Para onde caminhamos?
Os economistas da nova geração se interrogam
freqüentemente sobre as causas das baixas taxas de crescimento da economia
brasileira no último quarto de século. Os dados são
surpreendentes se temos em conta que no quarto de século anterior o
país apresentou um dinamismo considerável, colocando-se entre as
duas ou três economias de mais rápido crescimento em todo o mundo.
Os economistas não parecem ter explicação para essa
mutação tão significativa.
Um país dotado de imensas reservas de recursos
naturais e de mão-de-obra aplica uma política que se satisfaz com
uma taxa de crescimento próxima de zero. Não é
fácil descobrir as causas desse processo, mas devemos reconhecer que ele
tem origem ou é reforçado pelo chamado Consenso de Washington,
que não passou de um receituário neoliberal a serviço da
consolidação da política imperial dos Estados Unidos.
De acordo com essa nova doutrina, surgida nos anos 90, os
Estados nacionais já não teriam um papel importante na
criação de empregos. Essa fórmula, que é o ideal do
neoliberalismo, funcionou muito precariamente ou não funcionou. O Brasil
se endividou desbragadamente, a ponto de comprometer sua governabilidade. Se
persistirmos no caminho de crescente endividamento externo, reverter a
situação será mais e mais difícil. E mesmo se o
país tentar alguma forma de negociação com os credores,
não poderemos vislumbrar solução fácil, pois o
sistema financeiro internacional age com rapidez e unidade de comando.
Uma alternativa para escapar a esse quadro de grande
vulnerabilidade externa seria o governo praticar uma punção
interna que permitisse triplicar o superávit em conta corrente. Todavia,
esse segundo caminho, se parece lógico em termos contábeis,
é impraticável por suas implicações
políticas e por exigir um profundo reajuste do sistema fiscal visando
modificar o perfil da dívida interna.
Quando, nos anos 90, os governantes aderiram ao famoso
Consenso de Washington, adotaram, sem maiores explicações e sem
debates com a sociedade, a doutrina de que era necessário concentrar as
atenções nos mercados externos, condição essencial
para recuperar o dinamismo perdido. Contudo, ninguém foi capaz de
explicitar a razão de ser dessa mudança de estratégia, e
nem por que ela seria mais benéfica a um país populoso e
continental como o nosso. Aparentemente, a mudança decorria do fato de
que as empresas transnacionais iam controlando progressivamente os centros de
comando das atividades econômicas. Seja como for, o resultado dessa soma
perversa do Consenso de Washington com as taxas de crescimento em fase de
declínio foi a desarticulação do mercado interno e do
parque industrial, acuando alguns milhões de brasileiros a buscar
sobrevivência no trabalho informal. Hoje ainda sofremos as
conseqüências desses anos do consenso. Se, inversamente,
nos remetemos àqueles anos em que o Brasil apresentou taxas de
crescimento elevadas, ou razoáveis, deparamo-nos com outro problema de
igual gravidade. Refiro-me ao fato de que, historicamente, o dinamismo da
economia brasileira se fez acompanhar de acentuada concentração
de renda, o que é uma forma espúria de geração de
poupança.
Alcançamos assim o fundo do problema: a
variável que comandou o dinamismo da economia brasileira dos anos 50 ao
fim dos anos 70 apoiou-se no processo de concentração da renda.
Não havia como escapar a essa dura realidade: o sistema econômico
só funcionava de forma regular quando a remuneração do
capital atingia determinados níveis. Essa constatação nos
permite entender outro ponto intrigante da dinâmica da economia
brasileira: suas extravagantes taxas de juros.
É inegável que há uma estreita
ligação entre o processo de concentração de renda,
o nível das taxas de juros e as taxas de crescimento da economia. Assim,
para captar os paradoxos de nossa economia faz-se necessário ter em
conta esses múltiplos fatores, aparentemente desvinculados.
Em poucas palavras: se as taxas de juros não forem
suficientemente altas (e as do Brasil inscrevem-se entre as mais altas do
mundo), os capitais estrangeiros não se sentem atraídos a
investir no país; sem esses investimentos externos (os setores internos
não dão conta das necessidades e acumulam um passivo
considerável), o país tem pouca margem para crescer.
Ora, apelar imoderadamente para os investimentos externos
é aumentar de forma considerável a nossa dívida; da mesma
maneira, promover o crescimento sem critérios sociais tende a agravar
fortemente a concentração da renda.
Antes que se diga que se trata da quadratura do
círculo, convém lembrar que a reforma fiscal, tão
repetidamente prometida pelos governos recentes, é o instrumento mais
adequado para enfrentar os problemas expostos acima. Essa reforma, contudo,
não tem conseguido o apoio do Congresso Nacional.
A carga fiscal no Brasil é alta mas injusta, pois
incide de forma desproporcional sobre a parte da população de
menor poder aquisitivo, já que os impostos indiretos (essencialmente os
de consumo) são relativamente os que mais pesam. Precisamos de uma
reforma que modifique a distribuição da carga fiscal, liberando
as camadas de baixa renda.
Não se trata de onerar mais ainda a classe
média que paga Imposto de Renda, mas de corrigir um quadro de profundas
desigualdades, cujo exemplo mais notório é o das
instituições bancárias que, apesar de seus lucros
fabulosos, são praticamente isentas de imposto. A reforma fiscal
deverá corrigir essas distorções, mas não só.
Seu objetivo, tal como nos mostraram as reformas similares
implantadas em países da Europa, é também o de criar
sociedades mais homogêneas. Certos setores do sistema produtivo decerto
sofrerão baixa de rentabilidade, mas é a sociedade como um todo
que lucrará com o esforço de adaptação que visa dar
ao governo os meios de enfrentar os sérios problemas sociais do
país.
Em realidade, uma reforma fiscal pode ir tão longe a
ponto de modificar o sistema de valores das classes dirigentes de determinada
sociedade. No nosso caso, já se fez evidente a fragilidade das
estruturas sociais resultantes de tantos decênios de
concentração de renda conjugada com baixo crescimento. Esta
é uma problemática que merece a atenção, não
só dos jovens economistas, mas de toda a sociedade, e, em particular,
dos nossos governantes.
[*]
Último artigo de Celso Furtado. Publicado pelo
Jornal do Brasil
no princípio de Novembro e republicado dia 22, após o seu falecimento.
resistir.info manifesta o seu pesar pelo falecimento deste grande economista,
que sempre manteve uma postura digna e progressista.
Celso Furtado (juntamente
com o argentino Raul Prebish e toda a escola estruturalista) deu grandes
contribuições para o pensamento económico brasileiro, latino-americano e do
(mal) chamado terceiro mundo. A sua capacidade de pensar a partir das
realidades locais concretas, e não das teorizações enlatadas exportadas pelas
metrópoles imperialistas, tornava-o um homem incómodo para os sucessivos
governos neoliberais que infelicitaram e infelicitam o Brasil. Da mesma
forma como se tornou um homem incómodo para os militares golpistas de Abril de
1964, que o forçaram ao exílio e instalaram uma ditadura ao serviço do capital
imperialista.
A vasta obra que nos lega é um bem precioso para o avanço do conhecimento e a
compreensão da realidade.
Muitos daqueles que sempre combateram as suas ideias, agora, depois de morto,
fazem-lhe elogios encomiásticos. Chama-se a isso hipocrisia.
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Este artigo encontra-se em
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