Palocci e o continuísmo escancarado

Editorial de O Vermelho

Cartoon de Rafael. Na última sexta-feira, num seminário de lideranças empresariais, realizado em Comandatuba (Bahia), o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, fez rasgados elogios ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Às claras reconhece que deu continuidade aos fundamentos macroeconômicos da política neoliberal do governo FHC. E disse mais: que assume esse fato sem nenhum constrangimento: "Se é igual e estiver correto, vou continuar fazendo isso por mais dez anos". Ao proferir esse comentário foi aplaudido pelos presentes, inclusive por FHC que estava na primeira fila do auditório.

FHC e Palocci, pelo que está publicado na imprensa e sem nenhum desmentido que se conheça, permutaram os mais esfuziantes elogios. FHC disse que concordava com tudo que ouviu do ministro e em retribuição ouviu de Palocci um comentário que mais parece um fragmento de um texto que se pede ao Vaticano à canonização de alguém.

Disse Palocci: "Hoje, está, claro o quanto o ex-presidente Fernando Henrique e sua equipe foram importantes para promover um país equilibrado". E arrematou com um comentário mais incoerente e despropositado: "FHC foi, tem sido e será importante para o país".

É certo que governo Lula tem uma base heterogênea, que mesmo o partido do ministro Palocci, o PT, também é heterogêneo. Mas, as declarações do ministro da Fazenda conflitam frontalmente com o programa da Frente Lula Presidente e com as próprias avaliações do presidente da República.

Não faz uma semana, FHC se apresentou como o comandante-em-chefe da oposição conservadora. Atacou o governo e disse que repassou ao seu sucessor um verdadeiro melhor dos mundos.

Em nome do governo, o ministro da Articulação Política, Aldo Rebelo, lembrou a FHC que o país sob sua gestão neoliberal teve sua dívida agigantada e sua economia mergulhada na crise, na estagnação - o que fez proliferar a miséria e o desemprego. O próprio presidente Lula reagiu. Afirmou uma vez mais que no seu primeiro ano de governo "se comeu o pão que o diabo amassou" devido às dificuldades herdadas de seu antecessor.

Fica patente pois que o verdadeiro endeusamento de Palocci a FHC e à política macroeconômica neoliberal é algo completamente estranho e antagônico ao programa da Frente Lula Presidente. E quanto à promessa-ameaça do ministro de que ele vai continuar aplicando essa política "por mais dez anos", parece, ter ele se esquecido que isso requer amplo apoio da nação e das forças políticas que sustentam o governo.

E o que se vê é, exatamente, o oposto. A cada dia alarga-se o descontentamento em face da atual política macroeconômica e aumenta o coral das vozes dos partidos políticos da base do governo e de amplos setores da nação que exigem a imediata reorientação dessa política, no sentido de que o país venha a trilhar o caminho do desenvolvimento e da justiça social.

E ademais, como já ocorreu no próprio governo Lula, diretrizes políticas e mesmo ministros, se for para bem do país, podem ser mudados.

O original encontra-se em www.vermelho.org.br/diario/2004/0419/editorial_0419.asp?Nome=Editorial&Cod=3150 , sítio web do PC do B.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

28/Abr/04