Declaração da delegação das FARC em Havana
Havana, Cuba, Sede dos diálogos de paz, 26 de maio de 2013
Compatriotas
Após discutir durante meses nossa problemática rural e de buscar
soluções que, efetivamente, reivindiquem e redimam o
camponês, as comunidades indígenas e afrodescendentes, e que
favoreçam o bem viver dos colombianos, avançamos na
construção de um acordo, com exceções pontuais, que
necessariamente terão que ser retomadas, antes da
concretização de um acordo final.
As reivindicações históricas mais profundas das
comunidades rurais e empobrecidas foram bandeira ao vento em nossas
mãos, além de argumento para o debate na Mesa de
Negociações. Erigimo-nos na voz das pessoas comuns, dos
campesinos sem terra frente às cercas das grandes propriedades, das
comunidades rurais resolvidas a defenderem seu território
ameaçado pela depredação mineral e energética das
transnacionais... As Cem Propostas mínimas orientadas ao DESENVOLVIMENTO
RURAL E AGRÁRIO PARA A DEMOCRATIZAÇÃO E PELA PAZ COM
JUSTIÇA SOCIAL DA COLÔMBIA, são uma mostra
irrefutável da profundidade de nosso compromisso. Ali estão
colocadas as ideias de justiça que os de baixo querem que sejam
escutadas e reconhecidas.
Depois de 22 anos de vigência de uma Carta Magna que consagrou direitos
no papel, enquanto iniciou sua política neoliberal geradora de
miséria, desigualdade e violência, é hora de exigir que a
letra morta de benefício social da Constituição e da Lei
ressuscitem, recobrem vida e seja cumprida pelas elites embutidas no Estado.
Em Havana, estamos abrindo uma brecha para que o povo atue, se mobilize na
defesa de seus direitos e continue fazendo escutar sua voz como protagonista
principal da construção da paz. Porém, preocupa que
enquanto as maiorias clamam reconciliação e expressam seus
anseios de justiça, o país tenha que permanecer suportando a
inclemência das medidas e políticas econômicas, que entregam
nosso território à voracidade das transnacionais, se siga
aprofundando a desigualdade e continuem caindo compatriotas, de ambos os lados,
em uma guerra de meio século que urge uma saída política.
Este ato de encerramento de um ciclo temático é, ao mesmo tempo,
a abertura ao transcendental debate em torno da democracia colombiana. Muitas
preocupações orbitam nossa consciência de porta-vozes dos
anseios populares com relação ao importantíssimo assunto
da Participação Política, que abordaremos na Mesa de
Negociações de Havana, a partir de 11 de junho.
Mudanças estruturais urgentes estão batendo às portas do
Estado, reclamando participação cidadã nas decisões
e na adoção de políticas que dizem respeito ao seu futuro
de dignidade. Temos que nos voltar às nossas origens, para resgatarmos o
ensinamento do Libertador que nos disse que "A soberania do povo é
a única autoridade legítima das nações", que
"O destino do exército é guarnecer a fronteira. Deus nos
livre virar suas armas contra os cidadãos! Basta a milícia
nacional para conservar a ordem interna", "as minas de qualquer
espécie, corresponde à República", e "O Tesouro
Nacional não é quem os governa. Todos os depositários de
vossos interesses devem demonstrar o uso que hão feito deles".
Nas atuais circunstâncias nos preocupa, por exemplo, a captura do Estado
por parte de grupo de poder que aprova leis e regulamentos, que favorecem
somente seu egoísmo, enquanto depreciam o interesse comum e levam a
desigualdade e a defesa violenta de seus capitais, mais além dos limites
do desumano.
Uma imensidão de "macrocriminalidade", na qual reinam a
corrupção e a impunidade, se apoderou do Estado colombiano. Este
permanece emaranhado na teia da ilegalidade narco-paramilitar. E, todavia,
pululam entre o Estado, empresas legais e a ilegalidade, para lavagem de
dinheiro, celebrar contratos, roubar os recursos da saúde e saquear os
tesouros da nação.
Todos estes são elementos que hoje obstruem a possibilidade de construir
uma alternativa de solução diferente à guerra,
porém confiamos na sabedoria das organizações sociais,
políticas e populares da Colômbia, que saberão destrinchar
o caminho para a paz.
O esforço coletivo pela paz da Colômbia terá que ser
compensado com um tratado justo e vinculante, rubricado por uma Assembleia
Nacional Constituinte, que funde nossa reconciliação à
perpetuidade.
O Estado colombiano espera uma transformação estrutural profunda,
que complemente medidas transcendentais similares às que agora
acordamos, como a da formalização progressiva de todas as
propriedades que ocupem ou possuam os camponeses da Colômbia.
Delegação de paz das FARC-EP
Tradução do
Partido Comunista Brasileiro.
Esta declaração encontra-se em
http://resistir.info/
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