6ª licitação no Brasil:
Erro estratégico no setor do petróleo
por César Benjamin, Paulo Metri e Rômulo Tavares Ribeiro
[*]
1. Um espectro ronda a economia mundial:
novo choque do petróleo. Choque diferente dos anteriores, de um tipo
que ainda não conhecemos.
Na década de 1970, os preços do principal insumo
energético da nossa época elevaram-se subitamente, duas vezes
consecutivas, por motivos essencialmente políticos primeiro a
guerra entre árabes e israelenses, depois a revolução no
Irã com múltiplas conseqüências sobre a
economia mundial. O choque atual é menos espetacular, mais gradual, mas
de conseqüências provavelmente mais profundas e mais duradouras.
É um choque estrutural.
2. De um lado está o aumento permanente do consumo
, seja pelo crescimento normal das economias centrais, quase todas dependentes
de importações, seja pelo crescimento rápido de grandes
economias semiperiféricas, como a China e a Índia, igualmente
dependentes de importações. Dos países do chamado G-7,
apenas Canadá e Inglaterra são auto-suficientes. A necessidade de
abastecimento externo é de 60% para os Estados Unidos (que têm
reservas próprias para menos de cinco anos) e 100% para Alemanha,
França, Itália e Japão. A China, que consome 8% do
petróleo mundial (contra 25% dos Estados Unidos), foi responsável
por 37% do crescimento da demanda nos quatro últimos anos; na
próxima década, terá dobrado o seu consumo e
precisará obter no exterior mais de 80% de todo o petróleo de que
necessita. Temos debatido a concorrência da indústria
chinesa e indiana com a nossa indústria, escreveu o
norte-americano Paul Krugman, mas um tipo diferente de
competição a competição pelo petróleo
e outros recursos representa uma ameaça muito maior à
nossa prosperidade.
É alto, como se vê, o potencial de conflito envolvido nessa
questão. Junto com o gás natural, a ele associado, o
petróleo responde por 2/3 da energia total consumida no mundo (no
Brasil, graças ao peso da hidreletricidade, essa proporção
é de pouco mais de 1/3).
3. O outro lado desse choque estrutural
é a incerteza sobre o volume das reservas mundiais. Elas haviam sido
grosseiramente superestimadas e estão sendo revistas para baixo. Durante
a recente epidemia de fraudes contábeis, as mais respeitáveis
multinacionais do setor apresentaram números falsos para elevar o valor
de suas ações. As reservas da Shell foram infladas em 24%, as da
El Paso em 33% e as da Enron em 30%. Diversos países fizeram o mesmo,
inclusive grandes produtores, como os Emirados Árabes, a Arábia
Saudita e o México. Anunciaram a posse de jazidas entre 20% e 40%
maiores do que as verdadeiras, pois as quotas de produção,
definidas no âmbito da Organização dos Países
Exportadores de Petróleo (Opep), são proporcionais às
reservas declaradas. Há muito menos petróleo disponível do
que se pensava.
4. Com a elevação do consumo e a descoberta das fraudes,
o mercado mundial mergulhou em grande incerteza. O barril custava cerca de
US$ 13,00 em 2001; passou para cerca de US$ 28,00 em 2003; agora oscila em
torno de US$ 40,00 e não apresenta tendência consistente de queda.
Ao contrário, autores insuspeitos anunciam novas rodadas de alta. O
embaixador Rubens Ricupero já advertiu sobre a tendência a
um aumento sensível e contínuo no preço do
petróleo. O aperto nos preços (...) pode vir em cinco anos, com
mais um choque elevando o barril a US$ 50,00.
Krugman seguiu a mesma linha: O mercado do petróleo está
distendido até o limite da ruptura. (...) Na última vez que os
preços atingiram os níveis atuais, pouco antes da Guerra do Golfo
(1991), havia capacidade de produção excedente no mundo, de modo
que havia espaço para enfrentar sérias perturbações
da oferta, caso elas surgissem. Desta vez isso não se aplica. (...)
Novas descobertas têm sido cada vez mais raras. (...) Os preços do
petróleo estão altos e podem subir ainda mais.
Paul Roberts foi ainda mais enfático: Estamos no limiar de um novo
tipo de guerra, entre aqueles que têm energia suficiente e aqueles que
não têm, mas estão cada vez mais dispostos a sair para
buscá-la. Parece cada vez mais provável que a corrida por uma
fatia das últimas grandes reservas de petróleo e gás
natural será o tema geopolítico dominante no século
XXI.
Documentos do Departamento de Estado dos Estados Unidos parecem confirmar essa
última opinião, ao conferirem grande destaque, na escala de
interesses do país, à necessidade de assegurar acesso
incondicional
às fontes de energia e aos recursos estratégicos.
5. Alguns especialistas prevêem
que em 2010 atingiremos o auge da produção e começaremos
a ver o inevitável declínio na oferta. A demanda, por sua vez,
deverá crescer 60% até 2020. Os mais assustados dizem que o
barril poderá custar US$ 100,00 nessa época. Datas e
números estão sujeitos a controvérsia, mas a
tendência é certa. A produção de qualquer campo de
petróleo segue uma curva em forma de sino, que atinge um pico e declina;
como a soma dessas curvas resulta sempre numa curva de mesmo formato, a
produção mundial, que é a soma da produção
de todos os campos, também seguirá uma curva do sino. A busca de
novas jazidas (em terrenos ainda não explorados, como as grandes
profundezas do mar), a melhora nas técnicas de extração
(para viabilizar a continuidade dos trabalhos em campos hoje considerados
exauridos) e o uso misto de combustíveis alternativos podem estender
prazos, mas sempre às custas de aumento de custos. Isso quer dizer que,
de qualquer maneira, independentemente da polêmica sobre o esgotamento
das reservas mundiais, a era do petróleo barato ficou para trás.
Tudo indica que a tendência dos preços passou a apontar,
definitivamente, para cima.
A gerência dos recursos restantes e a alteração gradativa
da matriz energética tornam-se, pois, problemas decisivos para as
próximas décadas.
6. O Brasil é um dos países mais bem-posicionados
do mundo para enfrentar esse enorme desafio, seja do ponto de vista de sua
dotação de recursos, seja de sua capacitação
tecnológica, seja do potencial para desenvolver alternativas. Nossa
oferta de eletricidade é majoritariamente de origem hídrica, e
mais da metade do potencial hidrelétrico permanece disponível
para vir a ser utilizado. Nosso extenso território tropical, com
água e insolação abundantes, permite intensa
produção de biomassa, fonte de combustíveis
líquidos que podem substituir a gasolina e o diesel, com elevada
produtividade. Temos grandes reservas de urânio de boa qualidade. O
previsível aumento de eficiência dos coletores de energia solar
muito nos beneficiará.
Quanto ao nosso recurso energético mais escasso o próprio
petróleo construímos em meio século uma
impressionante história de êxito, que ainda não foi
plenamente reconhecida. Na trajetória econômica medíocre do
Brasil nos 24 últimos anos, destaca-se o excepcional desempenho da
Petrobras. Lutando contra uma geologia adversa em terra firme, ela foi capaz de
localizar e operar jazidas importantes em alto-mar, tornando-se líder
mundial em tecnologia de exploração em águas profundas.
Graças a esse empenho e competência, o Brasil tem hoje reservas de
16 mil milhões de barris, suficientes para assegurar seu consumo
interno, nos níveis atuais, durante cerca de dezoito anos. A
auto-suficiência será atingida em 2006.
Nesse aspecto, ocupamos uma posição intermediária no
mundo. Nem temos reservas especialmente grandes, comparadas com o nosso
consumo, nem dependemos crucialmente do mercado internacional.
7. Uma conta simples mostra a importância
do que já conseguimos fazer: se as décadas de 1980 e 1990
tivessem sido perdidas também no setor petróleo, como o foram na
grande maioria dos demais setores da nossa economia, de modo que o Brasil
necessitasse importar hoje a mesma proporção de barris que
importava na época dos dois primeiros choques, estaríamos
gastando cerca de US$ 23 mil milhões por ano para suprir o mercado
interno. Todo o saldo comercial brasileiro atual teria de ser usado em
petróleo, o que, literalmente, quebraria o país.
Nas duas décadas perdidas, conseguimos escapar dessa armadilha. Mas,
paradoxalmente, o risco que corremos, em futuro não muito remoto,
é de retornar a ela, em uma conjuntura internacional mais
desfavorável. Esse risco vem sendo
construído
a partir do governo de Fernando Henrique Cardoso. Também aqui, o
governo Lula apenas dá continuidade ao desastre.
8. Três momentos sucessivos assinalam
a alteração do marco regulatório do setor petróleo
no Brasil, com o desmonte do modelo anterior, reconhecidamente exitoso. Em
1995, o Congresso Nacional aprovou a emenda constitucional número 9, que
abriu a possibilidade de outras empresas entrarem na atividade
petrolífera no Brasil. Em 1997, a lei 9.478 regulamentou essa
decisão e definiu as novas regras para o setor. Em 1998, foi criada a
Agência Nacional do Petróleo (ANP). Ao contrário de outros
países que também passaram a admitir a participação
de empresas estrangeiras na exploração de petróleo, a
mudança feita no Brasil não incluiu dispositivos que garantissem
a liderança do setor por uma empresa nacional (na Noruega, por exemplo,
a estatal Statoil continuou tendo prioridade para receber as melhores
áreas, sem precisar participar de licitações).
A Petrobras que, até a promulgação da nova lei,
procurava e explorava petróleo em todo o território nacional
ficou confinada em 397 áreas, assim distribuídas: 231
correspondiam a campos em produção, 51 a campos em
desenvolvimento e 115 a blocos em prospecção, que passaram a ser
chamados blocos azuis, selecionados pela própria empresa e,
por isso, os mais promissores. Todas as demais áreas, que correspondem a
cerca de 90% do território brasileiro, foram entregues à ANP para
serem leiloadas. A Petrobras recebeu prazo de três anos (depois estendido
para cinco) para colocar em produção os campos em desenvolvimento
e demonstrar a comercialidade dos blocos em prospecção, sob pena
de ter de devolvê-los também à ANP. O prazo vencia em
agosto de 2003.
Quatro rodadas de leilões foram realizadas durante o governo de Fernando
Henrique, sempre sob fortes críticas do PT. A quinta rodada foi
preparada nesse mesmo governo, mas realizada já depois da posse de Lula,
que a manteve, alegando que não desejava interromper um processo
já iniciado, de modo a não contrariar expectativas de grandes
empresas. O compromisso de campanha, no entanto, era claro e reiterado:
suspender novos leilões.
9. O trabalho de prospecção
progrediu muito lentamente na época em que a Petrobras foi dirigida por
diretorias nomeadas por Fernando Henrique Cardoso, como se houvesse a
deliberada intenção de levar a leilão aquelas áreas
nobres, ou blocos azuis, que haviam permanecido sob controle da empresa. Com a
posse da nova diretoria, em janeiro de 2003, o trabalho foi intensificado e
resultou na descoberta que já era esperada de 6,6 mil
milhões de barris em áreas que seriam devolvidas à ANP em
agosto. Este foi o aspecto mais positivo da nova gestão. As reservas
comprovadas brasileiras aumentaram em mais de 50%. Mas, não houve tempo
para perfurar tudo. Parte significativa dos blocos azuis teve de ser entregue
à ANP, entre as quais 70% do BC-60 da Bacia de Campos (na área
norte, correspondente a 30% do bloco, já foram encontrados 2 mil
milhões de barris) e o Espírito Santo número 12 (onde se
estima existirem 4 mil milhões de barris).
Contrariando o posicionamento histórico do PT, o Ministério das
Minas e Energia do governo Lula determinou que a ANP deflagrasse o processo que
levará à sexta rodada de licitação, prevista para
15 de agosto, nela incluindo esses blocos azuis, considerados bilhetes
premiados. Entre 3,3 mil milhões de barris (estimativa oficial) e 6,6
mil milhões de barris (estimativa de técnicos da Petrobras) das
reservas brasileiras serão leiloados de uma só vez.
10. São falsos os argumentos apresentados
para defender o leilão, a saber:
(a)
Seria necessário atrair mais recursos para o setor.
Como vimos, a Petrobras garantirá a auto-suficiência a partir de
2006, antes que as áreas agora licitadas entrem em
operação. Com US$ 9 mil milhões disponíveis, a
empresa brasileira tem recursos próprios mais do que suficientes para
investir de forma planejada, otimizando o uso das reservas conforme os
interesses estratégicos do país;
(b)
Precisaríamos ter acesso a novas tecnologias.
Trata-se, aqui, da repetição de um fetiche, pois o que ocorre
nesse caso é justamente o contrário. As empresas estrangeiras que
começaram a entrar no Brasil sempre buscam alguma forma de
associação com a Petrobras, pois a melhor tecnologia é a
dela. Além disso, não era necessário alterar a
Constituição do país para isso, pois parcerias
tecnológicas sempre existiram.
(c)
Seria urgente fazer novas descobertas para manter constante a
relação reservas / produção (R / P).
Ninguém discute que vários blocos a serem leiloados na sexta
licitação têm muito petróleo, de modo que
haverá apenas a confirmação de reservas, que
passarão de prováveis a provadas. Ora, se essas áreas
entrarem em produção sob controle de empresas estrangeiras, com
as regalias que a lei brasileira lhes faculta (propriedade plena do óleo
extraído e decisão autônoma de exportá-lo), as
reservas não poderão mais ser computadas como brasileiras, de
modo que leilões vencidos por multinacionais nunca poderão
influir positivamente na relação R / P. Note-se, ainda, que,
quando detinha o monopólio, a Petrobras realizava dentro da economia
brasileira, em média, 85% das compras necessárias ao
desenvolvimento e exploração de um campo marítimo e 100%
das compras destinadas a equipar um campo terrestre. As empresas multinacionais
que participaram da penúltima rodada de licitações
(não há dados disponíveis para a última)
comprometeram-se a realizar compras locais no valor médio de 38% do
dispêndio total para campos marítimos e 68% para campos
terrestres. Os efeitos multiplicadores dos investimentos da Petrobras na
economia brasileira são muito maiores.
(d)
Precisaríamos aumentar a competição no setor para
conseguir preços menores.
Ocorre, nesse caso, justamente o contrário. O modelo competitivo e
aberto transforma o mercado brasileiro de petróleo e derivados em uma
extensão do mercado internacional, de modo que os preços nos dois
ambientes permanecem equiparados. O trabalhador brasileiro, hoje, paga pelo
gás de cozinha (GLP) o mesmo preço pago por um trabalhador
alemão. Mantendo-se o modelo anterior e atingindo-se a
auto-suficiência, o mercado interno brasileiro poderia ser isolado dos
choques internacionais, com a Petrobras sendo remunerada pelos seus custos
(mais uma rentabilidade adequada), de modo a defender a economia brasileira
como um todo.
11. Pela lei em vigor, todo o petróleo
a ser extraído passa a pertencer às empresas vencedoras das
licitações, que ganham automaticamente o direito de exportar a
quantidade que desejarem. Como estamos às vésperas da
auto-suficiência, as áreas que o governo Lula vai leiloar
só poderão entrar em operação para abastecer o
mercado externo, pois haverá excesso de produção. É
um erro grave. A geologia brasileira é desfavorável à
ocorrência de petróleo, de modo que não devemos esperar que
grandes descobertas se sucedam. Se o Brasil passar à
condição de exportador, o horizonte da auto-suficiência
será drasticamente reduzido, com o país podendo retornar à
posição importadora em menos de uma década, justamente
quando a competição mundial pelo petróleo estará
mais acirrada e os preços, mais altos. (Em situações de
emergência, a lei prevê que o governo pode exigir prioridade ao
abastecimento do mercado interno por trinta dias, pagando, no entanto, o
preço em vigor no mercado internacional; isso equivale a uma
importação, pelo Brasil, de petróleo brasileiro.)
A propriedade de campos petrolíferos, nas próximas
décadas, será muitíssimo lucrativa. Façamos mais
uma conta, utilizando a estimativa mais conservadora, que afirma a
existência de apenas 3,3 mil milhões de barris nas
áreas a serem licitadas. A vida útil de um campo oscila
normalmente entre 15 e 20 anos. Se supusermos o preço do barril de
petróleo em US$ 50,00 nos próximos anos, conforme a
previsão do embaixador Rubens Ricupero, estamos falando da entrega, a
empresas privadas, de um negócio de US$ 89 mil milhões de
dólares, já descontados todo o investimento, todo o custo de
operação e todos os impostos e taxas. Se supusermos o
preço em US$ 75,00, estamos falando de um lucro líquido de US$
134 mil milhões. Com a sexta licitação, corremos o risco
de retirar da Petrobras e repassar a empresas privadas um valor provavelmente
situado entre esses dois números, ambos gigantescos.
12. A questão de fundo é a seguinte:
pressionado pela necessidade de fazer vultosos pagamentos externos nos
próximos anos, o Brasil resolveu tratar como uma
commodity
comum, a ser incorporada em sua pauta de exportações, aquele que
é o principal recurso estratégico das economias modernas. Um
recurso finito, não renovável, do qual temos reservas apenas
suficientes, nunca sobrantes. Receberemos impostos sobre o valor exportado e
repassaremos esses recursos aos nossos credores internacionais. Assim, o
governo Lula optou por usar o petróleo brasileiro como lastro para
manter em dia o pagamento de dívidas financeiras, mesmo com o ônus
de produzir um esgotamento precoce das nossas reservas. Como vimos, esse
esgotamento, se vier a ocorrer, terá conseqüências
dramáticas sobre a economia real e as contas externas do país,
que se tornarão inadministráveis.
A posição brasileira está na contra-mão do que
ocorre no mundo. O aumento de preços tem sido compreendido, por todos os
países, como um sinal de que o petróleo é um produto
estratégico e finito, e por isso a disputa pelas reservas nunca foi
tão intensa. As guerras no Oriente Médio, a crescente
tensão no Cáucaso, as disputas entre China e Japão pelo
traçado do oleoduto siberiano e as tentativas norte-americanas de
desestabilizar o governo da Venezuela são apenas a ponta de um imenso
iceberg.
. Só o governo brasileiro parece fazer a leitura de que o aumento de
preços deve ser aproveitado para queimar reservas escassas e fazer caixa
o mais rapidamente possível.
Tal decisão, no mínimo ingênua, poderá ter
desdobramentos insuspeitados. Em pleno desenvolvimento do que chamamos de
choque estrutural do petróleo um choque que, como
vimos, será prolongado , o Brasil está se dispondo a
entregar a empresas multinacionais a propriedade de campos situados em
alto-mar, garantindo a elas a livre disposição sobre o
petróleo extraído. Os contratos com essas empresas têm
trinta anos de duração. Se, nesse período, em uma
situação de crise, o país tentar retomar o controle sobre
esses campos (para garantir o abastecimento interno, por exemplo),
poderá ver-se envolvido em um contencioso internacional muito
desfavorável, até mesmo pela falta de meios para defender sua
soberania nessas áreas. Se resolver mudar a lei, não
poderá fazê-la cumprir. Numa situação de
grande tensão mundial, com crescente escassez de petróleo, no
futuro as forças armadas brasileiras não terão poder de
dissuasão para evitar que plataformas de petróleo operadas por
empresas estrangeiras, em nosso mar territorial, entreguem suas
produções para petroleiros que a levem diretamente para o
exterior, alertou recentemente o brigadeiro Sérgio Xavier Ferolla.
Por precaução com a nossa soberania, o controle e a propriedade
dos campos situados na plataforma marítima deveriam caber exclusivamente
à Petrobras.
13. A sexta licitação será realizada
sem que nenhum órgão público tenha apresentado um estudo
sobre o suprimento de petróleo ao país no médio e longo
prazos. Mais ainda: o país não dispõe de um planejamento
energético de caráter estratégico. Está parado no
Senado Federal, desde junho de 2001, um projeto de lei muito simples e de
grande bom senso, proposto pelo senador Saturnino Braga (PT-RJ), que diz apenas
o seguinte: Ficam suspensas as licitações de novas
áreas para exploração de petróleo, até que o
Congresso Nacional aprove o planejamento energético do país, a
ser proposto pelo Conselho Nacional de Política Energética.
A nosso ver, tal planejamento estratégico deveria, pelo menos:
(a) racionalizar e otimizar o uso do potencial energético
disponível, tendo em vista as necessidades de médio e longo
prazos, combinando-se nesse projeto o uso de fontes tradicionais
(hidreletricidade, petróleo, nuclear) e alternativas (biomassa, solar,
bagaço de cana, eólica), além de definir políticas
de conservação. Os recursos não renováveis deveriam
ser objeto de tratamento cuidadoso;
(b) utilizar o próprio setor energético como instrumento de
indução ao desenvolvimento, não só por fornecer
energia, mas também por maximizar suas compras dentro do espaço
econômico nacional e reinvestir nele o lucro obtido, gerando empregos e
promovendo o desenvolvimento tecnológico;
(c) ampliar e diversificar o potencial disponível por meio de
políticas de integração da América do Sul. Assim
como a Comunidade Européia do Carvão e do Aço, criada
depois da Segunda Guerra Mundial, foi o embrião do Mercado Comum
Europeu, que por sua vez desdobrou-se na União Européia, a enorme
capacidade de oferta e a complementaridade de fontes energéticas
(algumas das quais não comercializáveis no mercado mundial) podem
desempenhar um papel-chave em um processo de integração do nosso
continente;
(d) preparar um salto à frente da economia brasileira dentro do sistema
mundial. País tropical de grande dimensão territorial, o Brasil,
como vimos, é um lugar privilegiado para assumir uma
posição de destaque na mudança da matriz energética
nas próximas décadas.
14. Nada disso está sendo feito.
A divisão internacional de trabalho que se desenha neste início
de século reforça a posição dos países
centrais como produtores de bens e serviços de alta tecnologia,
transfere para o Leste da Ásia a dinâmica manufatureira e conduz a
América Latina a especializar-se de novo em atividades primárias
e exportação de recursos naturais. A decisão de usar o
petróleo brasileiro, relativamente escasso, para encorpar no curto prazo
os resultados da balança comercial confirma que estamos dispostos a
aceitar esse retrocesso, que traz riscos imensos à sociedade brasileira.
Lamentavelmente, também nesse aspecto, o governo Lula é uma
decepção sem tamanho.
Ver também:
http://resistir.info/brasil/petroleo_deles.html
.
[*]
do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, Projeto de
Análise da Conjuntura Brasileira.
O original encontra-se em
http://www.outrobrasil.net
.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
|