Governo Lula:
Inverter a rota ou romper com o povo brasileiro
por "Revolução socialista"
[*]
O Governo Lula, ao seguir na rota atual, está se aproximando
perigosamente de um ponto sem retorno, que pode ser muito, mas muito distante
do projeto pelo qual ele foi eleito pelo povo brasileiro. Um projeto de
transformações, de mudanças, de alternativas que
não se concretizaram, sequer aparecem ao horizonte, já por
definição longínquo, desenhado na famosa Carta ao
Povo Brasileiro, de Lula, em 2002.
É preciso dissolver qualquer equívoco: a rota é oposta a
um projeto de transformação social. Não conduz a ela,
não estabelece bases sólidas nem na economia, nem na
relação com a sociedade, nem na linha política que possa
orientar o Partido dos Trabalhadores e os sindicatos a exercerem qualquer papel
de vanguarda.
Isto não quer dizer que a catástrofe já tenha ocorrido e
seja irreversível. Mas aproxima-se perigosamente o limite, a olhos
vistos. Os avisos partem de muitos lados, dos movimentos legítimos das
massas e movimentos (protestos, greves, ocupação de estradas, de
terras, instituições públicas), dos menos legítimos
dos aparelhos (partidos de oposição, sindicatos amarelos), da
intelectualidade crítica (esquerda do PT, militância, igreja,
setores mais radicalizados e conscientes) e dos próprios setores da
burguesia alarmados com a paralisia geral da economia e o seu alto custo.
Não há fatos relevantes, além da
estabilização da economia a um altíssimo custo
social, com redução do poder de compra, compressão
salarial, sacrifício nos serviços sociais,
postergação de todos os projetos realmente relevantes como a
reforma agrária, recuperação do sistema educacional, da
saúde, dos serviços essenciais aos cidadãos. Quais
são os triunfos apregoados? As mudanças no perfil da
dívida (menos ancorada ao dólar), a redução do
mítico risco Brasil, o ambiente amigável
com o FMI e outras instituições dominadas pelos países
fortes, e a modesta, modestíssima redução dos juros
somente com relação ao patamar absurdo ao qual havia chegado em
2003.
Onde está o que poderia interessar, ou seja, o fluxo de capitais
produtivos, no ritmo necessário para a retomada do crescimento? Por
enquanto, e até o momento, é somente uma declaração
de intenções.
O que é real e palpável é a gestão do existente, ou
seja, do minguado orçamento que deriva do respeito religioso às
regras do FMI, do superávit primário a 4.25%, dos cortes
obsessivos às despesas públicas, da continuidade e respeito aos
contratos, ou seja, às leis e normas privatizantes, mesmo se
altamente nocivas. As PPP (Parcerias Público-Privado) aparecem no
horizonte desta miséria, como as cenouras que fazem caminhar o asno:
nada mais que ilusões. Não, companheiro Lula, com estas premissas
não haverá espetáculo do crescimento.
Basta ler as análises econômicas dos jornais da burguesia:
começando pelo milagre do agronegócio, ancorado
às exportações de produtos primários, devido
à conjuntura favorável de alguns preços. Este, é o
único aspecto sólido, em parte entrelaçado com
a voracidade da economia chinesa que arrasta o mundo, e dos novos acordos de
exportação de soja, minério de ferro e outros. Mas
qualquer variação negativa nos preços internacionais da
soja, açúcar, madeiras, aço, alumínio, pode por
abaixo o atual superávit da balança comercial, numa velocidade
meteórica. Vale lembrar que o mundo não aponta para a
estabilidade dos preços, aponta para a guerra total.
Quanto ao resto, que é o que realmente importa, ou seja, a
indústria manufatureira, a tecnologia, a construção civil,
as obras de infraestrutura, os investimentos energéticos, tudo isso
é objeto de um chororô infinito exigindo um quadro normativo que
dê garantias para os investimentos privados nacionais e
estrangeiros, a garantia da independência das agências
reguladoras, uma redução drástica dos impostos, a
modelagem das Parcerias Público Privadas em
função da garantia de retorno para os investidores, a
redução drásticas das taxas de juros, etc. etc.
O setor financeiro e especulativo-bolsístico, que deveria ser a
ponta da esperança de reversão da economia, pois
ainda é aquele que nada na torrente dos juros altos e dos superpoderes
do setor bancário, mesmo este teme a volatilidade dos capitais, basta
ver as frenéticas reações frente ao Waldomirogate e
às discussões internas no PT. São reações, e
muitas vezes advertências, verdadeiros pré-avisos de
deserção.
Não bastou ter sido o melhor aluno da classe: o Brasil continua
altamente vulnerável à barbárie capitalista da era
globalizada. Isto não conduz, não pode conduzir, ao
espetáculo do crescimento, nem muito menos e principalmente,
à transformação social. Mesmo na hipótese do
crescimento, aquela mais otimista fala em 3,5% do PIB em 2004, ele não
vai ser gerador de emprego e renda em patamares minimamente compatíveis
com as expectativas geradas pela vitória do Governo Lula. Sim, para ser
honestos é preciso reconhecer que Guido Mântega declarava, antes
mesmo da vitória eleitoral, que a fome não poderia ser
erradicada nem em uma década. Agora, tampouco o analfabetismo. Nem
se falar do baixo poder de compra do salário mínimo, do problema
habitacional, e da reforma agrária. Ora, se o projeto é resolver
tais questões no arco de décadas, seria pelo menos
necessário contar com uma constante de crescimento, e por
conseqüência, de confiança por parte da sociedade. De uma
paciência infinita, ou do famoso jeitinho brasileiro
dramaticamente mencionado por Dom Magela da CNBB.
Não é o que está a indicar a sociedade brasileira. A era
FHC já havia colocado a população no limite da
suportabilidade, e havia desenvolvido uma crítica feroz às
enganações sucessivas, às promessas não cumpridas
do paraíso após as privatizações e a
estabilização do Plano Real. Não serão os
sermões paternalistas de Lula, comparando a parcimônia da sua
genitora na gestão dos recursos da família com a gestão da
economia do Estado brasileiro, que irão acalmar esta sede de
justiça, de transformações.
As explosões sociais estão na ordem do dia, não só
no Brasil, mas em toda a América Latina. Nem Kirchner, nem o novo
governo Boliviano, nem o já assumido traidor que governa o Equador, nem
mesmo os golpistas da Venezuela, nem o falso-índio do Perú,
Toledo, estão tranqüilos: as massas da América Latina
estão em movimento, com tenacidade e constância, e cobrando as
contas dos anos perdidos da globalização ultraliberal. Como
convencê-las de que somente a aplicação até o
paroxismo do atual modelo ultra-conservador, no fim do túnel,
produzirá benefícios?
A direção do PT, a esquerda crítica, os intelectuais e
funcionários das estatais que ainda contam com algum poder de
influência sobre o governo, encontram-se nesta encruzilhada. Mas precisam
abandonar a arrogância materializada na declaração de
Palocci de que todas as decisões duras eu faço
questão de anunciar como nossas, e não do FMI. Correto,
afinal a sua política foi além do exigido pelo FMI. A
questão é justamente esta convicção cega de que
este modelo conduza a algum lado. É hora de despertar!
É bem verdade que cresce o coro das críticas, apesar da
intransigência do Presidente em confirmar a linha ortodoxa. Mas o momento
para a mudança é este. Amanhã, pode ser tarde demais.
A lição do Waldomirogate, que procura-se esticar com o Zeca
Dirceu e agora o empresário Buratti, é que o PT havia
enveredado por um caminho de cinismo e falta de escrúpulos no jogo pelo
poder. O fato de serem pecados de anjos perto de todas as
barbaridades cometidas nos governos ultraliberais dos últimos 10 ou 15
anos, não serve de conforto. O PT continua sendo um intruso
nos salões da elite, um hóspede indesejado que foi introduzido
pelos eleitores nos salões nobres e nas salas de comando. Tudo
deverá ser feito para que o seu governo se inviabilize.
A missão principal o governo consentido é aquela de
tirar as castanhas do fogo para a elite, tarefa exemplarmente
desenvolvida até o momento com a Reforma da Previdência, com a
manutenção do modelo econômico conservador, e com as
acenadas reformas sindical, política, da lei de
falências e outras. A reforma fiscal foi tão
pífia que não conta. O resto, é adorno: fome Zero,
programas sociais, um conjunto de nadas. Medidas quase simbólicas,
microcrédito, alguma iniciativa tardia na reforma agrária,
totalmente paliativa e tímida. A essência da política do
governo, é inquestionável, manteve e ampliou o
extraordinário lucro das multinacionais, do setor financeiro e da
oligarquia agrária intactos. Se sair dessa linha, mil Waldomirogates
explodirão. O aviso está dado.
Neste contexto, como reverter?
Somente uma opção resta
, e é aquela de recuperar a credibilidade social, política,
sindical e da militância ativa da sociedade oprimida. Esta é a
força gigantesca do povo brasileiro, superior a todo o poder de fogo
destruidor do capitalismo internacional. Recuperar a
esperança que não é passiva, é vontade
de luta, de dignidade nacional, de redenção social.
Há um potencial enorme, mas é preciso confiar, abrir, oxigenar as
instâncias da política, da comunicação, dos
partidos, dos sindicatos, para que entre a brisa fresca das idéias, da
vontade de transformar, de lutar, de combater a exploração e a
injustiça.
ainda e por pouco tempo os instrumentos de governo podem servir para dar um
enorme arranque à iniciativa popular
, desde que o governo Lula inverta a atual rota suicida, começando pela
anulação mesmo que simbólica lamentavelmente
solicitada pelo PSDB da compra do avião europeu, pela
aplicação de medidas severas de controle de capitais, pelo
início da revogação das grande maracutais que foram as
privatizações, pela ruptura dos limites impostos voluntariamente
ou não pelo FMI, pela promoção imediata da Reforma
Agrária reestruturando o orçamento atual, desconhecendo o
pagamento dos juros da dívida, abrindo um processo duro de
negociação, fortalecendo a aliança com a Argentina, com a
Venezuela, com os demais países latino-americanos.
Reduzir os juros imediatamente como sinalização para setores
empresariais nacionais, revogar os super-poderes do Banco Central e abrir de
vez suas caixas-pretas, impor sim restrições aos preços
altos dos medicamentos, da energia, dos bens de consumo essenciais para a
população, aumentos salariais dignos. Numa sucessão de
MPs, mobilizar a opinião pública com todas as ferramentas
possíveis, a começar pela retomada do controle das
frequências de rádio e TV abusivamente em mãos aos
poderosos grupos econômicos. Dirigir-se o Presidente à
Nação, para chamar a transformar o país, reduzir a
pobreza, distribuir a renda, promover um verdadeiro desenvolvimento do mercado
interno. Chamar as Forças Armadas a garantir a mobilização
popular, a impedir qualquer repressão aos movimentos sociais e à
inevitável insubordinação de setores da elite, da UDR, tal
como ocorre na Venezuela. Chamar as Igrejas progressistas, os movimentos
sociais, todos a uma grande mobilização contra o
inevitável boicote e terrorismo das finanças internacionais.
Chamamos a todas as forças da esquerda, mesmo ao novo Partido que
está sendo construído pelos parlamentares expulsos do PT, ao
PSTU, a todos os setores organizados dos movimentos sociais, à
Coordenação dos Movimentos Sociais, à Igreja
católica, às Forças Armadas, a darem todo o apoio a uma
mudança de política, a uma mudança radical de rota,
empurrando o próprio PT governista e oficialista na
direção da mudança e da audácia,
antes que seja tarde demais
, antes que apareçam os golpistas de turno, como os que tentaram
derrubar Chavez na Venezuela, os que seqüestraram de derrubaram Aristides
no Haiti, e os que tentaram o golpe de Estado na Espanha. Não são
os telefonemas de Lula a Bush que irão conter a barbárie
imperialista, quando este considere que o Brasil tenha algum arroubo de
independência nacional.
Somente o povo mobilizado e organizado pode impor o respeito ao governo
, à legalidade, e calar a boca desta oposição
e mesmo de tantos aliados que tanto mal fizeram ao país em
todos estes anos. Todos estes partidos, aliados ou
opositores estão à espreita, como chacais, para
banquetearem-se da carniça do governo do operário
metalúrgico que um dia acreditou poder governar. Da mesma forma os
grandes aliados do primeiro mundo, os senhores dos salões de
Davos, dispostos a sufocar no sangue e na miséria qualquer projeto
popular e de independência nacional. Agora mesmo, continuam a apertar o
torniquete em torno da Argentina.
Resumir a luta atual ao atual Congresso Nacional é suicídio. O
potencial de ação subversiva por parte das classes dominantes
é evidente. Mas a ação irreverente e corajosa das massas
frente à traição e ao descaso, também o é.
As ocupações de estradas, barragens, terras e fazendas, e dos
bairros ricos das grandes cidades pelas multidões, são sintomas
evidentes.
se o PT optar por desprezar as expressões de raiva populares e
refugiar-se nos aparatos
e
na repressão do Estado
, aprofundando o seu abraço com as elites, será varrido da
história do nosso país, como o Coronel Gutierrez o será.
Chamamos a uma ampla discussão entre todos os setores progressistas, a
não descarregar bombas contra Lula, mas a propor a única
alternativa possível para evitar o desastre, que é iniciar um
verdadeiro processo de transformações sociais no nosso
país.
[*]
O original encontra-se no número de Março 2004 de
"Revolução socialista".
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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