por Michel Chossudovsky
[*]
Enquanto os media ocidentais destacam a morte e o "rapto" de
mercenários, contratados por firmas ocidentais de
segurança, há um silêncio ensurdecedor acerca do massacre
de mais de 700 civis em Faluja pelas forças da coligação.
De maneira despreocupada, a administração Bush descreve a
operação em Faluja como "uma medida de força"
contra extremistas.
"Esta violência que vimos é de umas poucas pessoas a tentar
travar o progresso rumo à democracia. Os incidentes de Faluja, a sul de
Bagdad, foram lançados sobre o povo inocente do Iraque basicamente pelos
gangs, gangs violentos".
(presidente Bush, 11/Abr/2004).
Segundo a CNN, um número de mortos indevidamente elevado foi o resultado
infeliz das "leis de combate", as quais exigiram uma
operação militar contra-insurgente numa área urbana
densamente povoada. Os civis foram apanhados no fogo cruzado.
Os militares estadunidenses afirmam que a maior parte dos mortos eram
insurrectos, uma asserção que é desmentida pelas
declarações dos hospitais bem como por vários relatos de
testemunhas oculares:
"Estamos a vê-lo com os nossos próprios olhos. Disseram
às pessoas para abandonar Faluja e agora há milhares encurraladas
no deserto. Há um comboio de 13 km de comprimento de pessoas a tentarem
alcançar Bagdad. Os americanos estão despejar bombas, tudo,
todas as coisas que eles têm sobre essas pessoas. Estão a atirar
sobre famílias! São todos crianças, velhos e mulheres no
deserto. Outros iraquianos estão a tentar ajudá-los. Em Faluja
os militares estadunidenses bombardearam hospitais. Estão a ser
evacuadas crianças para Bagdad. Há uma criança agora, um
bebé, que teve 25 membros da sua família assassinados,
está no hospital e alguém precisa estar com ele... Os americanos
estão a despejar bombas de fragmentação. Estão a
bombardear do ar. Há pessoas que jazem mortas nas ruas. Disseram-lhes
que havia um cessar fogo e então eles lançaram-se, eu vi-os, e
começaram a bombardear. Estão a enfrentar e a combater bem em
Faluja. Mas estamos à espera do grande ataque em 24-48 horas.
Será o ataque principal. Irão tomar a cidade rua a rua e
vasculhar e atacar. Já fizeram isso numa aldeia próxima. Ajudem
por favor, leve as pessoas a protestarem, leve-os às embaixadas, leve-os
para fora, façam alguma coisa. Há um massacre"
(Relatório de testemunha ocular de Faluja,
http://globalresearch.ca/articles/JAS404A.html
)
"No decorrer das quatro horas em que estivemos naquela pequena
clínica vimos talvez uma dúzia de feridos a serem trazidos.
Dentre eles estava uma jovem, com 18 anos, com tiro na cabeça... Os
médicos não esperavam que ela sobrevivesse aquela noite. Um
outro caso, provavelmente terminal, foi de um rapaz com hemorragia interna
maciça. Também vi um homem com queimaduras extensas na parte
superior do corpo e coxas retalhadas com ferimentos que podiam ter sido
provocados por uma bomba de fragmentação (cluster bomb)
(Ver
http://globalresearch.ca/articles/MAH404A.html
)
As forças da coligação, utilizando os seus atiradores de
elite
(snipers)
com rifles de precisão sobre os telhados, estão a atirar sobre
mulheres e crianças. Ambulâncias a transportarem feridos
estão a ser alvejadas pelos US Marines:
"A mais horrível brutalidade era atirarem em ambulâncias que
transportavam mulheres grávidas prestes a dar à luz. Havia
dezenas de corpos que ainda estavam sob o entulho e não podíamos
chegar aos lugares pois os snipers estadunidenses impediam as pessoas de
sacá-las".
(citado em Al Jazeera, conferência de imprensa do Dr. Abd al-Salam
al-Kubaisi, 16/Abril/2004,
http://english.aljazeera.net/NR/exeres/6B0698D9-3C9D-4CB8-9275- 10ECD0D46565.htm
)
Os assassinatos foram ordenados pelos militares estadunidenses. Dezenas de
milhares refugiados fugiram da cidade. Os vários Estados membros das
forças de ocupação, incluindo a Itália e o
Japão, são tão responsáveis quando a
coligação EUA-RU por estes massacres perante o direito
internacional.
As empresas de segurança também estão envolvidas no
assassínio de civis. Fontes ocidentais e iraquianas confirmam a
presença de uns 1500 mercenários privados a trabalharem lado a
lado e/ou a colaborarem com as forças da coligação.
A "GUERRA AO TERRORISMO"
Neste ponto crítico, a administração Bush precisa
desesperadamente da "guerra ao terrorismo" como
justificação para os assassínios de civis, que ela
descreve como "dano colateral".
Nas últimas semanas surgiu uma barragem de relatos nos media sobre
ligações da Al Qaeda ao movimento de resistência iraquiana.
Os insurrectos são descritos como extremistas e fundamentalistas
islâmicos: "sunitas linha-dura, extremistas estrangeiros e, agora,
Sadr e os seus seguidos xiitas à solta" (US News and World Report,
19/Abril/2004).
O carácter secular do movimento de resistência é negado.
Numa lógica absolutamente enviesada, diz-se que a Al Qaeda constitui uma
força significativa por trás dos insurrectos iraquianos. Segundo
declarações oficiais, o cérebro da Al Qaeda, Abu Mussab
al-Zarqawi, está em Faluja, a qual tornou-se um "viveiro de
combatentes estrangeiros". Nas palavras da
Newsweek
, "Saddam pode não ter ligações directas com a Al
Qaeda, mas os jihadistas estão ansiosos por ocupar o seu lugar".
(Newsweek, 19/Abril/2004)
Enquanto isso, num cronograma perfeito, a Comissão do 11 de Setembro
desclassificou o controverso memorando PDB presidencial de 6 de Agosto de 2001
relativo ao plano da Al Qaeda anterior ao 11 de Setembro "para atacar a
pátria americana".
A campanha de desinformação consiste afinal das contas em
convencer o público estadunidense de que a "defesa da
Pátria" e a ocupação do Iraque são parte do
mesmo processo, envolvendo o mesmo inimigo. Nas palavras do antigo director da
CIA James Woolsey numa entrevista à CNN:
"a inteligência iraquiana treinou a al Qaeda em 'gases venenosos e
explosivos convencionais'. E tem contactos em nível superior que
remontam há uma década. E os islamistas do lado sunita, da al
Qaeda, trabalham com gente como o Hezbollah. Eles estão perfeitamente
felizes por trabalharem juntos contra nós. É tal como três
famílias da Mafia, insultam-se umas às outras mas podem mesmo
assim cooperar... Penso que totalitários islamistas mascaram-se como
parte de uma religião. Certamente se alguém na comunidade de
inteligência estiver surpreendido com isto, a coisa realmente
surpreendente seria que eles estão realmente surpreendidos. Alguns
deles têm tido uma ideia fixa por longo tempo, de que a al Qaeda nunca
trabalharia com os baathistas e os xiitas islâmicos nunca trabalhariam
com os sunitas. Isto são apenas tolices. Eles trabalham juntos sobre
coisas importantes. Não quer dizer necessariamente que um controle o
outro. Não é como patrocínio de Estado, mas
cooperação, apoio aqui e ali contra nós, certamente, o que
eles têm estado a fazer durante anos e anos.
(CNNFN, Lou Dobbs, Tonight, 15/Abril/2004)
A FITA DE OSAMA
Nesse ínterim, emergiu uma outra misteriosa fita de Osama
(Ver
http://globalresearch.ca/articles/ALJ404A.html
).
Nesta fita, Osama reconhece responsabilidade pelos ataques do 11 de Setembro ao
World Trade Center e do 11 de Março de 2004 ao comboio bombardeado em
Madrid:
"Eu [Osama] ofereço uma trégua a países europeus, e o
seu núcleo é o nosso compromisso para cessar
operações contra qualquer país que não executar uma
carnificina contra muçulmanos ou interferir nos seus assuntos como parte
da grande conspiração americana contra o mundo islâmico...
A trégua começará quando o último soldado deixar os
nossos países. [Iraque]... Quem quer que seja que queira
reconciliação e seguir o caminho correcto, parem de derramar o
nosso sangue que nós pararemos de derramar o vosso... O que aconteceu
no 11 de Setembro e no 11 de Março foi as vossas prendas a vos serem
devolvidas"
(Ibid)
Por outras palavras, Osama bin Laden oferece "uma trégua" se
os vários países europeus envolvidos no Iraque aceitarem retirar
suas tropas. Em contrapartida, a Al Qaeda declarará uma
moratória quanto a ataques terroristas na Europa.
Sem qualquer investigação, os media ocidentais descreveram a fita
como uma tentativa do "Inimigo Número Um" de criar uma fissura
entre a América e os seus aliados europeus.
Esta fita, com toda probabilidade, é uma burla da inteligência
estadunidense. O truque de propaganda consiste não só em
confirmar que a ocupação do Iraque pelos EUA é parte de
uma "guerra ao terrorismo" mais vastas, assim como proporcionar um
pretexto aos governos ocidentais, pressionados por movimentos de
cidadãos por toda a Europa, para permanecerem no Iraque. Nas palavras
do presidente Jacques Chirac, "nada pode justificar o terrorismo e,
naquela base, nada pode permitir quaisquer discussões com
terroristas".
Implícito na fita atribuída a Osama está a
presunção de que os "extremistas" no Iraque são
as mesmas pessoas responsáveis pelos ataques terroristas do 11/Set e
11/Mar. Segue-se que os "fanáticos anti-guerra", ao se oporem
a ocupação dirigida pelos EUA, estariam de facto a proporcionar
munição para a Al Qaeda de Osama bin Laden.
"as fantasias dementes de bin Laden são assustadoramente
semelhantes àquelas que muitos fanáticos anti-guerra arvoram
tanto aqui como no exterior... Aparentemente eles também tenta
justificar os ataque do 11/Set como retaliação pelo apoio
estadunidense aos judeus na Palestina, e as invasões na Guerra do Golfo
e da Somália. "Nossas acções são
reacções às suas acções", disse ele.
Isto é conversa fiada, mas é típico de uma mente
megalomaníaca. Mesmo Hitler, depois de tudo, insistia que o seu ataque
à Polónia era autodefesa. O mal muitas vezes vem oculto na
túnica falsificada da virtude.
Mas também é fácil ver como tais argumentos pode ter poder
de atracção entre árabes empobrecidos que durante muito
tempo foram reprimidos pelos seus próprios governos e estão
à procura de respostas.
Os Estados Unidos deveriam ficar gratos por esta última fita. Ela
põe um bocado de coisas em perspectiva. A Europa e os Estados Unidos
estão na guerra em conjunto, e o inimigo é alguém de carne
e sangue que pode ser amedrontado o suficiente para que ele sinta a
necessidade de propor uma trégua.
(Deseret Morning News, Salt Lake city, 15/Abril/2004)
Como já foi amplamente documentado, a Al Qaeda é uma
criação do aparelho de inteligência dos EUA. Isto é
um facto conhecido pelos governos e serviços de inteligência dos
aliados europeus da América. É corroborado por documentos do
Congresso dos EUA. A Al Qaeda é um activo de inteligência
(intelligence asset)
patrocinado pelos EUA. (Ver
http://globalresearch.ca/globaloutlook/truth911.html
).
E, mais do que nunca, em face do crescente ressentimento, a
administração Bush e os seus aliados europeus "precisam de
Osama" desesperadamente para justificar a sua presença militar no
Iraque.
A guerra do Iraque é apresentada como uma "Guerra Justa".
Esta é baseada na existência de um "inimigo externo" (Al
Qaeda).
Sob este critério e com o pleno apoio da opinião pública
ocidental, os EUA invadiram o Afeganistão em 2001, cujos governantes
Taliban haviam "proporcionado um abrigo seguro para Osama bin-Laden".
Antes da guerra, diziam que Osama apoiava Saddam. Depois da guerra, o truque
de propaganda consiste em apresentar Osama como um porta-voz da
resistência iraquiana.
[*]
Michel Chossudovsky é professor de C. Económicas na Universidade
de Ottawa e autor de
"War and Globalization the Truth behind September 11"
,
http:// globalresearch.ca/globaloutlook/truth911.html
. Em português está publicada a sua obra
"A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Mundial"
, pela
Editorial Caminho
, 496 pgs., Nov/2003, 24,80 euros, ISBN: 972-21-1582-0, cuja introdução está em
http://resistir.info/chossudovsky/globalizacao_intro.html
© Copyright M CHOSSUDOVSKY 2004. For fair use only/pour usage
équitable seulement.
O original encontra-se em
http://globalresearch.ca/articles/CHO404D.html
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.