    Mas a seguir a natureza acrescentou a isso uma nota irónica, apontando para as ambições do homem e a exploração a que este a submeteu. O rio Eufrates tantas vezes manipulado, desviado do seu leito natural, acabou por se vingar. Um belo dia transformou os arredores da Babilónia num pântano esponjoso onde proliferaram os mosquitos do paludismo, expandindo a doença e a morte, enfraquecendo a população até o ponto em que já não teve mais condições de manter a rede de canais e cultivar os campos: a decadência acelerou-se. É possível afirmar que foram os mosquitos e não os mongóis que precipitaram a ruína da Babilónia. Antes que as hordas asiáticas se convertessem na avalanche pagã que destruiu a Babilónia, cumprindo a profecia de Isaías, os mosquitos haviam desempenhado o papel de comandos do Senhor dos exércitos.

    Alexandre Magno conquistou a Babilónia, invadiu a Pérsia e a Índia para converter-se em amo de civilizações mais antigas que a sua. A seguir, à frente do seu exército regressou às terras da Babilónia e quando a elas chegou caiu doente e morreu. "Aqui morreu Alexandre Magno" dizia-me o técnico iraquiano enquanto atravessávamos o pântano da Babilónia, "morreu de malária, o mosquito era o verdadeiro rei da Babilónia, recorde que o mais poderoso dos deus babilónicos, Nergal, era representado sob o aspecto de um mosquisto" [12] .

    Georg Simmel (avançando num caminho antes visitado por Marx) estabelecia na sua obra póstuma a contraposição, o antagonismo entre a dinâmica da vida criadora e os seus produtos ("fixos") que se "autonomizam" do seu realizar bloqueando ou inclusive destruindo o seu desenvolvimento [13] . Poderíamos levar esse enfoque rumo a uma sequência bem conhecida: o homem domina a natureza através de técnicas que por sua vez o condicionam, assumindo uma certa "autonomia" em relação ao seu criador, desenvolvendo rigidezes que bloqueiam o desenvolvimento das suas forças produtivas. Obviamente, a referida "autonomia" não é realmente exterior, está presente enquanto rigidez civilizacional dentro do seu próprio sistema social e pode chegar até a impedi-lo de modificar (superar) uma dinâmica técnica que o conduz à depredação do seu meio ambiente, ou seja, rumo à destruição do seu entorno vital. Quando isso acontece é porque a civilização que engendrou esse sistema técnico chegou à sua etapa senil (a destruição do meio ambiente é na realidade auto-destruição do sistema social existente). A história das civilizações repetiu essa sequência. Agora é evidente que o capitalismo, que não era o fim da história (e sim uma etapa sinistra da mesma), torna a repeti-la. Mas a diferença essencial com os tempos pré-modernos é que hoje já não nos encontramos frente a uma catástrofe ambiental limitada a uma região do mundo e sim diante de um desastre de extensão planetária e de intensidade nunca antes alcançada. A radicalidade do fenómeno questiona a técnica (convertida em "tecnologia") enquanto instrumento de luta do homem contra a natureza, concebida como espaço exterior (hostil) que é necessário dominar, controlar integralmente, manipulando a gosto seus ritmos de reprodução, gastando à vontade seus tesouros. Além disso, a separação ideológica entre o homem e a natureza considerada como objecto de exploração é indissociável da divisão do trabalho entre os homens superiores, opressores, e os inferiores oprimidos considerados também matéria passiva de exploração.

    O capitalismo não inventou esse estilo, mas levou-o até o extremo limite, até um nível tal que a sobrevivência da espécie humana dependerá cada vez mais da perspectiva de superação dessa longa história de dissociação ideológica cujos resultados práticos colocam o perigo do colapso planetário. A radicalidade do fenómeno exige então fechar um prolongado ciclo de civilizações cuja última etapa é a do mundo burguês.

    Estreitamente vinculado à questão ambiental surge o tema da crise urbana. Também neste caso é necessário remontarmos até um passado muito longínquo, até às origens da civilização. Marx foi peremptório a respeito: "A mais importante divisão entre o trabalho intelectual e o trabalho material foi a separação da cidade e do campo. A oposição entre a cidade e o campo inicia a passagem da barbárie à civilização, do regime de tribos ao Estado, da localidade à nação, e prossegue através de toda a história da civilização até os nossos dias" [14] . A isto é necessário acrescentar que a expansão urbana desenvolveu-se através de uma sucessão interminável (ascendente no muito longo prazo) de êxitos e fracassos, de progressos e degradações, onde a cidade, centro do poder, da organização social e da criação técnica, emergia como motor decisivo do desenvolvimento das forças produtivas mas também como geradora de parasitismo cuja hipertrofia terminava sempre por empurrar cada civilização à decadência. O processo foi descrito muito antes da modernidade. No século XIV árabe, por exemplo, Ibn Jaldún, estabelecia uma teoria de ciclos de civilização que começava com a imposição da hegemonia urbana gerando progresso geral, continuava com a ascensão do parasitismo na cidade (onde residia o poder) e concluía com a decadência parasitária e o colapso do sistema [15] .

    Mas com a irrupção do capitalismo industrial o sistema urbana expandiu-se sem travões, como nunca antes havia feito. A tendência acelerou-se a partir de meados do século XX e mais ainda nas últimas décadas até chegar ao estabelecimento da vida urbana burguesa como padrão único da cultura universal (em 2008 a população urbana global atingirá as 3.300 milhões de pessoa) [16] .

    Desde princípios dos anos 1980, quando a desocupação e o emprego precário nos países centrais tornaram-se crónicos e quando a exclusão e a pobreza urbanas expandiram-se velozmente na periferia, o crescimento das grandes cidades foi cada vez mais o equivalente de involução das condições de vida das maioria (mega urbanização = subdesenvolvimento caótico). Em 1980 a população urbana periférica era da ordem das 930 milhões de pessoas contra cerca de 770 milhões no centro (relação 1,2 para 1). No ano 2000, a relação passou a ser de 2 par 1, as cidades desenvolvidas cresceram moderadamente chegando a 960 milhões e as subdesenvolvidas chegaram aos 1960 milhões, aproximadamente a metade destes últimos a viverem em subúrbios miseráveis. A era neoliberal com a sua avalanche de privatizações, cortes de despesas públicas sociais e de infraestrutura (principalmente nos países pobres), exclusão produtiva e desregulamentação operou como um catalisador da entropia urbana.

    A decomposição das cidades é claramente visível na periferia mas não é sua exclusividade. Trata-se de um fenómeno global ainda que seja no mundo subdesenvolvido que sucedam os primeiros colapsos, expressões mais agudas de uma maré multiforme, irresistível. Pierre Chaunu assinalava como um dos sintomas decisivos da decadência "a aparição de cidades cancerosas de crescimento anárquico, destruidoras do meio ambiente" fazendo o paralelo entre os processo de declínio civilizacional no Mundo Antigo, com o Império Romano por exemplo, e a situação actual [17] .

    Ciclos longos e integração das crises

    O panorama global assume o aspecto de uma convergência de numerosas crises de diferentes ritmos e impactos no curto prazo. Esta simultaneidade sugere a existência de uma fenómeno maior que as inclua todas, a ideia de crise-sistémica-geral surge como resposta imediata. Entretanto, o conceito de sistema apresenta-se carregado de ambiguidades. De que "sistema" estamos a falar? Dos sistemas financeiro, económico, de hegemonia norte-americana mundial, de hegemonia ocidental ou do sistema capitalista como um todo? Além disso: trata-se de crise ou de algo muito mais grave? Encontramo-nos talvez perante o princípio de um mega colapso potencialmente mortal para o "sistema"? Por outro lado, com o correr do tempo são percebidas novas crises que se incorporam à lista. Exemplo: às nove turbulências acima descritas poderíamos acrescentar a dos símbolos legitimadores da modernidades, suas normas, valores, visões do fundo, identidades e todas aquelas representações que concedem sentido à existência [18] , mais que evidente nos países centrais e também nos espaços (preferencialmente urbanos) das zonas mais modernas da periferia.

    Principiando a lista da crise com o ocaso dos Estados Unidos, o mesmo surge como a etapa terminal do ciclo da hegemonia anglo-norte-americana que abarca toda a história do capitalismo industrial, desde as suas origens por volta dos fins do século XVIII, a seguir derrotando com êxito seus oponentes francês (guerra napoleónicas), alemão (as duas guerras mundiais) e soviético (guerra fria). Uma avaliação prospectiva rigorosa nos levaria à conclusão de que não existem num horizonte temporal razoável sucessores imperiais dignos desse nome. A crise actual, sobretudo as turbulências financeiras em curso e suas sequelas comerciais e industriais, confirmam plenamente essa afirmação: as outras grandes potências estão completamente atadas ao destino dos Estados Unidos e vice-versa.

    Esse ciclo bicentenário coincide (encontra-se estreitamente associado) com o da exploração intensiva dos recursos energéticos não renováveis (super ciclo carvão – petróleo) coração do desenvolvimento industrial capitalista que pôde arrancar e expandir-se vertiginosamente porque submeteu seus ritmos às fontes energéticas (objectivo tecnicamente impossível se se tratasse de recursos energéticos renováveis).

    Por volta dos anos 1970 começou a declinar a produção petrolífera norte-americana e o crescimento económico global das décadas posteriores, centrado nos países de alto desenvolvimento (energeticamente deficitários) acelerou a depredação planetária desses recursos até chegar ao esgotamento (no decorrer da década actual) de aproximadamente a metade das reservas. É o que se conhece como "peak oil" ("pico petrolífero"), o máximo da extracção petrolífera global, antessala do seu declínio que por sua vez (re)introduz depois de dois séculos o tema da penúria alimentar.

    Por sua vez a financiarização acelerada do capitalismo desenvolveu-se a partir de fins dos anos 1960 até chegar a uma hipertrofia impossível de controlar e que agora entra num período de alta turbulência. A ascensão do capital financeiro como centro dominante do sistema foi detectada há quase um século, mas não deveríamos deter a história ali, é necessário remontar às origens do capitalismo industrial e da sua crise de sobre produção ao longo do século XIX. Depois de cada uma dela e verificada a depuração correspondente, o sistema não renascia como se nada houvesse ocorrido, não só acumulava a inovações da etapa anterior, às quais acrescentava outras, como herdava também algumas feridas, algumas taras, alguns segmentos parasitários (financeiros, por exemplo) que passavam a fazer parte da nova etapa. Assim podemos ver, seguindo Marx, como o capitalismo vai transitando uma sucessão de crises superáveis que apontam para uma crise de carácter geral. A mesma não se verificou em fins do século XIX ou em princípios do século XX porque o capitalismo não é só uma "estrutura económica" e sim algo mais amplo. Trata-se de um sistema social muito complexo capaz de gerar correctivos, remendos ou inclusive grandes transformações que lhe permitiram sobreviver e crescer. Não se trata da imposição de soluções salvadoras a partir do não económico (a partir da esfera política, por exemplo) impostas à irracionalidade económica, e sim de uma interacção plural no interior das classes dominantes que vai desenhando a alternativa mais eficaz. O estatismo, o militarismo, a expansão financeira conjugaram-se para salvar o sistema. Podemos então traçar um só ciclo capitalista bicentenário, primeiro sob hegemonia industrial e depois financeira.

    O militarismo moderno tão-pouco foi uma inovação que surgiu de improviso em fins do século XIX, seu primeiro desenvolvimento foi paralelo à consolidação do estado burguês no Ocidente e sua periferia colonial. A introdução da ciência na esfera militar e a transformação desta última numa estrutura de carácter industrial foi-se conformando gradualmente ao longo desse século, no final do qual deu um salto qualitativo. Sua hipertrofia aparelhista actual impulsiona e é impulsionada pela crise geral, tem a ver com o horizonte de penúria energética (guerras euro-asiáticas) e com sua expansão incessante sob predomínio europeu durante todo o século XIX e princípios do século XX quando arrancou o moderno Complexo Militar-Industrial e mais adiante, desde a segunda guerra mundial, sob predomínio norte-americano (marcado pelo "keynesianismo militar" ). O que o converteu na era da financiarização acelerada (desde meados dos anos 1970) num pilar decisivo dos negócios industrial-financeiros mais concentrados cuja degradação parasitária o sobre determina.

    O mito do Estado ausente ou marginal durante a era do capitalismo liberal do século XIX deve ser revisto. Foi a resultante de vulgarizações fortemente impregnadas de ideologismo burguês que retornaram com força na era neoliberal. O estado ainda fraco em princípios do referido século foi crescendo e incrementando as suas funções à medida que a expansão económica o permitia e que as crises do sistema o exigiam, até se converter no estado-interventor do século XX. A actual degradação do Estado (financeira, cultural, técnica) é o fim de um longo ciclo e está enlaçada com outras crises já mencionadas. A hipertrofia burocrático-militar do Império afecta-o de maneira directa, os altos círculos financeiros controlam os estados das grandes potências convertendo-os em marionetas dos especuladores.

    Tanto a crise militar como a crise energética e alimentar, assim como em última instância a crise da financiarização originada nas crises de sobre produção crónica estão a alertar-nos acerca da existência de uma profunda crise do sistema tecnológico da modernidade, da civilização burguesa, incapaz de superar seus bloqueios, de gerar uma onda global de inovações que possibilite ampliar a longo prazo a expansão do capitalismo introduzindo transformações decisivas (no perfil de consumo energético, por exemplo). O mundo burguês ficou prisioneiro da sua cultura produtiva, das suas proezas científicas e tecnológicas, ou seja, de uma acumulação cultural demasiado pesada para que seja removida (renovada) por uma civilização velha.

    A crise urbana deriva directamente do processo de financiarização que desestruturou aparelhos produtivos periféricos, concentrou rendimentos à escala mundial, elitizou os estados anulando o diminuindo seu anterior papel integrador.

    O fim da crise ambiental surge com laços directos com todas as crises mencionadas e de maneira muito evidente com o esgotamento do sistema tecnológico cuja rigidez o converte no motor da destruição ecológica.

    Esta multiplicação ao infinito de "crises" e a sua crescente virulência e interacção está a assinalar-nos que nos encontramos frente à crise do sistema como totalidade civilizacional. O mesmo vem experimentado nas últimas quatro décadas diversas crises parciais, sobretudo financeiras, no âmbito de uma longa decadência geral onde o parasitismo depredador foi avançando de maneira irresistível em todas as esferas da vida social. Desse modo, a longa crise do capitalismo convertida em decadência derivou finalmente, agora no final da primeira década do século XXI, num colapso financeiro que poderia chegar a combinar-se com outras turbulências agudas e transformar-se em colapso geral da civilização vigente. Colapso não equivale de modo imediato a morte, mas se se estender e perdurar pode engendrar a desintegração imparável do sistema (o paralelo com a decadência do Império Romano é inevitável).

    Estávamos acostumados a ver as crises do capitalismo como crises de sobre produção. Desse modo aproximávamo-nos à realidade mas não conseguíamos entendê-la bem. A crise crónica, longa, de sobre produção não impediu o crescimento económico, mas exacerbou as tendências parasitárias, a cultura do curto prazo, a frivolidade como padrão de comportamento, a depredação de forças produtivas e de ecosistemas, e começa a derivar numa crise de subprodução (centrada por agora de maneira visível no teto energético) o que nos permite estabelecer afinidades com decadências e colapsos de civilizações anteriores ao capitalismo (que afinal de contas não é tão original quanto havíamos acreditado).

    Neste novo contexto abrem-se cenários futuros que giram em torno de desenvolvimentos potenciais visíveis e invisíveis. A instauração de um tecno-fascismo imperial conta aparentemente com sérias bases de apoio evidenciadas ao longo da era Bush. Ainda que esse poderio esteja demasiado enlaçado à crise em curso, até que ponto a crise pode chegar a deteriorar seriamente a referida alternativa até torná-la impraticável? Outra perspectiva "visível" é a de sobrevivência de capitalismo de baixa intensidade tanto no actual centro como na periferia. Seriam a expressão de uma prolongada decadência sem superações no caminho (uma espécie de "mais do mesmo" pobre e degradado).

    A superação humanista, estendendo a liberdade e a solidariedade, abolindo desigualdades, pareceria uma utopia enterrada no passado. Contudo, um olhar histórico profundo nos permitiria descobrir um incrível século XX (quase invisível) sepultado pelo virtualismo neoliberal. Nesse século, e pela primeira vez na história das civilizações, centenas de milhões de seres humanos exerceram seus direitos democráticos ainda que em numerosos casos estes fossem a seguir abastardados ou esmagados, entraram em sindicatos, elegeram autoridades, fizeram revoluções populares e inclusive algumas socialistas.

    Mais ainda: sob a recente modernização financiarizada (neoliberal) multiplicaram-se as redes de comunicação (internet) tornando possíveis formas futuras de participação e de exercício da democracia directa nunca antes imaginadas. Este enorme potencial democrático começou a desenvolver algumas expressões do que poderia chegar a constituir uma alternativa ou um leque plural de alternativas de dimensão universal.

    Periodização

    Gráfico 3. Poderíamos periodizar todo o desenvolvimento do capitalismo industrial utilizando uma curva em forma de sino que representaria a trajectória temporal de um indicador do dinamismo do sistema, dividida em quatro períodos.

    Um primeiro período, o mais longo, poderia ser definido como de "capitalismo jovem" . Suas crises de superprodução foram em última instância crises de crescimento, depois de cada grande turbulência o sistema expandia-se, melhorava quantitativa e qualitativamente, o optimismo histórico (progressismo derivado do iluminismo) dominava a cultura das classes dominantes, seus saqueios coloniais eram visualizados como historicamente positivos pelas sociedades centrais (e pela elites coloniais). Também era vista de maneira positiva a super-exploração de recursos naturais não renováveis apresentada como proeza técnica e científica, o mito de uma revolução tecnológica infinita instalou-se de maneira durável.

    Mas no capitalismo jovem sucediam-se crises que, ainda que superadas, deixavam sequelas negativas até engendrar finalmente um poder parasitário financeiro que em princípios do século XX se tornou dominante.

    . Entramos então num segundo período de "capitalismo maduro" onde a intervenção estatal, junto aos parasitismos militar e financeiro, conseguiram controlar as sucessivas crises de sobre produção das quais emergiram alguns sintomas de decadência. Esta confusão histórica entre componentes de decadência com outros de eficácia e progresso colocou sucessivas bombas relógio nos processos de ruptura periférica, com maior carga trágica naqueles que anunciavam a superação do capitalismo. As primeiras fissuras graves do mundo burguês brindaram espaços favoráveis para as revoluções anti-imperialistas e socialistas periféricas mas a hegemonia cultural do capitalismo encadeou-as a muitos dos seus mitos consumistas, tecnológicos, administrativos, etc. Vistas a partir da longa duração da história poderíamos ver estas revoluções como processos pioneiros, culturalmente débeis, perante os quais o mundo burguês cedeu espaço (mediante empurrões) ainda que tenha podido finalmente encurralá-los, vencê-los, integrá-los na sua decadência.

    A terceira etapa é a do capitalismo senil [19] iniciado nos anos 1970 ao longo do qual se desenvolveu uma crise crónica de sobre produção que acelerou a financiarização do capitalismo até se tornar hegemónica, impondo sua marca à cultura universal. Junto ao cancro financeiro expandiram-se as mais variadas formas de parasitismo e de saqueio de recursos naturais e estruturas produtivas periféricas. O crescimento do Complexo Militar Industrial não se deteve com o fim da Guerra-fria e chegou, sim, a níveis nunca antes alcançados.

    Durante a maior parte da era do capitalismo senil as crises catastróficas foram impedidas, reguladas graças ao instrumental de intervenção herdado da era keynesiana. A grande crise foi adiada mas não eliminada do horizonte. A crise crónica de sobre produção associada à super-exploração dos recursos naturais agora aponta claramente para uma crise geral de subprodução iniciada com as crises energética e alimentar. Desse modo o sistema tecnológico do capitalismo que proclamava haver terminado com as crises de subprodução das civilizações anteriores, afectado apenas por crises de sobre-produção até agora controladas, termina o final do seu ciclo gerando uma crise de subprodução planetária, a maior da história humana.

    Finalmente explodem todas as "crises" de maneira conjunta e o sistema vai entrando numa zona de colapso.

    Notas
    (1), OECD, "National Accounts-Main Aggregates, 1960-1996", OECD, Paris, 1998; OECD "OECD Economic Outlook" (varios números).
    (2), "O capitalismo que iniciou o seu desenvolvimento com o pequeno capital usurário chega ao final deste desenvolvimento como um capital usurário gigantesco... Todas as condições da vida económica sofrem uma modificação profunda em consequência desta degeneração do capitalismo" (pág. 767) ... "Onde está a base deste fenómeno histórico universal? Encontra-se no parasitismo e na decomposição do capitalismo inerentes à sua fase histórica superior..." (pág. 729). Lenin, "El Imperialismo, fase superior del capitalismo", en V.I.Lenin, Obras Escogidas, tomo I, Ediciones de Lenguas Extranjeras, Moscu, 1960.
    (3), Nikolai Bukharin, "Theory of the Leisure Class", International Publishers, 1927.
    http://www.marxists.org/archive/bukharin/works/1927/leisure-economics/index.htm
    (4), Energy Watch Group ( http://www.energywatchgroup.org/Reports.24+M5d637b1e38d.0.html ); "Oil Report", "Coal Report", "Uranium Report".
    (5), Uma análise mais pormenorizada do tema pode ser encontrada em: Jorge Beinstein. "El hundimiento del centro del mundo. Estados Unidos entre la recesión y el colapso", Rebelión, 08-05-2008, http://www.rebelion.org/noticia.php?id=67099 e O naufrágio do centro do mundo — Os EUA entre a recessão e o colapso
    (6), "Economic Report of the President", 2008.
    (7), U.S. Department of Justice - Bureau of Justice Statistics.
    (8), Adam Liptak, "American Exception. Inmate Count in U.S. Dwarfs Other Nations", The New York Times, April 23, 2008
    (9), MacKinder escreveu que "quem domine o coraçã continental –da Ásia– dominará a ilha mundial –Eurásia e África–, quem domine a ilha mundial dominará o mundo ". Halford John Mackinder, " Britain and the British Seas", su primera edición fue realizada por Heinemann, London, 1902.
    (10), Chalmers Johnson, "Going bankrupt: The US's greatest threat", Asia Times, 24 Jan 2008.
    (11), "Histoire des techniques", sous la direction de Bartrand Gille, La Pléiade, Paris, 1978.
    (12), Ritchie Calder, "L'homme et ses techniques", Payot, Paris, 1963.
    (13), Georg Simmel, "Intuicion de la vida", Caronte Filosofía, La Plata, 2004.
    (14), Karl Marx, Oeuvres Philosophiques, tome VI, Editions Costes, Paris, 1950.
    (15), Ibn Jaldún, "Introducción a la historia universal (Al-Muqaddinmah)", Fondo de Cultura Económica, México, D.F, 1977.
    (16), United Nations Population Fund, Estado de la población mundial-2007.
    (17), Pierre Chaunu, "Histoire et décadence", Perrin, Paris, 1981.
    (18), Alain Bihr, "Actualiser le communisme", http://www.plusloin.org/textes/Commu.PDF
    (19), O conceito de capitalismo senil foi elaborado nos anos 1970 por Roger Dangeville (Roger Dangeville, "Marx-Engels. La crise", editions 10/18, Paris 1978) e retomado na década actual por varios autores (Jorge Beinstein, "Capitalismo Senil", Ediciones Record, Rio de Janeiro, 2001), Samir Amin , "Au delà du capitalisme senile", Actuel Marx -PUF, Paris 2002).

    Outros ensaios do autor:
  • Inflação, agronegócios e crise de governabilidade , 21/Jul/08
  • O naufrágio do centro do mundo: Os EUA entre a recessão e o colapso , 08/Mai/08
  • No princípio da segunda etapa da crise global , 13/Fev/08
  • Estados Unidos: a irresistível chegada da recessão , 06/Jun/07
  • O declínio do dólar… e dos Estados Unidos , 18/Jan/07
  • A solidão de Bush, o fracasso dos falcões e o desinchar das bolhas , 27/Ago/07
  • A irresistível ascensão do ouro , 03/Jul/06
  • O reinado do poder confuso , 12/Abr/06
  • Os primeiros passos da megacrise , 24/Jan/06
  • As más notícias da petroguerra , 20/Jul/05
  • Pensar a decadência: O conceito de crise em princípios do século XXI , 11/Abr/05
  • Os Estados Unidos no centro da crise mundial , 01/Nov/04
  • A segunda etapa do governo Kirchner , 07/Out/04
  • A vida depois da morte: A viabilidade do pós-capitalismo , 07/Set/04

    [*] jorgebeinstein@yahoo.com

    Intervenção apresentada no seminário internacional "Colapsos ecologico-sociais e económicos", na Universidade Nacional Autónoma do México, 29 a 31 de 0utubro de 2008. Tradução (parcial) de João Camargo.


    Este ensaio encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 12/Nov/08