RDP da Coreia:
Alvo do imperialismo desde há 60 anos
A República Democrática e Popular da Coreia é alvo de hostilidade na
comunicação social e em alguns sectores da opinião pública. Mas muita desta
hostilidade ignora factos fundamentais da História e da realidade do mundo em
que vivemos.
OS PLANOS DE ATAQUE MILITAR EM 1994
Em 1994 os EUA estiveram à beira de atacar a Coreia.
"Oito anos antes de o governo Bush ter decretado a sua estratégia de
segurança
nacional baseada na doutrina da pre-empção, os Estados Unidos estiveram à beira
de desencadear uma guerra para impedir a Coreia do Norte de se vir a dotar de
armas nucleares".
Quem faz esta afirmação não é nenhuma «fonte propagandística
norte-coreana»?, mas sim os autores desses planos «pre-emptivos» de guerra:
William Perry e Ashton Carter, respectivamente Ministro e Vice-Ministro da
Defesa dos EUA durante a primeira presidência Clinton. Esses dois guerreiros
imperiais acrescentam, no artigo
[1]
que escreveram no
Washington Post
de 20/Outubro/02:
"Nós os dois, [trabalhando] na altura no Pentágono, preparámos os planos de
ataque às instalações nucleares da Coreia do Norte e de mobilização das
centenas de milhar de soldados americanos para a guerra que provavelmente se
teria seguido. [....] passámos boa parte da primeira metade de 1994 a preparar
a guerra na Península Coreana".
Os dirigentes imperialistas do único país que alguma vez usou armas
nucleares confessam ter planeado um ataque a uma central de produção de energia
nuclear – como as que existem em numerosos países, incluindo os EUA - poucos
meses depois de ter vindo a público que algumas das armas nucleares que os EUA
tinham apontado contra a URSS iriam passar a apontar contra a Coreia do Norte.
[2]
Os ministros não ignoravam as consequências da sua agressão:
"preparámos um plano pormenorizado de ataque contra as instalações de
Yongbyon,
utilizando bombas de precisão. Estávamos altamente confiantes em como seria
destruída sem provocar uma fusão [do reactor] que libertasse radioactividade
para a atmosfera. [...] Mas um ataque a Yongbyon, embora cirúrgico em si mesmo,
seria tudo menos cirúrgico nos seus efeitos globais. O resultado provável dum
tal ataque seria uma reacção das forças militares da Coreia do Norte [...] que
atravessariam a Zona Desmilitarizada que separa a Coreia do Norte e a do Sul.
[...] Na eventualidade dum ataque norte-coreano, as forças dos EUA [...]
rapidamente destruiriam o exército e o regime norte-coreanos. [...] os combates
numa nova Guerra da Coreia travar-se-iam nos subúrbios densamente povoados de
Seul [...] Milhares de tropas dos EUA e dezenas de milhar de tropas da Coreia
do Sul seriam mortos e milhões de refugiados encheriam as estradas. [...] A
intensidade dos combates superaria tudo aquilo que o mundo já viu desde a
anterior Guerra da Coreia".
É aterradora a naturalidade criminosa com que se descarta a possibilidade
de um desastre nuclear após um ataque militar a uma central atómica. E como é
hábito, os fautores das guerras imperialistas nem se dignam referir os
mortos civis
que a sua agressão causaria. Recorde-se que na
"anterior Guerra da Coreia"
de 1950-53 morreram milhões de coreanos. Nas palavras do General
estadunidense Curtis Le May
[3]
, citado num muito interessante e informativo trabalho de outro
norte-americano, Gregory Elich
[4]
,
"arrasámos praticamente todas as cidades da Coreia do Norte e do Sul [...]
matámos um milhão de civis coreanos e desalojámos vários milhões mais".
O ACORDO-QUADRO DE 1994
O ataque dos EUA ao reactor civil norte-coreano não se concretizou. O governo
sul-coreano insurgiu-se. A Agência France Presse
(24/Maio/00) cita o ex-Presidente da Coreia do Sul, Kim Young-Sam, que falou ao
telefone com Clinton durante 32 minutos:
"disse-lhe que não haveria uma guerra entre coreanos enquanto eu fosse
Presidente. Clinton tentou persuadir-me a mudar de opinião, mas eu critiquei os
Estados Unidos por prepararem o começo duma guerra na nossa terra".
Por outro lado, o ex-Presidente dos EUA, James Carter
"decidiu intervir pessoalmente, voando para Pyongyang numa missão não
oficial
para abrir negociações"
[5]
. Segundo Carter, os dirigentes norte-coreanos afirmaram-se dispostos a
interromper os projectos de energia nuclear caso lhes fosse assegurada a
construção de centrais energéticas alternativas, no âmbito de um acordo sujeito
a inspecções da Agência Internacional de Energia Atómica, e
"se os EUA se comprometessem a não atacar o seu país com armas
nucleares".
Sem o conhecimento de Washington, Carter anuncia publicamente que existe uma
base para acordo, retirando o tapete a quantos queriam desencadear a guerra.
Segundo um funcionário do Departamento de Estado (o Ministério dos Negócios
Estrangeiros dos EUA)
"a coisa mais chocante a propósito da visita de Carter [...] foi que
quando ele alcançou o congelamento, as pessoas aqui ficaram abatidíssimas".
Da visita de Carter surgiu o Acordo-Quadro de 21 de Outubro de 1994. O
ex-embaixador dos EUA na Coreia do Sul, entre 1989 e 1993, Donald Gregg
[6]
, afirma claramente que a Coreia do Norte respeitou o Acordo-Quadro. E
acrescenta que, da parte dos EUA,
"houve algum arrastar dos pés".
A verdade é que os EUA não cumpriram a sua parte dos acordos, que previa a
construção de uma nova central de produção energética até 2003. E em 15 de
Novembro de 2002 os EUA deixam de cumprir outro ponto de acordo, ao cortarem o
fornecimento de petróleo à RDPC, medida a que se haviam comprometido enquanto
não fossem concluídos os trabalhos de construção da nova central. Como confirma
o embaixador Gregg, foi Washington, e não Pyongyang, que pôs fim ao
Acordo-Quadro de 1994.
AS AMEAÇAS PROSSEGUEM
Os últimos anos confirmam as ameaças dos EUA à RDP da Coreia. Bush incluiu a
Coreia do Norte na famigerada lista de países do «Eixo do Mal». O Presidente da
Coreia do Sul, Roh Moo-hyun repete as palavras do seu predecessor quando
declara à CNN em 19 de Janeiro de 2003 que
"quando fui eleito [...] pessoas com posições de responsabilidade no
governo dos
EUA falavam da possibilidade de atacar a Coreia do Norte. Sentia-me realmente
desesperado".
Em 28/Fevereiro/03 o jornalista do
New York Times
Nicholas D. Kristof afirma que
"algum do trabalho mais secreto e mais assustador em curso no Pentágono diz
respeito aos planos para um possível ataque militar contra as instalações
nucleares na Coreia do Norte [...] até se fala da utilização de armas nucleares
tácticas".
O Plano 5030 do Pentágono, de que dá conta o
US News and World Report
de 21/Julho/03, é descrito como um plano de provocações conducentes à guerra
contra a RDPC.
SOLIDARIEDADE
O povo coreano tem todas as razões para se sentir ameaçado pela mais agressiva
potência imperialista dos nossos dias. Como esquecer que os EUA ocupam
militarmente a península coreana há mais de 60 anos, impondo a divisão do país?
Como esquecer as atrocidades cometidas pelos EUA durante a guerra de 1950-53,
com ameaças de utilizar a arma atómica?
[7]
Como esquecer as provocações e agressões ao longo de 60 anos
[8]
, de Democratas e Republicanos, de
neo-cons e paleo-libs?
Como não levar em conta os planos em curso para interceptar o tráfego
marítimo da RDPC, que dá pelo nome de «Iniciativa de Segurança contra a
Proliferação (PSI)» e à qual o governo português aderiu?
[9]
Como não ver no exemplo do Iraque que o desarmamento unilateral e as
concessões ao imperialismo não impedem a agressão, baseada nas mais descaradas
mentiras?
A distância entre Portugal e a Coreia é enorme. As diferenças políticas e
culturais são igualmente grandes. São também evidentes as diferentes concepções
de socialismo entre o PCP e o Partido do Trabalho da Coreia (cujo 60.º
aniversário se comemora este mês). Mas tudo isto não pode fazer esquecer que,
hoje como há 60 anos, o povo coreano está na primeira linha dos alvos do
imperialismo norte-americano, o maior inimigo dos povos e da paz mundial. O
povo coreano tem o direito soberano de decidir o seu futuro, sem ingerências
externas, nem agressões imperialistas. Tem o direito soberano de alcançar a
reunificação pacífica da sua pátria, libertando-a da ocupação pelo
imperialismo norte-americano. Nessa batalha, o povo coreano e a RDP da Coreia
devem poder contar com a solidariedade dos povos de todo o mundo. Incluindo a
solidariedade do povo português.
Notas
1-
http://www.ksg.harvard.edu/news/opeds/2002/carter_korea_wp_102102.htm
2-
Gregory Elich «Alvejando a Coreia do Norte»,
www.globalresearch.ca/articles/ELI212A.html
3-
Curtis Le May tornou-se famoso durante a guerra do Vietname ao defender que se
bombardeasse o Vietname "de regresso à Idade da Pedra".
4-
Gregory Elich, no já referido artigo.
5-
Esta descrição, e as citações seguintes, são tiradas do já referido artigo de
Gregory Elich.
6-
Entrevista de Donald Gregg a
Frontline,
em 20/Fevereiro/03, disponível na Internet em
www.pbs.org/wgbh/pages/frontline/shows/kim/interviews/gregg.html
7-
Ameaças confirmadas pelo Embaixador Donald Gregg, na referida entrevista.
8 -
Algumas das quais relatadas no livro do jornalista australiano Wilfred Burchett
"Novamente a Coreia?", com edição portuguesa da Seara Nova, 1969.
9 -
Para um resumo de muitas notícias a este respeito, veja-se o texto de Peter
Symonds, 19/Julho/03 no World Socialist Web Site (
www.wsws.org
).
Para noticiário da RDP da Coreia ver
http://www.kcna.co.jp/index-e.htm
.
[*]
Colaborador do semanário
Avante!
O original encontra-se em
http://www.avante.pt/noticia.asp?id=11496&area=19
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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