Brasil: 40 anos após o golpe de 1º de Abril de 1964
Subsídios à crítica acerca
da ditadura militar de 1964-1985
por Alcides Ribeiro Soares
[*]
Antecedentes históricos do golpe de Estado
A agudização dos conflitos sociais, o declínio
drástico do ritmo de crescimento das atividades produtivas e a
aceleração inflacionária nos primeiros anos da
década de 1960 - em 1963, a taxa de incremento da renda per
capita tornou-se negativa - contribuíram para levar a sociedade
brasileira a crescente polarização e luta, política e
ideológica, entre progressistas e conservadores, quanto às
alternativas para a solução dos problemas fundamentais do
país.
As forças progressistas, partidárias de reformas estruturais,
eram integradas, quanto a sua composição de classe, de modo
geral, por amplas parcelas das massas trabalhadoras -- notadamente, por
expressivos setores da classe operária sindicalizada --, por segmentos
das camadas médias e por uma parcela da burguesia.
Essas forças, através do movimento sindical, do movimento
estudantil e de outros movimentos de massa; do Congresso Nacional e de partidos
políticos, mobilizavam-se e, em geral, exigiam amplas reformas que,
fundamentalmente, constituíam-se do seguinte conjunto de diretrizes e
medidas econômicas, sociais e políticas a serem implementadas:
Reforma agrária drástica, orientada no sentido de:
garantir acesso à terra, nos latifúndios improdutivos, às
massas trabalhadoras do campo; elevar a produtividade do trabalho na
agricultura, possibilitando, dessa maneira, melhoria do abastecimento alimentar
do país, ampliação do suprimento de matérias-primas
para a indústria e, ainda, diversificação das
exportações de produtos agropecuários; estender aos
trabalhadores do campo, com as necessárias adaptações, os
direitos assegurados pela legislação trabalhista então
vigente nas áreas urbanas; fomentar a sindicalização dos
trabalhadores rurais; transformar os trabalhadores do campo em consumidores, em
maiores proporções, dos produtos industrializados; evitar a
expulsão do homem do campo.
Fortalecimento do mercado interno, mediante a manutenção e
elevação dos salários reais, inclusive através da
já mencionada incorporação de crescentes massas de
trabalhadores rurais ao mercado consumidor de produtos industrializados.
Ênfase na solução dos problemas de
educação, saúde, previdência social,
habitação e outros problemas sociais.
Controle da remessa de lucros do capital estrangeiro, mediante o
estabelecimento de legislação específica que o assegurasse
efetivamente.
Diversificação dos mercados exteriores, não
só quanto ao destino das mercadorias exportadas, mas, também, no
que se refere à origem das importadas.
Diversificação das pautas de exportações e
importações.
Nacionalização (encampação pelo Estado,
estatização) de empresas estrangeiras atuantes nos setores de
refino de petróleo, petroquímica, produtos farmacêuticos,
produção e distribuição de eletricidade,
telecomunicações e capital bancário.
Aprofundamento e ampliação das diretrizes da
política externa então vigente, orientando-a no sentido da
chamada política externa independente.
Reforma administrativa.
Aprofundamento e ampliação da democracia.
É oportuno esclarecer-se que o fato de as forças progressistas
serem muito heterogêneas gerava contradições em seu
interior, não havendo unidade quanto ao conjunto de diretrizes e medidas
supra mencionado. Assim, setores situados mais à esquerda pressionavam,
através de vários meios, como greves, atos públicos,
comícios, passeatas, manifestos, abaixo-assinados e projetos-de-lei, no
sentido de implementar esse conjunto de diretrizes e medidas, enquanto outros
segmentos procuravam a conciliação com os conservadores e os
golpistas, e restringiam sua luta apenas ao âmbito das reformas de base
oficiais, que, no fundamental, eram as reformas administrativa,
bancária, fiscal e agrária.
O governo João Goulart, que se apoiava, em grande medida, nas
forças progressistas e, simultaneamente, era pressionado por estas,
elaborou e tentou colocar em prática o
Plano trienal de desenvolvimento econômico e social: 1963-1965
, cujos objetivos básicos resumiam-se em: garantir, nesse
período, o crescimento da renda nacional a uma taxa de cerca de 7% ao
ano -- o que corresponderia a algo em torno de 3,9% de incremento per
capita-, considerado compatível com as expectativas de melhoria
das condições de vida do povo brasileiro, na época; fazer
com que a pressão inflacionária se reduzisse progressivamente, de
maneira que a taxa de inflação recuasse para o nível de
apenas 10% anuais, em 1965; elevar os salários reais no mesmo ritmo de
aumento da produtividade que viesse a ocorrer na economia em seu conjunto,
criando-se, assim, condições para que se concretizasse
distribuição cada vez mais ampla dos frutos do desenvolvimento
entre a população; promover substancial
intensificação da ação do governo nas áreas
da educação, da pesquisa científica e tecnológica e
da saúde pública, com a finalidade de assegurar, rapidamente, a
melhoria do homem como fator de desenvolvimento e, além disso, tornar
acessíveis os frutos do progresso cultural a parcelas crescentes da
população; orientar adequado levantamento dos recursos naturais e
promover a localização das atividades econômicas do
país, tendo em vista desenvolver as distintas áreas deste e
reduzir as desigualdades regionais de níveis de vida, sem
acréscimo do "custo social do desenvolvimento"; abolir, de
forma progressiva, os obstáculos institucionais responsáveis pelo
desgaste dos fatores de produção, bem como pela
lentidão do processo de assimilação de novas
técnicas em certos setores produtivos, especialmente no tocante à
estrutura agrária então vigente no país, cuja
transformação deveria ser realizada com eficiência e
rapidez; dar encaminhamento a soluções com vistas a refinanciar
de forma adequada a dívida externa, cuja acumulação havia
sido verificada principalmente no transcurso do decênio que precedeu
imediatamente o início do período de vigência do plano.
Essa dívida, embora não fosse considerada propriamente grande,
pesava em demasia no balanço de pagamentos, por ser quase toda de curto
e médio prazos, recomendando-se, diante disto, evitar seu agravamento no
triênio 1963-1965; garantir crescente unidade de comando do governo no
âmbito de sua própria esfera de ação, procurando
submeter as distintas agências que o compunham a diretrizes que visassem
a consecução dos objetivos indicados nos itens anteriores.
O plano fazia recomendações para que o governo exercesse sua
ação mediante um conjunto de medidas compatíveis entre si
e dirigida no sentido de: realizar os investimentos necessários para
atingir a taxa de crescimento prevista e orientá-los de maneira a fazer
com que a estrutura produtiva se ajustasse à evolução da
demanda, com o mínimo de custos possível; articular essa
estrutura de produção com as necessidades de
substituição de importações resultantes das
limitações da capacidade de importar então vigentes
[1]
.
Quanto às reformas de base -- administrativa, bancária, fiscal e
agrária -, o Plano Trienal limitava-se tão somente a indicar
diretrizes para sua possível execução, já que se
tratava de matérias dependentes de aprovação pelo
Congresso Nacional.
A reforma administrativa visava basicamente introduzir o máximo de
racionalidade na ação do governo, tanto em seus centros de
decisão, como nos de execução..
[2]
A reforma bancária tratava da criação do banco central, do
banco rural e de outros bancos oficiais especializados, bem como de um amplo e
eficiente mercado de capitais.
Quanto à legislação bancária, deveria ser
aperfeiçoada, com vistas a, principalmente:
a) promover mais especialização das
instituições privadas;
b) deixar clara a responsabilidade dos administradores dessas
instituições e defender, sob outras formas, os interesses
daqueles que confiam seus interesses a essas instituições;
c) melhor definir os poderes das autoridades monetárias para impor
normas de boa técnica administrativa .
[3]
A reforma fiscal deveria promover, urgentemente, completa e profunda
revisão do sistema tributário do país -- considerado,
então, obsoleto -, compatibilizando-o com a economia brasileira da
época, tornando-a capaz de proporcionar
distribuição mais eqüitativa da carga fiscal e maior
eficiência da arrecadação e da
fiscalização.
[4]
Outra razão para a realização da reforma do sistema
tributário era
a necessidade de utilizar a tributação como instrumento de
política de desenvolvimento econômico, tornando possível,
através dela, orientar os investimentos segundo os interesses da
economia nacional.
[5]
Quanto à reforma agrária, as diretrizes eram as seguintes:
a) Nenhum trabalhador que, durante um ciclo agrícola completo,
tiver ocupado terras virgens e nelas permanecido sem contestação,
será obrigado a pagar renda sobre a terra economicamente utilizada;
b) Nenhum trabalhador agrícola, foreiro ou
arrendatário por dois ou mais anos em uma propriedade, poderá ser
privado de terras para trabalhar, ou de trabalho, sem justa
indenização;
c) Nenhum trabalhador que obtiver da terra em que trabalha -- ao nível da
técnica que lhe é acessível -- rendimento igual ou inferior
ao salário mínimo familiar, a ser fixado regionalmente,
deverá pagar renda sobre a terra, qualquer que seja a forma que esta
assuma;
d)Todas as terras consideradas necessárias à
produção de alimentos, que não estejam sendo utilizadas ou
o estejam para outros fins, com rendimentos inferiores a médias
estabelecidas regionalmente, deverão ser desapropriadas para pagamento a
longo prazo.
[6]
Analisando-se o Plano Trienal em seu conjunto, verifica-se que este propunha
mudanças de grande alcance na sociedade brasileira. Entretanto, os
objetivos a serem atingidos pelo plano nem sempre eram compatíveis entre
si, como é o caso do crescimento da renda nacional a uma taxa
média de 7% ao ano, ao mesmo tempo em que se estabelecia combate
à inflação mediante a contenção dos gastos
públicos, já que essa poderia inviabilizar a taxa de
investimentos necessária para esse incremento. O combate à
inflação, por esse meio, e outros, como a restrição
de crédito ao setor privado, chocava-se também frontalmente com
as reivindicações de reajustes salariais por parte do
funcionalismo público, civil e militar, e contrariava os interesses
fundamentais da indústria, particularmente da automobilística,
que exigia aumento de suas linhas de crédito.
Na prática, o plano evidenciou a impossibilidade de atender
simultaneamente a múltiplos interesses contraditórios, muitos dos
quais envolvendo parcelas consideráveis da própria base de
sustentação do governo, notadamente no que se refere às
reformas estruturais e, em especial, à reforma agrária.
Cabe, aqui, lembrar-se de que o sistema eleitoral vigente na época
permitiu que João Goulart, adversário político de
Jânio Quadros, fosse eleito vice-presidente deste. Jânio, eleito
com apoio de uma coligação de forças conservadoras, ao
renunciar em 25 de agosto de 196l, tinha como substituto, também
legitimamente eleito com base nas normas constitucionais então vigentes,
um político de orientação reformista, com propostas de
governo opostas às suas.
Inconformados com a derrota política resultante da renúncia do
presidente, as forças que o elegeram tentaram, apoiadas em fortes
segmentos militares, impedir a posse do vice, levando o país à
beira da guerra civil.
A solução transitória do problema político fora
encontrada, porém, com uma emenda à Constituição
estabelecendo o sistema parlamentarista de governo. Essa emenda, elaborada sob
pressão militar, reduziu os poderes presidenciais e viabilizou a posse
de Jango. Tratava-se, porém, de uma solução de
compromisso, de uma trégua entre os defensores da legalidade e da
democracia e os defensores de soluções extra-legais, de uma
ditadura militar, várias vezes ensaiada desde os anos cinqüenta,
como, por exemplo, as tentativas de golpe de Estado para impedir a posse de
Juscelino, cujo vice era, também, João Goulart.
O sistema parlamentarista colocado em prática, unilateral,
esdrúxulo, casuístico e imposto pelos militares e civis
golpistas, tinha o claro objetivo de criar obstáculos às
transformações econômicas, políticas e sociais de
que o país necessitava urgentemente e, por isso, passou a ser cada vez
mais questionado e, finalmente, revogado por plebiscito convocado para decidir
sobre o sistema de governo em começos de 1963. Mesmo defensores do
sistema de gabinete -- em princípio, mais democrático do que o
presidencialismo -, optaram por essa revogação.
O restabelecimento dos poderes presidenciais não diminuiu, porém,
a crise política e econômica vigente no país. Esta, ao
contrário, tornou-se mais aguda a partir de 1963.
O Plano Trienal, embora elaborado pelo renomado, influente e bem-sucedido
economista estruturalista Celso Furtado, naufragou, não só em
decorrência de causas estruturais e conjunturais, mas também
aparentemente pelo fato de adotar medidas de estabilização de
caráter monetarista. O plano era contraditório e
caracterizava-se por diagnóstico bastante ortodoxo da
aceleração inflacionária no Brasil, enfatizando o excesso
de demanda via gasto público como sua causa mais importante. O
receituário proposto, embora gradualista -- em vista, entre outras
razões, dos níveis inéditos alcançados pela taxa
inflacionária -, era semelhante ao de outros programas de
estabilização adotados no passado: correção de
preços defasados, redução do déficit público
e controle da expansão do crédito no setor privado.
Estabelecia-se isto como meta inflacionária para 1963 (10% em 1965) e 7%
como meta para o crescimento anual do produto. O déficit potencial do
governo para 1963 -- correspondente a mais de 50% da despesa programada -- seria
reduzido em cerca de 60% pela adoção de plano de economia e
diferimentos de despesas.
Seguiu-se ao anúncio do
Plano um salto no índice de preços industriais por atacado de
mais de 20% em janeiro e 11% em fevereiro, possivelmente, como sugerido por
Sochaczewski (1980), em expectativa de imposição de controle de
preços.
Em meados de janeiro de 1963, o governo anunciou aumentos do trigo e de
derivados de petróleo de 70% e 100%, resultantes da
abolição de subsídios, bem como o reajuste de tarifas de
transportes urbanos. Além dos cortes de gastos públicos, foram
estabelecidos limites nominais de expansão de crédito ao setor
privado de 35%, quando a taxa inflacionária anual equivalente era de
60%, e aumentado o depósito compulsório dos bancos comerciais nas
Autoridades Monetárias de 24% para 28% dos depósitos à
vista. Goulart solicitou que o Fundo Monetário Internacional enviasse
missão ao Brasil, que foi recebida no final de janeiro por Furtado.
[7]
A queda da renda per capita em 1963 e a aceleração
inflacionária caracterizaram o fracasso do plano.
Minoritário no Parlamento, que se negava a aprovar reformas
constitucionais propostas pelo Executivo com vistas à
viabilização legal das reformas de base, o presidente João
Goulart manobrava no sentido de encontrar uma solução
politicamente viável para os agudos problemas com que se defrontava o
país, chegando a apelar, nos últimos dias de seu governo, para os
decretos-leis, como o da declaração de utilidade pública
de terras para fins de reforma agrária e o da encampação
(estatização) de refinarias de petróleo.
Para adotar essas medidas, apoiava-se na mobilização do movimento
sindical, nos setores
nacionalistas e democráticos
das forças armadas, em segmentos minoritários das camadas
médias, nos partidos políticos de esquerda e em segmentos
minoritários dos partidos liberais e conservadores, como a
ala moça
do PSD e a
bossa nova
da UDN.
As forças conservadoras opunham-se, por definição, ao
caminho preconizado pelas forças progressistas e defendiam irrestrita e
intransigentemente a propriedade privada dos meios de produção,
sob todos os aspectos, particularmente, a dos latifúndios improdutivos e
a dos monopólios transnacionais.
Do lado das forças conservadoras alinhavam-se os latifundiários,
os monopólios transnacionais e setores majoritários da burguesia
brasileira, bem como segmentos das camadas médias, incluindo-se
aí setores conservadores e de direita das forças armadas e da
intelectualidade.
Toda essa luta desencadeava-se num quadro de confrontação, em
nível internacional, entre o capitalismo e o socialismo. O clima de
guerra fria
conduzia, freqüentemente, tanto os conservadores como os progressistas, a
adotarem uma visão maniqueísta em seu confronto político e
ideológico.
Os conservadores viam, de modo geral, em qualquer tentativa de reforma social
subversão da ordem, ameaça comunista, guerra
revolucionária, destruição dos valores da
civilização ocidental e cristã, atentado ao direito de
propriedade e destruição da democracia. E, em nome de todos esses
valores, defendiam intransigentemente a intocabilidade do latifúndio
improdutivo e a liberdade de atuação, sem limites, dos
monopólios privados transnacionais e brasileiros. E, mais do que isso,
defendiam, velada ou ostensivamente, o golpe militar e a
instauração de um regime ditatorial, a pretexto da defesa das
instituições democráticas. E esse golpe, várias
vezes ensaiado desde a primeira metade dos anos cinqüenta, como já
foi mencionado, acabou por efetivar-se entre 31 de março e 1 de abril de
1964.
A ditadura militar e seu modelo de desenvolvimento
Os sucessivos governos ditatoriais, oriundos do golpe militar de 1964,
combinaram, em maior ou menor escala, drástica repressão policial
ao movimento sindical e a outros movimentos sociais de massa, às
reinvidicações dos trabalhadores e às liberdades
democráticas em geral, com diretrizes e medidas de política
econômico-financeira de inspiração igualmente conservadora.
Essas diretrizes e medidas, consubstanciadas em diversos planos, programas e
projetos, orientaram-se no sentido de estabelecer o modelo brasileiro de
desenvolvimento, antipopular e concentrador de renda.
Os textos desses planos e programas, ora esclarecem, ora obscurecem os
verdadeiros processos econômicos, políticos e sociais em curso
durante os governos autodenominados revolucionários (com evidente
impropriedade conceitual).
Assim, é inegável que, ao menos até 1980, os governantes
militares estavam empenhados no combate à inflação e na
promoção do desenvolvimento econômico.
Porém, suas solenes declarações a favor da melhoria das
condições de vida do povo brasileiro -- particularmente, das
massas trabalhadoras -- estão em flagrante contradição com
a política salarial, de arrocho sistemático e generalizado,
adotada oficialmente durante os vinte e um anos de regime autoritário.
Essa política salarial sempre esteve, também, em
contradição com as solenes declarações oficiais
relativas à busca da melhoria na distribuição de renda,
assim como com as referentes ao desenvolvimento do mercado interno, pelo menos
no tocante aos produtos de largo consumo pelas massas trabalhadoras.
E mais do que isso, é a orientação geral do
modelo brasileiro de desenvolvimento
- não muito bem explicitada nos planos, programas e projetos -- que se
choca de maneira frontal com as reinvidicações populares em
geral, e com as das massas trabalhadoras, em particular.
Esse
modelo,
como passou a ser designado oficialmente o conjunto de medidas e diretrizes de
política econômico-financeira e social adotado pelos governos
militares, bem como os processos reais de desenvolvimento do país,
poderia ter seus traços característicos essenciais assim
descritos:
a)
Reorganização do aparelho estatal
, sob os aspectos político, administrativo e jurídico, de maneira
a conferir plenos e absolutos privilégios ao capital monopolista,
notadamente aos monopólios transnacionais.
Entre estes privilégios, destacam-se:
Redução dos salários reais, mediante a
aplicação de índices de reajustes sistematicamente
inferiores aos da inflação.
Fomento a uma maior rotatividade da força de trabalho, mediante a
abolição da estabilidade dos trabalhadores com dez ou mais anos
no emprego e a instituição do Fundo de Garantia por Tempo de
Serviço (FGTS).
Generalização
de subsídios aos exportadores e ao capital monopolista em geral.
Estabelecimento de
legislação liberal relativa à remessa de lucros das
empresas estrangeiras.
Estabelecimento de acordo
de garantia para os investimentos estrangeiros.
Incentivos fiscais
à fusão e incorporação de empresas ou, em outras
palavras, à monopolização da economia.
Concessão de
maiores facilidades às empresas transnacionais para a
aquisição e exploração de recursos naturais do
país: aquisição de jazidas minerais, compra de grandes
extensões do território brasileiro etc.
Revogação
de medidas econômicas e sociais de caráter progressista adotadas
pelo governo deposto em 1964, a começar pela
desapropriação de latifúndios para fins de reforma
agrária.
Preservação e fortalecimento dos interesses dos
latifundiários.
Concentração da renda e orientação da
economia nacional no sentido de produzir bens e serviços destinados a
uma minoria, assim como ao mercado externo.
b)
Viabilização do modelo
mediante intervenção estatal nos sindicatos de trabalhadores e
perseguição de suas lideranças; ilegalização
de outras entidades de massa; ilegalização das greves em geral;
extinção dos partidos políticos;
perseguição, prisão e exílio de milhares de
líderes políticos e personalidades democráticas;
abolição, na prática, das liberdades públicas em
geral; em suma, implantação e sustentação de uma
ditadura pró capital monopolista e latifúndio no país.
As justificativas políticas, ideológicas e econômicas dos
revolucionários
vitoriosos de 1964, contidas em numerosos documentos, discursos,
proclamações, manifestos, atos institucionais e medidas
repressivas adotadas logo a partir dos primeiros dias após o triunfo da
Revolução
contra os partidários das reformas estruturais, enfatizavam os seguintes
aspectos: combate à subversão; combate à
corrupção; combate à inflação;
eliminação ou diminuição dos problemas relativos ao
balanço de pagamentos e à dívida externa; retomada do
crescimento da economia nacional.
Rápido balanço do regime ditatorial
Um rápido balanço do período do regime militar
(1964-1985), permite, porém, verificar-se que os
revolucionários
de 1964 obtiveram êxito apenas parcial e relativo na busca dos objetivos
supra mencionados.
Assim, se o combate à subversão for entendido apenas como a
repressão generalizada ao movimento sindical e a outros movimentos de
massa, às reinvidicações dos trabalhadores e às
liberdades democráticas em geral -- inclusive ao direito de greve -- o
regime obteve êxito inegável. Porém, se for incluída
nesse combate a defesa das instituições democráticas, como
apregoavam os
revolucionários
, verificar-se-á que, sob esse aspecto, ocorreu fracasso na
consecução desse objetivo, já que essas
instituições foram drasticamente subvertidas, mediante a
edição de sucessivos atos institucionais e decretos
arbitrários, inclusive decretos secretos; a corrupção,
combatida só aparentemente, e no início do longo regime
autoritário, transformou-se num sistema generalizado, multiforme e
impune; a inflação, que, em 1964 foi calculada em pouco mais de
oitenta por cento ao ano, embora tenha diminuído significativamente
durante os anos de crescimento econômico, chegou a cerca de duzentos e
quarenta por cento ao ano em 1985; e a dívida externa bruta, que, a
preços correntes, era de três bilhões de dólares em
1964, chegou a cento e cinco bilhões de dólares em 1985.
Quanto ao crescimento da economia nacional, sabe-se que o regime -- após
o primeiro triênio de sua existência, repleto de grandes
dificuldades econômico-financeiras, durante o qual foram lançados
os pilares do
modelo brasileiro de desenvolvimento --
obteve inegável êxito até 1980, chegando a atingir
altíssimas taxas anuais durante o período do
milagre econômico
(1968-1973). Entretanto, a partir de 1981, inicia-se um período de
crises -- estagnação, recessão e crescentes taxas de
inflação -, relacionadas, sobretudo, com o serviço da
dívida externa (pagamento de juros e amortizações).
[8]
Cabe, aqui, a observação de que o arrocho salarial, que durante
longos anos do regime autoritário constituiu a principal medida
destinada a acelerar o processo de acumulação de capital no
país, desde o início da crise dos anos oitenta passou a ser, cada
vez mais, uma forma de, também transferir elevadas e crescentes parcelas
de valores criados pelo trabalho social no Brasil, para o exterior, em
benefício, principalmente, do capital bancário transnacional.
Assim, juntamente com os subsídios e as isenções
tributárias, a redução sistemática dos
salários reais praticada pelo Estado brasileiro contribuiu para diminuir
os gastos de capital dos exportadores, tornando mais vendáveis, dessa
forma, no mercado externo, as mercadorias brasileiras, de maneira a produzir
elevados superávits na balança comercial, destinados ao
serviço da dívida externa.
Essa redução dos gastos de capital, em nível privado,
não implica, porém, necessariamente, que as mercadorias
brasileiras sejam competitivas ao nível social, isto é,
macroeconômico. Ao contrário, o arrocho salarial e os incentivos
supra mencionados -- formas fundamentais de intervenção estatal
em benefício do capital --, desestimulam a luta das empresas,
brasileiras ou filiais estrangeiras aqui localizadas, para competirem mediante
o avanço tecnológico, e restringem, simultaneamente, a
expansão do mercado interno, em benefício das
exportações.
Essa transferência líquida de valores para o exterior, sob as
formas já assinaladas, está no centro da crise
estagflacionária
[9]
em que submergiu-se a economia brasileira, durante longos anos, a partir de
começos da década dos oitenta.
O legado da ditadura
Derrotado por ampla coligação de forças
democráticas, que culminou em grandes manifestações
populares antiditatoriais, o longo regime militar legou ao país
inúmeros problemas, cuja presença continua marcando fortemente a
vida nacional. Entre estes, destacam-se: a) o atraso no desenvolvimento das
instituições democráticas; b) o agravamento das
desigualdades sociais decorrente do modelo de desenvolvimento posto em
prática pela ditadura, fundado no arrocho salarial e na
repressão, em geral, aos movimentos populares reivindicatórios;
c) a postergação do encaminhamento da solução dos
problemas sociais básicos; d) a colossal e aparentemente
impagável dívida externa do país e a contrapartida desta,
ou seja, a elevada dívida pública interna; e e) duas
"décadas perdidas" para o desenvolvimento da economia
nacional, como resultado, em grande medida, desse endividamento.
Conclusões
Aqui, cabe considerar-se que os militares, em última instância,
desempenharam em todo esse processo a função de braço
armado do capital monopolista transnacional, aliado aos setores conservadores e
direitistas das classes dominantes "nacionais".
Além disso, é necessário levar-se em conta o fato de que a
ditadura "brasileira" inscreve-se num quadro mais amplo de
instauração, na época, de regimes antidemocráticos
em vários outros países da América Latina, da Ásia,
da África e até mesmo da Europa, com apoio, de modo geral, do
capital transnacional.
Esses regimes arbitrários, como se sabe, adotaram como objetivo central
barrar as reivindicações e as conquistas das massas
trabalhadoras, e se apoiaram na manipulação do discurso
ideológico maniqueísta típico da Guerra Fria.
Por outro lado, ao cumprirem seu papel de abrir caminho para o capital
transnacional especulativo, às custas, em grande medida, dos povos por
elas oprimidos, as ditaduras militares, enredadas em crescente crise
econômica, social e política, ruíram em toda a parte e
deram lugar a regimes democráticos ou democratizantes, mas, em geral,
submetidos a esse capital, através da dívida externa.
Deixe-se claro, para finalizar, que a ditadura "brasileira", embora
tenha assumido uma aparência estritamente militar, foi, na
essência, uma ditadura do capital, assim como ocorreu com suas similares
latino-americanas e de outros continentes. Todavia, o fato de os militares
terem cumprido o papel de braço armado do capital não isenta de
responsabilidades aqueles que lideraram essas ditaduras -- inclusive, no Brasil
-, já que eles, em largas proporções, comandaram
diretamente o processo de submissão da população de seus
respectivos países -- particularmente, das massas trabalhadoras -- a
grandes sacrifícios políticos, sociais e econômicos, cujas
seqüelas estão presentes, em dimensões incalculáveis,
nos dias atuais.
__________
NOTAS
1- Presidência da República. Plano trienal de desenvolvimento
econômico e social: 1963-1965 (Síntese). Dezembro de 1962, p. 7-8.
2- Idem, p. 189-190.
3- Idem, p. 192.
4- Idem, p. 194.
5- Idem, p. 194.
6- Idem, p. 194-195.
7- ABREU, Marcelo de Paiva.
Inflação, estagnação e ruptura: 1961-1964
. In: ABREU, Marcelo de Paiva et alii.
A ordem do progresso: cem anos de política econômica republicana,
1889-1989
, p. 206-207.
8- A dívida externa, contraída principalmente pelos governantes
militares, em benefício do capital monopolista, acelera seu incremento.
9- A partir de 1981, períodos de recessão alternam-se com
ligeira
retomada do crescimento, caracterizando-se prolongada estagnação
do desenvolvimento da economia nacional.
[*]
Professor Titular do Departamento de Economia da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo -- PUC-SP.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
|