A crise do neoliberalismo
e os perigos do possibilismo

por Atilio Boron

O objetivo deste trabalho é examinar alguns aspectos da renovada presença da esquerda na vida política latino-americana. É observada tanto nos cenários tradicionais -- sistema de partidos, representação parlamentar etc --, como no surgimento de uma série de governos que, vagamente, é certo, se identificam como sendo de "centro-esquerda" ou "progressistas". E também, de modo muito especial, na tumultuada aparição dos novos movimentos sociais que, em alguns países, adquiriram uma enorme importância. Ela se expressou de formas variadas, desde a "conquista de ruas e praças" para resistir às políticas do neoliberalismo até o surgimento de grandes movimentos de insurreição que resultaram, nos últimos anos, na derrubada de sucessivos governos no Peru, no Equador, na Argentina e na Bolívia.

A PARADOXAL CRISE DO NEOLIBERALISMO

O ponto de partida de nossa reflexão é o fracasso do neoliberalismo. Após uma prolongada hegemonia, as idéias e as políticas neoliberais encontram-se hoje na defensiva. São acossadas tanto por forças internas, mobilizadas de maneira crescente, como por uma expansiva coalizão de atores globais que passaram de uma resistência tenaz a seu projeto de iniciar uma ofensiva. Esta já se faz sentir -- ainda que com desigualdade intensa -- nos quatro cantos do planeta.

MOVIMENTOS, PROTESTOS SOCIAIS E NOVAS FORÇAS POLÍTICAS

Grandes movimentos sociais surgiram na última década do século passado a partir da pioneira revolta dos zapatistas em 1994, a aparição dos piqueteiros argentinos, as grandes greves dos trabalhadores na França e na Coréia do Sul, pouco depois, e a maturação e consolidação internacional dos protestos em Seattle e Porto Alegre. Conseqüentemente, novas forças políticas passaram a controlar os governos (em países como a Venezuela e o Brasil) ou se prepararam para fazê-lo, como no Uruguai; e distintos governos se vêem diante da necessidade de abandonar as políticas que, no passado, causaram os estragos conhecidos de todos, como demonstra o caso argentino - entre outros. É preciso deixar claro, porém, que na maioria dos casos as mudanças mais importantes aconteceram no campo mais brando da retórica e do discurso, e não no mais duro e áspero terreno das políticas econômicas. Mas, ainda diante destas limitações, as mudanças são muito significativas e seria um engano subestimar seu alcance.

Em um trabalho recente, revisamos algumas das transformações mais importantes ocorridas nos países latino-americanos, todas que incidiram fortemente na aparição de novas formas de protesto social e organização política antagônicas ao projeto neoliberal (Boron, 2003[b]: 7-16). Neste trabalho se sublinhava a estraordinária complexidade e natureza contraditória que adquiriu o lento - mas progressivo - esgotamento do neoliberalismo nestas terras. Não há dúvidas que seu declínio a partir da metade dos anos 1990 refletiu reverteu a influência que havia ganho a partir dos anos 1970 nas mãos das ditaduras mais sangrentas que Chile e Argentina têm notícia.

ARGENTINA

Se não é correto sustentar que hoje o neoliberalismo se encontra em retirada, não é menos afirmar que sua influência sobre a sociedade, a cultura, a política e a economia latino-americana mantém-se incólume através dos anos. Neste sentido, a derrota da experiência liberal na Argentina - "país modelo" para FMI e Banco Mundial por vários anos - cumpriu um papel pedagógico de proporções extraordinárias.

MÉXICO

Não foram mais alentadores os resultados produzidos pela aplicação das políticas do Consenso de Washington no México: depois de 21 anos ininterruptos de hegemonia absoluta de tal orientação, a renda per capita dos mexicanos cresceu tão somente 0,3% e isso apenas porque durante o período mais de 10 milhões de pessoas abandonaram o país. Apesar de suas promessas, o neoliberalismo, reforçado pelo ingresso no Tratado de Livre Comércio em 1994, não gerou crescimento econômico, enquanto aprofundava as diferenças na distribuição de renda, aprofundando a injustiça social no país (Guadarrama H., 2004: 10).

CHILE

Se somarmos a isso às graves dúvidas sobre a extrema vulnerabilidade externa do crescimento econômico do Chile e incapacidade crônica de reverter a escandalosa má distribuição de renda, chegamos à conclusão de que os três países-modelo encontram-se em sérios apuros.

Enfraquecimento do neoliberalismo nos âmbitos da cultura, da consciência pública e da política e sua persistência no terreno da economia e nas decisões de ministros e políticos.

As crises ensinam, e boa parte da sociedade tem aprendido graças a elas o que se pode esperar das políticas neoliberais. O que se comprova no momento atual é, portanto, algo muito peculiar: um divórcio entre o inocultável enfraquecimento do impulso neoliberal nos âmbitos da cultura, consciência pública e política e, ao mesmo tempo, uma persistência no terreno crucial da economia e nas decisões políticas.

As políticas econômicas do neoliberalismo seguem seu curso e por vezes até se aprofundam, como lamentavelmente nos mostra o Brasil de Lula. Mas à diferença do que aconteceu nas décadas passadas, já não contam com o apoio -- manipulado, é verdade, mas apoio enfim -- que garantia a aceitação da receita que os amos imperiais e seus representantes locais promoviam.

AS AMEAÇAS

A ameaça da hiperinflação e a chantagem dos organismos financeiros internacionais - agitando o espantalho do risco-país, a fuga de capitais, a especulação contra as moedas locais - cumpriram um papel notável no "disciplinamento" dos povos e governos, e na aceitação resignada do amargo remédio neoliberal.

Em todo caso, esta defasagem entre os componentes econômicos e ideológico-políticos da hegemonia está longe de ser inédita na história do continente, como demonstra a prolongada crise da hegemonia oligárquica na nossa região. Tal como apontava Agustín Cueva em um texto clássico da ciência política latino-americana, a irreversível erosão dos fundamentos materiais da hegemonia oligárquica não ocasionou sua queda imediata, mas acabou levando a transitar por uma diversidade de caminhos que mediaram e em alguns casos atrasaram por décadas seu ocaso definitivo, exatamente até o irromper dos regimes populistas (Cueva, 1976).

Ainda que não possamos extrair conclusões lineares da experiência histórica, poderíamos levantar uma hipótese - terrivelmente pessimista, por certo - que prognostica a indubitável falência das condições econômicas, sociais e políticas que fizeram possível o auge do neoliberalismo não necessariamente significa a que tenha produzido seu imediato desaparecimento da cena pública. Os componentes ideológicos e políticos de seu projeto econômico podem garantir-lhe uma inesperada sobrevida, ainda que em meio a condições amplamente desfavoráveis.

GRAMSCI

Parafraseando Gramsci, poderia dizer-se que a lenta agonia do neoliberalismo é uma dessas situações na qual o velho não acabou de morrer e o novo não acabou de nascer. E como lembrava o grande teórico italiano, em tais conjunturas podem aparecer todo tipo de fenômenos bizarros. Sobram exemplos de tais aberrações: o não-cumprimento de promessas de campanha por governos; a descarada traição dos princípios por parte de certos partidos e organizações de esquerda; a dilatada sobrevida de personagens nefastos como Pinochet, Menem, Fujumori; ou a escandalosa situação social na Argentina, no Brasil e no Uruguai são alguns dos exemplos notáveis.

RAÍZES DA RESISTÊNCIA AO NEOLIBERALISMO

Quando sob que forma aparecem estas novas forças políticas e sociais contestatórias? As razões do surgimento de novos sujeitos políticos são múltiplas e complexas, mas existem algumas que se repetem em todos os casos.

Em primeiro lugar, pelo fracasso econômico que acentuou as contradições desencadeadas pela reestruturação econômica e social precipitada pela crise e acentuadas depois pelas políticas de "ajuste e estabilização" implementadas como resposta a mesma crise. Isso resultou em conseqüências bem significativas na constituição de novos sujeitos políticos, pois:

A) Gerou novos atores sociais como, por exemplo, os piqueteiros na Argentina; os pequenos agricultores endividados no México (sob o lema "O campo não agüenta mais") ; os jovens e uma variedade de movimentos de gênero, opção sexual, etnia, língua, etc - inflados pela mercantilização do social e as políticas de supressão das diferenças promovidas pelo neoliberalismo; e o movimento de "alterglobalização", sobre os quais voltaremos depois, que modificaram a paisagem sociopolítica de suas países.

B) Potencializou outras forças sociais e políticas já existentes, mas que, até o momento, careciam de uma projeção nacional por não estarem suficientemente mobilizadas e organizadas. Assinale-se aqui os campesinos no Brasil e no México ou os indígenas no Equador, na Bolívia e em partes do México e da América Central.

C) Atraiu grupos e setores sociais intermediários às filas dos descontentes com o neoliberalismo, devido aos impactos pauperizadores e excludentes ou, como no caso argentino, pela expropriação das poupanças praticada pelos grandes bancos e avalizada pelo governo. Os "caceroleros" argentinos são um exemplo muito concreto, como também são os médicos e trabalhadores em saúde de El Salvador; ou os grupos mobilizados pela "Guerra da Água" em Cochabamba; ou a resistência às políticas de privatização do governo peruano em Arequipa.

Em segundo lugar, é preciso dizer que o surgimento destas novas expressões da política de esquerda se relaciona intimamente com o fracasso dos capitalismos democráticos na região. Basta assinalar que tem sido intensa, profunda e prolongada a frustração gerada pelo desempenho dos regimes chamados democráticos nesta parte do mundo (Boron, 2000: 149-184). Foi da mão destas peculiares "democracias", que floresceram na região a partir dos anos 1980, que as condições sociais pioraram dramaticamente.

"CAPITALISMO DEMOCRÁTICO"

“Enquanto em outras latitudes o capitalismo democrático aparecia como promotor do bem-estar material e era cautelosamente tolerante com as reivindicações igualitaristas propostas pelo movimento popular – conseqüência das lutas sociais das classes subalternas --, na América Latina a democracia trouxe a precarização do trabalho, o aumento vertiginoso da pobreza, a vulnerabilidade externa, o endividamento desenfreado. Tudo sob a nome das políticas de ajuste e estabilização.

Democracias vazias, reduzidas – como lembrava Fernando Henrique Cardoso antes de ser presidente do Brasil –, incapaz de “eliminar a cheiro de farsa da política democrática”, causado pela inoperância do regime político para introduzir reformas de fundo no sistema produtivo e “nas formas de distribuição e apropriação das riquezas” (Cardoso, 1982; 1985). Nossa região apenas conheceu o grau mais baixo na escala de desenvolvimento democrático possível dentro das estreitas margens de manobra que permite a estrutura da sociedade capitalista.

Democracias meramente eleitorais, ou seja, regimes políticos oligárquicos, controlados pelo grande capital, com total independência dos partidos governantes que assumem as tarefas de gestão em nome do regime, mas onde o povo é convocado a cada quatro ou cinco anos a eleger quem serão os encarregados de domina-lo. Com democracias deste tipo não é casual que, após reiteradas frustrações, se produza o renascimento das forças sociais de esquerda.

Em terceiro lugar, é preciso dizer que este processo também é alimentado pela crise que se abateu sobre as formas tradicionais de representação política. Restam poucas dúvidas de que a morfologia do protesto social em nossa região é um sintoma da decadência dos grandes partidos populistas e de esquerda, e dos modelos tradicionais de organização sindical. Decadência que, sem dúvidas, se explica pela transformações ocorridas na “base social” típica destes formatos de organização devido a:

A) Crescente heterogeneidade do “universo assalariado”.

B) A queda quantitativa do proletariado industrial no conjunto das classes subalternas.

C) O surgimento de um volumoso “subproletariado” – denominado “pobretariado” por Frei Betto – que inclui um vasto conjunto de desocupados permanentes, trabalhadores ocasionais, precarizados e informais, e toda uma vasta massa marginal a qual o capitalismo declarou ser “redundante” e “inexplorável” - e que por tanto, em uma sociedade baseada na relação salarial, não tem direito a viver. Daí que o neoliberalismo pratique uma silenciosa, mas efetiva eutanásia nos pobres.

A decadência dos formatos tradicionais de organização se relaciona, como se o anterior fosse pouco, com a explosão das múltiplas identidades (étnicas, lingüísticas, de gênero, de opção sexual, etc) que redefinem desde baixo a relevância das tradicionais variáveis de classe. Se somarmos a isto a inadequação dos partidos políticos e dos sindicatos para decifrar corretamente as chaves de nosso tempo, a esclerose de suas estruturas e práticas organizativas, e o anacronismo de seus discursos e estratégias de comunicação, compreende-se facilmente os motivos pelos quais eles entraram em crise e as razões do surgimento de novas formas sociais de luta e protesto.

São todos sintomas eloqüentes da progressiva irrelevância das chamadas instituições representativas para canalizar as aspirações cidadãs, o que por sua vez explica, ao menos em parte, o visceral – e suicida! – rechaço das forças sociais emergentes a enfrentar seriamente a problemática da organização que tantos debates originou no começo do século XX no movimento operário, e a crescente atração que exerce sobre eles a “ação direta”.

O quarto e último fator é a globalização das lutas contra o neoliberalismo. Estas lutas começaram e se difundiram rapidamente por todo o mundo a partir de iniciativas que não surgiram de partidos ou de sindicatos, menos ainda no “cenário político oficial”. No caso latinoamericano o papel foi cumprido pelo zapatismo, ao surgir da selva em 1o de janeiro de 1994 e declarar guerra ao neoliberalismo. O trabalho incansável do MST no Brasil, outra organização não-tradicional, amplificou consideravelmente o impacto dos zapatistas.

Seguiu-se então uma verdadeira avalanche de mobilizações campesinas e indígenas na Bolívia, Equador, Peru e em algumas regiões da Colômbia e Chile. As lutas dos piqueteiros argentinos, lançadas como resposta às privatizações da era Menem, são da mesma época e se inscrevem na mesma tendência geral. Os acontecimentos de Seattle e outros similares ocorridos em Washington, Nova York, Paris, Gênova e outras grandes cidades do mundo desenvolvido foram ratificados pelos avanços impressionantes na convocatória do Fórum Social Mundial de Porto Alegre. Produziu-se uma espécie de efeito dominó que, sem dar margem a dúvidas e contrariando uma teorização muito difundida em nosso tempo, a de Hardt e Negri em “Império” revelou a comunicação existente entre as lutas sociais e processos políticos colocados em disputa nos mais distantes rincões do planeta.

OS PERIGOS DO POSSIBILISMO

Chegando a este ponto cabe perguntar: existe espaço para o ensaio de políticas pós-neoliberais? A resposta não é simples. Vejamos o caso do Brasil. Os defensores do rumo atual pelo qual segue o país dizem que o Brasil precisa atrair a confiança dos investidores internacionais, e que só se obtém isso através de uma forte disciplina fiscal e com medidas ortodoxas. Diga-se sem rodeios que esta argumentação é insustentável e que se existe um país que agrupa as condições para ensaiar com êxito uma política pós-neoliberal no mundo, esse país é o Brasil. Se não for o Brasil, então quem será? O Equador de Lúcio Gutierrez? Um eventual governo da Frente ampla no Uruguai? Um possível governo de Evo Morales na Bolívia? A Argentina, talvez, mas apenas sob condições internacionais muito favoráveis. O Brasil, ao contrário, pode se quiser, devido aos seus imensos recursos de todos os tipos.

O corolário do "possibilismo conservador", filho predileto do pensamento único, é que nada pode mudar, nem mesmo em um país com as condições excepcionais do Brasil. Ensaiar o que está fora do horizonte do possível e abandonar o consenso econômico dominante, asseguram alguns burocratas, poderia expor o Brasil a penalidades terríveis que liquidariam o governo de Lula. Mas um olhar atento para a história econômica recente da Argentina demonstra que o que conduziu o país à pior crise de sua história foi a subordinação à vontade política e gestão do Estado aos caprichos e às condições dos mercados.

O RISCO DA DERROTA, SEMPRE À ESPREITA

Tal como reconhecemos em uma análise feita antes de Lula assumir a presidência, a tentação possibilista está sempre à espreita de qualquer governo animado por intenções reformistas (Boron, 2003[a]). Diante da impossibilidade objetiva e subjetiva da revolução, característica do momento não apenas no Brasil, mas em toda a região, existe um mal compreendido impulso a contemporizar com os adversários e buscar em algum canto obscuro da realidade uma pequena rota alternativa para evitar a capitulação total.

DO POSSIBILISMO AO IMOBILISMO

O problema dessa estratégia é que a história nos ensina que depois é impossível evitar ir do "possibilismo" ao imobilismo e, portanto, a uma derrota catastrófica. Essa foi a experiência Argentina com o governo de "centro-esquerda" da Aliança e da social-democracia na Espanha, Itália e França. Em termos mais gerais essa também foi a conclusão teórica de Max Weber ao afirmar, no parágrafo final de sua célebre conferência "A Política como Vocação", que tal como "prova a história (...) neste mundo não se consegue nunca o possível se não se tenta o impossível uma ou outra vez" (Weber, 1982).

As palavras de Weber são ainda mais importantes em um continente como o nosso, onde os ensinamentos da história demonstram de modo inapelável que foi preciso tentar o impossível para obter avanços modestos; que são necessárias verdadeiras revoluções para instituir algumas reformas nas estruturas sociais da região mais injusta do planeta; e que sem uma utopia política audaciosa os impulsos reformistas se extingem, os governantes capitulam e seus governos terminam assumindo como tarefa fundamental a decepcionante administração das rotinas cotidianas.

AS REFORMAS SOCIAIS NÃO MUDAM A NATUREZA DA SOCIEDADE

As esperanças depositadas em um vigoroso reformismo, possível sem dúvida alguma, não precisam ser seguidas de ouvidos surdos às sábias advertências de Rosa Luxemburgo -- quando dizia que as reformas sociais, por mais genuínas e enérgicas, não mudam a natureza da sociedade pré-existente. O que acontece é que por a revolução não está na agenda imediata das grandes massas latino-americanas, a reforma social converte-se -- na conjuntura atual -- na única alternativa disponível para se fazer política. Mas a reforma, também recordava nossa autora, não é uma revolução que avança lentamente ou por etapas até que, com a imperceptibilidade do viajante que cruza a linha do Equador -- para usar a metáfora de Edouard Bernstein -- se chega ao socialismo.

Um século de reformismo social-democrata no Ocidente demonstrou de modo irrefutável que as reformas não são suficientes para "superar" o capitalismo. Produziu mudanças importantes, sem dúvidas, "dentro do sistema", mas fracassou em sua intenção declarada intenção de "mudar o sistema".

PARA ALÉM DOS LIMITES DO REFORMISMO

Na atual conjuntura nacional e internacional, o reformismo aparece como a única oportunidade de avançar enquanto as forças populares trabalham para modificar as condições objetivas e subjetivas necessárias para ensaiar alternativas melhores. O erro de muitos reformistas, porém, tem sido confundir necessidade com virtude. Ainda que no atual momento -- caracterizado pela agressividade sem precedentes do imperialismo, a lenta recomposição das forças populares após vários retrocessos experimentados no final do século passado, o crescente predomínio dos monopólios na economia e nos meios de comunicação -- as reformas sejam a única coisa possível de ser feita, isso não as transforma em instrumentos adequados para a construção do socialismo, ainda que possam, dentro de certos limites, servir de suporte para avançar nesta direção.

Se, como dizem os zapatistas, "trata-se de criar um mundo novo", tal empreendimento excede muito os limites cautelosos do reformismo. Mas não se pode ficar esperando de braços cruzados até a chegada do "dia decisivo" da revolução.

Devemos lembrar, além disso, que em nossos países os desafios que as reformas traçam para os "senhores do dinheiro" deram lugar a ferozes contra-revoluções que afogaram em um banho de sangue as tentativas reformistas. De forma que ninguém crê que ao se falar em reformas estamos falando de um debate entre cortês cavalheiros sobre os bens públicos. Quem invoca a reforma na América Latina une contra si todos os monstros do establishment: militares e paramilitares, os "combatentes da liberdade" e os terroristas organizados e financiados pelas classes dominantes. Na América Latina o caminho das reformas está longe de ser um passeio por um campo florido.

Vários presidentes optaram pelas regras do "possibilismo", tranqüilizando os mercados e satisfazendo pontualmente cada um de seus desejos. Os resultados são visíveis na Argentina e no Brasil. É certo que não existe comparação entre figuras tão diferentes como Lula e De la Rua. Assim como não existe paralelos entre o Partido Justicialista ou a Aliança e o PT, uma das construções políticas mais importantes do mundo.

A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA

Mas, como dolorosamente comprova a experiência brasileira durante o primeiro ano e meio do goveno de Lula, nem uma liderança respeitável nem um grande partido de massas garantem um rumo correto a um governo. O governo de Lula está avançando pelo caminho errado, ao final do qual não se encontra uma nova sociedade mais justa e democrática -- cuja busca foi o que deu origem ao PT -- e sim uma estrutura capitalista mais injusta e menos democrática que a anterior. Um país onde a ditadura do capital, revestida de uma pele pseudo-democrática, será mais ferrenha do que antes, demonstrando dolorosamente que George Soros tinha razão quando aconselhava ao povo brasileiro a não se preocupar ao eleger Lula, já que, de qualquer modo quem governa são os mercados. Seria bom que o Brasil evitasse os horrores que o "possibilismo" e a política do "apaziguamento dos mercados" produziram na Argentina contemporânea.

O DIFÍCIL CAMINHO ATÉ O PÓS-NEOLIBERALISMO

Uma breve análise sobre a história recente da América Latina serve para ilustrar os graves obstáculos em que parecem tropeçar os governos animados -- ao menos a princípio e por sua retórica -- em seu desejo de colocar um fim na triste história do neoliberalismo na região. O certo é que, às vezes de modo grotesco e outras de modo trágico, perpetua-se a supremacia do neoliberalismo na esfera econômica apesar de, nas urnas, os cidadãos terem virado-lhe as costas de modo contundente. É certo que governos que chegam ao poder sobre os ombros do povo e com mandato delineado para colocar fim ao reinado liberal falham na hora de instituir uma agenda pós-neoliberal. Por quê?

Em primero lugar, pelo grande poder dos mercados; na realidade, dos monopólios e grandes empresas que os controlam, diante das deterioradas forças do estado devido a décadas de aplicação de medidas liberais. Tudo isso dá aos setores dominantes um poder de chantagem -- fuga de capitais, fim de investimentos, pressões especulativas -- sobre os governos se não impossível ao menos muito difícil de resistir. Este tema mostra de modo contundente os efeitos políticos de longo prazo do programa neoliberal.

Ao desprestigiar ideologicamente o Estado, mutilando-o de mil maneiras, criou-se as bases para um predomínio político baseado em uma correlação estrutural de forças favorável entre o setor privado -- eufemismo para monopólios -- e o governo, cada vez com menos recursos (devido ao peso da dívida, às exigências de superávits fiscais cada vez maiores), e com menos possibilidades de formular políticas alternativas. E, de outro lado, as políticas de desregulamentação, abertura comercial, liberalização e privatização retiram dos estados os instrumentos estratégicos para intervir no mercado e controlar os monopólios.

O REFÚGIO NO TECNICISMO OU O HARAKIRI ESTATAL

Em segundo lugar, é preciso falar da visceral desconfiança que os governos da chamada "centro-esquerda" têm em relação aos movimentos populares e forças de contestação. Cativados pelo canto da sereia liberal, caíram na crença estúpida de que os problemas dos estados são questões que devem ser tratadas por especialistas e com critérios supostamente "técnicos" e que a gritaria das ruas impediria um adequado tratamento a estes problemas.

A conseqüência desta atitude, cultivada com esmero pelos representantes políticos e ideológicos, nacionais e internacionais, do capital financeiro e os monopólios, é uma espécie de harakiri estatal. Esta tendência potencializou a regressão antidemocrática de que sofrem os estados da América Latina que caminham vazios de seus conteúdos democráticos e debilitado de sua capacidade de intervenção.

Um dos riscos definidores desta crise é a progressiva adoção de âmbitos mais "técnicos" -- e, por conseqüência, distantes das decisões populares e democráticas -- de um número crescente de temas que formam o bem estar coletivo e que são tratados por "especialistas" nas sombras, e à margem de qualquer controle público.

Apesar de seu enorme impacto social, estas questões são resolvidas através de acordos entre os capitalistas e seus representantes no Estado. Toda essa operação fraudulenta se cerca de justificações absurdas, como: "a economia é uma questão técnica que deve ser manejada independente de considerações políticas".

A economia, ciência da escasez e por isso ciência política por excelência, pretende-se passar por um mero saber técnico. A ideologia da "independência do Banco Central", aceita de pés juntos por governos progressistas, é um exemplo eloqüente deste bárbaro disparate. Sua tão desejada independência é tão somente em relação à soberania popular, mas não em relação ao capital financeiro e ao imperialismo, aos quais serve incondicionalemente.

Um terceiro fator decisivo a impedir um pós-neoliberalismo é a persistência dos laços múltiplos do imperialismo e mecanismos planetários dos EUA para disciplinar os governos e assegurar a contínua vigência das políticas neoliberais. Um exemplo são as pressões derivadas da necessidade que os governos endividados têm de contar com a benevolência de Washington para viabilizar seus programas, seja pela via do "trato preferencial" que garante acesso ao mercado norte-americano, a eterna renegociação da dívida ou sua aprovação para facilitar a entrada de capitais.

Tudo isso se entra na longa lista de "condições" que os "cães de guarda" do imperialismo -- principalmente FMI e Banco Mundial, mas também OMC e BID -- impõem aos governos da região (Boron, 2004: 135-153). De outra parte, a coerção exercida pelo imperialismo transita também por outros campos, que vão das exigências políticas diretas nos programas de ajuda militar, erradicação do cultivo de coca, assistência técnica e cooperação internacional, até o apoio incondicional às atitudes e políticas dos EUA.

OS DESAFIOS DA ESQUERDA: NOS GOVERNOS, NA OPOSIÇÃO

As forças de esquerda, no governo como na oposição, se vêem diante de desafios. A esquerda opositora é desafiada a honrar a proposta gramsciana de construir partidos, movimentos e organizações genuinamente democráticos e participativos, como forma de traçar a natureza do futuro que pretende construir.

Como se isso não fosse uma tarefa enorme, também deve demonstrar sua capacidade de neutralizar a ação dos aparatos ideológicos da burguesia e fazer chegar sua mensagem e seu discurso ao conjunto da população, que não tem os ouvidos preparados para escutar uma mensagem socialista. Ao contrário, os prejuízos criados com habilidade pelos publicitários da direita tornam-na profundamente receosa de qualquer discurso que fale em socialismo ou comunismo.

Para os seus ouvidos isso equivale a violência e morte; e ainda que a esquerda tenha sido vítima de ambas as coisas na história recente na nossa região, é acusada de ser a representante e portadora dessas desgraças.

Existe nesta atitude promovida pelos ideólogos da direita um importante componente de resignação e pessimismo que não pode ser ignorado, e que caracteriza como fútil qualquer tentativa de superar o capitalismo. A ousadia poderia ser seguida por um banho e sangue e ninguém deseja isso. O desafio da credibilidade da esquerda é, portanto, considerável. Ocorreram progressos neste terreno, mas ainda falta muito a ser feito.

Em relação à esquerda que está no governo os desafios são diferentes. Como já dissemos, a vitória de Lula foi um marco na história da emancipação popular. Era fundamental ganhar as eleições brasileiras e chegar ao governo. Mas muito mais importante era construir um poder político suficiente para "governar bem", entendendo-se por isso honrar o mandato popular que exigia acabar com o pesadelo liberal e avançar na construção de uma sociedade diferente. Os resultados até agora tem sido decepcionantes e a demora de Brasília em colocar em andamento um projeto alternativo começa a parecer uma inexplicável capitulação.

Desafios semelhantes são colocados para o presidente Hugo Chávez, na Venezuela, obrigado a transitar por um estreito desfiladeiro. De um lado, há uma profunda revolução nas consciências e no imáginário popular "tema subestimado nas análises tradicionais de esquerda" e, de outro, essa verdadeira espada de Damocles: a riqueza petroleira da Venezuela e, simultaneamente, sua condição de abastecedora estratégica do império.

Depois de uma série de vacilações iniciais, a "revolução bolivariana" está finalmente dando mostras de haver encontrado um rumo de saída do neoliberalismo. Diga-se de passagem, é um rumo cercado de espionagens e ameaças de todo tipo, como demonstra a história venezuelana dos últimos anos.

De qualquer forma, para concluir, convem lembrar aqui o caso cubano. Se, com todos os formidáveis obstáculos que surgiram em quase meio século, Cuba conseguiu avançar significativamente na construção de uma sociedade que garanta o acesso universal a um amplo conjunto de bens e serviços, o que não poderiam fazer paises dotados de muito mais recursos de todo tipo (e livres da doentia obsessão norte-americana pela ilha caribenha), como Argentina, Brasil e Venezuela?

Se apesar de condições tão desfavoráveis, como o bloqueio de 45 anos e a beligerância permanente dos Estados Unidos, esse país conseguiu garantir para sua população padrões de saúde, alimentação, educação e direitos gerais (da mulher, da infância, dos portadores de deficiência, etc) que nem foram alcançados por alguns países do capitalismo desenvolvido, quais seriam os obstáculos incontornáveis a impedir que países em circunstâncias mais promissoras cheguem a conquistas semelhantes?

A resposta não está nos determinismos econômicos, um pretexto de modo geral conveniente, mas sim na vontade política. Sem uma vontade decidida de mudar o mundo, este continuará o mesmo. Mas quem se proponha a esta tarefa deverá saber de duas coisas: primeiro, que ao fazê-lo, se defrontará com a oposição tenaz e absoluta das classes e grupos sociais dominantes que não pouparão recursos, desde a sedução das classes e grupos sociais dominantes até a mais atroz violência, para frustrar qualquer tentativa transformadora. Daí nossa grave preocupação por certas formulações dos zapatistas, como "a democracia de todos", que sugerem um alarmante romantismo quanto à reação das classes e grupos afastados do poder

A segunda coisa a saber é que não há trégua possível nesse combate: se o governante que presumivelmente tenta mudar o mundo é bem tratado pela imprensa livre, os gurús de Wall Street e seus papagaios locais, de modo geral, pela opinião "bem pensante" de nossos países (que na verdade pensa pouco e mal), é porque sua ação tornou-se irrelevante. Ou, numa hipótese perversa, porque passou para o lado dos seus inimigos. As classes dominantes do império e seus aliados jamais se resignarão a perder suas prerrogativas, seus privilégios e seu poder. Se não atacam, não é porque se tenham convencido da superioriedade ética, econômica e política do socialismo, mas porque se deram conta de que seu eventual oponente depôs as armas e ja não lhes faz mal algum.

Outros artigos do autor:

  • O império e a teoria marxista do imperialismo
  • Lula e o espelho argentino

    O original encontra-se em http://www.planetaportoalegre.net/
    Tradução de Wilson Sobrinho


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info .
  • 06/Set/04