Brasil
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| 1997 | Setembro | 20.7 | |
| Novembro | 42.2 | «Package 51» | |
| Dezembro | 39.5 | ||
| 1998 | Janeiro | 37.4 | |
| Março | 26.2 | ||
| Maio | 22.6 | ||
| Agosto | 19.3 | Crise russa | |
| Setembro | 33.5 | ||
| Outubro | 39.3 | ||
| Dezembro | 29.3 | ||
| 1999 | Janeiro | 29.9 | |
| Fevereiro | 38.8 | ||
| Março | 43.1 | Acordo FMI revisto |
A prova de que esta política favorecia o capital financeiro, nos
princípios de 1999, está nos lucros líquidos declarados
pelos grandes bancos brasileiros, que foram 5 a 8 vezes superiores aos lucros
do ano de 1998.
Por outro lado, entre 1997 e finais de 2001, o Brasil foi vítima de uma
transferência líquida negativa para a dívida (ver
léxico), num montante de 78,9 mil milhões de dólares. Se
se tiver em conta apenas os poderes públicos, isto representa 27,3 mil
milhões de dólares de transferência líquida negativa
para a dívida pública entre 1996 e finais de 2001 (fonte: Banco
Mundial, GDI 2003).
Ou, por outras palavras, se os poderes públicos brasileiros tivessem
decidido a partir de 1997 cessar o pagamento da dívida e,
consequentemente, os diferentes credores tivessem decidido fechar a torneira do
crédito, o Tesouro Público haveria economizado uma soma um pouco
superior a 27 mil milhões de dólares, o que é
considerável. Isto quer dizer que não se pode, no caso
brasileiro, afirmar que é melhor continuar a pagar a dívida
exterior, sob pretexto de que o fluxo de novos empréstimos entrados no
país é superior ao fluxo dos pagamentos.
Para dar uma ideia da amplitude dos montantes pagos em 1999, o serviço
da dívida, no orçamento do Estado, foi cinco vezes maior que o
orçamento da Saúde Pública, nove vezes maior que o
orçamento da Educação, 69 vezes maior que o
Ministério da Reforma Agrária (cálculo do autor com base
em R. Gonçalves e V. Pomar, 200, p.35).
Esta deterioração da situação provocou uma
sensibilidade renovada quanto à questão da dívida. Do
lado dos movimentos sociais, um tribunal da dívida foi organizado em
Abril de 1998 no Rio, seguido, em Setembro de 2000, de um referendo em que
participaram mais de seis milhões de brasileiros. O referendo foi
organizado pela Campanha Jubileu por um Milénio sem Dívidas, pela
Conferência Nacional dos Bispos, pelo MST, pela CUT e outros sindicatos,
e beneficiara do apoio de vários partidos de esquerda, entre os quais o
PT.
Na altura do referendo, José Dirceu (deputado e, então,
presidente do PT), que veio a ser ministro da Presidência, a partir de
Janeiro de 2003, tinha apresentado, na qualidade de parlamentar, durante a
legislatura de Cardoso, um projecto de decreto-lei
[2]
, visando a realização de um referendo para que a
população tome uma decisão relativamente à
dívida externa e à manutenção dos acordos
internacionais entre o governo brasileiro e o FMI. O artigo 1 dizia:
O Congresso Nacional decide (...) a realização de
auditorias à dívida externa e de um referendo constituído
pelas perguntas seguintes: 1) O governo brasileiro deve denunciar os acordos
com o FMI? 2) O governo brasileiro deve realizar uma auditoria à
dívida externa? 3) O governo brasileiro deve manter a actual
política de pagamentos da dívida? O projecto de decreto
continuava assim: No caso de a vontade popular exigir a ruptura dos
acordos com o FMI, isso entrará em vigor num prazo de 90 dias; caso a
vontade popular se decida pela auditoria, esta deverá realizar-se num
prazo de 90 dias; se a vontade popular se decidir pela revisão das
condições de pagamento da dívida, caberá ao
Congresso Nacional deliberar sobre essas novas condições, num
prazo de 90 dias.
Esta proposta foi apresentada a 13 de Setembro de 2000, tendo sido apoiada com
as assinaturas de 191 parlamentares, entre os quais a de António
Palocci, que se tornou ministro das Finanças em Janeiro de 2003. Tal
proposta foi rejeitada pela maioria parlamentar de F. H. Cardoso (note-se que
alguns deputados, membros da maioria, tinham, contudo, dado o seu apoio
à proposta de decreto).
A possibilidade de apear o presidente neoliberal Cardoso, com as
eleições de 2002 e substituí-lo por Lula, que simbolizava
mais de vinte anos de lutas populares contra a ditadura e o neoliberalismo,
suscitou um enorme entusiasmo e expectativas muito compreensíveis numa
desejada solução para os grandes problemas sociais e o problema
da dívida.
Estas expectativas ficaram profundamente goradas em 2003. Vamos ver
porquê.
Mas, desde já, é de esperar que a criatividade, a
inteligência, a fidelidade à luta e à combatividade venham
a dar asas aos movimentos de cidadãos e aos movimenros sociais
brasileiros. É de esperar que saibam tirar do esquecimento os
compromissos de outrora e consigam que sejam postos em prática.
Não tinham Lula e o PT, durante anos, feito da dívida um
importante tema de campanha do PT?
Com o intuito de refrescar as memórias, encontra-se mais abaixo uma
entrevista de Lula, realizada pelo autor em Manágua (Nicarágua),
em Julho de 1991. E, seguidamente, ver-se-ão quais foram os primeiros
passos do presidente Luís Inácio Lula da Silva, que entrou em
funções em Janeiro de 2003.
Qualquer governo do Terceiro Mundo que decida continuar a pagar a
dívida externa toma a opção de conduzir o seu povo ao
abismo declarava, Luís Inácio Lula da
Silva, em 1991, então presidente do PT brasileiro e novo presidente do
Brasil desde Janeiro de 2003.
Declarações registadas por Eric Toussaint em Julho de 1991, em Manágua (Nicarágua) (1):
Eric Toussaint Após ano e meio de presidência de Collor, qual é a situação do Brasil?
Lula A sociedade brasileira descobriu que a política neoliberal do presidente Collor é um desastre. Contrariamente às promessas, nada foi resolvido. A inflação baixou, mas ao preço de um custo social muito grande em termos de desemprego, política agrária, salários, saúde e educação. Precisamos, pois, de apresentar com urgência uma proposta alternativa que vá no sentido do crescimento económico do Brasil, da repartição das riquezas e que indemnize os trabalhadores dos prejuízos desse plano.
Tudo isso deve processar-se a par de um sério trabalho de organização do movimento popular pois, se se limitar à luta institucional, o PT ficará muito vulnerável. A questão das alianças com outras forças progressistas é de igual modo crucial para enfrentar vitoriosamente o governo.
E.T. O semanário The Economist tinha como manchete, há dias, A América Latina está à venda. Que se passa com a venda das empresas nacionais? Qual é a posição do PT?
Lula O FMI quer que os países endividados vendam as empresas estatais com vista a facilitar o pagamento da dívida externa. O nosso partido tem uma posição clara a esse respeito. Nós defendemos o controle estatal sobre todas as empresas ligadas aos sectores estratégicos. Em contrapartida, todas as que foram nacionalizadas pelo regime militar, todas as empresas secundárias como as têxteis, podem ser privatizadas. As que façam parte dos sectores estratégicos, como o petróleo, a siderurgia, a água, os portos, a energia eléctrica... devem ficar nas mãos do Estado. A nossa luta contra a privatização dessas empresas é favorável à sua democratização. É necessário abrir essas empresas à sociedade civil para que possa administrá-las. É necessário que haja dirigentes sindicais à sua frente, é necessário que grupos que façam parte da sociedade civil sejam parte interessada na administração dessas empresas, a fim de transformá-las em bens da comunidade considerada como um todo. Nós não estamos de acordo com a privatização do património público para pagar a dívida externa. Até ao presente, o governo não obteve grande coisa com a sua política de privatizações, porque nenhum comprador se apresentou. Mas, se isso dependesse apenas do governo, já tudo estaria privatizado. Por outro lado, essa vontade de privatizar não beneficia de nenhum apoio popular na medida em que já temos o exemplo da Argentina onde as privatizações não trouxeram senão miséria.
E.T. Qual é a posição do PT relativamente à dívida externa?
Lula Pensamos que nenhum país do Terceiro Mundo está em condições de pagar a dívida. Pensamos que qualquer governo do Terceiro Mundo que decida continuar a pagar a dívida externa toma a opção de conduzir o seu povo para o abismo. Há uma completa incompatibilidade entre a política de desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo e o pagamento da dívida. Defendemos que é preciso suspender imediatamente o pagamento da dívida. Nós requeremos uma auditoria ao historial da dívida para saber onde se encontra o dinheiro emprestado, saber se foi um empréstimo do Estado ou de uma outra administração pública ou se se tratou de uma iniciativa privada; saber em que é que esse dinheiro foi gasto, etc. Tudo isto para termos uma fotografia fiável dessa dívida.
Com o dinheiro do não pagamento da dívida, podemos constituir um fundo de desenvolvimento que sirva para o financiamento da investigação e do progresso tecnológico, do ensino, da saúde, da reforma agrária, de uma política de desenvolvimento para todo o Terceiro Mundo. Esse fundo de desenvolvimento seria controlado pelo próprio país, a partir de uma instância a criar, abarcando o Congresso Nacional (Parlamento), os movimentos sindicais, os partidos políticos, os quais formariam uma comissão que se ocuparia da administração desse fundo.
Uma iniciativa política internacional é igualmente necessária. Torna-se imperativo criar uma unidade dos países devedores para que estes se oponham aos países credores. É preciso unir os países do Terceiro Mundo com vista a que cada governo compreenda que os seus problemas são equivalentes aos dos governos dos outros países do Terceiro Mundo. Individualmente, nenhum país poderá encontrar uma solução para o endividamento.
Também é importante que a discussão da dívida externa não se faça entre governo e banqueiros, mas entre governo e governo. Temos também de transformar o problema da dívida em questão política. Não se deve discutir apenas o problema da dívida, mas a necessidade de uma nova ordem económica internacional. Não é possível continuarmos a vender as matérias primas ao preço da chuva e a comprar os produtos manufacturados a preço de ouro.
Este pacote de medidas não se realizará se não houver uma acção política. A acção política é a pressão dos movimentos sociais. A questão da dívida deve, portanto, transformar-se num assunto em que o povo se empenhe.
E.T. Há seis anos, Fidel de Castro lançava uma campanha internacional com o tema a dívida é impagável. Após um bom começo, essa campanha parece ter estagnado por falta de eco e, presentemente, tem-se a impressão que Bush (2) vai de vento em popa com a sua iniciativa para as Américas (3). Como explica isso?
Lula É um facto que foi o governo cubano quem lançou esse debate. Houve vários encontros internacionais muito positivos a esse propósito. Mas o que se passa na América Latina é que a situação económica é tão má que a maioria dos trabalhadores não tem tempo para pensar em objectivos a médio prazo. A nossa luta, muitas vezes, impõe objectivos imediatos. É uma luta pela sobrevivência. Sob pressão, as organizações de esquerda não consagram grande energia aos médio e longo prazos. Nós queremos resolver o problema do desemprego e da fome sem estabelecer suficientemente a ligação com a dívida externa. O nosso partido pensa que é importante colocar-se esse problema na ordem do dia e deveria fazer-se o mesmo a nível sindical, porque, se não resolvermos o problema da dívida, não resolveremos nem o da distribuição dos rendimentos, nem o da inflação, nem o do desenvolvimento.
Para voltar às causas da fraqueza da luta quanto ao tema da dívida, teremos de acrescentar que a coordenação internacional das organizações sindicais latino-americanas é insuficiente. E isto, principalmente, porque o movimento sindical está insuficientemente desenvolvido no interior de cada um dos países.
E.T. Que há a dizer, então, da organização à escala do continente?
Lula Por ocasião do encontro da esquerda latino-americana em São Paulo, em Junho de 1991, nós avançámos a questão da dívida externa, pois pensamos que esse tema tem força suficiente para unificar a esquerda. Voltaremos a colocar essa questão na ordem do dia no segundo encontro, que terá lugar no México em Junho de 1992.
E.T. A perspectiva socialista é ainda viável?
Lula Continuo a acreditar numa proposta socialista. Continuo a acreditar que a salvação da humanidade está num mundo mais igualitário, onde a riqueza seja distribuída de forma mais justa.
Nós temos um grande contributo a dar. Nós somos milhões à superfície da Terra a querer construir o socialismo.
Mas o socialismo não deve ser um reflexo do que se passou no Leste. Nós, o Partido dos Trabalhadores, sempre condenámos a existência de um partido único, a falta de liberdade sindical ou a ausência do direito de greve. Pensamos que socialismo pressupõe democracia, multipartidarismo, liberdade e autonomia sindicais, direito de greve, direito das pessoas falarem na praça pública e contra o governo. Se não for assim, não existe socialismo. O fracasso do socialismo de Leste não se pode imputar aos socialistas, mas às burocracias.
É preciso igualmente acrescentar que hoje toda a gente quer falar do fracasso do socialismo do Leste europeu. Mas são muito poucos os que estão dispostos a discutir a necessária solidariedade com Cuba, com o povo do Panamá ou com os povos de África. Temos de pôr na linha da frente das nossas tarefas de solidariedade a defesa de Cuba.
(1) Esta entrevista foi publicada na revista do CADTM, nº 4-5, Outubro-Novembro de 1991.
(2) Trata-se do presidente Georges Bush, pai do actual presidente Georges W. Bush.
(3) A Iniciativa para as Américas defendida por G. Bush foi retomada, a seguir, por Bill Clinton, depois por G. W. Bush sob a forma da ZLEA (Zona de Livre Troca das Américas ou ALCA).
A vitória esmagadora de Lula nas eleições presidenciais
(mais de 60% na segunda volta e perto de 20 milhões de votos de
vantagem sobre o seu adversário) foi obtida no quadro de uma
política de alianças problemática. Com efeito, o candidato
do Partido dos Trabalhadores (PT) tinha obtido a custo o acordo do seu partido
para a realização de uma aliança com um partido de
direita, o Partido Liberal. Em consequência disso, o Partido Liberal
obteria, em caso de vitória, a vice-presidência da
República.
Os compromissos assumidos pelo candidato Lula no decurso da campanha eleitoral
eram igualmente problemáticos, porque ele previa prosseguir a
política económica posta em prática pelo governo de
Fernando Henrique Cardoso, política igualmente ditada pelo FMI, que
assegurava o pagamento da dívida externa e a continuação
do ajustamento estrutural. Esta política reduz, evidentemente, de forma
considerável, as fontes de rendimentos públicos para a
realização da parte progressista do programa, aquele que previa
um aumento significativo dos rendimentos mais baixos (o salário
mínimo equivale a cerca de 70 euros e devia ser aumentado em 20%), a
erradicação da fome (40 milhões de brasileiros sofrem de
forma crónica ou permanente de fome), a reforma agrária e o
aumento da população coberta pela segurança social.
No decurso dos oito primeiros meses do seu mandato de presidente, Luís
Inácio Lula da Silva e António Palocci, ministro da Economia e
Finanças, puseram em prática uma política económica
e social de tipo neoliberal, em contradição tanto com um projecto
de transformação estrutural como com a
concretização de uma melhoria substancial das
condições de vida da maioria dos cidadãos brasileiros.
Em que consiste essa política?
A Henrique de Campos Meirelles, representante do grande capital financeiro, foi
confiada a presidência do Banco Central. Meirelles foi presidente do
banco FleetBoston, o sétimo banco mais importante dos Estados Unidos e o
segundo na hierarquia dos credores do Brasil (depois do Citibank, mencionado
atrás). O FleetBoston teve um papel particularmente nefasto na crise
argentina e nunca hesitou em especular contra a moeda brasileira, para aumentar
os seus lucros. Pôr Meirelles à cabeça do Banco Central
era, por parte do novo presidente, um sinal de submissão aos credores
internacionais e ao grande capital em geral. Pormenor curioso é que
Meirelles tinha feito campanha por José Serra, o candidato de Fernando
Henrique Cardoso, adversário de Lula, nas primeira e segunda voltas das
eleições. No dia da designação de Meirelles para a
presidência do Banco Central, podia-se ainda ler no seu site
o apelo ao voto em José Serra!
Lula e o seu ministro das Finanças anunciaram medidas legais que
tornariam o Banco Central autónomo do governo, o que corresponde aos
desejos do FMI e dos mercados financeiros. Esta decisão foi fortemente
criticada por diferentes componentes da esquerda no seio da maioria
presidencial. Tornar o Banco Central autónomo do governo e, para mais,
pôr à sua frente um representante do grande capital era renunciar,
enquanto executivo, a exercer um controle directo sobre a política
monetária (taxas de câmbio e emissão de moeda) e sobre as
taxas de juro, tradicionalmente fixadas pelo Banco Central. Isto equivalia a
dar um tiro no pé!
Durante a sua campanha eleitoral, Lula havia declarado, tal como os outros
candidatos à presidência, com excepção do candidato
do PSTU, que respeitaria o acordo assinado entre o seu predecessor e o FMI, em
Agosto de 2002. Este acordo previa nomeadamente a obrigação de o
Brasil conseguir um superavit orçamental primário (excedente,
antes do pagamento da dívida) de 3,75%. Em Agosto de 2002, até
mesmo o financeiro especulador Georges Soros havia criticado esse acordo,
dizendo que seria um espartilho de aço à política
governamental. Realizar um superavit de 3,75% implica limitar fortemente as
despesas sociais. No decurso dos primeiros meses da presidência, A.
Palocci decidiu ir mais longe ainda na ortodoxia do Fundo Monetário e
dos mercados, comprometendo-se o governo a atingir um superavit de 4,25%!
Na mesma linha, A. Palocci aumentou a taxa de juro do Banco Central do Brasil,
elevando-a para 26% e baixando-a, depois, para 25,5% (Agosto de 2003). Esta
medida é completamente contrária à parte progressista do
programa de Lula: aumenta os rendimentos do grande capital na sua vertente
financeira. E a prova está em que os bancos brasileiros investiram 67%
dos seus activos em títulos da dívida pública, muito
compensadores (
Financial Times
, 18 de Julho de 2003). Um cronista financeiro da
Gazeta Mercantil
(o principal diário financeiro do Brasil) não deixou de gracejar
com esta política de altas taxas de juro internas: Com a taxa de
juro de base em 25% é uma delícia obter lucros, pedindo ao
estrangeiro (a cerca de 13,25%) e comprando com o dinheiro emprestado
títulos de dívida pública. É uma delícia...
para os bancos (
Gazeta Mercantil
, 20 de Janeiro de 2003).
Esta política, além disso, reforça as desigualdades
sociais, as desigualdades na distribuição da riqueza. O Brasil
é o país do mundo onde o fosso entre os mais pobres e os mais
ricos é maior. Segundo o Relatório de 1999 do PNUD, 20% dos
brasileiros mais abastados açambarcam 63,4% da riqueza, deixando apenas
2,5% aos 20% mais pobres!!! (citado por John Saxe Fernandez, 2001, p. 106). Uma
política de altas taxas de juro é um prémio para aqueles
que vivem parasitariamente dos seus rendimentos. É a
continuação de uma política de dois pesos, duas
medidas: apertar o cinto aos baixos rendimentos e aumentar a
opulência dos ricos.
O aumento das taxas de juro tem dois outros efeitos negativos. Em primeiro
lugar, aumenta mecanicamente as somas a desembolsar com a dívida
pública interna, que é colossal. Em segundo lugar, torna o acesso
ao crédito ainda mais difícil para pequenos e médios
produtores (camponeses, pequenos industriais, pequenos empresários...),
para o conjunto do sector produtivo em geral, o que reduz o investimento e
empurra a economia do Brasil para a estagnação ou para a
recessão.
Desde 1995, as taxas de juro reais do Brasil têm sido, de maneira quase
permanente, as mais elevadas do planeta. Os defensores da política do
FMI justificam isso com a necessidade de atrair capitais estrangeiros e
fixá-los no país, o que não impediu a explosão de
seis crises monetárias. Deste ponto de vista, o Brasil bateu igualmente
todos os recordes. O plano de ajuda do FMI, em Agosto de 2002, foi
apresentado como uma ajuda ao Brasil quando, de facto, se trata de uma ajuda do
Brasil aos dois grandes bancos dos Estados Unidos (FleetBoston e Citibank),
expostos à concorrência dos dois terços da soma que se
pedira emprestada emprestada.
Outros projectos governamentais são inquietantes: a reforma da
Segurança Social e a do Código do Trabalho (reforma trabalhista).
No que diz respeito à reforma da Segurança Social, assiste-se no
Brasil a uma campanha conhecida conhecida por toda a parte em que se trata de
justificar a generalização dos fundos de pensão privados e
pôr em causa os direitos adquiridos dos assalariados em matéria de
pensões. A pretexto de pôr fim aos privilégios de que
beneficiam alguma categorias muito marginais de funcionários
públicos (pessoal dirigente dos ministérios...), quer-se reduzir
muito fortemente o tecto de pensões de todos os funcionários
públicos, aumentar consideravelmente o número de anos de
serviço necessários para atingir a idade de reforma e, ao fim e
ao cabo, favorecer o desenvolvimento da poupança-reforma privada por
meio dos fundos de pensões privados. Esta contra-reforma corresponde
ponto por ponto à orientação defendida pelo Banco Mundial.
Manifestações e greves de funcionários públicos
sucederam-se em Junho-Julho de 2003 numa oposição a esta
contra-reforma que o presidente Lula defende. Na mesma altura, os assalariados
de França e da Áustria lutavam maciçamente contra o mesmo
tipo de projecto dos governos de direita. Esta reforma foi finalmente adoptada
pelo Congresso brasileiro em Agosto de 2003, mediante algumas emendas, como
concessão ao movimento de luta dos funcionários públicos.
Por que é que há antagonismo entre a manutenção dos
acordos do FMI e a parte progressista do programa na base do qual Lula foi
eleito?
Os acordos do FMI implicam um aumento da dívida pública externa e
interna. Externa, porque 30 mil milhões de dólares prometidos
pelo FMI juntam-se ao total da dívida e elevam os montantes a pagar. Do
mesmo modo, os montantes a pagar pela dívida interna aumentam
proporcionalmente ao aumento da taxa de juro. E estes montantes a pagar,
fabulosos, devem ser subtraídos ao Tesouro Público.
Por outras palavras, mesmo que uma reforma dos impostos permitisse fazer pagar
os ricos e aumentar assim as receitas públicas, as somas conseguidas com
esta reforma iriam imediatamente direitinhas para o pagamento da dívida,
o que impediria automaticamente o aumento das despesas sociais. De qualquer
maneira, o FMI nunca aceitou uma reforma dos impostos que viesse a aumentar
significativamente a sua percentagem sobre o rendimento e o património
dos ricos. Portanto, também aí, há uma
contradição entre os acordos do FMI e a eventual vontade de
realizar uma reforma progressista dos impostos.
Sob a pressão conjunta dos movimentos sociais, da ala esquerda do PT e
de outros sectores da sociedade civil, tais como a Conferência Nacional
dos Bispos, que é claramente progressista, Lula, confrontado com os
efeitos perversos do seu compromisso em respeitar os acordos dos seus
predecessores com o FMI, poderia anunciar nos meses que se seguem, por
ocasião das próximas negociações com o Fundo, que
não se encontra em situação de satisfazer as
condições que lhe são impostas, sob pena de não
poder levar a cabo o seu objectivo de erradicação da fome e
outras medidas prioritárias (extensão da reforma agrária,
aumento do salário mínimo...). Ele estaria plenamente no direito
de o fazer. Se não tomar essa orientação, é grande
o risco de ver a sua credibilidade afundar-se aos olhos das camadas populares.
O desencanto da maioria da base social de Lula realizar-se-á mais
lentamente que o dos sectores directamente tocados pelas medidas negativas,
resultantes da contra-reforma das pensões. Contudo, se Lula não
mudar de rumo, a erosão do apoio popular acontecerá
inevitavelmente. Será, então, muito difícil voltar a
ganhar a confiança da maioria decepcionada e desencantada. E, sem que
isso sirva para alguma coisa, as concessões que faz ao grande capital
não protegerão o Brasil de um aumento da fuga de capitais e dos
ataques especulativos contra o real (moeda brasileira). Além disso, a
recessão, como consequência de uma política
macroeconómica neoliberal, instalou-se no Brasil em 2003. Durante o ano
de 2003, caso não haja uma viragem, o pagamento da dívida
pública externa e da dívida pública interna virá a
custar ainda mais ao orçamento público do que em 2002, com F. H.
Cardoso.
Em finais de 2002, a dívida pública interna do Brasil atingia
cerca de 850 mil milhões de reais, 40% dos quais convertidos em
dólares.
Em finais de 2002, a dívida pública externa atingia cerca de 120
mil milhões de dólares.
A dívida externa das empresas privadas do Brasil eleva-se a perto de 110
mil milhões de dólares.
O total da dívida externa, pública e privada, representa 4 anos
de exportações.
Entre 1992 e 2002, a parte dos salários no rendimento nacional passou de
45% a 27%.
E, ainda que os salários não pesem mais que o equivalente a 27%
do rendimento nacional, contribuem com 55% das receitas do imposto sobre
rendimentos!
Por que razão os cépticos de Wall Street se tornaram francamente
optimistas?
Este é o título de um longo comentário do
Financial Times
de 8 de Abril de 2003. Há apenas seis meses, temia-se que o
Brasil, a economia sul-americana mais importante, derivasse inexoravelmente
para os recifes da falta de pagamento da dívida e da bancarrota
financeira. Aconteceu o contrário: o Brasil está altamente
apreciado na Wall Street. Os corretores e os investidores que, no ano passado,
se mantinham à distância, lançam-se hoje na compra de
acções e de títulos da dívida brasileira.
(...) Eles tiveram uma arrancada impressionante e ganharam a
primeira batalha da confiança admite Maurice Goldstein,
economista do Institute for International Economics de Washington
Provaram que os pessimistas e os cépticos como eu estávamos
errados.
Como é que isto aconteceu? A mudança rápida na
política do Partido dos Trabalhadores (PT) no poder constitui uma das
razões principais. Tendo votado em Dezembro de 2001 por uma
ruptura com o modelo económico neoliberal,
introduzido pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o partido tem-se
deslocado para o centro do campo político a uma velocidade
impressionante. Já antes da campanha eleitoral de Outubro de 2002, a
direcção do PT tinha-se comprometido a pagar a dívida e a
manter medidas favoráveis a uma inflação fraca (...).
No fim do ano passado, Luís Inácio Lula da Silva, eleito
presidente, declarou cumprir os objectivos orçamentais fixados com o FMI
em Agosto de 2002. Ele manteve a sua palavra. Em certos domínios, o
governo foi mesmo mais austero que o seu predecessor, aumentando o objectivo do
superavit primário, que elevou de 3,75% para 4,25% do PIB. Henrique
Meirelles, presidente do Banco Central, designado pelo Sr. Lula da Silva, muito
embora tivesse sido antes dirigente do Banco Boston, aumentou a taxa de juro,
de modo a combater as pressões inflacionistas, provocadas pela
desvalorização do ano passado. O Sr. Lula da Silva adoptou o
essencial da agenda reformadora do seu predecessor, o Sr. Cardoso, e
está em vias de acelerar a reforma dos impostos e do sistema de
pensões. A aprendizagem foi rápida declara
Octávio de Barros, economista-chefe do Banco Bilbao Viscaya Argentaria
(BBVA banco espanhol). (...).
Excertos da página inteira consagrada pelo
Financial Times
aos cem primeiros dias da presidência de Lula.
Realizar a auditoria à dívida, prevista na
Constituição.
A realização da auditoria à dívida externa é
uma via essencial num dispositivo geral de políticas alternativas.
Recordemos o projecto do decreto-lei (645-A de 2000) apresentado por
José Dirceu em 2000 e mencionado na primeira parte do presente texto. A
justificação do decreto que José Dirceu avançava
continua plenamente actual:
As diferentes dívidas, externa, interna, pública e privada,
embora diversas na sua aplicação e seu significado, constituem no
seu todo uma sobrecarga de obrigações para a sociedade, cujas
consequências são de variada natureza: 1) aumento da
vulnerabilidade externa e da dependência económica do país;
2) acréscimo das somas a pagar em moeda estrangeira (tanto no presente
como no futuro), comprometendo o desenvolvimento das jovens
gerações; (...) 4) perda de soberania e submissão
às estratégias internacionais do capital financeiro e da
superpotência hegemónica; 5) sacrifício da
população humilde e desprotegida, que não obteve
benefícios dos períodos em que as dívidas foram
contraídas e sobre a qual pesa o fardo do seu pagamento. (...) O actual
projecto de decreto-lei visa estabelecer um mecanismo democrático de
consulta popular acerca do que se deve fazer relativamente às
questões que têm, sem dúvida nenhuma, uma
relação directa e indirecta com a vida do nosso povo.
Segundo Marcus de Freitas Gouvêa, procurador do Ministério das
Finanças e director administrativo do Sindicato Nacional dos
procuradores do Ministério das Finanças, é possível
exigir ao Congresso Nacional, por via judiciária, a
execução do artigo 26 (in Fattorelli,
Auditoria da dívida externa: questão de soberania
, 2003, p. 184).
Instrumentos legais ao alcance dos cidadãos
A Constituição e o Direito nacional brasileiro oferecem garantias
na obtenção de informações junto dos
órgãos públicos, como o Tribunal de Contas, o Banco
Central e o Ministério das Finanças. As
informações, dados e documentos relativos à dívida
de uma nação são de natureza pública e, portanto,
os cidadãos e as instituições têm direito a
obtê-los.
Vários métodos e procedimentos podem ser utilizados no Brasil:
_________Anexo : A realpolitik do presidente Lula e dos altermundialistas.
Entrevista de Frédéric Lévêque a Eric Toussaint do Comité para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM), em Genebra, no quadro da contra-cimeira G8 ilegal, por ocasião do seu encontro com Lula, presidente do Brasil, a 2 de Junho de 2003.
Contexto: Quando da cimeira anual dos G8 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália, Canadá, Rússia) em Evian, a 1 e 2 de Junho de 2003, vários chefes de Estado, não membros do G8, eram convidados do presidente francês, Jacques Chirac. Este pretendia dar à opinião pública internacional a impressão de que o G8, e a França em particular, desejavam dialogar com o resto do mundo, convidando chefes de Estado não membros do G8. Tinham respondido ao apelo o presidente Lula do Brasil e os chefes de Estado ou de governo da China, da Índia, da Nigéria, do Senegal, da África do Sul, do Egipto, do México... Tratava-se, fundamentalmente, de contribuir para a legitimação do G8, clube informal das principais potências mundiais, numa altura em que a sua credibilidade estava no mínimo. Os convidados do presidente Chirac reuniram-se em Evian antes do começo da verdadeira reunião do G8, no momento em que mais de 100.000 manifestantes desfilavam pelas ruas de Genebra (Suíça) e de Annemasse, sob a palavra de ordem G8 ilegal. Alguns dos temas principais: anulação da dívida do Terceiro Mundo, oposição ao militarismo, luta contra a OMC, solidariedade com o povo palestiniano, acesso aos medicamentos genéricos... e oposição à reforma neoliberal do sistema de pensões e da educação, que mobiliza em França milhões de trabalhadores.
Fred Lévêque Ontem tiveste a possibilidade de encontrar, com outros, um dos chefes de Estado, convidado especial do G8, o presidente Lula do Brasil. Podes explicar a razão desse encontro e, portanto, a política levada a cabo pelo presidente Lula?
Eric Toussaint Luís Inácio Lula da Silva, eleito presidente com uma maioria esmagadora de votos, em Outubro de 2002, mais de 65%, desejava ver alguns representantes dos movimentos altermundialistas da Europa. Nós dirigimo-nos a quatro delegados desses movimentos, Jacques Nikonoff, presidente da Attac França, Rafaella Bolini, representante do Fórum Social Italiano, Helena Tagesson (Suécia), da campanha contra a OMC, e eu próprio, em representação do CADTM. O encontro teve lugar em Genebra na residência do embaixador do Brasil.
Antes de nos dirigirmos a esse encontro, havíamos decidido dizer claramente que nós não falávamos em nome do movimento, nem tínhamos nenhum mandato para representar outros movimentos. Representávamo-nos apenas a nós próprios e não era nossa intenção prestarmo-nos, por exemplo, a um tipo de conferência de imprensa durante a qual o presidente do Brasil pudesse utilizar-nos para avalizar a política que põe em prática. Teríamos agido desta maneira com qualquer presidente, mas, para além disso, encontramo-nos, neste caso, numa situação em que, poucos meses depois de ele ter ocupado o seu posto de presidente, a política de Lula está em manifesta contradição com as expectativas de toda uma série de movimentos sociais com que trabalhamos directamente.
Quais são, então, essas medidas tão contestáveis?
Em primeiro lugar, o presidente Lula designou, como presidente do Banco Central, um dos grandes patrões, Henrique Meirelles, antigo presidente dum dos maiores bancos americanos presentes no Brasil, o FleetBoston. É, pois, claramente, um representante da classe capitalista que é posto à frente do Banco Central e a mensagem é evidente: procurar dar confiança aos mercados financeiros. Este é o primeiro problema.
O segundo problema é que o presidente Lula se mostra favorável a conceder autonomia ao Banco Central e isso é dizer que toma as medidas desejadas pelos neoliberais: foi o que fizeram com o Banco Central Europeu, relativamente à Comissão Europeia. Tal significa que o poder político abandona um pouco mais ainda o controle de um instrumento central para a orientação da economia de um país. Quando não se controla directamente o banco central, não se controlam a moeda nacional, as taxas de juro, etc. É coisa de grande importância.
Terceiro ponto contestável na política de Lula: a reforma do sistema de pensões, que ele empreendeu e faz pensar muitíssimo na reforma de Raffarin, combatida por um vastíssimo movimento social, com as greves que se vêem em França. De facto, o presidente Lula ataca o sistema de pensões dos trabalhadores do sector público e quer favorecer os fundos privados de pensões. E há outros elementos da sua política que são contestáveis: altas taxas de juro, a manutenção dos acordos com o FMI, o pagamento da dívida pública externa...
Fred Lévêque Como se realizou esse encontro?
Eric Toussaint Dada a política que acabo de descrever, íamos, por assim dizer, de pé atrás, porque não queríamos ser manipulados nem apanhados numa armadilha. Tínhamos, portanto, decidido, num acordo sobre a forma de procedimento na sessão, que cada um de nós (os quatro delegados), teria cinco minutos para apresentar as reivindicações principais que os nossos movimentos avançam como alternativas à mundialização actual e dizem respeito directamente ao Brasil. Eis como se desenrolou o encontro: fomos recebidos pelo presidente Lula, acompanhado pelo ministro do Trabalho e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, vários deputados e dois conselheiros próximos do presidente. Durante quase meia hora, o presidente Lula falou da política do seu governo, defendeu as medidas de austeridade que tomou (aumento das taxas de juro, cortes sensíveis no orçamento, num montante de mais de três mil milhões de dólares, 14 mil milhões de reais), dizendo que essas medidas eram necessárias para estabilizar uma situação económica muito difícil. E anunciou que, doravante, iria concretizar o que levará alguns anos, disse os compromissos que assumiu com o povo, no decurso da sua campanha eleitoral.
Adiantámos o seguinte: Jacques Nikonoff, presidente da Attac França, disse que o seu movimento se opunha absolutamente aos fundos privados de pensões e estava muito preocupado pelo facto de ver que, no Brasil, o governo actual fazia a promoção desses fundos. Depois reafirmou o interesse manifesto do movimento em que o Brasil se pronuncie claramente a favor da taxa Tobin [N.T.] . É importante saber que Lula foi ao G8 com a proposta de uma taxa sobre a venda de armamento, para financiar um projecto mundial de luta contra a fome. Chirac, numa conferência de imprensa, disse que a proposta de Lula lhe parecia mais oportuna que a taxa Tobin e aproveitou a ocasião para atacar a taxa Tobin. Foram estas as duas questões centrais que Jacques Nikonoff avançou.
Eu, como membro do CADTM, disse que a América Latina estava confrontada, um pouco como nos anos 80, com uma hemorragia enorme de riquezas, que iam para os credores do Norte (mais de 200 mil milhões de transferência líquida negativa sobre a dívida entre 1996 e 2002, o equivalente a dois planos Marshall. O Brasil, só por si, perdeu, entre 1997 e 2001, mais de 70 mil milhões de dólares de transferência líquida negativa sobre a dívida, 27 mil milhões dos quais à custa das finanças públicas, essencialmente para bancos privados, mercados financeiros, FMI e Banco Mundial. Insisti no facto de não ser preciso esperar uma crise de pagamento, uma crise de insolvabilidade, para tomar iniciativas, aliás previstas, no caso corrente, pela Constituição brasileira, isto é, realizar uma auditoria às origens e conteúdo exacto da dívida externa do Brasil, de modo a determinar o que é legítimo e o que é ilegítimo. Isto está previsto na Constituição de 1988 do Brasil. Em 2000, num plebiscito organizado pelo MST, a CUT, a Campanha Jubileu Sul do Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos (com o apoio do PT), mais de 90% dos 6 milhões de brasileiros que votaram pronunciaram-se pela suspensão do pagamento da dívida, enquanto se realizasse a auditoria. Os deputados do PT apresentaram um projecto de lei nesse sentido. Até hoje, nenhum presidente a realizou. E eu disse a Lula: É agora a ocasião, já que o senhor tem o poder de lançar a iniciativa e, assim, tem condições para suspender os pagamentos e economizar o dinheiro do pagamento da dívida para investimentos sociais, transformações, etc. Depois, sugeri que o Brasil lançasse um apelo aos outros países latino-americanos, a fim de constituir, com os outros países endividados, uma frente pelo não pagamento.
O terceiro interveniente, Helena Tagesson, sueca, falou da necessidade de impedir que em Cancun, em Setembro de 2003, se concretizassem os acordos da OMC, assumidos em Doha, em Novembro de 2001, e tentar paralisar a reunião, como já se havia feito em Seattle, nos finais de Novembro de 99 - princípios de Dezembro, quando, pela mobilização e aproveitando as contradições entre a Europa e os Estados Unidos, se conseguiu fazer frente a uma ofensiva mais forte em matéria de liberalização do comércio. Em 2001, a OMC desforrou-se, fazendo vingar uma agenda muito neoliberal, com o Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços, que deve ser definitivamente concretizada e decidida em Cancun. Portanto, ela insistia no facto de termos quatro meses para tentar paralisar Cancun. Propunha que o Brasil fosse nesse sentido, com os outros países do Terceiro Mundo, e estivesse particularmente atento à questão da privatização da água, segundo o desejo da OMC, quando há experiências-modelo no Brasil, como, por exemplo, em Porto Alegre, no que se refere à exploração e distribuição da água. Experiências-modelo que morrerão, se a agenda de Doha vier a ser aplicada em Cancun.
O quarto interveniente foi Rafaella Bolini do Fórum Social Italiano, uma das animadoras do movimento anti-guerra, tendo sido os italianos extremamente activos na campanha contra a guerra no Iraque. Ela pediu ao Brasil que tome a iniciativa de requerer a convocação de uma Assembleia Geral da ONU, donde resultasse um voto da Assembleia Geral de condenação à ocupação do Iraque pelos Estados Unidos e aliados. O Conselho de Segurança da ONU acaba de votar uma resolução, a 22 de Maio, que, na realidade, legitima a ocupação militar do Iraque pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Austrália. É evidente que não se pode ter confiança no Conselho de Segurança. Por outro lado, mesmo que não alimentemos grandes ilusões, se se realizasse um debate na Assembleia Geral da ONU e os países pudessem de facto votar, talvez houvesse uma maioria contra a ocupação do Iraque. Foi o que aconteceu por várias vezes, nos anos 70 e 80, quando Israel foi condenado repetidamente, apesar da oposição dos Estados Unidos, porque os Estados Unidos estavam em minoria.
O que Lula respondeu foi que havia uma grande diferença entre o que se desejava fazer e o que se podia fazer. Tudo isso para dizer que as nossas propostas eram muito bonitas, mas ele não via como realizá-las. Justificou abertamente a sua política favorável aos fundos privados de pensões. Não tomou qualquer compromisso acerca da questão da dívida. Quanto à questão do comércio, disse que queria, de facto, limitar a desregulamentação e o alcance do Acordo Geral sobre o Comércio de Serviços. No que se refere ao Iraque, afirmou que, como representante do país, se opusera claramente à guerra contra o Iraque. Mas não foi mais longe nem disse que ia tomar uma iniciativa quanto à Assembleia da ONU.
Aqui está um resumo sintético desse encontro. Eu tiro como conclusão que a enorme esperança, não só de uma grande parte dos brasileiros, mas também para além deles, do resto da América Latina e do mundo, de ver um governo progressista aplicar uma orientação que vire as costas ao neoliberalismo, essa esperança está manifestamente em vias de se gorar completamente. E é bom que se diga isto desde o princípio. Se não, maior será a queda, se criarmos ilusões acerca das orientações reais do governo de Lula. Como ressalta da situação dos últimos meses na América Latina, onde as pessoas, de maneira muito clara, votaram em vários países em programas de esquerda. Estou a pensar em Evo Morales, na Bolívia, que teve um enorme êxito eleitoral, mas não foi eleito presidente, em Lucio Gutierrez, apoiado pelo movimento indígena, Pachakutik, e pela CONAIE, no Equador, que foi eleito na base de um programa progressista, e em Lula.Nos dois últimos casos, os de Lula e de Gutierrez, eles foram eleitos presidentes, mas apressaram-se a fazer concessões aos mercados financeiros e a realizar a continuidade do programa neoliberal dos predecessores, que condenavam na sua campanha eleitoral. E, no caso de Gutierrez, ainda é mais grave, porque, para além disso, apresentou-se claramente como o melhor amigo de Bush na região, disse que o presidente colombiano era um grande amigo seu, marcando, ao mesmo tempo, distâncias muito nítidas relativamente ao presidente Chavez da Venezuela.
Isto prova que há um desafio importante para os movimentos sociais: a necessidade de manter a sua independência em relação aos governos. Não é pelo facto de os partidos, que em princípio deveriam representar o programa dos movimentos sociais, chegarem ao poder que os movimentos sociais devem moderar-se, abandonar a sua radicalidade e passar ao imobilismo, dizendo não vamos criar dificuldades aos nossos amigos políticos do governo. Pelo contrário, é preciso aumentar a pressão sobre tais governos, para que eles adoptem um comportamento conforme com o que anunciaram e lhes permitiu receber o sufrágio popular.
Genebra, 3 de Junho de 2003
NOTAS
[1] Eis o que escreve Joseph Stiglitz a este respeito : « Robert
Rubin, secretário do Tesouro (...) vinha do maior banco comercial,
Goldman Sachs, e, ao regressar, entrou no Citigroup, a firma que controla o
maior banco comercial Citibank. O número dois do FMI, durante todo este
período, Stanley Fischer, passou directamente do FMI para o Citigroup.
É claro que estas pessoas vêem o mundo com os olhos da comunidade
financeira (J. Stiglitz, 2002, p. 45). Um pouco atrás, no mesmo
texto, J. Stiglitz assinalava algo que se aplica à
designação do novo presidente do Banco Central do Brasil pelo
presidente Lula em Janeiro de 2003: (...) os ministros das
Finanças e os governadores do Banco Central estão estreitamente
ligados à comunidade financeira. Eles vêm de firmas financeiras e,
depois de terem servido o Estado, voltam para lá (op. cit., p. 45).
[2] Projecto de decreto-lei nº 645-A, de 2000
[N.T.]
: Taxa Tobin, assim chamada em honra de James Tobin, prémio Nobel
de Economia, norte-americano, que propôs, já em 1972, uma taxa
módica sobre todas as transacções do mercado de valores,
para estabilizá-los e, ao mesmo tempo, arranjar fundos para a comunidade
internacional. Uma taxa de 0,1% produziria anualmente cerca de 166 mil
milhões de euros, o dobro da soma anual necessária para erradicar
a pobreza extrema em cinco anos. (
vide
Ignacio Ramonet,
Guerras del Siglo XXI
, ed. Mondadori, Barcelona, 2002, p. 119)
[*]
Eric Toussaint, presidente do Comité para a Anulação da
Dívida do Terceiro Mundo, autor de
La Finance contre les Peuples. La Bourse ou la Vie
, coéd. CADTM Bruxelles / CETIM Genève / Syllepse
Paris, 2003. Site web do CADTM :
www.cadtm.org
O original encontra-se em
http://www.lagauche.com/lagauche/article.php3?id_article=637
Tradução de MJS e ASA.
Estes artigos encontram-se em
http://resistir.info
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