Está a a administração Bush a planear um holocausto nuclear?

Será que os EUA lançarão "mini-ogivas" contra o Irão em represália ao "não cumprimento" de Teerão?

por Michel Chossudovsky [*]

  "Descobrimos a bomba mais terrível da história mundial. Pode ser o fogo de destruição profetizado na Era do Vale Eufrates, depois de Noé e da sua famosa Arca.... Esta arma será usada contra o Japão... [Nós] vamos usa-la de forma que apenas os objectivos militares, e soldados e marinheiros sejam o alvo, e não mulheres e crianças. Mesmo que os japoneses sejam selvagens, cruéis, impiedosos e fanáticos, nós como líder mundial para o bem-estar comum, não podemos deixar cair esta terrível bomba na velha nem na nova capital... O objectivo será exclusivamente militar... Parece ser a coisa mais terrível alguma vez descoberta, mas pode ter o mais útil dos resultados." (Presidente Harry S. Truman, Diário, 25/Julho/1945)

"O Mundo notará que a primeira bomba atómica foi lançada sobre Hiroshima, uma base militar. Isso foi assim porque nós desejámos neste primeiro ataque evitar, na medida do possível, a morte de civis.." (Presidente Harry S. Truman num discurso radiofónico dirigido à Nação, 09/Agosto1945)

[Nota: a primeira bomba atómica foi lançada sobre Hiroshima no dia 6 de Agosto de 1945; a segunda sobre Nagasaki, no dia 9 de Agosto, dia do discurso radiofónico de Truman à Nação]

Desde o lançamento da primeira bomba atómica sobre Hiroshima, em 6 de Agosto de 1945, a humanidade nunca esteve tão perto do inconcebível: um holocausto nuclear que potencialmente se poderia propagar, em termos da radioactividade resultante, numa grande parte do Médio Oriente.

Todas as protecções da era da Guerra Fria que classificou a bomba nuclear como "uma arma de último recurso", foram destruídas. Agora são consideradas como acto de "autodefesa", a utilização de armas nucleares em acções militares "ofensivas".

A distinção entre as armas nucleares tácticas e o arsenal convencional de combate foi esbatida. A nova doutrina nuclear de América está baseado numa "combinação de capacidades de ataque". Esta última doutrina, que se aplica especificamente ao plano do Pentágono para o bombardeamento aéreo contra o Irão, considera o uso de armas nucleares em combinação com armas convencionais.

Tal como no caso da primeira bomba nuclear que, nas palavras de Presidente Harry Truman, foi "lançada sobre Hiroshima, uma base militar", hoje as "mini-bombas nucleares" são anunciadas como "seguras para a população civil envolvente".

Conhecida oficialmente em Washington, como "Publicação conjunta 3-12" (Joint Publication 3-12), a nova doutrina nuclear (Doutrina para Operações Nucleares Conjuntas - Doctrine for Joint Nuclear Operations - DJNO) (2005 de Março) reclama uma "integração de ataques convencionais e nucleares" sob um comando e controlo unificado e "integrado" (C2).

Esta doutrina descreve longamente o planeamento da guerra como uma gestão do processo de tomada de decisão, onde os objectivos militares e estratégicos serão alcançados através da combinação de instrumentos, com pouca preocupação com a resultante perda de vidas humanas.

O planeamento militar está focalizado no "uso mais eficiente da força", isto é, numa combinação óptima de diferentes sistemas de armamento para alcançar os objectivos militares estabelecidos. Neste contexto, o armamento convencional e nuclear é considerado como fazendo parte da "caixa de ferramentas" à qual os chefes militares podem recorrer e escolher os instrumentos que considerarem estarem de acordo com a "evolução das circunstâncias" no teatro de guerra. (Nenhuma destas armas da "caixa de ferramentas" do Pentágono, incluindo bombas anti-bunker, bombas de fragmentação, mini-bombas nucleares, armas químicas e biológicas são consideradas "armas de destruição maciça" quando usadas pelos EUA ou pelos seus parceiros de coligação).

O objectivo declarado é:

"garantir o mais eficiente uso da força e proporcionar aos líderes dos EUA uma gama alargada de opções de ataque [nuclear e convencional] para solucionar eventualidades imediatas. A integração de forças convencionais e nucleares é assim crucial ao sucesso de qualquer estratégia abrangente. Esta integração assegurará uma óptima selecção dos alvos, com dano colateral mínimo, e reduzida probabilidade de escalado do conflito." ( Doctrine for Joint Nuclear Operations p. JP 3-12-13)

A nova doutrina nuclear inverte conceitos e realidades. Não só nega os impactos devastadores das armas nucleares, como declara, violentamente, que as armas nucleares são "seguras" e que o seu uso no campo de batalha garantirá um "dano colateral mínimo e reduzirá a probabilidade de uma escalada". A questão da precipitação radioactiva é muito pouco reconhecida no que diz respeito às armas nucleares tácticas. Estas orientações que descrevem as armas nucleares como sendo "seguras para os civis" constituem um consenso entre os militares, o qual é então introduzido nos manuais militares, dando um "sinal verde" aos comandantes geográficos no teatro de guerra.

Acções "defensivas e "ofensivas"

Enquanto a Revisão de Postura Nuclear 2001 – ( 2001 Nuclear Posture Review ) fixa as condições para o uso antecipativo (preemptive) de armas nucleares no Médio Oriente, especificamente contra o Irão, a Doutrina para Operações Nucleares Conjuntas (DJNO) dá um passo mais adiante, confundindo as diferenças existentes entre acções militares "defensivas" e "ofensivas":

"A nova tríade oferece uma combinação entre capacidades estratégicas ofensivas e defensivas, que incluem capacidade de ataque nuclear e não-nuclear, defesas activas e passivas, e uma sólida infra-estruturas de investigação, desenvolvimento, e industrial, capaz de desenvolver, construir, e manter sistemas de forças ofensivas e defensivas... " (Ibíd.) (conceitos chave em itálico)

Porém, a nova doutrina nuclear vai para além de actos antecipativos de "autodefesa", reclamando uma "acção antecipada" usando armas nucleares contra um "inimigo pária" que supostamente planeia desenvolver ADM num futuro indefinido:

Um plano de segurança responsável exige uma preparação adequada às ameaças realmente possíveis, embora talvez improváveis no presente momento. As lições da história militar continuam a ser claras: os conflitos imprevisíveis e irracionais acontecem. As forças militares têm de se preparar para avaliar o armamento e as capacidades existentes ou que venham a existir a curto prazo, mesmo que não se esteja perante um provável cenário de uma guerra a acontecer no imediato. Por forma a impedir ao máximo o uso de ADM, é essencial que as forças dos EUA estejam preparadas para usar armas nucleares de uma forma efectiva, e estas forças dos EUA estão determinadas a utilizar armas nucleares se necessário for para prevenir ou retaliar o uso de ADM. (Ibíd., p. III-1, itálicos do autor)

As armas nucleares serviriam para impedir um programa não existente de ADM (por exemplo do Irão) antes do seu desenvolvimento. Esta formulação retorcida vai para além das premissas da Revisão de Postura Nuclear 2001 e do NPSD 17, a qual declara que os EUA podem retaliar com armas nucleares se forem atacados com ADM:

"Os Estados Unidos tornarão claro que se reservam o direito de responder com força esmagadora – incluindo potencialmente armas nucleares – ao uso de [armas de destruição maciça] contra os Estados Unidos, contra as nossas forças no estrangeiro, e contra os nossos amigos e aliados."... (NSPD 17)

"Integração" dos planos de armas nucleares e convencionais

A Doutrina para Operações Nucleares Conjuntas (DJNO) esboça os procedimentos que regulamentam o uso de armas nucleares e a natureza da relação entre operações de guerra nucleares e convencionais.

A DJNO declara que o:

" o uso de armas nucleares num teatro de [guerra] requer que os planos nucleares e convencionais sejam integrados na maior extensão possível"
(DJNO, p. 47, para mais detalhes consulte "Nuclear War against Iran", Janeiro de 2006 de Michel Chossudovsky , itálicos do autor)

As implicações desta "integração" são de longo alcance porque uma vez que a decisão seja tomada pelo Comandante em Chefe, isto é, o Presidente dos Estados Unidos, lançar uma operação militar conjunta convencional e nuclear, leva a que exista o risco de que armas tácticas nucleares possam ser usadas sem a subsequente aprovação presidencial. Nestes termos, a execução dos procedimentos que se encontrem sob a jurisdição dos comandantes em zona de guerra quem têm armas nucleares à sua responsabilidade, são descritos como "flexíveis e permitem modificações perante a situação":

"Os comandantes geográficos de combatentes são responsáveis pela definição dos objectivos do teatro de operações e pelo desenvolvimento dos planos nucleares requeridos para suportar aqueles objectivos, incluindo a selecção dos alvos. Quando assumida, o CDRUSSTRATCOM, actuando como apoio do comandante em zona de guerra, providencia planos de suporte detalhados para ajustar a planificação requerida. Todo o planeamento da acção nuclear no teatro de operações, segue o prescrito nos procedimentos do Sistema de Execução e da Planificação da Execução Conjunta (Joint Operation Planning and Execution System) para formular e implementar uma efectiva resposta dentro do prazo permitido pela crise.
Desde que não existam opções para os cenários em presença, os comandantes em zona de guerra deverão ter a capacidade para elaborar um plano de acção para a crise e executar esses planos. O plano de acção para a crise fornece a capacidade de desenvolver novas opções, ou modificar as opções existentes, quando as actuais se revelem limitadas ou quando as principais opções de resposta forem inadequadas.
...O comando, o controlo, e a coordenação devem ser suficientemente flexíveis para permitir ao comandante do combatente geográfico atingir objectivos em tempo hábil tais como plataformas móveis de lançamento de mísseis" (DJNO) . (itálicos do autor)

Operações nucleares em teatro de guerra (Theater Nuclear Operations, TNO)

Enquanto a aprovação presidencial é formalmente requerida para lançar uma guerra nuclear, os comandantes de combatentes geográficos responsáveis pelas Operações em Teatro Nuclear (Theater Nuclear Operations, TNO) teriam mandato não só para implementar como para formular decisões de comando relativas a armas nucleares. (DJNO) .

Já não estamos a lidar com "o risco" associado a "um lançamento nuclear acidental ou inadvertido" como esboçado pelo anterior secretário da Defesa Robert S. McNamara , mas sim com um processo de tomada de decisão militar que dá aos comandantes militares, do Comandante em Chefe até os comandantes geográficos, poderes discricionários para a utilização de armas nucleares tácticas.

Além disso, como estas armas nucleares tácticas "menores" foram "reclassificadas" pelo Pentágono e consideradas "seguras para a população de civil envolvente", e portanto "minimizam o risco de danos colaterais", passa a não existir qualquer restrição absoluta que impeça o seu uso. (ver Michel Chossudovsky, "The Dangers of a Middle East Nuclear War" , Global Research, Fevereiro de 2006).

Uma vez tomada umaa decisão de lançar uma operação militar (por exemplo, ataques aéreos sobre o Irão), os comandantes em zona de guerra têm um certo grau de liberdade. O que isto significa na prática é que, uma vez tomada a decisão presidencial, o USSTRATCOM em ligação com comandantes em zona de guerra pode decidir o alvo e o tipo de armamento a ser utilizado. É considerado agora que armas nucleares tácticas armazenadas são uma parte integrante do arsenal de campo de batalha. Por outras palavras, as armas nucleares tornaram-se "parte da caixa de ferramentas", a ser usada em teatros de guerra convencionais.

Ataques aéreos planeados contra o Irão

Um plano operacional para empreender ataques aéreos ao Irão está em "em estado de prontidão" desde Junho de 2005. O hardware militar essencial para empreender esta operação foi instalado. (para mais pormenores ver "Nuclear War against Iran", Michel Chossudovsky , Janeiro/2006).

O vice-presidente Dick Cheney ordenou que o USSTRATCOM traçasse um "plano de contingência" que "incluísse uma ampla operação aérea contra o Irão empregando armas convencionais e nucleares tácticas". (Philip Giraldi, Attack on Iran: Pre-emptive Nuclear War , The American Conservative, 02/Agosto/2005).

O USSTRATCOM teria a responsabilidade de vigiar e coordenar tanto o desenvolvimento como o lançamento da operação militar. (para pormenores, Michel Chossudovsky, Nuclear War against Iran , Janeiro/2006).

Em Janeiro de 2005 foi implementada uma mudança significativa no mandato do USSTRATCOM. O USSTRATCOM foi identificado como "líder do comando em zona de guerra para integração e sincronização dos grandes esforços do Departamento de Defesa no combate às armas de destruição maciça". Para implementar este mandato foi criada uma nova unidade especial de comando intitulada Comando Conjunto de Componentes Funcionais para Ataque Espacial e Global, ( Joint Functional Component Command Space and Global Strike - JFCCSGS)

Supervisionado pelo USSTRATCOM, o JFCCSGS seria responsável pelo lançamento de operações militares que "utilizem armas nucleares ou convencionais" conforme a nova doutrina nuclear da administração Bush. As duas categorias de armas seriam integradas numa "operação de ataque comum" sob um Comando e Controlo unificado.

Segundo Robert S. Norris e Hans M. Kristensen, no Bulletin of Atomic Scientists:

"O Departamento de Defesa está a actualizar o seu plano de ataque nuclear de forma a reflectir a nova orientação presidencial, e fazer uma transição do planeamento de guerra desde o anterior peso-pesado Plano Operacional Integrado Único da Guerra Fria para uma família de planos de ataque menores e mais flexíveis destinados a derrotar os adversários de hoje. O novo plano de guerra estratégico central é conhecido como OPLAN (Plano de Operações) 8044.... Este plano revisto e pormenorizado, disponibiliza opções mais flexíveis para encorajar aliados, e dissuadir, intimidar, e se necessário, derrotar adversários numa ampla gama de contingências....

Um membro da nova família é o CONPLAN 8022, plano idealizado para o uso rápido de armamento nuclear, convencional, ou capacidades de informação de guerra, para destruir, antecipadamente se necessário, "objectivos temporalmente urgentes" em qualquer lugar no mundo. O secretário da Defesa Donald Rumsfeld emitiu uma Ordem Alerta no início de 2004 dirigida ao exército no sentido de pôr o CONPLAN 8022 em acção. Como resultado, a política antecipativa da administração Bush encontra-se agora operacional em termos de bombardeiros de longo alcance, submarinos estratégicos em patrulhas de dissuasão, e presumivelmente mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs)".

A implementação operacional de um Ataque Global ficaria sob o Concept Plan (CONPLAN) 8022, que consiste agora num "plano real que a Marinha e a Força Aérea traduzem em "pacotes" de ataque para os seus submarinos e bombardeiros", ( Japanese Economic Newswire, 30/Dezembro/2005. Para mais pormenores ver Michel Chossudovsky: "Nuclear War against Iran", op. cit.).

O CONPLAN 8022 é "o plano global guarda-chuva para a espécie de cenários estratégicos pre-planeados que envolvam armas nucleares."

"Ele está especificamente focalizado nestes novos tipos de ameaças – o Irão, a Coreia do Norte – proliferadores e potenciais terroristas também", disse ele. "Não há nada a dizer que eles não podem usar o CONPLAN 8022 em cenários limitados, tanto contra a Rússia e como contra objectivos chineses." (de acordo com Hans Kristensen do Projecto de Informação Nuclear, citado em Japanese Economic News Wire, op. Cit)

Autorização de instalação de armas nucleares

O planeamento dos bombardeamentos aéreos do Irão teve inicio em meados de 2004, de acordo com a formulação do CONPLAN 8022 no inicio de 2004. Em Maio de 2004, foi emitida a Directiva Presidencial para a Segurança Nacional (National Security Presidential Directive-NSPD 35) intitulada Autorização de Instalação de Armas Nuclear.

O conteúdo deste documento altamente confidencial continua cuidadosamente guardado como segredo de estado. Não houve qualquer menção ao NSPD 35 nos media nem mesmo durante os debates no Congresso. Enquanto o seu conteúdo permanece classificado, a presunção é de que este NSPD 35 faz parte da instalação de armas nucleares tácticas no teatro de guerra do Médio Oriente conforme o CONPLAN 8022.
Neste contexto, um recente artigo de imprensa publicado em Yeni Safak (Turquia) sugere que os Estados Unidos estão actualmente:

"a instalar armas nucleares tácticas tipo B61 no sul do Iraque como parte de um plano para atacar o Irão a partir desta zona, se e quando o Irão responder a um ataque israelense às suas instalações nucleares." (Ibrahim Karagul, "Os EUA estão a instalar armas nucleares no Iraque contra o Irão", Yeni Safak, 20/Dezembro/2005, citado pela BBC Monitoring Europe ).

Esta instalação de armas nucleares no Iraque parece estar de acordo com o NSPD 35 .

O que o relatório de Yenbi Safak sugere é que aquelas armas convencionais seriam usadas em primeiro lugar e, se o Irão retaliasse em resposta a ataques aéreos dos EUA ou de Israel, poderiam então ser lançadas armas tácticas termonucleares B61. Esta retaliação com utilização de armas nucleares tácticas seria consistente com os procedimentos contidos na Revisão de Postura Nuclear 2001 e NSPD 17 (ver acima).

O armazenamento de armas convencionais e nucleares por Israel
Israel faz parte da aliança militar e está destinado a ter um papel importante nos ataques planeados contra o Irão. (para pormenores ver Michel Chossudovsky: "Nuclear War against Iran" , Janeiro/2006).

Confirmado por vários artigos de imprensa, Israel recebeu, a partir de Setembro de 2004 cerca de 500 bombas anti-bunker BLU 109 produzidas nos EUA ( WP, 6 de Janeiro de 2006). A primeira encomenda de BLU 109 [Bomb Live Unit] data de Setembro de 2004. Em Abril de 2005, Washington confirmou que Israel iria receber 100 das mais sofisticadas bombas anti-bunker GBU-28 produzidas pela Lockheed Martin (Reuters, 26/Abril/2005). A GBU-28 é descrita como "uma munição convencional de 5.000 libras (2268 kg) guiada a laser que usa uma ogiva penetrante de 4.400 libras (1996 kg)". Foi usada no teatro de guerra iraquiano:

O Pentágono [declarou] que... a venda a Israel de 500 ogivas de combate de BLU-109, pretendeu "contribuir significativamente para os objectivos estratégicos e tácticos dos EUA."
Montadas em bombas guiadas por satélite, as BLU-109 podem ser disparadas de caças F-15 ou F-16, caças fabricados nos EUA e que fazem parte do arsenal de Israel. Este ano Israel recebeu de Washington, o seu principal aliado, o primeiro avião de uma frota de 102 F-16I de longo raio de acção. "Israel fabrica muito provavelmente as suas próprias bombas anti-bunker, mas não são tão robustas como as BLUs de 2,000 libras (907 kg)", declarou Robert Hewson, editor de Jane's Air-Launched Weapons . ( Reuters, 21/Setembro/2004)

O artigo não confirma se Israel armazenou e instalou a versão termonuclear da bomba anti-bunker. Nem indica se as bombas anti-bunker fabricadas pelos israelenses estão equipadas com ogivas nucleares. Refere-se que este armazenamento de bombas anti-bunker ocorreu poucos meses depois da disponibilização do NPSD 35, Autorização de Instalação de Armas Nucleares (Maio/2004).

Israel possui 100 a 200 ogivas nucleares estratégicas . Em 2003, Washington e Tel Aviv confirmaram que estavam a colaborar na "instalação de mísseis de cruzeiro Harpoon fornecidos pelos EUA armados com ogivas nucleares para a frota de submarinos classe Dolphin de Israel". (The Observer, 12/Outubro/003) . Em desenvolvimentos mais recentes, que coincidem com a preparação do ataque contra o Irão, Israel recebeu dois novos submarinos de fabrico alemão "que poderiam lançar mísseis de cruzeiro armados com ogivas nucleares para um "segundo ataque" dissuasor ( Newsweek, 13/Fevereiro/2006. Veja também Base de dados do CDI ).

As capacidades de armamento nuclear táctico de Israel não são conhecidas

A participação de Israel nos ataques aéreos também terá o efeito de uma bomba política em todo o Médio Oriente. Contribuiria para uma escalada dos acontecimentos, com uma zona de guerra que se poderia estender inicialmente ao Líbano e à Síria. Toda a região oriental do mediterrâneo até à Ásia central e a fronteira ocidental do Afeganistão seria afectada.

O papel de Europa Ocidental

Vários países europeus ocidentais, oficialmente considerados como "estados não-nucleares", possuem armas nucleares tácticas fornecidas por Washington.

Os EUA forneceram umas 480 bombas termonucleares B61 a cinco países não-nucleares da NATO: Bélgica, Alemanha, Itália, Países Baixos e Turquia, e um país nuclear, o Reino Unido. Normalmente desconsiderado pela organização de Controlo Nuclear da ONU, baseada em Viena, os EUA têm contribuído activamente para a proliferação de armas nucleares na Europa Ocidental.

Como parte deste armazenamento europeu, a Turquia como aliado dos EUA contra o Irão ao lado de Israel, possui umas 90 B61 bombas termonucleares anti-bunker na base aérea nuclear de Incirlik. (National Resources Defense Council, Nuclear Weapons in Europe, Fevereiro/2005).

Em consistência com a política nuclear dos EUA, o armazenamento e a instalação de bombas termonucleares B61 na Europa Ocidental destina-se a serem utilizadas em objectivos localizados no Médio Oriente. Além disso, conforme "os planos de ataque da NATO", estas bombas anti-bunker B61 termonucleares (armazenadas por estados "não-nucleares") poderiam ser lançadas "contra objectivos localizados na Rússia ou em países do Médio Oriente, tais como a Síria e o Irão" (citado em National Resources Defense Council, Nuclear Weapons in Europe , Fevereiro/2005).

Por outro lado, foi confirmado pelo (parcialmente) desclassificado documento (divulgado no âmbito do US Freedom of Information Act):

"Em meados dos anos 90, foram feitos ajustes para permitir o uso de forças nucleares norte-americanas na Europa, fora da área de responsabilidade de Comando Europeu dos EUA (EUCOM). Como resultado destes arranjos, o EUCOM apoia agora as missões nucleares do CENTCOM no Médio Oriente, incluindo, potencialmente, contra o Irão e a Síria". (citado em: http://www.nukestrat.com/us/afn/nato.html ).

Com a excepção do EUA, nenhuma outra potência nuclear "tem armas nucleares destinadas a serem lançadas por países não-nucleares" (National Resources Defense Council, op cit).

Enquanto estes "estados não-nucleares" acusam Teerão de desenvolver armas nucleares, sem que disso tenham prova documental, são eles próprios que têm capacidades de obter ogivas nucleares que são apontadas para o Irão. Dizer que este é um caso claro de "dois pesos duas medidas" utilizado pelo AIEA e a pela "comunidade internacional", é uma declaração insuficiente (understatement).

Alemanha: De facto uma potência nuclear

Entre os cinco "estados não-nucleares" a "Alemanha continua a ser o país mais nuclearizado, com três bases nucleares (duas delas estão completamente operacionais), podendo armazenar até 150 bombas [B61 anti-bunker] " (Ibid). De acordo com os "planos de ataque da NATO" (mencionados acima) estas armas nucleares tácticas também estão apontadas para o Médio Oriente.

Não sendo a Alemanha oficialmente uma potência nuclear, produz no entanto ogivas nucleares para a marinha francesa. Ela armazena ogivas nucleares e tem a capacidade de fornecer armas nucleares. A European Aeronautic Defense and Space Company (EADS) , um empreendimento conjunto franco-alemão-espanhol, controlado por Deutsche Aerospace e o poderoso Grupo Daimler, é o segundo maior produtor militar da Europa, fornecendo o míssil nuclear M51 da França.

A França endossa a doutrina nuclear antecipativa

Em Janeiro de 2006, o presidente francês Jacques Chirac anunciou uma mudança importante na política nuclear da França.

Sem mencionar o Irão, Chirac anunciou que as armas nucleares da França deveriam ser usadas na forma de "ataques mais focalizados" contra países que estavam "a considerar" o desenvolvimento de Armas de Destruição de Maciça (ADM).

Ele deu a entender também a possibilidade de poderem ser usadas armas nucleares tácticas em teatros de guerra convencionais, muito na linha de doutrina nuclear dos EUA e da NATO (ver "Chirac shifts French doctrine for use of nuclear weapons" , Nucleonics Week, 26/Janeiro/2006).

O presidente francês parece ter abraçado a "guerra ao terrorismo" patrocinada pelos EUA. Ele acabou por apresentar as armas nucleares como um meio para construir um mundo mais seguro e para combater o terrorismo:

Não significa que as armas nucleares venham a ser usadas contra "terroristas fanáticos", não obstante "os líderes dos estados que usem meios terroristas contra nós, como também aqueles que considerarem usar, numa ou noutra forma, armas de destruição maciça, tem que entender que se estão a expor a uma firme e apropriada resposta do nosso lado...".(Ibid)

Embora Chirac não tenha feito qualquer referência ao uso preventivo de armas nucleares, a sua declaração reproduz as premissas da Revisão de Postura Nuclear 2001 da administração Bush que reclama o uso de armas nucleares tácticas contra ''estados párias" e "organizações terroristas não-estatais".

Clique para ver pormenores e o mapa das instalações nucleares localizadas em 5 estados europeus não-nucleares

As armas acumuladas são bombas termonucleares B61. Todas as armas são bombas de gravidade dos tipos B61-3, -4 e -10.

Estas estimativas foram baseadas em declarações públicas e privadas de um certo número de fontes governamentais e em suposições acerca da capacidade de armazenagem em cada base.

(National Resources Defense Council, Nuclear Weapons in Europe , February 2005)


Construindo um pretexto para um ataque nuclear preventivo

O pretexto para empreender uma guerra, essencialmente contra o Irão, assenta em duas premissas fundamentais que fazem parte da doutrina de Segurança Nacional da administração Bush.

1. A alegada posse de "armas destruição maciça (ADM)" pelo Irão, mais especificamente o seu programa de enriquecimento nuclear.
2. O alegado apoio a "terroristas islâmicos" pelo Irão.

Estas são as duas declarações interrelacionadas que constituem uma parte integral da campanha de propaganda desinformação dos media.

A declaração das "armas de destruição maciça (ADM)" é utilizada para justificar a "guerra antecipativa" contra os "estados patrocinadores do terrorismo", isto é, países como o Irão e a Coreia Norte, que supostamente possuem ADM. O Irão é identificado como um estado patrocinador de "organizações terroristas não-estatais". Estas por sua vez, possuem também ADM, constituindo potencialmente uma ameaça nuclear. As organizações terroristas não-estatais são apresentadas como uma "potência nuclear".

"Os inimigos nesta [longa] guerra não são um exército convencional tradicional, mas sim redes terroristas globais bastante dispersas, que exploram o Islão para conseguir objectivos políticos radicais. Estes inimigos têm o objectivo declarado de adquirir e usar armas nucleares e biológicas para assassinar centenas de milhares de americanos e outros cidadãos por todo o mundo". (2006 Quadrennial Defense Review )

Em contraste, a Alemanha e Israel produzem e possuem ogivas nucleares e não são considerados "potências nucleares".

Nos últimos meses, o pretexto para uma guerra, construído com base nesta ligação entre o terrorismo islâmico e as ADM, tem sido destacado "ad nauseam", diariamente, nos media ocidentais.

Numa exposição destinada à Comissão do Senado para o Orçamento, a secretária de Estado Condoleezza Rice acusou o Irão e a Síria de desestabilizarem o Médio Oriente e darem apoio a grupos islâmicos militantes. Ela definiu o Irão como "o banqueiro central do terrorismo", não obstante o facto amplamente documentado de que a Al Qaeda foi apoiada e financiada no seu início nos anos 80 por mais ninguém senão a CIA. (ver Michel Chossudovsky, Who is Osama bin Laden , Global Research 2001)

"Não é apenas o programa nuclear do Irão, mas também o seu apoio ao terrorismo em todo o mundo. Eles são com efeito, o banqueiro central para o terrorismo". (declaração na Comissão do Senado para o Orçamento, 16/Fevereiro/2006)

"O segundo 11/Setembro": o "Plano de Contingência" de Cheney

Enquanto a "ameaça" das alegadas ADM do Irão é inscrita para debate no Conselho Segurança da ONU, informa-se que o vice-presidente Dick Cheney deu instruções ao USSTRATCOM para preparar um plano de contingência a ser utilizado no caso de se verificar novo ataque terrorista do tipo 11/Setembro nos Estados Unidos". Este "plano de contingência" para atacar o Irão utiliza o pretexto de um "segundo 11/Setembro", que contudo ainda não aconteceu, para preparar uma importante operação militar contra o aquele país.

O "plano de contingência", que se caracteriza como um fortalecimento militar na antecipação de possíveis ataques aéreos contra o Irão, está em "estado de prontidão".

O que é diabólico é que a justificação para travar uma guerra contra o Irão assenta no envolvimento daquele país num ataque terrorista à América, o qual ainda não aconteceu:

O plano inclui um ataque aéreo de grandes proporções contra o Irão, empregando armas nucleares tácticas e convencionais. Existem mais de 450 objectivos estratégicos principais no Irão, incluindo numerosos locais suspeitos de desenvolvimento de programas de armas nucleares. Muitos dos objectivos estão fortemente protegidos ou estão localizados em instalações subterrâneas e não podem ser atingidas por armas convencionais, daí a opção nuclear. Tal como no caso de Iraque, a resposta não está condicionada ao facto de o Irão estar envolvido directamente em actos de terrorismo dirigidos contra os Estados Unidos. De acordo com informações, vários oficiais de alta patente da Força Aérea, envolvidos no planeamento, estão horrorizados com as implicações daquilo que estão a fazer – que o Irão tem vindo a ser definido para um ataque nuclear não provocado – mas nenhum deles está preparado para prejudicar a sua carreira colocando objecções. (Philip Giraldi, Attack on Iran: Pre-emptive Nuclear War, The American Conservative , 02/Agosto/2005)

Será legitimo entender que os planeadores militares dos EUA estão no limbo à espera de um segundo 11/Setembro a fim de lançar uma operação militar dirigida contra o Irão, o qual está actualmente num "estado de prontidão"?

O proposto "plano de contingência" de Cheney não se concentra na prevenção de um segundo 11/Setembro. O plano Cheney baseia-se na presunção de que o Irão estaria por trás de um segundo 11/Setembro e de que bombardeamentos punitivos seriam imediatamente activados, antes mesmo de se iniciar uma investigação, muito na linha do aconteceu com os ataques contra o Afeganistão em Outubro de 2001, alegadamente em represália pelo papel do governo Taliban no apoio aos terroristas do 11/Setembro. Vale a pena notar que o bombardeamento e a invasão do Afeganistão haviam sido planeados bem antes do 11/Setembro. Tal como Michael Keefer destaca num incisivo artigo de revista:

Num nível mais profundo, isto implica que 'ataque terroristas tipo 11/Setembro' são reconhecidos pelo gabinete de Cheney e pelo Pentágono como meios apropriados para legitimar guerras de agressão contra qualquer país seleccionado para esse tratamento pelo regime e pelo seu sistema corporativo de propaganda-amplificação.... (Keefer, Fevereiro/2006)

Keefer conclui que "um ataque ao Irão, o qual presumivelmente envolveria o uso de um número significativo de bombas nucleares penetrantes extremamente "sujas", poderia muito bem ser fabricado para se seguir a um ataque com bombas sujas nos Estados Unidos, o qual seria descrito nos media como tendo sido executado por agentes iranianos" (Keefer, Fevereiro/2006)

A batalha pelo petróleo

As companhias de petróleo anglo-americanas estão inequivocamente por trás do "plano de contingência" de Cheney para travar a guerra contra o Irão. A guerra destina-se a exercer controlo territorial e corporativo sobre as reservas de petróleo e de gás, assim como sobre as rotas dos pipelines.

Há continuidade nos planos de guerra dos EUA para o Médio Oriente, desde os democratas aos republicanos. As características essenciais de discurso neoconservador já estavam estabelecidas na administração Clinton. A estratégia do Comando Central dos EUA (US Central Command's - USCENTCOM) em meados dos anos 90, foi orientada para assegurar, do ponto de vista económico e militar, o controlo do petróleo do Médio Oriente.

"Os amplos interesses e objectivos para a segurança nacional interna expressos na Estratégia de Segurança Nacional do Presidente (President's National Security Strategy - NSS) e na Estratégia Militar Nacional do Presidente (Chairman's National Military Strategy (NMS), concorrem para o estabelecimento do teatro estratégico do Comando Central dos Estados Unidos (United States Central Command - USCENTCOM). O NSS está dirigido para a implementação de uma estratégia de contenção dual dos estados párias Iraque e Irão tanto quanto esses estados representarem uma ameaça aos interesses dos EUA, aos outros estados da região, e aos seus próprios cidadãos. A contenção dual é estabelecida para manter o equilíbrio de forças na região sem depender do Iraque ou do Irão. O teatro estratégico do USCENTCOM é baseado no interesse e focalizado na ameaça. O compromisso proposto pelos EUA, tendo em conta a NSS, é proteger o interesse vital dos Estados Unidos na região, isto é, garantir um ininterrupto e seguro acesso ao petróleo do Golfo pelos EUA e seus aliados.
(USCENTCOM, http://www.milnet.com/milnet/pentagon/centcom/chap1/stratgic.htm#USPolicy , itálcos do autor)

O Irão possui 10 por cento das reservas mundiais de petróleo e de gás. Os EUA são a primeira e a principal potência militar e nuclear do mundo, mas possuem menos de 3 por cento das reservas mundiais de petróleo e de gás.

Por outro lado, os países habitados por muçulmanos, inclusive o Médio Oriente, norte de África, a Ásia central, oeste e África central, Malásia, Indonésia e Brunei, possuem aproximadamente 80 por cento das reservas mundiais de petróleo e de gás.

A "guerra contra o terrorismo" e a campanha de ódio dirigida contra os muçulmanos, que ganhou ímpeto nos últimos meses, reforça a ideia de que existe uma relação directa dessas campanhas com a "guerra por petróleo no Médio Oriente". Qual a melhor forma de conquistar estas vastas reservas de petróleo localizadas em países habitados por muçulmanos? Construir um consenso político contra os países muçulmanos, classificando-os como "incivilizados", denegrir a sua cultura e a sua religião, implementar o perfilamento étnico contra os muçulmanos nos países ocidentais, promover o ódio e o racismo contra os habitantes dos países produtores de petróleo.

Dizem que os valores de Islão estão vinculados ao "terrorismo islâmico". Os governos ocidentais agora acusam o Irão de "exportar o terrorismo para o Ocidente" nas palavras do primeiro-ministro Tony Blair:

"Há um vírus de extremismo que provém do cocktail de fanatismo religioso e de repressão política no Médio Oriente que está agora a ser exportado para o resto do mundo". "Só garantiremos o nosso futuro se tratarmos de cada aspecto deste problema. A nossa segurança futura depende de estabilizar aquela região". "Nunca se pode dizer nunca em qualquer destas situações". (citado no The Mirror, 07/Fevereiro/2006)

Os muçulmanos são demonizados, identificados despreocupadamente como "terroristas islâmicos", os quais são também descritos como constituindo uma ameaça nuclear. Por sua vez, os terroristas são apoiados pelo Irão, uma república islâmica que ameaça o mundo civilizado com armas nucleares mortais (as quais ele não possui). Em contraste, as armas nucleares humanitárias da América "serão precisas, seguras e fiáveis".

O mundo está numa encruzilhada crítica

Não é o Irão que é uma ameaça para segurança global, mas sim os Estados Unidos da América e Israel.

Em recentes desenvolvimentos, governos europeus ocidentais – incluindo os estados denominados "não-nucleares" que possuem armas nucleares – juntaram-se ao vagão da banda. A Europa Ocidental e os estados membros da Aliança Atlântica (a NATO) endossaram a iniciativa militar conduzida pelos EUA contra o Irão.

Os planeados ataques aéreos do Pentágono ao Irão envolvem "cenários" que utilizam tanto armas nucleares como convencionais. Mesmo que não implicasse a utilização de armas nucleares, o perigo potencial de um holocausto nuclear no Médio Oriente deve, no entanto, ser considerado muito seriamente. Isto deve tornar-se um ponto central do movimento anti-guerra, particularmente nos Estados Unidos, Europa Ocidental, Israel e Turquia.

Também se deveria entender que a China e a Rússia são (não oficialmente) aliados do Irão, fornecendo-lhe equipamento militar avançado e um refinado sistema de defesa míssil. É improvável que a China e a Rússia assumam uma posição passiva, se ou quando os bombardeamentos aéreos forem executados.

A nova doutrina nuclear antecipativa defende a "integração" das operações "defensivas" e "ofensivas". Além disso, a importante distinção entre armas convencionais e nucleares foi diluída.

Do ponto de vista militar, os EUA e os seus parceiros de coligação, inclusive Israel e Turquia, estão "num estado de prontidão."

Através da desinformação dos media, o objectivo é galvanizar a opinião pública ocidental em defesa de uma guerra conduzida pelos EUA contra o Irão como retaliação ao seu desafio à comunidade internacional.

A propaganda de guerra consiste na "fabricação de um inimigo" enquanto veicula a ilusão de que o mundo ocidental está sob o ataque de terroristas islâmicos, os quais são directamente apoiados pelo governo de Teerão.

"Tornar o mundo mais seguro", "prevenir a proliferação de dispositivos nucleares sujos por terroristas", "implementar acções punitivas contra o Irão para assegurar a paz", "combater a proliferação nuclear pelos estados párias"...

Com apoio dos media ocidentais, foi instalada uma atmosfera generalizada de racismo e xenofobia contra os muçulmanos, particularmente na Europa Ocidental, o que proporciona uma falsa legitimidade à agenda de guerra dos EUA. Esta é apresentada como uma "guerra justa". A teoria da "guerra justa" serve para camuflar a natureza dos planos de guerra dos EUA, dando uma face humana aos invasores.

O que se pode fazer?

O movimento anti-guerra está, em muitos aspectos, dividido e mal informado acerca da natureza da agenda militar dos EUA. Várias organizações não-governamentais culparam o Irão, por não cumprir com as "exigências razoáveis" da "comunidade internacional". Estas mesmas organizações, que estão comprometidas com a paz mundial, tendem a subestimar as implicações do proposto bombardeamento americano ao Irão.

Reverter esta tendência exige uma campanha maciça com uma vasta rede a fim de informar os povos de todas as terras, no país e no estrangeiro, em bairros, locais de trabalho, paróquias, escolas, universidades, municipalidades, acerca dos perigos de uma guerra patrocinada pelos EUA que contempla a utilização de armas nucleares. A mensagem deveria ser estrondosa e clara: O Irão não é ameaça. Mesmo sem a utilização de armas nucleares, os bombardeamentos aéreos propostos poderiam resultar numa escalada, conduzindo finalmente a uma guerra que pode abranger grande parte do Médio Oriente.

O debate e a discussão também devem ter lugar dentro da comunidade militar e de inteligência, nomeadamente acerca da utilização de armas nucleares tácticas, nos corredores do congresso dos EUA, em municipalidades e a todos os níveis do governo. Em última análise, a legitimidade dos actores políticos e militares em altos cargos deve ser desafiada.

Os media corporativos têm igualmente uma forte responsabilidade pelo encobrimento dos crimes de guerra patrocinados pelos EUA. Devem por isso ser vigorosamente desafiados pela cobertura enviesada que têm feito da guerra do Médio Oriente.

No ano passado Washington travou um "braço de ferro diplomático" a fim de recrutar países para apoio da sua agenda militar. É essencial que, ao nível diplomático, países do Médio Oriente, da Ásia, África e América Latina tenham uma posição firme contra a agenda militar dos EUA.

Condoleezza Rice viajou pelo Médio Oriente, "exprimindo preocupação sobre o programa nuclear do Irão", procurando o apoio inequívoco dos governos da região contra Teerão. Enquanto isso, a administração Bush disponibilizava fundos para apoio de grupos de dissidentes iranianos dentro do Irão.

O que devemos fazer é romper com a conspiração do silêncio, denunciar as mentiras e distorções dos media, enfrentar a natureza criminosa da administração dos EUA e dos governos que a apoiam, a sua agenda militar assim como a sua chamada "Agenda de Segurança Interna" que já estabeleceu os contornos de um estado policial.

O Mundo está na encruzilhada da crise mais séria da história moderna. Os EUA embarcaram numa aventura militar, "uma longa guerra" que ameaça o futuro de humanidade.

É essencial trazer o projecto bélico dos EUA para o primeiro plano do debate político, particularmente na América do Norte e na Europa Ocidental. Os líderes políticos e militares que se opõem à guerra terão de adoptar uma posição firme, no interior das suas respectivas instituições. Os cidadãos devem adoptar, individual e colectivamente, uma posição contra a guerra.

Anexo A
Os cinco tipos básicos de planos militares dos EUA:


  • Plano de campanha (Campaign Plan, CAMPLAN): Plano para uma série de operações militares relacionadas destinadas a cumprir um objectivo estratégico ou operacional num dado tempo e espçao (exemplo: o plano de campanha para o Iraque, incorporando um certo número de planos específicos subordinados).
  • Plano de operações (Operations Plan, OPLAN): Um plano completo exigido quando há interesse nacional irrefutável, quando existe uma ameaça específica e/ou quando a natureza da contingência exige planeamento pormenorizado (exemplo: Coreia do Norte). Os OPLANs contem todos os anexos formatados (ver abaixo), e Time Phased Force and Deployment Data (TPFDD), uma base de dados contendo as unidades a serem instaladas, a sequência da sua instalação, as datas de movimento de forças, pessoal, logística e exigências de transporte. Um OPLAN podem ser usado como base para o desenvolvimento de uma Ordem de operações (Operations Order, OPORD).
  • Plano de operações apenas em forma de conceito (Operations Plan in Concept Form Only, CONPLAN): Um plano de operações num formato abreviado preparado para contingências de interêsse nacional menos urgentes do que para os OPLANs e para ameaças não especificadas. Um CONPLAN exige expansão ou alteração para ser convertido em OPLAN ou OPORD. Isto normalmente inclui uma declaração do Conceito Estratégico e anexos A-D e K (ver abaixo). CONPLANs que têm TPFDDs habitualmente são desenvolvidos devido a acordos ou tratados internacionais.
  • Planos funcionais (Functional plans, FUNCPLAN): Um plano de operações que envolve a condução de operações militares em tempo de paz ou ambiente não hostil (exemplo: ajuda em desastres, assistência humanitária, operações anti-droga ou de manutenção da paz).
  • Planos de cooperação de segurança em teatro e de compromisso em teatro (Theater Security Cooperation and Theater Engagement Plans, TSCPs e TEPs): Planos de dia-a-dia para ajustar as condições iniciais à futura acção militar em termos de capacidades multinacionais, acesso militar americano, inter-operabilidade de coligação, e inteligência.
    Fonte: Supplement to Code Names: Deciphering U.S. Military Plans, Programs, and Operations in the 9/11 World , by William Arkin (Copyright William Arkin, 2005)

    ANEXO B
    Cronologia do desenvolvimento da doutrina militar americana (2002-2006)


    Fonte: The Nuclear Information Project (copyright Nuclear Information Project, clique aqui para ver a cronologia completa em pormenori )


  • 'A globalização da pobreza'. [*] Autor do bestseller internacional A Globalização da Pobreza , publicado em português e mais dez idiomas.   É professor de economia na Universidade de Ottawa, director do Center for Research on Globalization e colaborador da Enciclopédia Britanica.   O seu livro mais recente é America's "War on Terrorism" , Global Research, 2005.

    A parte 1 deste texto foi publicado num artigo separado:
    Os perigos de uma guerra nuclear no Médio Oriente
    A nova doutrina do Pentágono: As mini-bombas nucleares são "seguras para a população civil envolvente"


    O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/ . Tradução de MJS.

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .