Apertem os cintos
Passado pouco mais de um ano de um mandato previsto para durar 4, o governo
está em via de dilapidar todas aquelas condições iniciais
favoráveis.
Em toda a América Latina, nunca um governo de esquerda, ou progressista,
ou reformista não importa o rótulo teve
oportunidades tão favoráveis quanto o de Luiz Inácio Lula
da Silva.
Em primeiro lugar, constituiu-se em condições políticas
internas privilegiadas, quando vistas em perspectiva histórica. Lula
recebeu mais de 65 por cento dos votos em uma eleição
tranqüila e indiscutivelmente legítima. Sua vitória
não despertou rancores. Todos, inclusive os adversários,
reconheciam que chegara sua hora. Não se tratava de um aventureiro
improvisado, desses que fazem carreira fulminante, mas de um líder
respeitado, presente há mais de 25 anos no cenário nacional. Os
integrantes das Forças Armadas assim como os demais
funcionários do Estado votaram maciçamente nele,
posicionando-se ao lado da mudança que o povo queria fazer. Não
foi a vitória de um homem só. Junto com ela, o PT se tornou o
maior partido do Congresso Nacional. Os partidos aliados também se
fortaleceram, formando no Legislativo um bloco fortíssimo. Não me
lembro de ter ocorrido antes, em nosso continente, essa situação
em que os dois poderes explicitamente políticos assumem no mesmo momento
uma configuração, em tese, mais harmônica e mais
progressista.
A margem de manobra do novo governo, pois, era imensa: opinião
pública a favor, sólida base parlamentar, simpatia no meio
militar, amplo apoio da Igreja, um partido experiente e organizado
nacionalmente, adesão entusiástica de todos os movimentos
sociais. E, acima de tudo, um clima difuso de expectativa positiva que
impediria qualquer oposição sectária e destrutiva. O povo,
profundamente identificado com Lula, exigia pouco: uma nova postura moral e
três ou quatro coisas bem-feitas seriam suficientes para manter por muito
tempo uma imagem positiva do presidente. As pessoas estavam predispostas a
gostar dele e a conceder-lhe crédito. Antes de tudo, queriam poder
continuar a sonhar e a cultivar a esperança. Quanto aos movimentos
sociais, não reivindicavam rupturas e socialismo. Queriam,
principalmente, uma reforma agrária, que poderia ter sido levada adiante
sem confrontações com os grupos capitalistas mais importantes,
que não estão disputando a posse de terras improdutivas.
Espírito republicano e dignidade na condução dos
negócios de Estado, reforma agrária no campo e emprego nas
cidades, nada mais se pedia.
Na economia, as condições eram favoráveis nas três
frentes mais importantes. O ajuste na taxa de câmbio
necessário e inevitável havia sido feito em meados de
2002, criando condições para a retomada de saldos comerciais
consistentes, que se projetavam (e estão se confirmando) para os anos
seguintes. Graças a esses saldos, pela primeira vez em muitos anos, o
Brasil voltava a ter superávit nas suas contas externas, vistas como um
todo. É certo que o ajuste do câmbio teve reflexo nos
índices de inflação no segundo semestre de 2002, mas o
ônus recaiu sobre o presidente de então, Fernando Henrique
Cardoso. Como todos os economistas esperavam, esse efeito começou a
arrefecer em novembro, antes da posse. Lula assumiu com inflação
baixa e cadente. Em março de 2003 terceiro mês de seu
governo , os índices já estavam de novo muito perto de
zero. Por fim, como a taxa de crescimento havia sido baixa em 2001 e 2002,
acumulara-se capacidade ociosa. Estava mais fácil voltar a crescer.
Vejamos agora as condições internacionais. No primeiro ano de
governo Lula, os juros básicos permaneceram em torno de 1 por cento ao
ano. A oferta de crédito aos países periféricos voltou a
ser abundante. Não houve nenhuma nova crise econômica regional em
nenhuma parte do mundo. As avaliações de risco dos investidores
despencaram. A economia norte-americana teve boa taxa de crescimento (3,1 por
cento), puxando as demais. A maioria dos países periféricos
cresceu vigorosamente (China, 9,1 por cento; Rússia, 7,3; Argentina,
8,4; Índia, 5,6; Malásia e Tailândia, 4,2 ; e assim por
diante). O preço dos principais produtos brasileiros alcançou
seus níveis históricos mais altos. Até fatores
imprevisíveis como a febre aftosa em rebanhos da América
do Norte e a gripe do frango na Ásia ampliaram os espaços
das nossas exportações. E, do ponto de vista político,
Lula era a grande novidade internacional em 2003. Todos os espaços
estavam franqueados a ele, operário-presidente de um grande país.
Repito: em nenhum lugar, em nenhuma época, um governo de esquerda teve
possibilidades tão favoráveis na América Latina. É
óbvio que havia problemas históricos e estruturais, que nossa
economia apresentava deficiências e vulnerabilidades, e que a
tragédia social brasileira estava aí, a nos desafiar; por causa
de tudo isso, afinal, sempre fizemos oposição ao modelo
neoliberal. Porém, está na hora de dizer claramente: o discurso
que destacou uma herança maldita ou seja, uma crise
aguda ou condições imprevistas foi apenas o guarda-chuva
que dissimulou uma das maiores operações de
traição, mediocridade e incompetência jamais vista na
história.
Estamos diante de uma tragédia de proporções e
conseqüências ainda imprevisíveis para o futuro do Brasil.
Pois, em condições tão propícias, sob
inspiração das forças de esquerda, instalou-se um governo
rastejante e inqualificável, sem projetos, sem coragem e sem sonhos.
Desde o início ele se dedicou metodicamente a desmobilizar e
desmoralizar sua própria base social. Na economia, jogou-se alegremente
nos braços da especulação financeira e, na
política, do fisiologismo vulgar. Prostrou-se diante do FMI e do sistema
financeiro internacional. Sem esboçar nenhuma resistência,
continuou a obra de destruição do Estado e de
dilaceração da sociedade nacional.
Alienado e deslumbrado, Lula dedicou um ano a produzir fotografias e frases.
Andou de skate, tocou guitarra e violino, colocou e
tirou chapéus, falou de sua falecida mãe, jogou futebol, renovou
promessas de palanque, mistificou, mentiu, confundiu, difundiu a paralisia,
além, evidentemente, de oferecer intermináveis churrascos e
sessões de cinema aos seus convidados. Washington Luís dizia que
governar era abrir estradas. Nem isso Lula fez. Para ele, governar é
divertir-se. Além, é claro, de pagar juros.
Passado pouco mais de um ano de um mandato previsto para durar quatro, o
governo está em via de dilapidar todas aquelas condições
iniciais favoráveis. Já não inspira confiança em
ninguém, a não ser em tipos lombrosianos, profissionais da
bajulação. A generosidade do povo começa a se transformar,
com razão, em decepção, raiva e cinismo.
O governo Lula acabou com um traque. Tendo como pano de fundo a recessão
interminável, o empobrecimento e o desemprego crescentes, foi bastante
expor, à opinião pública, um dos muitos
operadores do PT em ação. A bem da verdade,
não era um operador qualquer. Era um chefe, ou subchefe,
sediado em Brasília, com direito a cafés da manhã com o
titular da Casa Civil e a uma sala no Palácio do Planalto. Se fosse
investigado, toda a rede ficaria exposta. Para impedir essa
investigação, o governo fez haraquiri. Tornou-se refém do
que há de pior. Quanto a nós, descobrimos que, no lugar da
ética, havia apenas o marketing da ética, num governo em que,
afinal, tudo é marketing.
Nosso problema não é mais decifrar aquilo que, em artigo
anterior, chamei de enigma Lula. Ele está decifrado. Fede. O
problema é olhar para a frente. Nos próximos anos, sob a chancela
de um Lula fraco e de um PT desfigurado, poderemos assistir aos maiores
retrocessos da nossa história. A reforma da
legislação trabalhista está posta na mesa. A
criação da ALCA paira sobre nossas cabeças. A autonomia
legal do Banco Central já foi diversas vezes anunciada. O
parlamentarismo poderá vir a ser ressuscitado. Nunca foi tão
necessário reagrupar as forças progressistas brasileiras para
evitar o pior. E lutar. Apertem os cintos. O governo sumiu.
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Autor de
A Opção Brasileira
(Contraponto Editora, 1998, nona edição); escreve uma
análise mensal sobre economia e política econômica no sítio
www.outrobrasil.net
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O original encontra-se em
http://carosamigos.terra.com.br/
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Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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