"Intransigencias"

por Alexandra Nariño [*]

Alexandra Nariño. Se tivéssemos que definir numa palavra o comportamento e as atitudes do regime colombiano, tanto na mesa de conversações de Havana como no território colombiano, essa palavra seria Intransigente. No dicionário, intransigente é definido como "que não transige". Transigir, por sua vez, vem do latim transigere e significa "consentir em parte com o que não se crê justo, razoável ou verdadeiro, a fim de acabar com uma diferença. Intransigente, portanto, poderia ser definido como "dito de uma pessoa que não faz concessões".

E é precisamente essa a atitude do governo colombiano: intransigente. A elite colombiana havia montado um filme triunfante, pensando que haviam "obrigado" a guerrilha a sentar-se à mesa, e que seria uma questão de meses, umas promessas vagas de leis transitórias e – oxalá – uns bombardeios bem apontados, para conseguir sua capitulação final. Os "nãos" do governo faziam eco no Palácio das Convenções [1] e ressoavam nos rincões da Colômbia e do mundo.

  • Não à presença de Simón Trinidad na Mesa...
  • Não ao cessamento de fogo bilateral...
  • Não às mudanças no sistema económico...
  • Não à constituinte...
  • Não à participação cidadã em todos os momentos do processo...

    Agora, uns meses depois, a intransigência governamental levanta-se como um muro espesso, blindado, em torno dos camponeses e sectores populares nas estradas e praças públicas da Colômbia. Um muro, construído de tijolos – "não-há-dinheiro" e "estão-pedindo-o-impossível", colados com o cimento da criminalização e da repressão violenta. Os colombianos comuns estão a pedir investimento em saúde, educação, habitação, revisão dos TLC [2] , políticas justas para os pequenos e médios mineiros, o exercício real dos seus direitos políticos...

    Na Mesa de diálogos, alguns destes temas estão nas denominadas "salvaguardas" e ficaram adiadas para poder dar continuidade à busca da Paz. Contudo, o povo nas estradas está a enviar uma mensagem de urgência ao país e ao mundo. "Daqui não nos vamos até que se nos solucione nossa situação". É assim simples. A miséria, a fome e o abandono não dão trégua.

    Não há escapatória, presidente Santos. Para onde vá, para onde olhe, vai encontrar o mesmo clamor, as mesmas exigências: políticas económicas soberanas, baseadas no bem-estar dos colombianos, participação política real e efectiva dos cidadãos em todos os espaços, democratização das estruturas estatais... Não porque as FARC-EP estejam a "utilizar" os pobres e ingénuos camponeses colombianos; por que procurar o afogado rio acima?

    Se o inquieta o facto de que as propostas das FARC-EP em Havana se pareçam muito às reclamações dos camponeses, mineiros, arrozeiros, cultivadores de café e outros sectores, eis aqui a explicação: as FARC-EP tentam ser um canal de expressão para os colombianos comuns. Temos acolhido suas propostas, que nos chegam através dos diferentes fóruns, fizemo-las nossas, para apresentá-las na Mesa de Diálogos. Mas que fique entre nós.

    A intransigência não soluciona e as promessas não convencem. Dizer que tudo vai ser melhor, que os colombianos serão escutados, que os problemas serão solucionados, que os programas serão implementados, num cenário de "fim de conflito", ou seja, depois da entrega de armas, é como o fumador empedernido a dizer que vai deixar de fumar enquanto acende, agora sim, o último cigarro. Se queremos fazer germinar o bem e sair do sulco das dores, há que começar desde já.

    [1] Palácio das Convenções: edifício em Havana onde decorrem as negociações entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.
    [2] Tratados de Livre Comércio


    [*] Integrante da delegação das FARC-EP às conversações de paz.

    O original encontra-se em www.pazfarc-ep.org/...


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 17/Set/13