Mass media e políticas de massas:
Perspectivas conservadora, liberal e marxista
por James Petras
Debates e estudos sobre os mass media (MM) têm focado a sua parcialidade
política, propriedade e ligações às grandes
empresas, relações e laços com o Estado, abertura e
diversidade relativas, promoção de guerras e interesses
corporativos, entre outros grandes problemas que afectam as
relações de poder, riqueza e imperialismo. De particular
interesse para os autores que se opõem ou apoiam o papel dos MM é
o impacto que estes têm, ao influenciar a visão geral do mundo,
opiniões e comportamentos das pessoas. Ensaios, monografias e estudos
empíricos têm sido publicados quanto à extensão da
influência dos MM, o período de tempo durante o qual mantém
controlo, a profundidade das opiniões inculcadas pelos MM e o 'lugar'
que as mensagens transmitidas pelos MM têm na indução da
opinião pública à conformidade com os interesses da classe
dominante.
Uma compreensão do papel e poder dos MM na actual sociedade capitalista
exige-nos que organizemos um debate compreendendo três grandes escolas
Conservadora, Liberal e Marxista antes de procedermos a uma
análise crítica e finalmente apresentarmos notas destinadas a
criar alternativas às redes de informação e
comunicações controladas pelas elites.
Paradigmas em competição: conservador, liberal e marxista
Há três paradigmas quanto ao papel, poder e relação
dos mass media com a opinião e acção pública: o
conservador, o liberal e o marxista.
O paradigma conservador, ou 'pluralista', largamente propagado pelos cientistas
sociais dos EUA e Europa, enfatiza as múltiplas vozes, as redes em
competição, o mercado de informação e a diversidade
de opiniões. Os conservadores 'pluralistas', afirmam que mesmo se
a posse dos mass media estiver concentrada e a sua mensagem deturpada a favor
do status quo, os mass media são simplesmente uma 'ferramenta',
contrabalançada por outras 'ferramentas', tais como os 'grandes
números' de votantes de baixos salários. Embora concedendo que
haja um acesso desigual aos mass media entre trabalhadores e o capital, regimes
pró-guerra e oposição anti-guerra, afirmam que a
oposição também tem alguns meios de acesso ao mercado,
através de numerosos escritores e agentes de difusão: O controlo
sobre os mass media é 'desigual mas disperso'. Discutem ainda que, com o
crescimento da Internet, há múltiplas fontes de
informação e que o monopólio dos mass media tem sido
seriamente diluído, efectivamente 'democratizando' o 'sistema de
comunicação'. Os ideólogos pluralistas mais astutos citam
estudos empíricos, a demonstrarem que a maior parte das visões
que os indivíduos têm são formadas pelos suas
famílias, amigos e vizinhos relações face-a-face,
muito mais que os 'impessoais' media. Em suma, os conservadores defendem que
não existe uma toda-poderosa elite dos mass media e que a
extensão em que existe é contrabalançada pelos media
alternativos, opiniões locais e pelo sua própria tolerância
a opiniões diversas e concorrentes.
O paradigma liberal dos mass media
O paradigma liberal descreve os MM como o instrumento chave da
dominação pela classe dominante numa democracia liberal.
Começando com o registo histórico da concentração
da propriedade do mass media nas mãos de um pequeno grupo de
corporações interligadas com a área dos negócios e
com o Estado, os MM são vistos como um componente essencial do 'sistema
de controlo' que perpetua a classe dominante e a construção de
impérios pelo seu controlo e doutrinação da opinião
pública. A maioria da população é convertida numa
massa maleável, induzida na conformidade com os interesses e
políticas da classe dominante, assim prevenindo a mudança e
perpetuando o domínio pela elite corporativa. Para os liberais o
controlo de cima para baixo pelos mass media explica o 'paradoxo' de um
império altamente desigual e orientado para a acção
militar, no contexto de um sistema político livre e democrático.
O principal papel dos académicos é convencer outros
académicos a desmascarar os media, a expor as suas
fabricações, mentiras e hipocrisias, enfatizando as
'contradições' entre os 'nossos' valores democráticos e as
mentiras dos poderosos. A versão mais radical da visão 'liberal'
dos mass media atribui o alto grau de consenso entre as elites e as massas nos
Estados Unidos à omnipresença e omnisciência dos mass media.
Crítica marxista
A abordagem marxista aos mass media começa necessariamente com a
crítica às perspectivas conservadora e liberal. Contra a
crítica conservadores, aponta que 'poder' não é um recurso
imaterial desencarnado, mas uma relação em que os
proprietários da riqueza e poder podem multiplicar e acumular bens
políticos e económicos. A presunção que 'toda a
gente' ou todos os grupos podem ter alguma influência esquece-se do facto
de que os proprietários dos meios de comunicação
estão ligados a outros poderosos grupos económicos, que têm
poder sobre bancos, investimentos, trust funds, e estes, por sua vez,
influenciam líderes políticos e partidos, controlando
legislação, selecção de candidatos, gastos
governamentais e agendas dos governos: tudo isto mina as
fundações e validade do paradigma pluralista. Em todos os grandes
eventos da nossa época, os mass media ecoaram fielmente as linhas
políticas do Estado capitalista, justificando a invasão do
Iraque, demonizando o Irão e ecoando a linha que o Estado assume em
relação ao programa nuclear do Irão, aos bloqueios na
Palestina, à invasão do Líbano e ao salvamento da Wall
Street. Em todos os grandes eventos, os mass media unificaram-se, desempenhando
um papel de liderança na propagação da mensagem da classe
dominante entre as massas, com variáveis graus de sucesso.
O paradigma liberal do 'determinismo dos mass media' parece ser mais
credível, uma vez que o seu diagnóstico da estrutura de poder e
posse dos MM corresponde à realidade, assim como corresponde o seu papel
de propagandista das mentiras do Estado acerca de guerras e economia. No
entanto, quando abordamos a imagem liberal dos MM controlando a opinião
pública e as atitudes das massas, as asserções dos
todo-poderosos, todo-controladores mass media tendo grande sucesso em manipular
o público, as assunções já são
questionáveis.
Historicamente, o monopólio oligárquico de controlo dos mass
media tem sido mal sucedido quanto ao moldar de atitudes e de
acções das massas em grande número de importantes
contextos políticos. Isto é verdade inclusivamente para os
Estados Unidos. Por exemplo, apesar do apoio unânime dos MM à
privatização do Programa Federal de Segurança Social, ao
gigantesco salvamento público da Wall Street, à
continuação da ocupação militar do Iraque, à
escalada militar no Afeganistão e ao actual sistema de saúde
lucrativo privado, a grande maioria do público dos EUA opõe-se
fortemente à linha seguida pelos MM. Apesar dos líderes e
maiorias dos dois partidos políticos governantes não reflectirem
a opinião pública, uma maioria dos americanos tem
consistentemente apoiado um sistema de saúde nacional de âmbito
universal, a retirada das tropas americanas e tem-se veementemente oposto ao
apoio do Congresso à Wall Street e à indústria da grande
finança. Uma análise revela que os MM são influentes a
moldar a opinião pública à classe dominante e
políticas do Estado no que se refere a política externa, em
particular as políticas de guerra, no início do conflito, com a
agressão ou postura militarista a ocupar uma posição
dominante antes dos custos económicos e humanos serem trazidos para o
interior do país, para os cidadãos norte-americanos no seu
dia-a-dia. Os MM são relativamente ineficazes no que se trata de medidas
de política interna, que afectam adversamente a vida
sócio-económica diária da massa do povo americano. Os MM
operam com mais sucesso quando dominam o fluir e o acesso à
informação, como no que se refere à política
externa, onde podem fabricar, distorcer e carregar emocionalmente o que
é visto e ouvido pelo público. Em contraste a propaganda de
classe dos MM é severamente enfraquecida pelas evidências da
experiência empírica, quando os americanos sentem na pele os
problemas da sua saúde, pensões, salários e emprego. Os
marxistas defenderiam que condições económicas
específicas criam consciência de classe, o que
contrabalança o poder dos MM.
A fraqueza do ponto de vista liberal acerca do domínio dos mass media
encontra-se na falha em levar em conta o impacto dos contextos de classe, as
restrições nas crises económicas, os custos de guerra, o
impacto da mobilidade social descendente e a importância de uma
segurança social básica na sua avaliação das
operações dos MM. A maior parte da teoria liberal dos mass media
baseia-se numa visão selectiva de contextos, temas e locais que apoiem
essa teoria. Por exemplo, os mass media e a conformidade das massas 'encaixam'
num período de economia em expansão, mobilidade social
ascendente, paz relativa ou intervenções militares menos
dispendiosas, em particular no que se refere a temas de política
externa. O apoio de longo prazo dos MM ao capitalismo ou ao 'mercado livre'
domina as opiniões das massas até ao colapso do capitalismo: Com
as crises e o desmoronamento do sistema financeiro e especialmente com a perda
de pensões por milhões de pessoas, até alguns
propagandistas nos MM aperceberam-se que a sua posição era
indefensável. A visão liberal da omnipotência e
dominância dos MM sob a opinião pública é
profundamente imperfeita e esquece-se de levar em conta as mudanças
politico-económicas que resultam do forte desvio que a opinião
pública tem tomado em relação à propaganda dos MM.
A perspectiva marxista dos mass media
A perspectiva marxista relativiza a influência dos MM fazendo com que o
seu poder sobre as massas em função do grau em que os
trabalhadores e seus aliados de classe dependam exclusivamente dos MM para
obterem informação e para definirem os seus interesses
políticos e acção social. Os marxistas argumentam que os
MM exercem máxima influência onde há pouca ou nenhuma
organização de classes ou luta de classe (como nos EUA). Em
contraste, onde há ou houve organização de classe, como na
Venezuela ou na Bolívia, no Chile dos anos 70 ou na América
Central dos anos 80, os mass media têm um impacto bastante mais fraco na
opinião pública. Os marxistas argumentam que onde há uma
história e cultura da classe trabalhadora, camponesa, índia ou
outros movimentos baseados em classe e solidariedade de classe, a propaganda da
classe dominante ou do Estado, promovida pelos MM, tem apenas um efeito muito
fraco. Nessas situações, as massas têm uma estrutura
preexistente, redes de comunicações e líderes de
opinião locais, os quais filtram mensagens/propaganda que violem a
solidariedade social/de classe/étnica/nacional.
Por exemplo, no Chile, durante a presidência de Salvador Allende
(1970-73), a vasta maioria da imprensa opunha-se violentamente ao Presidente
Democrata Socialista no entanto Allende venceu a eleição,
a esquerda aumentou a sua votação nas subsequentes
eleições municipais e parlamentares, baseando-se no apoio
esmagador dos trabalhadores, camponeses pobres, índios e desempregados
residentes em bairros de lata.
Mais recentemente na Venezuela, a vasta maioria dos MM tem-se oposto ao
Presidente Chávez (1998-2008) em todas as eleições
parlamentares e municipais, mas no entanto ele venceu massivamente
eleições. Em ambos os casos, programas
sócio-económicos (grandes aumentos em programas de saúde e
educação, distribuição de terras, mobilidade
ascendente, programas de salários progressivos,
nacionalização de recursos básicos), forte apoio baseado
em classe e mobilizações em massa, criando consciência de
classe, minaram a eficiência dos mass media.
Por toda a América Latina durante a primeira década do novo
milénio, poderosos movimentos populares cresceram em número de
membros e em organização, apesar da intensa
demonização pelos MM. No Brasil os Trabalhadores Rurais Sem Terra
expandiram-se e apoiaram as ocupações de terras apesar da
criminalização da sua actividade pelos MM. O mesmo é
verdade para os movimentos de mineiros, trabalhadores, camponeses e
índios na Bolívia que levaram à queda dos
presidentes neoliberais apoiados pelos MM. Movimentos de massas similares
derrubaram presidentes apoiados pelos MM na Argentina (2001) e Equador (2000 e
2005).
Esses casos ilustram condições contingentes e circunstanciais que
influenciam o domínio dos MM sobre a opinião pública.
Existem várias condições comuns em todos esses casos:
1. Elos históricos, culturais, comunitários ou familiares podem
criar um 'bloco' ou um 'filtro' à propaganda dos MM, especialmente em
temas socio-económicos que afectem o emprego, a vizinhança ou o
nível de vida.
2. A luta de classes cria laços de classe horizontais, especialmente em
resposta à repressão pelo Estado ou classe dominante, da qual
resulta o declínio dos níveis de vida, concentração
de riqueza, desalojamentos em massa e migrações forçadas.
A luta de classes cria respostas positivas a mensagens que reforçam a
luta e rejeitam as mensagens dos media publicamente identificados como tomando
o partido da classe dominante.
3. As organizações de classe fornecem uma base alternativa para
entender os eventos e para definir os interesses de massas em termos de classe,
que possam ressoar com a sua experiência quotidiana e fornecer
informação e interpretação que contrariem aquelas
dos MM. Quanto mais alto o grau de organização de classe, maior a
solidariedade e luta de classe e menor o impacto dos MM na opinião
pública. O contrário é também verdade. Nos Estados
Unidos, onde os sindicatos são geridos por funcionários que
ganham 300 mil dólares ou mais por ano, que enfatizam a
colaboração com os patrões (ou que rejeitam publicamente
políticas de luta de classe) e que não conseguem organizar 93% da
força de trabalho privada, os MM têm menos dificuldades em
influenciar a opinião pública.
4. Quanto mais fortes forem as redes alternativas de formação de
opinião, mais fraca a influência dos MM. Onde os movimentos
sociais desenvolvam organizações locais, líderes de
opinião e activistas comunitários, mais dificilmente as massas
extrairão as suas informações acerca de eventos dos
formais e distantes MM. Em muitos casos, as massas acedem selectivamente aos MM
para entretenimento (desporto, novelas, comédias), rejeitando as suas
notícias e editoriais. Famílias multi-geracionais que vivam em
proximidade, localizadas em vizinhanças homogéneas e
ocupacionais, com forte história de construção baseada na
classe geram solidariedade de classe e mensagens sociais que entram em conflito
com as mensagens da classe dominante que promovem 'iniciativa privada' e
'micro-capitalismo de sucesso' ou a criminalização de
acções colectivas de classe. Tanto a visão liberal como a
conservadora dos MM esquecem-se do contexto de classe na receptividade e poder
dos media; os pluralistas subvalorizam propositadamente a sua capacidade de
dominar
em tempos de fraca organização de classe; os liberais
sobreavaliam o poder dos MM, ignorando o poder oposto de
organizações de classe, lutas de classe, cultura,
história, tradições familiares e solidariedade que ligam
indivíduos à sua classe e minam a receptividade às
mensagens da classe dominante presentes nos MM.
11/Novembro/2008
O original encontra-se em
http://petras.lahaine.org/articulo.php?p=1761&more=1&c=1
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Tradução de João Camargo.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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